E lá fui eu — de novo, meu Jesus — fazer o exame prático do Detran. Foi a quarta vez (contem comigo: uno, dos, tres). Como das outras vezes, essa foi cheia de situações inusitadas.

Para começar, o aviso da marcação da prova. Como vocês sabem, passei quatro dias na empolgante cidade de Águas de Lindóia cobrindo o excitante CSO Meeting. Voltei no domingo à noite e fui ouvir as mensagens da secretária eletrônica. Entre elas, uma da autoescola. A pessoa confirmava a data da prova, lembrava que eu devia levar o RG original. No final, um toque singelo:

— Se tiver qualquer dúvida, ligue para a autoescola. Boa noite, boa sorte, e que Deus o ilumine.

A pessoa certamente sabia do que estava falando: um sujeito que consegue levar bomba três vezes no teste do Detran precisa de toda ajuda sobrenatural que conseguir. Devidamente iluminado pela lanterna de Javé, tratei de me preparar para o exame.

A preparação não envolvia muita coisa. Como não fiz aulas adicionais, treinei um bocadinho em todos os carros da família (do pai, do irmão, do cunhado marido da irmã, do cunhado irmão da namorada, do sogrão) e tomei uma decisão estratégica: não contar a ninguém sobre a prova (muito menos a vocês; a torcida de vocês não vale nada). Contei à namorada, e só.

Acordei às seis e meia da manhã hoje, fui para a autoescola sem dizer a ninguém aonde ia e dirigimo-nos todos ao estacionamento do shopping Aricanduva.

O terror foi o mesmo de sempre: dezenas de alunos nervosos, fila para assinar a papelada, examinadores carrascos. Esperei pacientemente a minha vez, entrei no carro.

— Bom dia — disse eu ao examinador.

— Grunfdia.

Atomanocu feladaputa — pensei eu. As frases em itálico são pensamentos. Se eu falasse tudo o que penso, seria processado o tempo todo.

Ajustei banco, botei o cinto, dei a partida, baixei o freio de mão (isso eu não esqueço nunca mais), engatei a primeira, dei seta e fui.

— Faço a primeira baliza?

— Não. Gagagarro — resmungou o examinador.

— Faço qual?

— Passa o carro — tinha um carro no meio do caminho.

— Ah, é pra passar esse carro?

— Não foi o que eu disse, pra você passar o carro?

Sua mãe é uma coruja.

Sujeito mal educado dos infernos!

Bom, passei o tal carro e me preparei para fazer a baliza. Parei o carro, engatei a ré, e adivinhem? Pois é, o desgraçado do Corsa foi pra frente. Freio, embreagem, engata ré de novo. O bicho foi para trás e passou do ponto. Engatei a primeira para ajustar.

— Errou uma, tem mais duas chances.

Sua mãe passa atum na xana e dá pro gato lamber.

Engatei a ré novamente e comecei aquela giração de volante pra encaixar o carro na vaga.

TÁ ERRADO! TÁ TUDO ERRADO! ESTA MERDA VAI SUBIR NA CALÇADA, DERRUBAR O CONE, O MOTOR VAI EXPLODIR E VAI MORRER TUDO MUNDO. Ó LÁ, O FELADAPUTA TÁ ABRINDO A PORTA PRA DIZER QUE EU SUBI NA CALÇADA E DEVIA MAIS ERA DAR UM TIRO NA CABEÇA.

— Tá bom. Pode sair.

Eita porra.

Saí, virei à direita para sair do estacionamento, parei na parada obrigatória (outra coisa que eu não esqueço mais).

— Não pode dirigir com o pé na embreagem.

Olhei para o meu pé esquerdo (não o filme, o meu pé esquerdo mesmo) e o danado estava lá, apoiadão no pedal da embreagem.

Corno manso dos infernos, se você marcar ponto por essa bobagem, eu te enfio esse pedal cu adentro.

O sujeito deve ter visto pelo meu olhar o que eu estava pensando, porque não marcou nada. Quando comecei a subir, ele se limitou a avisar:

— Estaciona ali para fazer a ladeira.

Ó LÁ. TÔ PARANDO, ESTA MERDA VAI MORRER, VOU PARAR LONGE DA GUIA E O CORNO VAI FALAR PRA EU SAIR CORRENDO E NÃO OLHAR PRA TRÁS.

— Pode ir.

Fiz a presepada toda de embreagem-acelerador-freio de mão, e o bicho milagrosamente saiu do lugar.

Logo depois da ladeira havia a maldita via preferencial responsável pela minha última reprovação. Dessa vez entrei com todo o cuidado, não veio carro nenhum. Contornei a rotatória e voltei para dentro do estacionamento.

Mais à frente, o lugar onde eu não dei seta da outra vez. Dessa vez, sinalizei uns cem metros antes. Parei onde tinha que parar, entrei à esquerda, outra rotatória, outra conversão à esquerda.

— Paro o carro ali?

— Isso, atrás daquele.

Fui parando, parando, parando, parei. Puxei o freio de mão, ponto morto. O examinador vindo do nono círculo do inferno abriu a porta e apontou para a guia.

— Olha aí, parou longe.

— É verdade. Foda-se, seu feladaputa, já passei.

— Pode desligar o carro. Seu boleto, seu RG.

— Muito obrigado. Bom dia, bom trabalho.

— Sgrumble.

Então lamba minhas bolas, veado.

Saí do carro e fui mostrar o papelucho ao Cláudio, instrutor mais paciente do universo.

— Parou longe, Marcão.

— Mas não errei mais nada.

— Deixa eu ver. Hum. Vixe, já era. Parabéns.

Agora imaginem a cena: este que vos fala, do alto de seus noventa e cinco quilos, pulando e rodando como uma gazela emaconhada.

Foi isso. As trapalhadas continuam acontecendo, mas dessa vez eu passei.

Louvem-me.

Agora eu tenho uma namorada, comecei minha carreira profissional e tenho carteira de habilitação. Esse final da adolescência é cheio de novidades…