Jesus, me chicoteia!

Todo dia

Eu gosto de H2OH, aquela bebida que nego chama de Sprite sem gás. É sem gás mesmo, e quase sem gosto. Mas eu resolvo isso fácil: espremo um limão no copo, encho de gelo e preencho o pouco espaço que resta com a soda choca. Por conta disso, uns meses atrás eu comprei um espremedor de limão. Um troço besta assim:

Preciso explicar o funcionamento? Você corta o limão no meio, bota uma metade ali dentro, espreme, abre, joga o bagaço fora, bota a outra metade, espreme de novo, pronto. Muito simples, só um retardado se confundiria.

Bom.

Não sei o que aconteceu depois que nos mudamos pra casa nova. Talvez eu tenha ficado mais retardado, talvez o espremedor tenha ficado espremido demais na caixa durante a mudança. Só sei que durante vários dias seguidos eu não conseguia espremer um limão direito. Ou melhor, conseguia: o problema era depois. Eu ia abrir o espremedor, ele emperrava. Eu forçava, ele abria de repente, a parte de cima dava uma volta de 180 graus, batia na borda do copo e lá se ia o suco de limão — e, pelo menos duas vezes, o copo. Eu xingava, rosnava, um inferno.

Quando meu pai voltou do hospital depois do primeiro infarto (está tudo bem, foi só um susto, vamos contar histórias), contei meus dissabores com o espremedor de limão. Ana Carlota estava inconformada com a minha capacidade de complicar algo tão simples. Pois contei, ela riu, meus pais riram.

— Não é engraçado! — protestei.

— Se acontece todo dia — meu pai, a sabedoria de sempre — é engraçado, sim.

Rimos todos. Foi a última vez que vi meu pai com vida. Foi numa segunda-feira. Ainda falei com ele pelo telefone no meio da semana. No sábado, ele morreu.

Isso foi há dois meses. Eu não espremi mais limão. Ainda choro e tenho insônia todo dia. Nem tudo que acontece todo dia é engraçado.

A pequena cética

Ana Júlia…

(Sim, o blog é sobre a minha sobrinha agora. Pau no seu cu.)

Ana Júlia ganhou essa Bíblia aí do lado, presente do Mackenzie. O texto é a Nova Tradução na Linguagem de Hoje, da Sociedade Bíblica do Brasil. De diferente, só a capa e os desenhos. O formato é aquele normal de bíblia: duas colunas, letra miudinha, notas de referência com letrinha menor ainda.

No domingo, Ana Júlia já tinha demonstrado seu novo interesse pela Bíblia. Disse que o vovô morreu por causa de duas coisas: o infarto e a Eva.

— Que Eva?

— A Eva, ué. Não era pra gente morrer, nunca. Mas aí a Eva comeu uma maçã envenenada, e agora a gente morre.

Nisso que dá ilustrar a Bíblia: a criança acaba enfiando elementos de desenho animado. Então ontem ela me trouxe a Bíblia nova. Ia me mostrando as figuras e pedindo para eu contar a história de cada uma.

— Quem são esses bebês?

— Esaú e Jacó, eles eram gêmeos. o Jacó nasceu segurando o calcanhar do Esaú porque queria ser mais importante do que ele.

— E esse?

— Esse é Moisés. A mãe dele não tinha condições de criar ele, então botou ele num cestinho no rio. A filha do rei pegou ele pra criar.

— E esse, com um monte de  sapo?

— Esse é o faraó, que era o rei do Egito. Deus mandou um bilhão de sapos pro Egito porque o faraó não queria deixar o pessoal do Moisés ir embora. Eles eram escravos.

Então ela chegou à página que mostra o maná. Na ilustração, um judeu com cara de personagem de desenho da Dreamworks estende a mão como quem vê se tá chovendo. Há pedaços de maná no chão, nas pedras e um pedacinho na palma da mão dele.

— E isso aqui, é o quê?

— É o maná. O povo do Moisés já tinha saído e tava andando no meio do deserto. Aí ficaram com fome, reclamaram um monte, e Deus fez chover pão do céu.

— Pfffffff… HAHAHAHA! Pão do céu! “Tá Chovendo Hambúrguer“? HAHAHAHAHA!

Acho que o pessoal do Mackenzie tá perdendo tempo com essa menina.

Feriado

Conversa entre Ana Júlia, minha sobrinha, e José Augusto, meu tio (a família gosta de nomes compostos):

— Amanhã é feriado! — diz Ana Júlia.

— É mesmo. E é feriado do quê?

— Como assim?

— Você não falou que amanhã é feriado? Então, mas é dia do quê?

Dia de não fazer nada!

Um mês

Hoje faz um mês que meu pai morreu. Poderia ter sido ontem; a dor ainda é a mesma. Começou a achar que a dor não diminui: a gente é que vai se adaptando a ela, construindo a vida ao redor dela do jeito que dá. Se for isso mesmo, é uma capacidade assustadora.

Classificados

Minha mãe está vendendo uma geladeira (funcionando), uma TV (com defeito) e uma estante (funcionando, imagino). Tem fotos:

Alguém?

