A aposentadoria de Elias e o início da carreira de Eliseu

(II Reis 2)

De todos os homens escolhidos por Javé para transmitir sua mensagem, nenhum sofreu tanto quanto Elias. Isolado no papel de representante da tradicional religião israelita, execrado pelas autoridades de seu país, vivendo seminu no deserto, o mal humorado profeta tinha sua fé provada a cada dia. Era tão difícil sua vida, na verdade, que Javé resolveu lhe conceder um plano de aposentadoria inédito. Antes, porém, Elias precisava enfrentar um outro problema: Eliseu.
Não que Eliseu fosse ruim. Escolhido por Deus como sucessor de Elias, o rapaz até que era bem intencionado, atencioso, esforçado, enfim, todos esses adjetivos que formam um chato perfeito. Interessado em aprender, vivia fazendo perguntas. “Seu Elias, é verdade que o senhor ressuscitou um menino?”, “Seu Elias, é verdade que os corvos te deram comida?”, “Seu Elias, o senhor não poderia pelo menos arranjar uma cueca?”. A todas essas, Elias só respondia com um “Humpf” ou um “Vai dar, moleque”. Nem assim Eliseu diminuía sua veneração pelo chefe. Talvez fosse pelas grandes diferenças entre os dois: ranzinza e seguro de si, o velho profeta tinha sempre uma gota de ácido na ponta da língua, que não perdoava ninguém. Eliseu, por outro lado, era retraído e inseguro, titubeava ao falar e vivia gaguejando desculpas. Às vezes, quando provocado até seu limite, se encolhia, cerrava os punhos. Em casos extremos, e principalmente quando mencionavam sua calvície precoce, murmurava um “Deus te foda”. A isso se limitavam suas reações.
Agora Elias precisava de sossego para sair de cena, mas Eliseu teimava em ficar ao seu lado. No caminho para Gilgal, o profeta exasperou-se com a presença de seu auxiliar.
— Vai dar, moleque.
— Não adianta, seu Elias. Eu prometi ficar ao seu lado, e vou ficar ao seu lado até o fim.
— Fica aqui, diabo! Javé me mandou ir até Betel. Ele disse assim: “Elias, vá até Betel”. Você ouviu ele dizer “Eliseu, vá até Betel”?
— Não senhor.
— Então.
— Mas subentende-se.
— Cê vai deixar desse negócio de subentender as coisas quando eu te der uma muquetada na orelha, moleque! Me larga!
— De jeito nenhum!
Elias fechou a cara e continuou a caminhar; e sempre com Eliseu em seu encalço. Quando chegaram a Betel, uns profetas que ali moravam chamaram o ajudante para uma conversa particular.
— Ô, carequinha.
— Deus te foda.
— Que foi?
— Nada.
— Olha aqui. Você sabe que Javé vai levar seu chefe hoje, não sabe?
— Sei sim.
— Então por que você não deixa de ser chato e larga o cara?
— Me deixem!
— Que que você está arrumando confusão aí, Eliseu.
— Nada não, Seu Elias. É que eles disseram que Javé vai…
— Bom, foda-se. Deus me enviou a Jericó. Me espera aqui que eu já volto.
— Ah, de jeito nenhum! Aonde o senhor for eu vou.
— Porra, moleque, tu é minha nega agora?
— …
— Tá, tá. Vamos logo.
