Carência
Eu volto, juro que volto. Por enquanto, comentem esse post da Daniela. Tá carente, tadinha.
Eu volto, juro que volto. Por enquanto, comentem esse post da Daniela. Tá carente, tadinha.
Atrasado para o trabalho, trânsito recorde em São Paulo, sem café-da-manhã. Eu já estava fodido mesmo, e resolvi que seria melhor para meu humor parar em um lugar qualquer e comer minha refeição matinal predileta: misto quente e suco de laranja. Parei num boteco perdido na Mooca, numa paralela da Radial Leste, e quase dei meia-volta. O lugar era escuro e sujo, as donas eram meio assustadoras. Mas eu tinha fome, então fiz meu pedido. Má notícia: a chapa estava quebrada. Pedi uma coxinha feita na Copa de 2002 e um guaraná.
Enquanto comia (e pensava no estrago que aquela gororoba faria em minhas vísceras), observava uma das donas do boteco, que segurava um bebê no colo. O moleque tinha pedido maçã, lambido a fruta e não queria mais, então a mãe botou a maçã de volta na prateleira de frutas. Que beleza.
— Pediu tanto e agora não vai comer.
— Esse menino tá com quebrante — disse a que havia me servido.
— Eu também acho. Mas não tem nenhuma benzedeira por aqui.
— Ele está com esse olho triste, sei não. Melhor colocar uma fitinha vermelha no braço.
Olhei para a rua de paralelepípedos e fiquei esperando uma carruagem passar lá fora. Um Corolla me trouxe de volta à realidade: eu estava no século XXI, elas duas estavam erradas.
Meu primeiro pensamento foi de revolta. Aquele bebê (um ano de idade, no máximo) tinha algum problema, e elas queriam resolvê-lo com uma fita vermelha, já que não havia benzedeira disponível. Minha vontade era seqüestrar o moleque e levá-lo a um pediatra.
E então pensei melhor. Lembrei de uma ocasião na minha infância, uma crise de bronquite, uma cruz de metal gelado contra as costas, uma velha que murmurava rezas. Eu estava assustado, mas também aliviado. Em comparação com as injeções a que eu estava habituado, aquilo era um tratamento bastante agradável. Depois dos oito anos de idade, a bronquite sumiu.
Os pais e mães de hoje em dia são uns paranóicos, essa é que é a verdade. Uma tosse, um espirro, uma febrezinha, qualquer coisa é motivo para corridas ao médico. E tome-lhe antibiótico, antitérmico, analgésico, o capeta. Essa nova geração é um imenso laboratório de superbactérias e dores incuráveis: o uso indiscriminado de remédios causa microorganismos mais resistentes, que exigem medicamentos mais poderosos, e assim vai o ciclo.
O que é, então, mais perigoso: a ignorância inofensiva ou a informação paranóica? Eu sei lá. Só sei que amanhã levo uma fitinha vermelha pro moleque.
Obrigado a todos que fizeram comentários encorajadores, e principalmente àqueles que deram sugestões de melhora. Acatei algumas, ignorei outras, seguindo critérios totalmente idiossincráticos. Mr. Isaac Marion citou a tradução aqui e, de quebra, nos brinda com outro excelente texto.
O Isaac me disse que ninguém precisa pedir autorização: ele quer mais é que todo mundo leia o que ele escreve, então todo mundo pode reproduzir os textos, no original ou traduzidos, na íntegra ou aos pedaços, desde que o autor seja citado. Aliás, eu traduziria essa última história, se conseguisse pensar num jeito de traduzir o título. Se alguém se habilitar…
Como prometido, segue a tradução da história do zumbi. Meu inglês é aquela coisa lamentável, então aceito sugestões para melhorar o trabalho.
(Isaac, thank you very much for your support. My translation doesn’t make justice to the original text but, like I told you, I just needed to share it. It’s a great tale, and I envy you forever)
Eu sou um zumbi apaixonadoPor Isaac Marion
Eu sou um zumbi, e isso nem é tão ruim. Estou aprendendo a conviver com o fato. Desculpe se não me apresento direito, mas é que eu não tenho mais nome. Duvido que algum de nós tenha. Nós os esquecemos, assim como aniversários e senhas do banco. Eu acho que o meu começava com “T”, mas não tenho certeza. É engraçado, porque quando eu estava vivo, estava sempre esquecendo o nome das outras pessoas. Estou descobrindo que a vida de zumbi é farta de ironias, uma piada onipresente. Mas é difícil rir quando seus lábios já apodreceram.
