Esta eleição me levou ao terreiro.
Eu ando angustiado com esse segundo turno. Com tudo que pesa sobre o outro candidato (envolvimento com milícias, com Vorcaro, roubo de ilha de atacante da seleção, burrice, desmaio e caganeira em debate), fico pensando se estou louco, se tem algo que não estou enxergando, eu sei lá. O negócio é que eu passo o dia inteiro pensando nisso, demoro a dormir pensando nisso, acordo sobressaltado pensando nisso. Não é bom, não.
E agora vou contar uma história que já contei em outros lugares. Se você já leu no Instagram ou Bluesky, pode pular a história. Eu vou botar uma linha aqui embaixo e outra depois do final da história que eu já contei. Você pode pular para depois dessa segunda linha.
Interlúdio
Eu sou agnóstico, vocês sabem. Até queria ser ateu, mas não consigo simplesmente negar. Eu só não sei se existe Deus ou sobrenatural, e vivo quase sempre como se não existisse.
QUASE.
Em momentos de angústia eu rezo, ou jogo um negócio aí no universo.

Dia desses escutei num podcast alguém contando uma história sobre Oxum e meus olhos lacrimejaram. Do nada, eu só tava dirigindo pro trabalho, escutando meu podcast e pá: emoção do nada por causa de orixá. Fui procurar a história, achei um cara explicando, comprei o livro dele: “Na Trilha dos Orixás”. Ernesto Xavier, o nome dele.
Uns dias depois, antes de dormir pedi a Oxum que me desse uma tranquilizada. Eu sei lá o que eu estava fazendo, o desespero dá dessas. Pois não é que tive um sonho interessante? Sonhei que estava assistindo a uma palestra, e acho que só tinha mesmo eu na plateia. No palco, estavam uma mulher e o Marcelo Tas. No meio da palestra, o Tas me diz uma coisa que ele vive mesmo dizendo:
— Você precisa sair da sua cabeça e ir pro seu corpo.
De manhã, achei que fazia sentido. Em vez de ficar aqui — vendo notícia, rede social, pensando no que eu poderia fazer para ajudar — desci, peguei minha bicicleta e saí por aí. O movimento faz bem, naquele dia me senti melhor.
Continuei lendo o livro, gostando das histórias e dos conceitos. Estava no trecho em que ele fala do ori. Pelo que eu entendi, ori é tanto o orixá de cabeça quanto a própria cabeça, quer dizer, a consciência. Ele diz que a gente pode conversar com o ori, ensina até uma saudação para se fazer de manhã. Achei bonito e só.
Mas aí eu tava pedalando (depois do sonho, tenho procurado pedalar mais), me bateu uma angústia por causa de eleição e comecei a falar pro ori, pro orixá, pra deus, sei lá. Lembro de pensar especificamente em Oxalá, que o livro diz que é o orixá que cuida da cabeça, entre outras coisas, e que é sincretizado com Jesus Cristo. Continuei dizendo que tava foda (até perguntei: “pode falar ‘foda’, ou é igual igreja?”), que tava angustiado, perguntando se era possível eu estar certo e tanta gente estar errada. Será que não tô vendo alguma coisa?
Tava no meio desse papo confuso de descrente, passei por um pacotinho jogado na ciclovia. Cheguei na esquina, decidi voltar. Era um saquinho desses de encomenda de marketplace. Fui ver o endereço do destinatário, imaginando que seria ali por perto. Não era. Eu moro na Zona Norte, estava na Engenheiro Caetano Álvares. O endereço era da Zona Leste, bem longe daqui. Mas aí vi que na etiqueta tinha também o conteúdo da embalagem, e cês não vão acreditar:

A encomenda era uma miniatura de Jesus. Eu estava pensando em Oxalá, me aparece no caminho um mini-Jesus.
Fui olhar o endereço com mais atenção e vi o bairro. Vila Ponte Rasa. Eu moro na ZN, mas nasci, cresci e passei a maior parte da vida na Ponte Rasa. Quando cheguei em casa, fui procurar o endereço no Google Maps e descobri que a casa da moça que comprou o Jesus ficava a 1 quilômetro da casa da minha mãe.
