Hoje eu fui ao Masp
Há quem pense que eu não ligo pra cultura. Nada mais longe da verdade. Como prova disso, fui ao Masp hoje. O prédio do Museu de Arte Moderna de São Paulo foi inaugurado em 1947 na Avenida Paulista. É famoso por seu vão livre de 74 metros. Nos fins-de-semana, dezenas de pessoas saem de todos os cantos da cidade para se reunir nesse vão livre e praticar uma atividade cultural da maior importância: a troca de figurinhas da Copa do Mundo. Dizem que dentro daquele bloco de concreto que fica em cima do vão tem uns negócio de arte também, mas não sei. Eu fui lá pra trocar figurinha mesmo.
Saí de casa com a missão de encontrar as 76 figurinhas que me faltavam e reduzir o bolo de 130 repetidas. Marquei com uma amiga japonesa (amigas japonesas são indispensáveis nessas ocasiões) e fui para lá meio avexado: não queria parecer muito nerd. Cheguei ao vão do Masp, encontrei a japa e uma multidão. Sentada no chão, a japa já trocava suas figurinhas com uma dupla de rapazes. Logo uma moça juntou-se ao grupo. Depois de cinco minutos sentado no chão, parei de sentir o pé direito. Mas pelo menos não estava mais constrangido, e mais ainda ao ver um outro grupo que tinha ido lá para brincar com espadas de isopor e papelão. Eram adolescentes e levavam muito a sério seus duelos. Olhando para eles, vi que eu não era nada nerd.
(Só depois pensei que eles devem ter olhado para mim, um gordo careca de 35 anos trocando figurinhas numa tarde de sábado, e pensado a mesma coisa.)
A japonesa precisou ir embora logo, então fiquei entregue à minha própria sorte. Me levantei e fui até a mureta para sentar direito e marcar as figurinhas que já tinha trocado. Depois disso, percebi que nem precisava procurar muito. Era só segurar o bolinho de figurinhas na mão, olhar em volta e esperar. Logo alguém vinha, “Tem figurinha pra trocar?”, e começava mais uma negociação. Vi todo tipo de gente. Um garoto de seus 4 ou 5 anos pegou com o pai a pilha com umas 300 figurinhas repetidas e começou a me mostrar uma por uma.
— Cê tem essa? — e me mostrava a foto do jogador.
— Sei lá! Deixa eu ver o número… Hum… Já tenho.
— E essa?
— Xeu ver… Já tenho
E ficamos nisso por um bom tempo, até ele me mostrar uma que eu não tinha. O pai, muito jovem, se desesperava ao ver o moleque tirar as figurinhas da ordem numérica. No final, pai e filho ficaram com quatro figurinhas minhas e eu peguei quatro deles. Antes de terminar, outros já esperavam do lado para negociar também. Um senhor de uns 65 a 70 anos de idade veio com a esposa e dois bolinhos de figurinhas. Um era do neto, eu acho. O outro era do casal. “Essa aí é do nosso ou do fulano?” Vi um rapaz magrinho sentado num canto e fui ver o que ele tinha. Era muito arredio, não me deixou tocar nas figurinhas dele: em vez disso, me pediu para ler os números que ainda não tinha. Ele tinha quatro figurinhas de que eu precisava. Agradeci e estendi a mão para cumprimentá-lo. Ele estranhou, eu acho.
Conforme fui trocando as figurinhas, foi ficando mais difícil achar as que faltavam. Começou a chover, e um pessoal chegou para montar as barracas da feirinha do Masp. Saí, fui jantar, depois vim pra casa. Agora só me faltam seis figurinhas. Aliás, se alguém as tiver e quiser trocar com alguma das minhas repetidas, dê uma olhada e me avise. As que me faltam:
85 – 144 – 201 – 315 – 403 – 583
Vou ver se no próximo sábado eu vou a outro encontro de troca de figurinhas. Talvez não no Masp. Estou muito velho para ficar horas sentado no chão, em muretas e outros lugares desconfortáveis. Há quem diga que eu estou muito velho pra colecionar figurinha também, mas eu quero é que se foda.