Antes de me tornar um zumbi, eu acho que era um executivo, ou algum tipo de jovem profissional. Acho que eu trabalhava em um daqueles empregos de escritório sufocantes em algum arranha-céu sei lá onde. As roupas dependuradas nos restos do meu corpo são de boa qualidade. Belas calças de gabardine, camisa de seda prateada, gravata Armani vermelha. Eu provavelmente pareceria bem distinto, não fossem meus intestinos se arrastando no chão. Rá!
Nós gostamos de brincar e especular sobre o que restou de nossas roupas, já que essas últimas escolhas de moda são quase sempre a única pista de quem nós éramos antes de nos tornarmos ninguém. Alguns são menos óbvios do que eu. Calça jeans e camiseta branca. Saia e regata. Então fazemos palpites aleatórios.
Você era um encanador. Você era uma barista. Lembra alguma coisa?
Geralmente não lembram.
Ninguém que eu conheça tem memórias específicas. Reconhecemos algumas coisas — prédios, carros, gravatas — mas o contexto nos escapa. Estamos aqui, Fazemos o que fazemos. Nossa dicção não é lá essas coisas, mas podemos nos comunicar. Nós rosnamos e resmungamos, fazemos gestos com as mãos, e de vez em quando umas palavras escapam. Não é tão diferente de como era antes.
Há algumas centenas de nós vivendo em uma grande planície de poeira perto de uma grande cidade. Não precisamos de abrigo ou calor, obviamente. Ficamos em pé na poeira, e o tempo passa. Acho que estamos aqui há um bom tempo. Mesmo arrastando minhas entranhas, eu estou nos primeiros estágios de decomposição, mas há alguns mais velhos por aqui que são pouco mais do que esqueletos com uns fiapos de músculo dependurados. De alguma forma, os músculos ainda se extendem e se contraem, e eles continuam a se mover. Nunca vi nenhum de nós “morrer” de velhice. Talvez nós vivamos para sempre, não sei. Eu já não penso muito no futuro. Isso é algo que é muito diferente de como era antes. Quando eu estava vivo, só pensava no futuro. Vivia obcecado com isso. A morte me fez relaxar.
Mas me entristece termos esquecido nossos nomes. De tudo, isso parece ser o mais trágico. Eu não sinto falta do meu, mas lamento pelos dos outros, porque eu quero amá-los, mas não sei quem eles são.
Hoje alguns de nós iremos para a cidade para buscar comida. A expedição começa quando um de nós fica com fome e começa a arrastar os pés na direção da cidade, e alguns outros o seguem. Pensamento com foco é uma ocorrência rara entre nós, e quando vemos alguém se esforçando para isso, seguimos. De outro modo, ficaríamos só parados rosnando. Ficamos um tempão parados rosnando, o que às vezes é frustrante. Os anos passam desse jeito. A carne murcha sobre nossos ossos, e nós ficamos parados, esperando. Fico pensando em qual deve ser a minha idade.
A cidade onde as pessoas moram não é muito longe. Nós chegamos pelo meio-dia e começamos a procurar por carne fresca. O novo tipo de fome é uma sensação estranha. Você não a sente no estômago — claro que não, já que alguns de nós nem têm estômago. Você a sente… por todo lado. Você começa a se sentir “mais morto”. Eu já vi alguns de meus amigos voltarem à morte total quando a comida é escassa. Eles vão ficando mais lentos, param, e se tornam cadáveres de novo. Eu não entendo nada.
Acho que a maior parte do mundo já era, porque as cidades por onde vagamos estão se desintegrando tão rapidamente quanto nós. Carros quebrados, enferrujados, enchem as ruas. O que era de vidro se espatifou. Não sei se houve uma guerra, ou uma peste, ou se fomos apenas nós. Talvez tenham sido as três coisas. Não sei. Não penso mais sobre coisas assim.
Encontramos algumas pessoas em um conjunto de prédios de apartamentos arruinados, e as comemos. Algumas delas têm armas e, como sempre, temos algumas baixas, mas não nos importamos. Por que nos importaríamos? O que é a morte, agora?
