Jeú é ungido rei e mata geral

(II Reis 9)

Jeú era um idiota.

Amarelo e voluntarioso, atarracado e boquirroto, caspento e santarrão, tinha suas convicções gravadas em pedra, e ai de quem discordasse. Para ele, só pudim de leite era sobremesa, só Amélia era mulher de verdade e só Javé era deus. Pavê, Jezabel e Baal não eram meras divergências de opinião ou gosto: eram aberrações inadmissíveis e que deveriam ser punidas com a morte. Como nem mesmo a lei mosaica chegava ao absurdo de condenar ao apedrejamento quem comesse uma ambrosia, Jeú concentrava seus esforços em buscar maneiras de perseguir os adoradores de outros deuses.

Jeú, o idiota, era tudo o que Javé esperava do próximo rei de Israel.

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Com a sunamita de volta e toda propensa a discutir a relação, Eliseu achava mais prudente permanecer amocambado. Para passar o tempo, relembrava Elias, seu professor, e organizava os objetos pessoais deixados pelo velho profeta depois de abduzido por um redemoinho. Sentado no chão com as pernas dobradas, Eliseu lia mais uma vez a lista de coisas a fazer de seu mestre:

  • lavar a túnica
  • comprar leite
  • comprar azeite (o mais baratinho)
  • ungir Eliseu
  • ungir Hazael
  • ungir Jeú

— Puta que pariu!

Com sua partida repentina, Elias deixara algumas coisas por fazer. Além do mais, Hazael estava destinado a criar problemas para os israelitas, e Jeú, como todos sabiam, era um idiota. Talvez Elias tivesse esquecido de propósito de ungir os dois. Eliseu, porém, não tinha a mesma moral com Deus, então precisava cumprir suas ordens. Ungir Hazael nem fora tão difícil, mas ir anunciar àquele pedaço de asno que ele seria o futuro rei de Israel, ah, já era demais.

Sem vontade de ser cúmplice daquela palhaçada, mas também sem ter como evitar cumprir a ordem divina, Eliseu escolheu uma saída que o poupava da melhor forma possível: mandar um estagiário de profeta. Assim evitava o risco de ser interpelado pela mulher e não precisava perder seu tempo besuntando um imbecil.

— Moleque, vem cá!

— Sim, seu Eliseu.

— Conhece Jeú?

— Jeú…?

— Filho de Josafá, neto de Ninsi.

— Ah, sim. O babaca.

— Shhhhhhh… Não fala assim do nosso futuro rei.

— COMO É?

— Fala baixo, porra! Tenho uma missão para você. Você vai até Ramote-Gileade, vai procurar Jeú e levá-lo discretamente para um canto. Aí você vai derramar esse azeite aqui na cabeça dele e falar aquela papagaiada de sempre. Você já teve aula de unção?

— Tive, mas não fiz prova ainda.

— Fica valendo sua nota. Vai lá, fala pra ele que Javé o está ungindo como Rei de Israel, repete a maldição contra os descendentes de Acabe, seja bem específico naquela parte sobre o corpo de Jezabel ser comido pelos cachorros. Feito isso, saia correndo de lá, antes que algum alcagüete do rei o dedure. Entendeu?

— Mais ou menos. Vou precisar estudar mais esse lance da maldição dos cachorros e não sei o que mais.

— Tô fodido…

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O moleque até que cumpriu direitinho sua tarefa: foi a Ramote-Gileade, encontrou Jeú em casa reunido com os amigos, separou-o habilmente dos outros, fez seu discurso e saiu correndo. Jeú voltou à sala onde os amigos continuavam a conversa.

— Jeú! O que o estagiário dos profetas queria com você?

— Vocês sabem muito bem!

— …

— RAÇA DE INFIÉIS! O RAPAZ VEIO ANUNCIAR, EM NOME DE JAVÉ, QUE EU SEREI O NOVO REI DE ISRAEL E QUE VARREREI DO MAPA A ESCÓRIA IDÓLATRA QUE EMPESTEIA O AR DE SAMARIA, MOSTRANDO QUE SÓ JAVÉ É O SENHOR DOS EXÉRCITOS, SOBERANO E MARAVILHOSO, AMÉM?

— Ah, isso. Legal.

— VIVA O REI!

— Viva!!!

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— E aí, homem?

— Mesma coisa, majestade. Juntou-se a eles.

— Merda.

Já era o terceiro emissário que o rei Jorão enviava ao encontro dos misteriosos visitantes, e pela terceira vez suas ordens eram desobedecidas e o mensageiro unia-se à horda. O rei estava de cama, ainda recuperando-se dos ferimentos sofridos na batalha contra os Sírios, e recebia a visita de Acazias, rei de Judá. O guarda que estava na torre via o grupo se aproximando, agora já engordado pelos três empregados do palácio.

— O que você me diz, guarda?

— Sei não, majestade. Mas pelo jeito que o chefe deles dirige, eu acho que é Jeú.

— Jeú, o idiota?

— Esse.

— Ai meu cu…

— Pomadinha?

— CALE-SE! Acazias, o que vamos fazer com esse débil mental?

— O rei aqui é você, estou só de visita.

— Ah, é. GUARDA! Mande aprontarem meu carro. Eu mesmo vou até lá ver o que está se passando.

Saíram, então, os dois reis ao campo, cada um em seu conversível. Ao chegar mais perto, Jorão confirmou as suspeitas do guarda: era mesmo o chato do Jeú. Não era à toa que os mensageiros haviam se unido a ele: seu discurso inflamado e impregnado com a chama do fundamentalismo religioso era uma apelo muito forte para o povão.

— Jeú, você vem como amigo?