* * *
No meio dessa zona toda, encontrei um leitor do blog, Emanuel. Disse que lia o JMC desde o tempo em que ele era preto e vermelho amarelo (o blog, não o Emanuel). Os leitores deste blog freqüentam os piores lugares, credo.
De volta às trevas
Em fevereiro deste ano, o Google resolveu inventar moda de novo. A Gringolândia tem lá seu plano nacional de banda larga. O Google resolveu palpitar nesse plano de um jeito bem legal: vai construir e testar uma rede de fibra óptica em algumas cidades que se inscreveram no projeto. O negócio é levar a fibra até a casa do usuário com banda de 1Gbps, e os provedores de serviço que se virem para decidir o que vão vender. Com tanta banda, dá pra colocar internet muito rápida, televisão, telefonia e o que mais o cara imaginar.
Fibra óptica é das coisas mais legais que já inventaram. Não tem nada de mais: é um tubo de vidro esticado até ficar bem fininho. Com vários tubinhos desses juntos e encapados, faz-se um cabo de fibra óptica. Esse cabo transmite dados na forma de pulsos de luz. É um negócio resistente, relativamente barato, eficiente. E serve para levar dados de um lado para outro.
Aqui no Brasil a gente demorou para conhecer as maravilhas da fibra óptica. Até o meio da década de 90, as telecomunicações estavam nas mãos gordurentas do Estado. Eu era estagiário da Telesp em 1993 e entrei numa central telefônica uma vez. Ficava no subsolo e você tinha de usar um protetor de orelha para entrar lá. A central chaveava todas as ligações dos bairros do Ipiranga, Liberdade, Cambuci e outros que não lembro mais. Cada ligação feita nesses bairros chegava à central por fios de cobre e fazia aquele tec-tec-tec de telefone de disco. Coisa da Idade das Trevas do estatismo, do Sistema Telebrás que vocês, jovens, tiveram a sorte de não conhecer.
Veio a privatização, hoje tem fibra óptica por todo canto. Só que as empresas são malandras: vendem pra gente pacotes de internet + TV por assinatura + telefone como se fossem necessariamente três coisas diferentes. Pois não são, ué. Tudo isso é informação. Com largura de banda suficiente, dá pra trafegar esses bits todos na mesma fibra óptica e vender como uma coisa só.
Daí vai que o governo brasileiro anunciou agora o Plano Nacional de Banda Larga. E quem foi que apareceu aí no meio? A Telebrás, que era a guardiã da Idade das Trevas, e que todo mundo achava que já tinha morrido. Eu achava também. Até o final de 2008, quando o povo da redação da revista onde eu trabalhava descobriu uma alta absurda nas ações da Telebrás. Não conseguimos levantar nada na época. Parece que essas ações já subiram 22.000% desde que o Lula assumiu; quem tinha mil reais em ações da Telebrás na época pode vender tudo por 220 mil hoje e comprar uma casa. E agora ficou claro o porquê: segundo o tal plano, é a Telebrás que vai coordenar o negócio todo.
O governo diz que quer levar banda larga pra todo mundo, quadruplicar o acesso até 2014. Acontece que fibra óptica é que nem partido político: aceita qualquer coisa. Uma rede estatal de telecomunicações espalhada pelo Brasil com preço subsidiado. Sei não, sei não… Nada impede serviços de voz e TV por assinatura de trafegar por essa rede. O ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, está todo empolgadinho com o projeto. Vi ele falando hoje na televisão; só faltou revirar os olhinhos. E falou um troço interessante hoje: “se a iniciativa privada tiver condição de fazer a última milha e fizer isso bem conectado com o nosso plano, com os incentivos do governo, ótimo. Se não fizer, nós vamos dar um jeito de fazer”. Olha aí o pensamento da Idade das Trevas.
Dia desses o Lula falou a mesma coisa da hidrelétrica de Belo Monte: “se as empreiteiras não fizerem, eu faço”, ou algo assim. A cada dia que passa, sinto mais forte um cheiro de repartição pública no ar, um futum de naftalina. É o Estado botando as manguinhas de fora, e não tem um Google que venha nos salvar.