Comer não é uma coisa agradável. Eu arranco o braço de um homem a mordidas e odeio isso, é nojento. Eu odeio os gritos dele, porque não gosto de dor, não gosto de machucar ninguém, mas isto é o mundo agora, isto é o que nós fazemos. Eu não o como todo, é claro, se eu deixar sobrar o bastante, ele vai se levantar e me acompanhar até nosso campo de terra fora da cidade, e isso pode me fazer sentir melhor. Eu o apresentarei a todos, e talvez fiquemos de pé resmungando por um tempo. É difícil definir o que sejam “amigos”, mas talvez isso se aproxime. Se eu não comê-lo inteiro, se eu deixar sobrar o bastante…
Mas é claro que eu não deixo sobrar o bastante. Eu como o cérebro dele, porque é a melhor parte. É a parte que, quando engolida, faz minha cabeça se iluminar com sensações. Memórias claras. De três a dez segundos, dependendo da pessoa, eu consigo me sentir vivo. Eu distingo traços de refeições deliciosas, belas canções, perfumes, crepúsculos, orgasmos, vida. E então tudo se dissolve, eu me levanto e vou tropeçando para fora da cidade, ainda morto, mas sentindo como se o fosse um pouco menos. Me sentindo bem.
Eu não sei porque temos que comer gente. Eu não entendo que graça tem mastigar o pescoço de alguém. Nós certamente não digerimos a carne nem absorvemos os nutrientes. Meu estômago é uma bolsa podre e inútil de bile seca. Nós não digerimos, apenas comemos até que a gravidade force tudo para fora do cu, então comemos mais. Parece tão inútil, e ainda assim é o que nos mantém andando. Eu não sei por quê. Nenhum de nós entende de verdade por que somos do jeito que somos. Não sabemos se somos o resultado de algum tipo de infecção global, ou alguma maldição antiga, ou algo ainda mais sem sentido. Nós não falamos muito sobre isso. Debate existencial não é uma parte importante da vida de zumbi. Nós estamos aqui, e fazemos coisas. Nós somos simples. É legal, às vezes.
Outra vez fora da cidade, de volta com os outros ao campo de terra, eu começo a andar em círculos sem motivo. Eu finco um pé na terra e giro em volta dele, rodando e rodando, levantando nuvens de poeira. Antes, quando estava vivo, eu nunca poderia fazer isso. Eu lembro da tensão. Eu lembro das contas e prazos, formulários de declaração de renda. Lembro de viver tão ocupado, sempre, em todo lugar, o tempo todo, tão ocupado. Agora estou apenas num campo de poeira a céu aberto, andando em círculos. O mundo foi simplificado. Ser morto é fácil.
Depois de uns dias, eu paro de andar, e fico parado em pé, balançando para frente e para trás e rosnando um pouco. Eu não sei porque rosno. Não sinto dor, nem tristeza. Acho que é só o ar sendo espremido para dentro e para fora de meus pulmões. Quando meus pulmões se decompuserem, isso provavelmente vai parar. E agora, enquanto balanço e rosno, precebo uma mulher morta a uns metros de mim, olhando para as montanhas distantes. Ela não balança nem rosna, só fica com a cabeça pendulando de um lado para outro. Eu gosto disso nela, dela não balançar nem rosnar. Eu me aproximo e fico parado a seu lado. Eu cicio algo que lembra um cumprimento, que ela responde com um espasmo de ombro.
Eu gosto dela. Eu estendo a mão e toco seu cabelo. Ela não está morta há muito tempo. A pele dela é cinza e seus olhos estão um pouco fundos, mas ela não tem ossos nem órgãos expostos. A roupa dela é uma saia preta e uma blusa justa de abotoar. Eu suspeito que ela era uma garçonete.
Preso ao peito dela há um crachá prateado.
Eu consigo ler o nome dela. Ela tem um nome.
O nome dela é Emily.
Eu aponto para o peito dela. Lentamente, com muito esforço, eu digo, “Em… ily”. A palavra escorrega para fora do que sobrou da minha língua como se fosse mel. Que belo nome. Eu me sinto bem só de pronunciá-lo.
Os olhos embaçados de Emily se arregalam em reação ao som, e ela sorri. Eu sorrio também, e acho que fico um pouco nervoso, porque meu fêmur se quebra e eu caio de costas na poeira. Emily apenas ri, e é um som engasgado, brusco, adorável. Ela estende a mão e me ajuda a levantar.
Emily e eu nos apaixonamos.