Então agora eu tinha uma missão: encontrar a compradora do Jesus e entregar a ela a encomenda perdida. Procurei, achei no Facebook alguém com aquele nome e que tinha estudado num colégio conhecido ali da Ponte Rasa. Mandei mensagem:
— Oi, Jennifer. Eu JURO que não tô te stalkeando, mas hoje achei uma encomenda na rua que eu acho que era pra você. Tá endereçada a uma Jennifer [sobrenome] que mora na Zona Leste.
— Olá, tudo bem? Boa Noite. Encomenda?
Claro que ela estava desconfiada. Tinha toda a cara de golpe. Então expliquei que estava pedalando, achei a encomenda fechadinha, vi que o endereço era perto do bairro onde eu nasci, e mandei a foto. Expliquei que eu era ateu, mas estava meio rezando quando isso aconteceu. Ela riu, disse que era dela, que era presente para uma amiga. Conversamos mais um pouco, ela disse para eu ficar com o Jesus:
— Não te conheço mais talvez Deus tenha feito isso pra q vc comece a ver as coisas de outra forma. Presente meu, pode ficar.
Ainda tentei insistir, disse que não era trabalho nenhum, que a amiga dela ia ficar sem presente. Ela disse que não, que era presente mesmo, e soltou um “fica em paz”, expressão que meu pai usava muito depois que foi para a Congregação Cristã do Brasil. Comentei:
— “Fica em paz” tem cara de CCB ou Assembleia
E ela:
— Kkkkkkkkk sou Católica com o pé na Umbanda kkkkkkkkkkk.
Depois dessa, achei melhor aceitar o presente.

Opa. Bão?
Então, mas minha angústia continuou. Comecei a procurar terreiros. Por que não? Talvez eu pacificasse minha cabeça. Por recomendação de um seguidor no Bluesky, decidi ir a um terreiro de umbanda aqui perto. A gira era ontem à noite. De manhã, saí para pedalar. Tive uma quase epifania que eu conto depois da próxima linha. Agora vou contar do terreiro.
Cheguei lá uma meia hora antes de começar a gira. Um japonês gordo de cabelo grisalho, todo de branco e com um colar de contas, estava sentado a uma mesa que tinha um livro de assinaturas. Disse que tinha ido conhecer, ele me deu as boas vindas e uma senha: V40. A senha, ele disse, era para o atendimento. Eu nem sabia que tinha atendimento. Fiquei imaginando se ia ter entidades em guichês e um painel digital anunciando as senhas. Mas não falei nada: só agradeci, peguei minha senha e subi.
Lá em cima, um salão com várias cadeiras de plástico enfileiradas. O lugar já estava bem cheio. À frente, uma espécie de palco elevado onde estava o pessoal de branco. Devia ter umas 60 pessoas na “plateia” e umas 30 no “palco”. Achei a proporção mais interessante do que na igreja, que geralmente tem um cara só no palco, e tudo que ele fala a gente tem que engolir.
Começou como começa toda função religiosa a que compareci: alguém deu recados, explicou como ia funcionar, o que se esperava. Que tinha gira toda segunda-feira, intercalando as de esquerda e de direita. Ontem era gira de Preto Velho. De direita. Mau sinal.
Aí começou o movimento no palco. Um toque de tambor, depois um homem que estava sentado (só ele, todo mundo em pé em volta dele) começou a dar uns recados internos. Coisa burocrática mesmo: reunião, discordâncias que precisavam ser resolvidas, dinheiro etc. Deu umas instruções e, depois de um silêncio anunciou que o negócio tinha mudado. O pessoal de branco começou a vir todo para a frente do palco para trocar os colares. O chefe (pai de santo?) mandou acender as luzes vermelhas. A moça dos recados voltou a se dirigir a nós, a plateia:
— Pessoal, mudou. Vai ser gira de esquerda, fazer o quê?, o santo é quem manda.
De esquerda. Bom sinal.
Bom, aí teve os cantos todos, muito toque bonito de tambor, defumação, galera de branco fumando charuto e tomando o que eu imagino que era cachaça. Não vou contar tudo aqui. Para quem já conhece umbanda, deve ser tudo meio de praxe. Para quem não conhece, a descrição vai ser tediosa.
Sei que depois de muita cantoria e fumaça, mais de uma hora de gira (eu esperava ver mais gente girando, um negócio mais rotativo mesmo, mas acho que o nome “gira” não deve ser por isso) o japonês começou a chamar as senhas. A minha tava tão longe que eu quase desisti. Mas pensei: “já vim até aqui, tenho nada pra fazer, vou ver qual é a desse negócio”.