Marco Aurélio Gois dos Santos | 5 de May de 2010 | 22:19 | 10 comentários
Tem coisas que eu sei mas não aprendo
Calma. Já explico.
Eu sei, por exemplo, que quando eu tenho mais certeza do que falo é justamente quando estou errado. Eu, sabendo disso, já devia ter aprendido a suspeitar dessas ocasiões. Mas não. Tem um Marcurélio perfeitinho e chato dentro da minha cabeça, que fica o tempo todo me criticando. Acho que é o que os psicoisas chamam de superego. Pois esse Marcurélio bonzão aí, que nunca me dá um segundo de sossego, resolve tirar um ronco nessas horas. Aí eu bato no peito, cheio de razão, até que algo prove o contrário. Algo prova o contrário sempre, e eu ouço um fuén-fuén-fuéeeeeeeeeeein na minha cabeça.
Passei por isso no fim-de-semana. Estava arrumando aqui minha mesa e achei perdida no meio da bagunça uma conta de 360 reais já vencida e intacta (eu bem que estava estranhando aqueles 400 reais dando sopa na minha conta). Entrei no site do Santander para pagar a maldita. Digitei lá os numerinhos de agência e conta e, em vez de aparecer meu nome de usuário na tela, apareceu a palavra “Usuário”. Acima dela, a seguinte mensagem:
Importante
Clique no seu nome. Se não estiver correto não continue e entre em contato
Então o que eu fiz? Continuei, claro. Cliquei no “Usuário” e apareceu uma outra tela com aquele tecladinho que tem no site dos bancos pra gente digitar a senha. Só que o tecladinho não era o mesmo de sempre. O atual é um teclado completo, com letras, números, beregudegos. O que apareceu era uma coisinha chinfrim, só com números, que o banco usava antigamente. Então o que eu fiz? Eu, que trabalhei 13 anos na área de informática, que fui consultor de segurança da informação na PricewaterhouseCoopers, que em cinco anos como jornalista escrevi incontáveis matérias alertando para as armadilhas que nego apronta pra roubar o dinheiro do leitor? O que eu, esse mestre em segurança, fiz?
Digitei a senha, claro.
Entrou outra tela, essa pedindo o número de identificação do meu cartão de senhas. Só aí me veio à mente o único pensamento inteligente do dia: “epa”. Então liguei para o banco pra reclamar.
Uma moça muito simpática me atendeu. Bruna, acho. Sei lá, e também nem importa, acho que esse povo nem usa o nome de verdade. Fica sendo Bruna, então. Expliquei pra Bruna o que estava acontecendo e perguntei se tinham mudado o sistema de internet banking. Ela pediu um minutinho, depois voltou, confirmou uns dados, pediu outro minutinho, fez barulhos de teclado e voltou com o diagnóstico:
— Senhor Marco, o seu computador está com vírus.
E foi aí que entrou o dono da razão. Especialista em segurança, ex-jornalista etc.
— Meu computador não está com vírus nenhum.
— O senhor passou um antivírus?
— Eu sei que não tem vírus nenhum. Eu trabalho com isso.
(“Uuui, santa! Mentindo na cara-dura!” — era o Marcurélio Bonzão acordando.)
— Pela situação que o senhor me descreveu, tudo indica um ataque de vírus. O banco recomenda que o senhor leia a cartilha de segurança que está no site.
— Eu não vou ler cartilha nenhuma! Eu conheço o assunto!
E aí expliquei pra ela que meu computador tem firewall, antivírus e anti-spyware atualizados, que eu não clico em links suspeitos de e-mails que prometem aumentar meu saldo bancário e meu pinto — embora fique muito tentado nos dois casos. Só não disse que meu firewall era aquele do Windows e que meu antivírus/anti-spyware era o Microsoft Security Essentials.
— Senhor Marco, é vírus…
— Não é! Espera aí, que eu vou tentar acessar de outro computador.
Fui até o Mac de Ana Cartola, pelejei um tanto pra lidar com o bicho, entrei no site do banco e digitei meus dados. Na tela seguinte, meu nome apareceu. Cliquei nele e lá veio o tecladão normal.