Não sei bem como isso acontece. Eu lembro de como o amor era antes, e isso é diferente. É mais simples. Antes, havia fatores emocionais e biológicos complicados envolvidos. Nós tínhamos longas listas de coisas a fazer e testes elaborados para passar. Prestávamos atenção em penteados e carreiras e tamanhos de peitos. E havia o sexo, em tudo, confundindo todo mundo, que nem a fome. Ele criava saudade, ele criava ambição, competição, ele levava pessoas a deixarem suas casas e inventarem automóveis, naves espaciais e bomba atômicas, quando podiam, em vez disso, ficar sentadas no sofá até morrerem. Paixões animalescas. Necessidades inconscientes. O sexo fazia o mundo girar.
Isso tudo já era. O sexo, antes uma força tão universal quanto a gravidade, agora é irrelevante. Ambição e saudade não são mais parte da equação. Meu pênis caiu há duas semanas.
Então a equação foi excluída, o quadro-negro apagado, e as coisas são diferentes agora. Nossas ações não têm motivos subjacentes. Nós arrastamos os pés pela poeira e ocasionalmente trocamos palavras rosnadas, pesadas, com nossos companheiros. Ninguém discute. Não há brigas, nunca.
E o lance com Emily não é complicado. Eu apenas a vejo, e me aproximo e, por razão nenhuma, mesmo, eu decido que quero estar com ela por muito tempo. Então agora nós arrastamos os pés na poeira juntos, não mais sozinhos. Sei lá por quê, gostamos da companhia um do outro. Quando precisamos ir à cidade para comer gente, nós o fazemos em horas diferentes, porque é desagradável, e não queremos compartilhar isso. Mas compartilhamos todo o resto, e é bom.
Nós decidimos andar até as montanhas. Levamos três dias, mas agora estamos em pé em um penhasco olhando a lua branca e gorda. Às nossas costas, o céu da noite está vermelho por causa de cidades distantes queimando, mas não ligamos para isso. Desajeitadamente, eu agarro a mão de Emily, e nós olhamos a lua.
Não há um motivo real para nada disso mas, como eu disse, o mundo foi simplificado. O amor foi simplificado. Tudo é fácil agora. Ontem minha perna caiu, e eu nem liguei.
Há quem diga que, por conter tantas culturas e identidades diferentes, São Paulo é uma cidade sem identidade. Pura bobagem. Tudo bem, é verdade que não há comida típica paulistana, nem música popular paulistana, nem folclore paulistano. Mas há — e isso ninguém pode nos tirar — um comportamento profundamente arraigado entre os habitantes de São Paulo, e que pode ser considerado a grande característica comum: o ato de tirar catota no trânsito.
Se você que lê estas linhas está agora ao volante, solicito encarecidamente que PARE DE LER e preste atenção na porra do trânsito. Caso contrário, peço que dê uma ol
hada para o lado da próxima vez que parar num semáforo. Arrisco dizer que há sete ou oito chances em dez de que seu vizinho de trânsito esteja com pelo menos a falangeta dentro de pelo menos uma narina. Uma colega gaúcha diz que os catoteiros foram seu maior choque ao trocar as ruas de Porto Alegre pelas da terra da garoa. Certa feita, disse a um sujeito de Nova Iorque que o povo de São Paulo era adepto do nose picking. Ele disse que isso era louvável. Só depois, quando o cara já tinha voltado para a civilização, me dei conta de que, graças à minha pronúncia maravilhosa, ele tinha entendido no speaking. Deve estar até hoje contando aos amigos sobre a admirável introspecção dos paulistanos.
Muito bem, alguns podem dizer, torcendo (ou cutucando) o nariz, que a sondagem dígito-nasal não é privilégio exclusivo dos paulistanos. É verdade. Mas pessoas de outras plagas são mais discretas: retiram-se da vista alheia para praticar o ato, ou pelo menos o fazem disfarçadamente, aproveitam aquela coçadinha no nariz e tal. Os motoristas paulistanos, por sua vez, catoteiam com empáfia, quase com orgulho. Deve ter alguma coisa a ver com a poluição, é verdade. Imagine a quantidade de fuligem que nos entra pelas narinas após uma hora e meia de tráfego intenso na Marginal Tietê. Aquela sujeira toda irrita as vias respiratórias, se mistura com o muco nasal e… Bom, acho que não preciso explicar em detalhes.