Quando os dois chegaram a Jericó, a mesma cena se repetiu: outro grupo de profetas lembrou a Eliseu do que estava para acontecer a seu mestre, Elias disse que teria que ir a outro lugar (agora o rio Jordão), Eliseu insistiu em acompanhá-lo. Saindo da cidade, os dois foram seguidos por cinqüenta profetas. Quando chegaram à beira do rio, os profetas ficaram olhando de longe. Como se não fosse nada, Elias enrolou sua capa e bateu com ela nas águas do Jordão, que se abriu para sua passagem. Do outro lado, Elias olhou para trás e viu satisfeito que estava sozinho. Deu meia-volta para prosseguir seu caminho e deu de cara com Eliseu.
— DE ONDE VOCÊ SAIU, MOLEQUE?
— Estou sendo discreto, Seu Elias, como o senhor me ensinou.
— …
— E agora, o que fazemos?
— Você, eu não sei. Eu preciso resolver minha vida. MINHA vida, está entendendo? Que diabo você quer para me deixar em paz?
— Eu quero o dobro do seu poder.
— Er… Como é?
— O dobro do seu poder. Como herança.
— Endoidou, moleque? Como é que eu vou te dar isso?
— O senhor não precisa me dar nada. É uma herança a que eu tenho direito por lei.
— Lei de onde, moleque do inferno? Da Apae?
— Pela Lei de Moisés, Seu Elias. A Lei não diz que o filho mais velho tem direito ao dobro da herança?
— Sim, mas eu não tenho filho.
— Exato. Não tem filho e também não tem merda nenhuma para deixar de herança. Mas veja, eu estou acompanhando o senhor há tanto tempo que já posso ser considerado herdeiro legítimo. E como só o que o senhor tem é esse poder de ressuscitar mortos, dividir as águas, usar corvo de garçom e coisa e tal, é essa minha herança.
— Sua herança?
— Sim. Em dobro.
— Hum. Você até que não é tão idiota quanto parece, sabia?
— Obrigado, Seu Elias.
— Mas não posso garantir nada. Isso é lá com Javé, entenda. Mas vamos fazer assim: se você me vir indo embora, receberá o que pede. Se não vir, fica sem nada.
— Tudo bem. Aliás, para onde o senhor vai?
— Você já vai ver.
— É longe?
— Shhhh…
— É que eu queria sab…
[PARÃM-PÃMPAMPAM-PÃAAAAAAAAAAM]
— Que música é essa?
[PARÃM-PÃMPAM-PÃM]
— Seu Elias?
[PARÃM-PÃMPAMPAM-PÃAAAAAAAAAAM]
— Está ouvindo?
[PARÃM-PÃMPAM-PÃMMMMMMMM]
Eliseu só lembrou o nome da melodia quando viu a carruagem de fogo passar entre ele e seu mestre, rápida como um raio. Era uma visão e tanto, com seus cavalos flamejantes e suas rodas de ferro incandescente. Enquanto Eliseu e os profetas do outro lado do rio se deslumbravam com a carruagem, Elias, como se fosse um saci, foi levado ao céu num redemoinho. Séculos depois do Êxodo, Javé voltava a investir pesado em efeitos especiais.
— Papai! — gritou Eliseu. Lá de cima, Elias ouviu e entendeu de uma vez só o sentimento que movia o garoto. Não podia mais voltar atrás, porém: acabava de se aposentar am alto estilo, levado aos céus, um feito que só Enoque conseguira antes dele.
Entristecido com a partida de seu mestre, Eliseu rasgou suas roupas em sinal de tristeza. Depois pegou a capa que Elias deixara cair e voltou para a margem do Jordão.
— Onde está Javé agora? — gritou ele, e bateu com a capa na água do rio, que se abriu imediatamente.
O novo profeta atravessou o rio a seco, e foi recebido do outro lado por cinqüenta colegas prostrados a seus pés. Os profetas se ofereceram para procurar por Elias, pois acreditavam que Javé apenas o transportara dali para outro lugar. Eliseu hesitou mas, mesmo sabendo da verdade, acabou por autorizá-los. Depois de três dias, desistiram das buscas.