Fuén-fuén-fuéeeeeeeeeeein
Olhei para o telefone. Do outro lado, a Bruna esperava minha resposta. Então eu fiz o que qualquer homem maduro e honrado faria nessa hora: desliguei o telefone.
Dois segundos depois, o telefone toca. Atendo, é a Bruna.
— Boa tarde. O Sr. Marco Aurélio, por favor.
— Er… Sou eu?
— Sr. Marco, é a Bruna, do atendimento Santander.
— Oi, Bruna! Já estava ligando de novo. A linha caiu.
— Caiu, né?
Nessa hora meu tom de voz já era outro, claro. E o da Bruna também: mais seco, superior.
— Olha, Bruna, eu acessei aqui do Mac da minha esposa e entrou normalmente. Acho que o meu PC pode estar com um problema mesmo.
— Bom. O senhor pode fazer um teste? Tente entrar novamente pelo seu computador e digite um número qualquer no lugar da senha.
Fiz o que ela me mandou (ela já tinha parado de pedir) e, claro, o site foi para a tela seguinte sem reclamar. Coloquei um número qualquer na identificação do cartão de segurança e apareceu uma tela nova, me pedindo todas as senhas do cartão. “Que tipo de imbecil ia cair nessa?”, eu pensei, e o Bonzão respondeu de bate-pronto: “você, caralho”. Digitei um monte de números aleatórios, cliquei no “confirma” e veio uma mensagem de erro. A essa altura, algum banco de dados da Rússia já tinha todos esses números errados — além dos dados e da senha correta, gentilmente fornecidos por mim antes.
— Bom. Nós vamos bloquear o seu acesso ao internet banking. Depois que o senhor passar um antivírus, resolver o problema e ler a cartilha de segurança no site do banco, entre em contato novamente, por favor, para desbloquear o acesso. Tudo bem?
— Tudo bem. Obrigado.
— O acesso está bloqueado a partir de agora. Posso ajudá-lo em mais alguma coisa?
— Não, não. Mas peço desculpas a você, Bruna. Fui arrogante e isso não se faz — a cara ficando quente, uma vontade crescente de me jogar pela janela.
— Não tem problema, senhor Marco. O banco Santander agradece, tenha uma boa tarde.
— Boa tarde.
Desliguei o telefone e, todo murchinho e humilde, tratei de baixar um antivírus decente — o Microsoft Security Essentials, como eu descobri, é tão eficiente quanto amarrar uma fita vermelha no HD pra espantar mau-olhado. Depois de muito brigar com o trojan que insistia em reencarnar, resolvi a parada e desbloqueei meu acesso ao internet banking.
Depois dessa, fica minha sugestão para vocês: se algum dia me virem dizendo coisas do tipo “Eu sei do que estou falando”, me mandem tomar no cu. Será merecido.
Nova profissão
Depois disso e disso, este que vos fala já era quase um ator. Só faltava dar a bunda pegar alguns dos hábitos da classe.
Agora não falta mais nada.
Marco Aurélio Gois dos Santos | 13 de April de 2010 | 13:31 | 24 comentários
La Rialta
Um dos netos de Fabrizio Guzzoni encontrou este blog e fez a gentileza de me mandar a foto da placa que eu mencionei aqui:
Marco Aurélio Gois dos Santos | 3 de March de 2010 | 22:55 | 17 comentários
Mais um pouco do Ca’d'Oro
E aí que no sábado eu e Ana Cartola passamos na casa dos meus pais e fomos todos ao Ca’d'Oro para ver os lotes do leilão. “Eu não acredito que isso está acontecendo”, disse Seu Lindauro ao ver todos aqueles objetos que fizeram parte da vida dele amontoados por todo canto, com pedaços de papel informando o número de cada lote. “Parece um sonho.” Dona Ana, minha mãe, chorou ao ver os quadros. Dona Antonieta, esposa de Seu Fabrizio Guzzoni, era quem cuidava dos quadros. Minha mãe gostava de Dona Antonieta. Gostava da família toda, na verdade. “Deus dá dinheiro pro Seu Fabrizio”, ela me explicou uma vez, “e Seu Fabrizio dá dinheiro para o seu pai”. Eu imaginava o Seu Fabrizio saindo do escritório de Deus com aqueles sacos de dinheiro de desenho animado, dividindo tudo em pacotinhos e distribuindo aos funcionários.