Não podemos, no entanto, botar a culpa somente no ar imundo da cidade. Eu diria que a causa maior é a relação que o paulistano tem com o carro. Para nós, o automóvel não é só um meio de transporte: é extensão de nosso lar, é nosso domínio, nosso habitat, nosso reino sobre quatro rodas. Sentimo-nos totalmente à vontade dentro de nossas máquinas: cantamos, batucamos no painel, falamos sozinhos, soltamos gases e — claro — catamos catota. O interior do carro nos dá a ilusão de privacidade, e é muito fácil esquecer que estamos cercados por vidro translúcido.
E assim, à vontade, vão os paulistanos catoteando pela vida. Uns são recicladores conscientes, e tratam de consumir imediatamente tudo o que tiram do nariz. Outros têm vocação para decorador, e distribuem suas catotas em belos padrões pelo painel do carro, no volante, no teto. Há aqueles que são tímidos e escondem seu produto sob o banco (se as lojas de carros usados dessem 10 reais de desconto por catota encontrada sob o banco do motorista, estariam todas falidas). Existem também aqueles desapegados, que se desfazem de suas bolinhas com um jeitoso piparote. E nem olham para trás.
Já prevejo a reação de alguns cidadãos indignados da metrópole, prontos a me atirarem pedras (ou catotas). Antes que o façam, porém, peço que reflitam por um momento. Finalmente nós, os paulistanos (que somos baianos, paranaenses, japoneses, portugueses, italianos, lituanos, coreanos, judeus, acreanos, libaneses), temos algo que nos une. Isso há de valer alguma coisa, não?
Esse texto foi originalmente publicado no Pândega, blog daquele projeto.
Não, minha vida não se resume a fazer a barba, embora o assunto tenha virado obsessão. Além de arriscar a vida com uma lâmina no pescoço, tenho dedicado meu tempo livre à tradução desse texto. O autor, Isaac Marion, não só me autorizou, como ficou feliz de saber que uma história dele terá versão em outro idioma. Quando terminar, publico aqui. Se você lê inglês, porém, aconselho a ir lá e ler o original. Aliás, leia o blog todo e outras histórias do sujeito. Tudo muito bom.
Opa! Vários leitores interessados no barbear clássico. Pois bem, achei esse produto à venda no Mercado Livre. O vendedor tem boa reputação, o produto é novo, feito na China (de quebra, descobri que meu Flying Eagle é de uma marca tradicional chinesa, e tem reputação de agressivo. Ou seja, não me cortei apenas por conta da falta de coordenação motora). Apesar de anunciado como Gillette, descobri que se trata de um aparelho da marca Weishi. Andei pesquisando, e parece ser um aparelho ideal para iniciantes: não muito agressivo e parecido com o clássico Gillette Super Speed. Já reservei o meu. Vão lá, e pesquisem outros modelos também.
Quem estiver a fim de vôos mais altos, pode procurar por “safety razor” no eBay (tem alguns Parker bem bonitos, além de algumas relíquias) e na Amazon (procure pelos Merkur — esse, esse, esse). Se escolher comprar na Amazon, aproveite para encomendar uma caixa de lâminas também, que é bem baratinha. Caso queira fazer a festa completa, aproveite para comprar sabão ou creme, pincel, caneca. Acreditem, vale a pena.
Muito bem. Então eu anuncio ao mundo todo que vou ali manusear um instrumento cortante, digo que volto já, demoro dois dias e ninguém demonstra um PINGO de preocupação? Putos de merda!
Sim, sobrevivi, muito obrigado. Já fiz a barba duas vezes com o aparelho novo, não me cortei nenhuma vez e desde os 10 anos de idade eu não sentia a cara tão lisa. E agora entendo porque os homens de minha geração têm tanta preguiça de se barbear, enquanto nossos pais e avós o faziam todos os dias. Para nós, com nossos Mach 3 de lâminas caríssimas, o ato de raspar a barba é algo automático, que fazemos sem pensar, como obrigação. Até duas semanas atrás eu me barbeava no chuveiro, de qualquer jeito, sem espelho, deixando sobras de barba por toda a cara.
Em um dos sites que encontrei em minha busca pelo barbear perfeito, li algo que me pareceu exagerado: o autor falava em obsessão pelo ato de fazer a barba após adquirir um safety razor. Depois de experimentar a sensação, sou obrigado a concordar: com os apetrechos adequados, o barbear torna-se um ritual prazeroso. Você se concentra no que está fazendo, mesmo porque pode amputar o nariz ou uma orelha em caso contrário. O som da lâmina deslizando, a textura do creme, o batuque do pincel na caneca de ágata, tudo forma uma experiência muito mais agradável do que espalhar um gel safado pela cara e raspar tudo de qualquer jeito com um pedaço de plástico vagabundo e caro.