— AMIGO? COMO PODEMOS SER AMIGOS SE A IDOLATRIA CORRE SOLTA EM ISRAEL? O SENHOR NÃO SE DEIXA ESCARNECER, REI JORÃO! A IRA DE JAVÉ VISITA A INIQÜIDADE DOS HOMENS ATÉ A QUINTA GERAÇÃO! NOSSO DEUS É FOGO CONSUMIDOR!

— Hum. Não vem como amigo, então?

— NÃO!

— Corre, Acazias! Esse puto está aprontando pra gente!

Os dois reis deram meia-volta e saíram a toda. Mas Jeú tinha uma excelente pontaria, e acertou uma flechada nas costas de Jorão. A flecha varou-lhe o coração e o rei caiu morto ali mesmo, dentro do carro. Então Jeú disse a Bidcar (que era seu ajudante, mas também é um nome porreta para um site de leilão de automóveis):

— Jogue o corpo desse pecador no campo que pertenceu a Nabote.

Acazias ainda conseguiu despistar os soldados de Jeú por um tempo, mas acabou ferido na estrada. Conseguiu chegar até a cidade de Megido, onde morreu.

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A morte dos dois reis era a parte principal do plano de Jeú, mas não a que mais lhe causava ansiedade. Seu real objetivo desde o começo era Jezabel, a viúva de Acabe e mãe de Jorão. Ela estava em sua casa em Jezreel, chorando a morte do filho, quando soube que o traidor se dirigia à cidade. Então lavou o rosto, maquiou-se e saiu à janela. Sua intenção era não demonstrar fraqueza diante do inimigo, mas é claro que ela entrou para a história como uma biscate que, num último lance desesperado, tenta seduzir um justo. Ao ver Jeú se aproximando, não esperou que ele a encontrasse. Em vez disso, tratou de saudá-lo com sarcasmo:

— Olá, Zinri!

Era uma ofensa muito séria em Israel. Anos antes, Zinri assassinara o rei Elá para assumir o trono. Reinou por apenas sete dias e acabou morto por Onri, que viria a ser pai do rei Acabe. Chamar alguém de Zinri era fazer pouco de suas ambições e desprezar publicamente seu gesto de traição. Mas Jeú estava totalmente imbuído de sua missão purificadora. Isso e o fato incontestável de ser um idiota o tornava imune à ironia. Ele apenas gritou para dentro do palácio:

— SE ALGUÉM ESTIVER AO MEU LADO, QUE JOGUE ESSA MULHER DAÍ!

E, como a estupidez humana é a única força com que se pode contar sempre, três oficiais do palácio obedeceram a ordem e defenestraram a mulher indefesa. O impacto da queda foi tão forte que o sangue de Jezabel respingou nos cavalos. Jeú passou por cima do cadáver e ordenou que a enterrassem, apenas por deferência devida à filha de um rei. Mas os homens que receberam a ordem ficaram enrolando um pouco por ali e, quando saíram, encontraram pouco mais do que os ossos da defunta. Como prometido por Javé, seu corpo havia sido devorado pelos cães.

Ao receber a notícia, Jeú sorriu, satisfeito. Gostava do rumo que as coisas estavam tomando. E era só o começo.

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16 comentários

  1. Como era a história? Quem escapar de Hazael, Jeú mataria e quem escapasse de Jeu, Eliseu mataria? Ou Hazael quem matava primeiro, Eliseu segundo e Jeú terceiro?

    Bem, eu acho que com Hazael e Jeú, o Eliseu acabará tendo pouco trabalho nessa de sair por aí matando gente.

  2. Então se apressaram, tomando cada um a sua roupa puseram debaixo dele, no mais alto degrau; e tocaram a buzina e disseram: Jeú reina! 9:13

    E o cavaleiro lhe foi ao encontro, e disse: Assim diz o rei: Há paz? E disse Jeú: Que tens tu que fazer com a paz? Passa-te para trás de mim. E o atalaia o fez saber, dizendo: Chegou a eles o mensageiro, porém não volta. 9:18
    Então enviou outro cavaleiro; e, chegando este a eles, disse: Assim diz o rei: Há paz? E disse Jeú: Que tens tu que fazer com a paz? Passa-te para trás de mim. 9:19

    Estas partes tinham como ficar mais engraçadas….

    Mas adorei capitulo novo!!!!!

  3. Homem Marco Auréio, no trecho “Então Jorão disse a Bidcar” o correto é “Então Jéu disse a Bidcar”, senão na mesma sentença Jorão (morto) daria ordens ao ajudante de seu inimigo.

  4. Que bom regressar de férias e encontrar um capítulo novo, a data do casório e mais uma para assentar no caderno “o fato incontestável de ser um idiota o tornava imune à ironia”.
    Felicidades para ti e para a Ana.

  5. Infelizmente, não posso elogiar sua maneira de trabalho.
    Dizer tais palavras numa mensagem bíblica, só para deixá-la mais JOVEM ou mais ENGRAÇADA é uma afronta diante de Deus.
    Não se deve chamar nenhum personagem de idiota; quem é você comparado a eles?
    Sugiro que você use palavras cultas e humanas para levar a mensagem e agradar a Deus. Olhe para o texto de um outro ponto de vista e verá que a Bíblia não se contradiz.

  6. Em primeiro lugar quero pedir desculpas pela minha linguagem forte no último comentário. Sei que a intenção do autor é ensinar a bíblia de uma maneira mais jovem. Mas mesmo assim a reverência deve ser mantida.
    Perdão pela minha insensatez ao escrever tal comentário.
    Que Deus o abençoe q e que você possa continuar seu trabalho com respeito e honrando a Palavra de Deus, não usando palavras fortes nem mundanas.
    Abraço

Diga aí!