Bom. Chegamos ao hotel, tinha fila. Pessoas esperavam sentadas em poltronas de couro dispostas de quatro em quatro em volta de mesas de madeira. Poltronas e mesas estavam à venda também. A espera era longa, então fomos olhar o lugar onde estavam expostos alguns dos quadros. Meu pai parou na frente de um deles e comentou:
— Esse quadro aqui tem uma história. Uma vez que o Figueiredo se hospedou aqui…
— Seu Lindauro, tá se escondendo da gente?
Era um funcionário do hotel que chegou para interromper a históra. Os Guzzoni pediram a alguns funcionários que continuassem por lá até o fim do leilão. Meu pai o cumprimentou, nos apresentou, sumiu. Quando fui ver, ele já estava atrás do balcão da recepção. Dava informações aos visitantes e tudo, estava no ambiente dele. Outros funcionários chegaram para cumprimentá-lo. Anotei o lote do quadro que tinha a história do Figueiredo para dar um lance mais tarde. Só depois descobri que o quadro a que meu pai se referia não era aquele. A história foi assim: o presidente estava no hotel, faltou luz. Meu pai foi consertar o disjuntor, mas a imprensa estava ali por perto. Ele teve o cuidado de ficar de costas para as câmeras, mas mesmo assim apareceu na edição do Jornal Nacional daquela noite.
— Mas e o quadro, pai? O quadro apareceu também, você estava do lado do quadro, é isso?
— Não. Eu estava em frente ao quadro, vendo o disjuntor que caiu.
Levei um tempo para entender que ele estava falando do quadro de luz. Voltei para o lugar onde ele tinha começado a história e lá estava o quadro de luz na parede, logo acima da pintura de praia com coqueiros. Só meu pai é capaz de falar em quadro numa sala cheia de quadros e esperar que a gente entenda que ele está falando do quadro de luz. Eu já estava cansado dos quadros, ainda bem que chegou nossa vez de fazer o tour pelo hotel. “Vocês deram sorte, vão ser acompanhados pelo Fabrizio”, disse a recepcionista, referindo-se ao neto de Seu Guzzoni. “Ele é da família e tem esse sorriso lindo.” Ou ela estava muito a fim do cara ou achou que eu tinha cara de bicha.
Fabrizio nos acompanhou pelo restaurante, por alguns andares de apartamentos, passamos pela biblioteca. A biblioteca, meu pai me contou mais tarde, tinha importância estratégica para o hotel: quando um hóspede morria, levavam o corpo por dentro da biblioteca, que tinha uma saída para a rua Caio Prado. Assim se evitava o escândalo de um cadáver saindo pela entrada principal, na Rua Augusta — o que provavelmente não seria muito bom para os negócios. Uma vez uma mulher se jogou de uma janela. A camareira chamou meu pai quando a mulher ameaçava se jogar; quando ele chegou, era tarde. Um outro sujeito estava numa reunião. Foi ao banheiro e por lá ficou. Seu Lindauro ajudou a carregar o corpo.
“Se meu avô pudesse escolher um lugar pra assombrar, não ia escolher a casa dele”, comentou Fabrizio Neto enquanto passávamos pelo restaurante. “Ia escolher o hotel, tenho certeza”. Olhei em volta para ver se notava alguma manifestação sobrenatural. Se o fantasma estava por lá, achou melhor se fazer de besta. O pai do Fabrizio, Eugênio Guzzoni, morreu também. Era um bom sujeito. Minha mãe contou ao Fabrizio que meu pai estava trabalhando no dia em que minha irmã nasceu. Quando o Eugênio soube, botou ele pra correr. “A família primeiro, Lindauro.”
