A situação foi ficando difícil, nada de aparecer emprego, então fui trabalhar num pesque-e-pague aqui perto de casa. Mas nada de trabalho ao ar livre: era um pesque-e-pague indoor, ficava nos fundos de um boteco, meio clandestino. Eu acordava ainda de madrugada e ia para lá. Meu trabalho era pescar peixes ensinados com iscas preparadas, de modo e estimular os outros a continuarem gastando seu dinheiro. Resumindo: o negócio era feito um cassino, mas com minhocas em vez de fichas.
Depois de um dia particularmente cansativo, cheguei em casa e estavam todos tristes: meu irmão havia sido preso. Foi comprar folhas de maconha (tão bonitinhas…) com cheque. O cheque voltou, aí fodeu tudo: prenderam o moleque. Aquela choradeira em casa, saí para dar uma volta. Passando em frente ao pesque-e-pague, encontrei Daniel Lima, que fazia uma matéria para TV. Era um programa desses jornalísticos/policiais e ele dizia:
— A mídia é complacente com Danielle Iwoa. Essa menina tem que ir pra cadeia!
Danielle Iowa era a filha do japonês, e estava envolvida no esquema de compra de folhas de maconha com cheques sem fundo. Tá, eu sei que Iowa não é exatamente um nome japonês, mas foi o que se pode arranjar pro sonho. Fui falar com ele:
— Ô, Menezes. Pegou pesado com a menina.
— Eu sei, mano. Mas é meu trabalho, não posso fazer nada. Ó o texto aqui, ó.
Desencantado com um Daniel vendido ao sistema, voltei para casa. Lá me esperava um neguinho que me olhou de cima abaixo e disparou:
— Cadê teu irmão?
Parecia a cena de Cidade de Deus, quando o Dad… Digo, o Zé Pequeno vai até a casa do Mané Galinha e é atendido pelo irmão.
— Meu irmão vacilou. Que nem você.
— Eu? Quando foi que eu…
Mas nem teve tempo: apliquei-lhe uma chave de braço e o bicho caiu duro na calçada. Foi como uma senha: foi ele cair para surgirem chineses de todos os lados. Comecei a lutar com eles. Para minha sorte, o japonês meu patrão ouviu o barulho e veio me ajudar. Depois de distribuir muita cacetada, derrotamos os chineses. Antes de entrar em casa, comentei com o japa:
— Odeio lutar com chineses. Você bate neles, e quando pensa que acabou eles surgem aos magotes vindos sabe-se lá de onde.
Nessa hora eu acordei, espantado por ter usado aos magotes num sonho. Bah, queria saber o que acontece depois.

Antes de encontrar o Daniel, eu tinha passado por uma rua aqui perto e vi uma garota linda vindo na minha direção. Como era sonho mesmo, fui conversar com ela. A menina foi muito simpática, mas se despediu dizendo:
— Se você voltar com o Emotionrélio, eu fico com você.
MAS QUE PORRA!