Maritaca

Tem uma maritaca me olhando. Ela está pousada na árvore aqui em frente à janela. Passou um bando de maritacas voando e fazendo algazarra; essa resolveu ficar. Ela esfrega o bico nos galhos da árvore, às vezes corta um raminho, gira ele no bico e depois deixa cair. Talvez seja algum tipo de cuidado higiênico de maritaca, talvez seja uma maritaca com TOC, sei lá.

Meu pai ia gostar de ver isso. Seu Lindauro tinha prazer genuíno em ficar olhando as coisas da natureza, as “obras de Deus”, como ele chamava. Herdei isso dele. Lembro de um dia em que eu, Daniela, Risadinha e Tonon cruzávamos o Espírito Santo (a unidade da federação, que fique claro) de carro e. Depois de uma curva, me aparece o pôr-do-sol mais foda do mundo. Daniela dormia ao meu lado no banco de trás, acordei ela pra mostrar o pôr-do-sol. “Olha! Olha!”. Ela ficou bem brava. “É um pôr-do-sol, Marco, e daí?”, e voltou a dormir. Daniela é dessas pessoas de espírito prático. Admiro quem é assim, queria ser assim, mas não adianta: sou igual ao meu pai.

Olhando para a maritaca (que agora trocou de galho), fico desejando que meu pai estivesse aqui. Não faz sentido: mesmo que estivesse vivo, ele não estaria aqui-aqui, na produtora. Mas domingo eu ia poder contar pra ele que uma maritaca pousou na árvore em frente à minha janela no trabalho. Ele ia ficar muito feliz.

Pronto

Importei todos os posts do blog antigo para cá. Bom, não exatamente: havia 4704 posts. Aí eu apaguei os capítulos bíblicos, claro. Vi que houve épocas em que eu postava qualquer merda a cada cinco minutos; foi tudo pro lixo. Coisas que escrevi para paixões antigas e equivocadas também pereceram. Ao fim e ao cabo, resultou nisso:

Acho que enxuguei bem o passado. Bora, então.

(E reparei agora: pelo critério adotado, este post nem deveria existir. Hum…)

Insônia

Eu precisava dormir, mas não consigo. Fico esperando o telefone tocar com mais alguma má notícia.

É uma merda viver assim, eu lhes digo.

Ana Júlia explica

Ana Júlia, vocês já deviam saber, é minha sobrinha de 6 anos. Ontem eu fui à casa dela e estávamos conversando sobre os recentes acontecimentos. E ela:

— Tem uma coisa que Deus me contou. É meu último segredo.

— Quando Deus te contou?

— Quando eu tava dormindo.

— Ah, foi sonho.

— Não! Ele me conta as coisas quando eu tô dormindo.

— Tá bom. Qual é o seu último segredo?

— É assim: quando alguém tá no médico, no hospital, e a gente fala “vai viver”, a pessoa morre. Se a gente fala “vai morrer”, a pessoa vive.

— Ué. Mas por que é assim, ao contrário?

— Porque sim, ué. Todo mundo falou que o vovô ia viver, ele morreu. Todo mundo falou que o Vilazo ia viver, ele morreu.

— Mas quando a Ana Carlota foi internada, eu falei que ela ia viver e ela viveu mesmo.

— É que não funciona sempre. Às vezes a máquina quebra.

— Ah, tem máquina disso também? Achei que era só a máquina de fazer cabelo. Aliás, meu cabelo continua a mesma coisa.

— É que a máquina não tá funcionando ainda.

— Como é a máquina de fazer cabelo de Deus?

— Quando você morrer… — aqui ela corrigiu às pressas — quando qualquer pessoa morrer, aí vai ver. Só que eu já vi no meu sonho. Ela é preta, azul, verde, vermelha, amarela e branca. Aí a pessoa põe uma touca de homem que tem um cano que liga na máquina. Aí vai fazendo o cabelo.

— Ah… E só tem essas máquinas no céu?

— Nãaao… Tem máquina de fazer bicho, de esquentar o sol, de tudo.

Deve ser legal, o céu.

Evilázio

Evilázio era o nome do meu tio. É o tipo do nome que ninguém mais dá aos filhos. Eu o chamava de Vilau quando era pequeno. Meus irmãos e os primos chamavam de Lalau. Depois de grande, passamos a chamá-lo como todo mundo: Vilazo.

O Vilazo usava sabonete Phebo, tomava água de moringa em caneca de alumínio, teve um jipe Willys, gostava de pescar — tudo coisa que eu imitei (o jipe eu ainda vou ter). Vendeu galinha a vida toda, dirigiu muito caminhão de galinha Brasil afora. Lembro de umas duas ocasiões em que ele trouxe tatu de uma viagem. A gente passava o sábado brincando com o tatu, se afeiçoava ao bicho, e no domingo ele ia pra panela. A gente comia, que jeito? O Vilazo andava pelo mato, via um riacho, via o mar e dizia: “Dá pena a gente morrer e deixar tanta coisa bonita pra trás”.

Talvez tenham sido as galinhas o vetor do fungo que matou meu tio. Meningite fúngica é coisa muito rara, e quando acontece é com pacientes de HIV. Ele não tinha HIV, nem câncer, nem nada. Mas teve a meningite, ficou quase três meses no hospital. Melhorou, piorou, fez uma cirurgia de altíssimo risco, sobreviveu a ela, vinha melhorando. Morreu ontem de madrugada, nove dias depois do meu pai.

Dói. Eu não entendo.

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