Andamos mais um pouco, anotei os números de lote dos produtos que me interessavam. Dei alguns lances, todos já foram superados. Vamos ver se até o final do leilão eu consigo arrematar alguma coisa.
* * *
Na volta para casa, meu pai me explicou a cronologia da família no Ca’d'Oro. O primeiro cidadão de Monte Santo a trabalhar para Fabrizio Guzzoni foi um amigo de meu avô chamado Ático Alves de Souza. O Ático começou como ajudante de garçom no primeiro restaurante Ca’d'Oro em 1953. Deve ter feito uma propaganda danada lá na Bahia, porque em 1956 meu avô, dois irmãos dele e um amigo da família vieram para São Paulo. Meu avô trabalhou um ano e meio no hotel. Valia a pena, mas ele tinha nove filhos para sustentar e não tinha como trazer todos para cá. Então voltou para a Bahia e a história acabaria por aí. Mas o filho mais velho resolveu vir para São Paulo no começo da década de 60, e foi logo trabalhar no Ca’d'Oro. Meu pai veio em 1963 e foi trabalhar numa padaria na Rego Freitas. Ficou só um mês no emprego. Meu tio comentou no hotel que havia outro membro da família morando em São Paulo. “Seu irmão tá morando aqui?”, comentou alguém. “Traz ele pra cá logo!”
Meu pai trabalhou um ano no Ca’d'Oro, até o irmão mais velho decidir voltar para Monte Santo. Ele foi junto, mas ficou pouco tempo: achou a cidade pequena demais, sem perspectivas e voltou para São Paulo. Tinha emprego garantido. Nos anos seguintes, os irmãos foram saindo de Monte Santo direto para a folha de pagamento do Ca’d'Oro. O Ático foi promovido a garçom, depois a maître. Hoje, aos 83 anos, ele é maître do Fasano.
Marco Aurélio Gois dos Santos | 3 de March de 2010 | 10:31 | 14 comentários
Ca’d'Oro
Foi Dona Nilda quem cantou a bola no Twitter: o Grand Hotel Ca’d'Oro, que fechou em dezembro, está leiloando de tudo: móveis, utensílios, objetos de decoração, máquinas — tudo. Isso é meio triste para todo mundo em São Paulo, eu acho. O hotel tinha lá sua importância pra cidade.
Fabrizio Guzzoni, o fundador, vinha de uma família de Bergamo, norte da Itália, que estava no negócio de hotelaria desde o século XIX. O hotel teve sua primeira encarnação como restaurante em 1953 e virou hotel em 1956. Tanto o hotel quanto o restaurante viraram símbolos de tudo o que havia de sofisticado em São Paulo. O Ca’d'Oro, parece, foi o primeiro cinco estrelas da cidade. Todo mundo se hospedava lá: o rei da Espanha, o presidente Figueiredo, o Raul Seixas. Dez anos depois da inauguração do primeiro restaurante, um baiano de 19 anos chamado Lindauro entrou para a folha de pagamento de Fabrizio Guzzoni como faxineiro. Lindauro, vocês sabem, é meu pai.
Meu pai foi faxineiro, almoxarife, apontador de obras e não sei mais o quê. Foi por muitos anos gerente de manutenção, seu trabalho preferido até hoje. Foi também gerente de compras por algum tempo. Ganhava mais, mas não gostava do cargo. Pediu demissão, abriu uma floricultura, não deu muito certo. Voltou uns anos depois, a pedido de Fabrizio Guzzoni, para ser novamente gerente de manutenção. Trabalhou no hotel por quase 40 anos, com alguns intervalos. Quando eu e meus irmãos éramos crianças, meu pai levava a família para Itanhaém. Ficávamos hospedados na casa do Seu Guzzoni (ou Seu Fabrizio, como minha mãe preferia) na Praia do Sonho — na época em que a Praia do Sonho era chique.
