(I Samuel 9)

Como, meu Deus, COMO seria escolhido o primeiro rei de Israel? Sei que vocês não agüentam mais de tanta expectativa, que não têm nem dormido direito, nessa agonia de não saberem como foi que começou a se desenhar a monarquia israelita. Pois acalmem-se, vou contar agora.

Hein? Do que cê tá falando, xarope?

Bah! Fica quieto aí, deixa eu contar.
Havia um homem chamado Quis. Sim, Quis. Não, não farei piadinhas com o nome do cara. Quis era filho de Abiel, neto de Zeror, bisneto de Becorate e trineto de Afias. Quem eram esses caras? Sabe Deus… Bom, não importa. O negócio é que o tal Quis era um homem rico e importante (para os padrões da tribo de Benjamim, é claro), e tinha um filho chamado Saul. Saul era muito bonito, considerado por muitos o mais belo dos israelitas. Meio maluco, é verdade, mas um pedaço de homem. Era alto, forte, charmoso, gostoso, uma coisa, UMA COI… Aham… Vamos à história.
Saul parecia destinado a uma vida de playboy e nada mais. Mas o destino de um homem pode tomar o rumo mais absurdo graças a um fato banal. Foi o que aconteceu com ele: um dia Quis chamou o filho. Tinha uma missão pra ele:
— Saul, as jumentas fugiram.
— Pai, eu já pedi pra você não falar assim da mãe e da vovó…
— Não, não essas! As jumentas, jumentas mesmo. Sumiram.
— SUMIRAM? COMO ASSIM? AS JUMENTAS SUMIRAM???
— Ei, calma, não é pra tanto! Eu hein… Pois é, sumiram, escafederam-se. E eu queria te pedir um favor: pegue aí um dos empregados e vá procurar as bichinhas.
— PAI! VÊ LÁ SE EU SOU DE CORRER ATRÁS DE BICH…
— AS JUMENTAS, Saul…
— Ah. Sim, claro. Já estou indo, pai.
— Doido…
— Doido? DOIDO??? QUEM É DOIDO???
— Calma, filho, calma… Só brincadeira do papai. Tá ouvindo? Brincadeira do papai… Brincadeira do papai… Fala.
— Brincadeira do papai… Ahã…
— Iiiiiiiiisso… Agora vai lá, vai.
— Tô indo.
Saul escolheu o empregado de seu pai com quem se dava melhor, e os dois saíram para procurar as jumentas. Chegaram até as montanhas de Efraim, passaram por Salisa e pela terra de Saalim, reentraram em território benjamita, e nada das jumentas. Quando entraram na terra de Zufe, Saul finalmente percebeu que a busca era inútil, e disse ao empregado:
— Bom, chega. Vamos voltar, senão o velho deixa de se preocupar com as jumentas e começa a se apoquentar por nossa causa.
— Que é isso, Seu Saul? Vai desistir de procurar as bichinhas?
— QUEM É QUE TÁ PROCURANDO BICHINHAS, SEU FILHO DE UMA QUENGA?
— As jumentas, Seu Saul…
— Ah. Elas. Então, mas o que podemos fazer? Já estamos andando há três dias, isso lá é vida?
— Mas eu acho que a gente podia usar outros métodos pra caçar as bich… digo, as jumentas.
— Ah, é? Quais? Imitação de jumento? Bom, eu posso fazer, você sabe. Tenho um…
— Não sei e não me interessa. Não, não, tava pensando num método mais sutil.
— Qual?
— Samuel.
— QUEM???
— Vai me dizer que você não conhece o Samuel.
— Conheço não. Quem é?
— VOCÊ É ISRAELITA MESMO?
— Claro que sou, oras! Que pergunta cretina…
— Porra, é impossível alguém em Israel não conhecer esse homem!
— Pois eu não conheço. Não leio jornais. Quem é essa celebridade?
— Eu não acredito… Samuel é o maior herói israelita das últimas décadas! Além do mais, ele tem poderes paranormais. Dizem que adivinha as coisas.
— Tá. E daí?
— E daí que ele mora numa cidade logo ali. Então a gente podia ir até lá e ver se ele nos ajuda a encontrar as jumentas.
— Ué! Mas ele não é importante, poderoso, herói e coisa e tal? Duvido que vá querer ajudar a gente nisso…
— Er… É que ele anda numa fase ruim. Está bem velho, decadente, essas coisas. Mas tem lá seus poderes. Oras, você quer encontrar as jumentas ou não?
— Quero, quero. Mas quanto é que esse santo homem cobra pra fazer suas mágicas? Nem comida nós temos mais. Tem alguma coisa aí pra gente levar pra ele?
— Deixa eu ver… Hum. Tenho um pouco de prata aqui ainda.
