É isso mesmo: vou pedir asilo pro Tio Sam e quero ver não me darem. Explico:

Vocês já devem ter lido por aí (se não leram, tem a notícia da Folha só para assinantes aqui e reproduzida aqui): um rapaz de Minas Gerais pediu asilo nos Estados Unidos porque sofre perseguição no Brasil por ser gay. Muito bem. A justiça americana dá brecha (epa) para gays perseguidos mundo afora pedirem asilo por lá. Acho muito certo. Imagino a merda que deve ser a vida de um gay — pior ainda, de uma lésbica — num país muçulmano, por exemplo.

Não é o caso do Brasil. Moro no meio do reduto gay, vejo a bicharada espevitada todo dia na rua. Então não vejo essa perseguição aos gays, mas também não sei da missa a metade. O sujeito lá de Minas é gay, se sente perseguido, foi pedir asilo na gringa, aceitaram. Ponto pra ele.

Palmas pra ele!

Só que aí tem um negócio: diz que a primeira vez que ele sofreu discriminação foi quando recebeu uma repreensão verbal da polícia no Largo do Arouche.

Peraí.

Índio Caçador, ícone do Arouche

Eu moro no Largo do Arouche, já trabalhei no Largo do Arouche, conheço o Largo do Arouche há anos (e não adianta o Arouche dizer que não — *rimshot*). EU sofro discriminação no Largo do Arouche. EU é que sou estranho por lá, passando de mãos dadas com minha marida do sexo oposto. Os policiais daquele posto nem têm como discriminar os gays, pelo simples fato de que são milhares de gays passando por lá o tempo todo. Fora isso, dizer que é perseguido porque levou uma repreensão verbal dos puliça é muita veadagem.

Mas quem sou eu para dizer alguma coisa, né? O negócio é procurar uma fonte confiável nesses assuntos. E quem melhor do que o Grupo Gay da Bahia? Segundo o site deles, o GGB é  “… a mais antiga associação de defesa dos direitos humanos dos homossexuais no Brasil”. Os caras são respeitados, então a defesa do gayzim mineiro usou dados do GGB para respaldar o pedido de asilo. Segundo eles, o Brasil é um país perigoso porque foram mortos 2.998 homossexuais em — olha só! — 29 anos.

Peraí de novo. Vamos fazer continhas.

Segundo o Mapa da Violência nos Municípios Brasileiros, do Ministério da Saúde, quase 50 mil pessoas são assassinadas por ano no Brasil. Para ser mais exato, a média entre 2000 e 2006 foi de 48.173 homicídios por ano. Vamos considerar 48 mil por ano, então.  Lembrando: segundo o GGB, foram 2.998 gays mortos em 29 anos — 103 por ano.

Estão acompanhando até aqui? Então. Segundo o próprio GGB (aqui, em artigo assinado por Luiz Mott, presidente do grupo) os homossexuais são 10% da população brasileira. De cada 10 brasileiros, um é gay. E aí vem a distorção: quando se fala de homicídios, essa proporção aí é de 467 para 1. Ué. Nem é tão perigoso ser gay no Brasil. Perigoso mesmo é nascer aqui — gay ou não.

Vou pedir asilo nos EUA dizendo que o Brasil não é seguro para os gordos (ou carecas, ou encardidos). Quero ver quem é que me contesta.