Só aos catorze ou quinze anos de idade eu só fui conhecer Seu Guzzoni. Foi estranho ver de perto aquele homem de que meu pai tanto falava; aquele homem que tinha para mim uma imagem de rico honesto, trabalhador e que tinha confiança absoluta no meu pai e em quem ele recomendasse. Acho que pelo menos seis dos oito irmãos do meu pai trabalharam no Ca’d'Oro. Dois irmãos da minha mãe também trabalharam lá, e até meu avô paterno teve seu período de funcionário dos Guzzoni. Um tio que mora em Itanhaém era o caseiro na Praia do Sonho.
* * *
Em 2005, Seu Guzzoni chamou meu tio Zé (José Augusto, mas só meu pai o chama assim) à sua mansão no Morumbi. Esse meu tio carrega os genes artísticos da família da minha mãe: entalha coisas em madeira, pinta, canta, monta geringonças eletrônicas, o diabo. Pois Seu Guzzoni o chamou lá para encomendar um serviço. Entregou a ele uma tábua de madeira de lei. A madeira, ele explicou, era usada como tábua de carne ou para cortar limão para as caipirinhas nos churrascos que servia aos amigos — no tempo em que tinha amigos. Pediu ao meu tio que envernizasse a tábua e entalhasse nela a inscrição La Rialta em letras góticas.
O Zé voltou dias depois com a tábua pronta e Seu Guzzoni o convidou para entrar. Ele nunca tinha entrado no escritório do velho. Ficou impressionado com os móveis, as pinturas, os tapetes e que-sei-eu. Seu Guzzoni falou da vida, da recente viuvez. Meu tio conta que ficou triste ao vê-lo daquele jeito: riquíssimo, mas sozinho no mundo. Depois de um tempo conversando, o velho pagou o combinado e pediu um último favor: que ele dependurasse a tábua na entrada da mansão. Meu tio pegou uma corda, uma escada, e ajustou a tábua acima da porta de acordo com as instruções do dono da casa (“Mais pra lá… Mais pra cá… Tá bom aí”). Desceu da escada e reparou que o velho olhava fixamente para a tábua, emocionado.
— Seu Guzzoni… O que é “La Rialta”?
— Era o nome da casa onde eu nasci, lá na Itália.
Fabrizio Guzzoni morreu duas semanas depois.
* * *
Mesmo ano passado, aposentado já há alguns anos, meu pai ainda pensava em voltar ao Ca’d'Oro. “Bom mesmo seria se o hotel me chamasse”, ele falava às vezes. Então, como eu dizia, esse leilão das coisas do hotel deve ser triste para todo mundo em São Paulo, mas é bem triste para mim. Parece que pegaram uma foto minha pelado aos dois anos de idade e botaram na internet: não chega a ser um escândalo, mas incomoda um pouco. Todo mundo sabe da importância do Ca’d'Oro, mas só lá em casa sabemos da vez que o Raul Seixas (“umas perninha fiiiina…”) passou uma manhã inteira encolhido na beira da piscina, para se levantar à tarde, ir até o hall de entrada e mijar num daqueles cinzeiros de saguão de hotel. Outra exclusiva: meu pai era gerente de compras quando o Luciano Pavarotti veio para o Brasil e se hospedou no hotel. O Pavarotti inventou que queria cozinhar no quarto, e Seu Lindauro que teve de correr atrás de comprar o que ele precisava — fogão, panelas de ferro, dúzias de tomates.
Teve uma vez que uns africanos entraram no elevador e o sujeito que estava com meu pai comentou:
— Ó o tamanho desses negão. Um feladaputa desse pega leão na unha, Lindauro.
Quando eles desceram, meu pai explicou ao cara que eram angolanos, falavam português e tinham entendido tudo.
Em outra ocasião, Seu Guzzoni apareceu na manutenção com o zíper da calça aberto.
— Ô, Seu Guzzoni — avisou um funcionário mais gaiato. — O passarinho vai voar.
— Fica tranqüilo, meu filho, que esse passarinho aqui não voa faz tempo.
Tem também a história de um funcionário do hotel que enfiava um dente de alho no cu para ter febre e ir pra casa mais cedo.