Arrebatado por Javé, Elias entrou para o imaginário judaico com a mesma força de Moisés. Séculos mais tarde, alguns comparariam João Batista (que também pregava no deserto e enfrentava as autoridades) a ele, e o próprio Jesus faria menção à semelhança. Numa das passagens mais intrigantes do Novo Testamento, os discípulos vêem Jesus Cristo conversando com Elias e Moisés.

Depois de repartir as águas do Jordão, Eliseu parecia outra pessoa. Quando os habitantes de Jericó vieram lhe dizer que a água que servia a cidade era salobra e chegava até a provocar abortos, o profeta não hesitou. Mandou que lhe entregassem um punhado de sal dentro de uma tigela, sal que jogou no manancial, dizendo:
— Javé diz que purificou essa água, e que ela não causará mais problemas.
No mesmo instante os que o acompanhavam provaram a água, e estava pura e cristalina.

No caminho de volta para Betel, porém, Eliseu vacilou por um instante. Enquanto se aproximava da cidade, um grupo grande de garotos lá em cima gritava:
— Some daqui, careca! Sai, aeroporto de mosquito! Fora, Kojak! Sua testa vai até o calcanhar!
Eliseu parou, olhou firme para eles, mas na hora as palavras lhe fugiram. Então abaixou a cabeça, cerrou os punhos e murmurou:
— Deus te foda.
No mesmo momento duas ursas saíram do mato e despedaçaram quarenta e dois dos zombadores.
Eliseu nem ficou muito tempo em Betel: tratou de ir até o monte Carmelo e de lá voltar a Samaria. Dali por diante precisaria ter mais cuidado com tudo o que dissesse.

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23 comentários

  1. Ah, finalmente!
    A minha passagem preferida da biblia, sobre o homem de deus que manda despedaçar 42 crianças por chamá-lo de careca.
    Ainda bem que você não tem esse dom, Marco.
    Não tem mesmo, né? Hein, hein?
    Bom, vou manter distante do zoológico, só para garantir.
    🙂

  2. Finalmente uma coisa decente para se ler na hora do almoço! Eu já estava de saco cheio de ler Exame, Veja e Superinteressante, essas coisas menos inteligentes…

    Abraços!

  3. Bem, já que o Batata já falou, só me resta ratificar: Deus te foda, Marco Aurélio!!!

    Teste que vai até o calcanhar eu nunca tinha ouvido antes. Quase não consegui terminar de ler o texto, por conta do excesso de risos.

    Agora a pergunta que não quer calar: já te chamaram assim?

  4. Opa!!! Crasso erro no segundo parágrafo. Onde se lê “Teste” leia-se “Testa”. Criticando o erro dos outros e errando também. É foda, viu…

  5. Sabe cumué, né marcorélio, pra ser profeta de Javé o sujeito tem que ser que nem o Eliseu. Precisa de uma cabeça brilhante.

  6. Sabe, Marcurelio, já estou vendo vc no programa do Jô, e o Jô fazendo a chamada: “estamos recebendo aqui o marcurelio blablabla.. que esta lançando o livro “A Biblia sacaneada” ai a camera faz um close em vc e vc mostra esse sorriso amarelo e a plateia grita Ehhhhhhhhhhhh!!!
    Vai ficar rico!!! ou vai ser espancado pelos Neos.. hehe.
    Parabens.

  7. “deus te foda”, hahaha!
    e ei, aquilo de “fariseus do mês” importa dados dos meus comentários importados do seu movable type, né? haha, tá com a URL antiga do crediário.

  8. Marco, as duas passagens, a do Enoque e do Elias(se não me engano) são citadas no livro “Eram os deuses astronautas ?”,que você deve conhecer,naturalmente.

  9. Como sempre, maravilhoso.
    Cara, vendo isso acontecer, me lembrei de uma época foda da minha vida: a de quando conheci o JMC.
    Me trouxe muitas lembranças.
    A propósito, obrigado por comentar lá no blog, cara.
    Além de sua opinião ser importante – pra mim, pelo menos – fiquei feliz que tenha gostado. Está rústico ainda, mas com o tempo a gente ajeita.
    Abraço.

  10. “(…) acabava de se aposentar am alto estilo, levado aos céus, um feito que só Enoque conseguira antes dele.”

    Isso está escrito lá em cima. Note o mínimo erro na digitação em destaque. Nada que preocupe ou atrapalhe a leitura, mas que não matará ninguém se for consertado.

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