— É, acho que tá bom. Vamos lá.
Os dois começaram a subir o morro no alto do qual ficava a cidade. No meio da subida, encontraram umas moças que desciam para pegar água, e Saul foi falar com elas.
— Oi, meninas.
Agora imaginem: um bando de garotas adolescentes encontra em sua frente, como que surgido do nada, o Rodrigo Santoro de Israel, o Brad Pitt de Benjamim. Derretaram-se todas, é claro.
— Ooooooooooi…
— Er… Então… Eu e meu amigo aqui estamos procurando o tal do adivinho que dizem morar na cidade.
— Aham…
— É… E aí a gente queria saber se ele está.
— Ahã…
— E como eu faço pra falar com ele?
— Ahã…
— Moça? Eu fiz uma pergunta.
— Hã? Ah! Sim, sim. Ele está sim. Aliás, é aquele andando ali na frente.
— Aquele cabeludo?
— Ahã…
— Ai meu saco… Tá, tá, obrigado. Vou lá falar com ele.
— Mas é melhor você se apressar.
— Por quê?
— Está na hora do sacrifício. Ele sobe até o morro, abençoa o sacrifício, e só então o povo começa a comer. A bênção é meio demorada, melhor falar com ele antes.
— Muito bem, então vou até lá. Muito obrigado, moças.
— Não tem de quêeee…
— Ai ai…
Saul e seu empregado subiram o monte, interpelando Samuel no portão da cidade:
— O senhor que é o tal vidente?
— Quem quer saber?
— Saul, filho de…
— Eu sei quem você é.
— Sabe? Como?
— Oras, como! Sou vidente, lembra? Cabra burro. Ô, tem certeza que é esse mesmo?
— Como é que é?
— Não estou falando com você.
— …
Podia parecer que Samuel estava maluco, mas não era nada disso: um dia antes, Javé contara a ele que um homem de Benjamim viria até ali. Samuel deveria ungir esse homem como rei de Israel, e ele libertaria o povo do jugo filisteu. Notando, porém, que o tal Saul era meio despombalizado do juízo, dirigiu sua pergunta a Javé. Deus cochichou a resposta: era ele mesmo. Aquele maluco viria a ser rei. Resignado, Samuel começou a desempenhar seu papel:
— Bom, rapaz, o sacrifício está para começar, e o povo está com fome. Você e seu empregado vêm comigo até o lugar de adoração. Jantarão comigo.
— Fico muito agradecido, Seu Samuel. Mas é que eu queria saber…
— Depois, depois! Amanhã cedo eu responderei qualquer pergunta que você quiser, hoje não.
— Mas é que…
— Não se preocupe com as jumentas. Já foram encontradas enquanto vocês dois andavam por aí feito uns paspalhos.
— COMO É QUE O SENHOR SABE DAS JUMENTAS?
— Eu já não falei que sou vidente, cáspita? O que mais você quer que eu diga para acreditar? Quer que eu fale o que você faz com as pobrezinhas quando ninguém está olhando?
— NÃO! NÃO!
— Hehehehe…
— Qual é a graça?
— É que essa última foi chute… Bom, vamos comer. Saul, Saul… O povo de Israel quer você, Saul.
— Por favor, Seu Samuel! Eu sou da tribo de Benjamim, a menor de todas, e minha família nem tem importância. Como o senhor me diz que Israel me quer?
— Depois, depois! Vamos comer, já disse.
Então Samuel levou os dois ao salão de festas, deixando que se sentassem à cabeceira da mesa em que já estavam cerca de trinta convidados.
— Cozinheiro!
— Pois não, Seu Samuel?
— Traga aquele pedaço de carne que eu pedi pra você reservar para o convidado de honra.
— Sim senhor.
O cozinheiro trouxe a carne nobre, e Samuel a ofereceu a Saul. Depois do jantar, os três foram à cidade. O velho vidente e o belo benjamita ficaram conversando no terraço até bem tarde. Na manhã seguinte, Samuel foi acordar Saul:
— Está na hora de você voltar pra casa.
— Puxa. Não me oferece nem um café-da-manhã?
— Já comeu demais às minhas custas, rapaz. Vamos, levante-se!
Saul levantou-se, e Samuel acompanhou-o junto com seu empregado até a rua. Ainda sussurrou a pergunta para Deus:
— Mas você tem certeza mesmo?
O silêncio demonstrava que Javé não voltaria atrás. Samuel suspirou. Tinha que terminar o que começara. Paciência. Então disse ao benjamita:
— Saul, peça ao seu empregado que vá na frente. Tenho um recado de Deus para você.