* * *
Contei para minha mãe o negócio do leilão, para minha irmã, para o Zé. Todo mundo ficou triste. Meu pai ficou mais ainda, é claro. Sábado nós vamos até o hotel olhar as peças que estão no leilão e ver se tem alguma coisa que valha a pena. Quero pelo menos comprar uma lembrança pro meu pai, algo que lembre o lugar onde ele passou a maior parte do tempo, durante a maior parte da vida, para que eu e meus irmãos pudéssemos ser alguma coisa.
Marco Aurélio Gois dos Santos | 25 de February de 2010 | 00:37 | 22 comentários
Vou pedir asilo
É isso mesmo: vou pedir asilo pro Tio Sam e quero ver não me darem. Explico:
Vocês já devem ter lido por aí (se não leram, tem a notícia da Folha só para assinantes aqui e reproduzida aqui): um rapaz de Minas Gerais pediu asilo nos Estados Unidos porque sofre perseguição no Brasil por ser gay. Muito bem. A justiça americana dá brecha (epa) para gays perseguidos mundo afora pedirem asilo por lá. Acho muito certo. Imagino a merda que deve ser a vida de um gay — pior ainda, de uma lésbica — num país muçulmano, por exemplo.
Não é o caso do Brasil. Moro no meio do reduto gay, vejo a bicharada espevitada todo dia na rua. Então não vejo essa perseguição aos gays, mas também não sei da missa a metade. O sujeito lá de Minas é gay, se sente perseguido, foi pedir asilo na gringa, aceitaram. Ponto pra ele.
Palmas pra ele!
Só que aí tem um negócio: diz que a primeira vez que ele sofreu discriminação foi quando recebeu uma repreensão verbal da polícia no Largo do Arouche.
Peraí.

Índio Caçador, ícone do Arouche
Eu moro no Largo do Arouche, já trabalhei no Largo do Arouche, conheço o Largo do Arouche há anos (e não adianta o Arouche dizer que não — *rimshot*). EU sofro discriminação no Largo do Arouche. EU é que sou estranho por lá, passando de mãos dadas com minha marida do sexo oposto. Os policiais daquele posto nem têm como discriminar os gays, pelo simples fato de que são milhares de gays passando por lá o tempo todo. Fora isso, dizer que é perseguido porque levou uma repreensão verbal dos puliça é muita veadagem.
Mas quem sou eu para dizer alguma coisa, né? O negócio é procurar uma fonte confiável nesses assuntos. E quem melhor do que o Grupo Gay da Bahia? Segundo o site deles, o GGB é “… a mais antiga associação de defesa dos direitos humanos dos homossexuais no Brasil”. Os caras são respeitados, então a defesa do gayzim mineiro usou dados do GGB para respaldar o pedido de asilo. Segundo eles, o Brasil é um país perigoso porque foram mortos 2.998 homossexuais em — olha só! — 29 anos.
Peraí de novo. Vamos fazer continhas.
Segundo o Mapa da Violência nos Municípios Brasileiros, do Ministério da Saúde, quase 50 mil pessoas são assassinadas por ano no Brasil. Para ser mais exato, a média entre 2000 e 2006 foi de 48.173 homicídios por ano. Vamos considerar 48 mil por ano, então. Lembrando: segundo o GGB, foram 2.998 gays mortos em 29 anos — 103 por ano.
Estão acompanhando até aqui? Então. Segundo o próprio GGB (aqui, em artigo assinado por Luiz Mott, presidente do grupo) os homossexuais são 10% da população brasileira. De cada 10 brasileiros, um é gay. E aí vem a distorção: quando se fala de homicídios, essa proporção aí é de 467 para 1. Ué. Nem é tão perigoso ser gay no Brasil. Perigoso mesmo é nascer aqui — gay ou não.
Vou pedir asilo nos EUA dizendo que o Brasil não é seguro para os gordos (ou carecas, ou encardidos). Quero ver quem é que me contesta.
A mulher do compadre Mané Pedro – parte 2
Um sujeito muito legal chamado Vinícius achou no YouTube a cena de Cabaret Mineiro que me persegue há anos (para entender, leia esse post). Muito obrigado, rapaz.
Marco Aurélio Gois dos Santos | 9 de February de 2010 | 15:06 | 11 comentários







