Salvador, 20 de outubro de 2004, 1h15min
Estava agora mesmo na varanda deste quarto de hotel, olhando o mar discutir com as pedras lá embaixo. Uma briga antiquíssima, anterior à existência de vida na Terra.
Eu poderia agora dizer algo pernóstico como: o mar vence sempre, é o masculino que seduz e aos poucos penetra a terra, fêmea que ao mesmo tempo resiste e cede às investidas do macho impetuoso. Mas como nunca maltrato meus leitores com metáforas burras e pretensiosas (é sempre uma coisa ou outra), digo apenas: enquanto olhava a briga lá embaixo, lembrei da morte. Da minha morte, para ser exato. Eu vou morrer — hoje mesmo, semana que vem, daqui a cinqüenta anos — e nunca mais poderei assistir ao mar quebrando na praia (é bonito, é bonito). Minha morte afetará a meia dúzia de pessoas, talvez nem isso. E as ondas continuarão a chocar-se contra o continente, indiferentes ao fim de mais uma breve existência, e sem saber o quanto eu gostava de ficar de longe, só olhando seu movimento sinuoso.
Poucas vezes me senti tão só.
Marco Aurélio Gois dos Santos | 23 de October de 2004 | 23:36 | 25 comentários



24 de October de 2004 | 00:37
E eu aqui, janela aberta à escuridão, ouvindo Chopin, que nem curto muito, só posso escrever: idem.
24 de October de 2004 | 01:52
quando sooooooool batê na janela do teu quartuu
24 de October de 2004 | 01:54
quando sooooooool batê na janela do teu quartuu
24 de October de 2004 | 02:02
Sabe, eu sentira a sua falta por dois motivos: ainda não te mostrei lado b do Rio e você não terminou o antigo testamento. Não é muito, mas é algo, vai…
24 de October de 2004 | 03:25
Não dá pra acreditar, Marco. Passa lá no blog e vê meu post do dia 20. Meia hora depois.
Tou com medo de você agora…
24 de October de 2004 | 04:06
hmmm….achei teu blog mui interessante….mas algo me chamou maior antenção: “Pq serah q os coments são na maioria do sexo feminino???”…hmmmm…xerusss
24 de October de 2004 | 06:41
“Tropeça a cada quarteirão/não mede a força que já tem/Exibe à frente o coração/que não divide com ninguém…”
24 de October de 2004 | 06:54
Não fique assim, rapaz… não sei se isso ajuda, mas veja as coisas assim: quando você morrer, no meio de tantos crentes que ficarão felizes que Jesus te deu a chicotada final, pelo menos um, um pastor sem muitos seguidores e um escritor fracassado, lembrando de como você o fazia sorrir, se lembrará de você e pensará, emocionado, “Puta merda, esse bunda-mole morreu antes mesmo de terminar a epístola aos Colossenses! E agora, o que é que eu faço? Leio a Bíblia normal? ….” e se desmanchará em lágrimas.
Pense nisso.
24 de October de 2004 | 10:40
Não me dou bem com a solidão, sempre me vêm esses pensamentos.
24 de October de 2004 | 11:50
Querido,
tinha um texto mais lindo antes desse. Não tem mais.
Esse é o texto mais lindo.
Um beijo (emocionado),
24 de October de 2004 | 12:30
Admita logo, essa é a famosa síndrome de paulista. Não tem praia em casa então vai no quintal dos outros.
24 de October de 2004 | 12:33
So nao morre antes de terminar a Biblia…ela toda, do Genesis ao Apocalipse!
24 de October de 2004 | 12:43
Menino, vc não sabe como eu gostei do seu blog… Vc escreve muito bem !!! Além disso, seu blog me chamou a atenção por vc ter usado como “pano de fundo”, o universo bíblico, e fez isso sem heresias e com bom humor…
24 de October de 2004 | 14:41
sei do que tá falando. senti o mesmo numa cachoeira em santomédasletra, minas. bati altos papos com a dita e nem tinha fumado nada, hein.
24 de October de 2004 | 16:43
Desde pequena, tenho essa sensação quando me deparo com o mar (não vejo todo dia, moro no interior do pais), um misto de fascinação, medo e melancolia. A sua grandiosidade mostra a nossa pequenez, os seus mistérios são intrigantes, mas é triste, muito triste.
24 de October de 2004 | 17:47
Marco, pinto mole em mulher dura tanto bate que ela enche o saco, se veste e vai embora pra casa, deixando a conta do motel pro brocha pagar.
24 de October de 2004 | 20:00
“Vendo o mar discutir com as pedras lá embaixo”…
Belíssima imagem!!!
Acho que igual a ela, só mesmo a do samba da União da Ilha, “É hoje”:
“Acredito ser o mais valente
Nesta briga do rochedo com o mar…”
PS – Sua morte, no fundo, no fundo, só vai afetar uma pessoa: você.
24 de October de 2004 | 22:10
Triste, Corélio… Realmente triste. :/
E o Persegonha tem razão.
25 de October de 2004 | 00:51
Bah, guri, Tu precisa é de uma terapia do joelhaço.
Tua viadagem existencial foi deitar no pelego do Copy & Paste.
Lindaura, traz o mate!
25 de October de 2004 | 09:43
Mané mar! Eu penso logo em poderosíssimos processos geológicos que ocorreram a pitriquilhões de anos atrás e, por mais que nos esforcemos, não temos ingerência nenhuma sobre eles: soerguimento de cordilheiras, derivas continentais, deposições monstras (!) de sedimentos, ou mesmo a existência dos dinossauros… Nossa morte não fará a menor diferença quanto isso. A vida é mesmo absurda e sem sentido!
25 de October de 2004 | 13:33
Tipo assim (ow kra), tão Fernado Pessoa isso. (aliás, Fernando Pessoa é tudo de bom)…
Viu? Burro e pretensioso…
27 de October de 2004 | 13:19
Olá, caro M!
Já falei e repito:
Vc realmente é o cara super-acompanhado-mais-solitário-que-já-ví…
Nem Freud explica!!!
intémas
28 de October de 2004 | 13:17
Ai, ai. Modesto toda vida! Quantas parentes vc tem? E amigos. Com certeza mais que meia dúzia. Sua morte afetaria umas 10 pessoas, pelo menos. Não se sinta tão só.
29 de October de 2004 | 17:29
Engraçado. Eu acho que vc mesmo provoca isso. Vc mesmo.E é muito parecido comigo. Muito.
3 de December de 2008 | 22:07
eu me importaria(up master xD)