Convido os leitores (e as leitoras que tiverem barba, coitadas) a engavetarem por uma semana aquele aparelho de sempre e tentar aprender a se barbear como homens (ou mulheres de circo). Garanto que o Mach 3 vai ganhar teias de aranha. Ou por falta de uso, ou pela morte do dono.
Stumbla daqui, stumbla dali, acabei encontrando esse post do blog The Art of Manliness. O texto fala sobre a arte de se barbear usando aqueles aparelhos antigos, feitos de metal e com uma lâmina só. O autor compara a troca de um Mach 3 por um safety razor à diferença entre um Pinto (o carro, não isso aí) e uma Mercedes. “É legal segurar um pedaço de metal robusto e pesado ao se barbear, em vez de um plástico barato”, ele diz. “Um safety razor é uma máquina“, ele afirma.
Bem, a descoberta foi há pouco mais de uma semana, e a partir de então eu só pensava em uma coisa: arrumar um barbeador clássico para finalmente me sentir como um homem. Procurei no Mercado Livre, mas só achei coisas velhas, enferrujadas. No eBay, dei mais sorte: encontrei por lá uns belos aparelhos da Parker e da Gillette. Depois, ao ler o artigo com mais atenção, vi que o autor recomendava uma marca específica, Merkur, que tinha seus produtos à venda na Amazon. Fui conhecer os aparelhos e ler os depoimentos dos compradores, e acabei de me convencer — principalmente depois de ver esse aparelho — da necessidade de fazer a barba como meu avô fazia.
Estava ainda tentando escolher o barbeador que me acompanharia pelo resto da vida, quando veio em minha salvação a sempre providencial namorada. Expliquei a história toda a ela, que a princípio não gostou muito da idéia.
— Você vai se cortar todo — ela disse.
Mas eu sou teimoso, e ela acabou aceitando a idéia. No dia seguinte, me deu uma excelente notícia: havia encontrado um aparelho “de velho” em casa. Era um brinde que nunca havia sido usado e vinha num estojinho muito do bonitinho. Perguntou se eu queria e eu, comovido, disse que sim, claro. Então ela me revelou uma observação feita por minha sogra ao encontrar o aparelho:
— Ele vai se matar com isso…
Eu não sei de onde vem essa falta de confiança na minha habilidade e coordenação motora. Eu me corto com Mach 3? Sim, me corto. Eu me corto com Prestobarba? Ok, é verdade. Mas isso lá é motivo para pensar que um homem vá se ferir seriamente com o simples ato de se barbear usando um aparelho em que a lâmina entra em contato direto com a pele? Sei lá! Só sei que, no último sábado, Ana Carlota me entregou (com uma admoestação, “Se você usar isso para raspar a cabeça, está tudo acabado!”) essa belezinha:
Ah, meus amigos, que alegria! Eu já estava com uma barba de dois ou três dias, e corri para testar o brinquedo novo. Minutos depois, voltei para a sala assim:
Tá, me cortei um pouquinho. Ou mais. Sangrou bastante. Eu achei que nunca fosse estancar o sangue. “Me matei”, eu pensei enquanto jogava água fria na cara e tentava conter o sangue com pedaços de papel higiênico.
Apesar do susto, valeu a pena. Quando finalmente tirei os curativos improvisados e criei coragem para passar a loção pós-barba, reparei na qualidade do barbear. Pela primeira vez desde a adolescência eu tinha o rosto liso e sem pêlos encravados. Pensei em fazer um upgrade para a navalha, mas minha mãe e minha namorada berraram de horror. Tudo bem, a navalha fica para outro dia.
Na segunda-feira eu resolvi tentar novamente, e dessa vez me cortei bem menos e só perdi um pouquinho de sangue. Hoje eu arranjei tempo para pesquisar um pouco mais sobre o barbear clássico e aprendi algumas coisas importantes. Por exemplo: a lâmina deve ser usada como foice e não como enxada. O cabo deve formar um ângulo de 30º em relação à perpendicular do rosto. O pincel deve estar umedecido com água quente. E mais, muito mais.
Agora vocês me dêem licença, que eu vou ali fazer a barba do jeito certo, feito macho. Depois eu volto para contar como foi. Se não voltar, avisem minha família.