O japonês chamando senhas, o pessoal indo. Uma moça subiu incorporada, aparentemente. Um homem de meia-idade, muito alto e de barba branca, começou a chorar lá em cima na frente do médium (?). Depois começou a gritar:
— EU VOLTEEEEEEEEEEEEI! EU VOU ACABAR COM ELEEEEEEEEEEEEEEE! VOCÊS NÃO VÃO ME IMPEDIIIIIIIIIIIIIIR! EU VOU MATAR ELEEEEEEEEEEEEE! EU VOLTEEEEEEEEEEI!
Emocionante! Quem já viu aqueles programas da Igreja Universal na madrugada conhece o fenômeno. O grito entre os dentes, a voz aguda e rascante, a pessoa se debatendo. Começou um movimento em volta do cara, alguém veio pegar uma cadeira na plateia. Sentaram o cabra, fizeram um bololô em volta dele, alguém acendeu uma vela preta. Depois de um tempo, ele se levantou. Calminho. Seja o que for, espero que não volte. Pareceu cansativo. Talvez ele precise ir mais ao terreito. Talvez ele precise tomar os remédios direito.
Finalmente o japonês chamou minha senha. Enfiei a mão no bolso e percebi que estava com duas senhas, V40 e V41. Fui até lá (sem sapato, como a moça tinha instruído no começo) e disse ao japonês:
— Você me deu duas senhas. É por que eu sou gordo?
— Imagina! Se fosse por isso, eu ia precisa de pelo menos quatro!
Rimos, uma moça me cumprimentou e me levou até um rapaz com um cigarro de palha. Uma moça ao lado dele acendeu o cigarro dele depois de algumas tentativas. Ele me cumprimentou com as costas das mãos, fez lá uns movimentos, me fez virar de costas, de frente, me cumprimentou com um aperto de mão e perguntou o que eu tinha ido buscar lá.
Contei minha angústia com a eleição. Ele me falou o que eu já sabia, mas precisava ouvir de outra pessoa: que eu tô preocupado com uma coisa que está fora do meu controle, e cujo resultado eu não posso mudar. E que, seja qual for o resultado, eu tenho força dentro de mim para passar por aquilo que vier. Que devo fazer minha parte e me apegar com Deus (aí já fica difícil pra mim). Me passou uns banhos, um ritual com vela e copo d’água, um chá. Eu ouvindo e só pensando que nunca ia lembrar de tudo aquilo. Mas, no final, a moça me deu um papelzinho. A danada tava anotando tudo! No topo do papel, o nome da entidade que tinha falado comigo: Exu Gira Mundo. Eu sei lá. Para mim, era só um cara fumando cigarro de palha e improvisando conforme falava. Percebi que ele observava minhas reações e ia ajustando o que dizia.
Foi bom, porém. Não encontrei nenhum tipo de fé, não tive nenhuma grande revelação espiritual. Entrei agnóstico, saí agnóstico. Mas percebi que, pela primeira vez em muitos dias, eu estava tranquilo. Era por estar num ambiente de boas energias? Por estar cercado de proteção espiritual? Ou seria porque já fazia pelo menos duas horas que eu não olhava para o celular? IMPOSSÍVEL SABER!
Então, aquilo que eu tava falando. Antes de tudo isso aí, eu tinha saído pra pedalar. O movimento clareia a mente, e me veio uma frase na cabeça: “O Brasil não acabou nem vai acabar”. Assim, pronta. Tenho visto muita gente da direita dizendo que o Brasil acabou por causa do PT, do STF, sei lá. Na esquerda, parece que o consenso é que o Brasil vai acabar se Lula não for eleito. E aí me veio essa ideia bem de tucano, bem de cima do muro: “O Brasil não acabou nem vai acabar”. Junto com ela, esse apanhado de coisas:
“A gente já passou por muito tempo ruim. Mesmo que Lula ganhe, os próximos 4 anos vão ser bem ruins com o Congresso eleito. Lutar até o final, mas não esquecer de descansar, de se cuidar, de dar um tempo de redes.”
“Coloque a máscara 1º em você.”
“Antes de cuidar dos filhos, Oxum limpa suas joias.”
Quando cheguei em casa, desinstalei os aplicativos de redes sociais. À noite, fui ao terreiro, mas disso vocês já sabem.







