(I Reis 15 e 16)

Não estranhem o tamanho do título, nem a quantidade de nomes estranhos. Com as mortes de Roboão e Jeroboão, os reis se sucederam nos dois tronos, sem que nenhum deles fosse propriamente digno de nota.
Abias, por exemplo, que sucedeu Roboão no trono de Judá, não fez nada além do que seu antecessor fizera. Neto de Absalão, o filho encrenqueiro de Davi, Abias subiu ao trono quando Jeroboão estava em seu décimo-oitavo ano de governo, e continuou a encrenca com o vizinho do norte. A idolatria permaneceu forte em Judá durante seu curto reinado de três anos. Um reizinho bem apagado, mas que mereceu o prêmio de ter um filho seu na linha de sucessão, graças à simpatia de Javé por seu bisavô, Davi.
Asa, filho de Abias, foi coroado quando Jeroboão ainda vivia. Foi um rei zeloso, que expulsou do país todos aqueles que não seguiam a religião oficial, e destituiu sua avó, Maacá, filha de Absalão, do posto de rainha-mãe. A velha adorava imagens, e isso não condizia com a alta santidade do neto. Asa reinou por quarenta e um anos, e viu os reis do norte sucederem-se uns aos outros enquanto ele permanecia firme no trono. No segundo ano de seu reinado, Jeroboão morreu e foi sucedido por seu filho Nadabe, que reinou por apenas dois anos. Quando Nadabe estava cercando Gibetom, uma cidade da Filistia, um tal Baasa, filho de Aías, da tribo de Issacar, armou uma conspiração contra o rei e o matou. Baasa foi então coroado rei, e sua primeira providência foi matar todos os descendentes de Jeroboão, conforme dissera Javé por meio do profeta Aías.
Depois de se garantir no poder eliminando a concorrência, Baasa resolveu invadir Judá e construir muralhas ao redor da cidade de Ramá, para assim controlar o caminho que levava a Jerusalém. O plano visava enfraquecer o Reino do Sul, e unir todo o Israel sob seu cetro. Aconteceu, porém, que Asa, o zeloso rei de Judá, enviou mensageiros a Ben-Hadade, rei da Síria, e junto com eles todo o ouro e prata que haviam sobrado no Templo e no palácio de Jerusalém. Asa pedia a Ben-Hadade que retirasse o apoio dado a Baasa, e que se unisse a ele contra o Reino do Norte. Com tantos presentes vistosos, o rei da Síria nem titubeou: enviou seu poderoso exército a Israel, e os soldados sírios conquistaram as cidades de Ijom, Dã e Abel-Bete-Maacá (pense…), a região do lago da Galiléia e toda a tribo de Naftali.
Baasa não tinha bala na agulha para responder a tamanha retaliação, então achou mais prudente interromper a construção das muralhas em Ramá e retornar a Tirza. Com Ramá livre dos israelitas, o rei Asa mandou reunir o povo para retirar todo o material trazido do norte para a construção das muralhas, e usá-lo para erguer muros em torno das cidades de Mispa e Geba, na tribo de Benjamim.
Já bem velho, Asa foi acometido por uma doença nos pés e morreu. Foi o primeiro caso registrado na História de morte por frieira.

Lá no norte, Baasa fazia tudo o que mais irritava Javé: promovia a adoração de outros deuses, espezinhava os irmãos do Sul e cagava e andava para os profetas. Javé enviou, então, o profeta Jeú, filho de Hanani, para dar ao rei de Israel o mesmo recado que Jeroboão recebera tantos anos antes: que seus descendentes seriam mortos e devorados pelos animais. O profeta levou a mensagem ao rei, que morreu pouco tempo depois. A Bíblia diz que o rei foi castigado por sua idolatria, mas principalmente por ter massacrado a família de Jeroboão. O massacre, caso vocês não se lembrem, foi uma idéia do próprio Javé. Com a morte de Bassa no vigésimo-quarto ano de reinado, o Deus de Israel celebrava a prática hoje conhecida como “tirar o cu da reta”.
Baasa foi sucedido no poder por seu filho Elá. Um dia, dois anos depois de ser coroado, Elá estava enchendo a cara na casa de Arsa, encarregado do palácio. Zinri, um dos oficiais do exército, entrou na casa e atacou o rei que, bêbado, não teve como reagir. Morto Elá, Zinri foi coroado rei no Norte, no vigésimo-sétimo ano do reinado de Asa em Judá. No primeiro dia de seu governo, a ordem corriqueira: matar todos os descendentes de Baasa.
Zinri bateu todos os recordes de brevidade em Israel. Sua conspiração só deu certo porque a maior parte do exército israelita estava novamente (ou ainda) sitiando Gibetom. Quando a notícia da conspiração chegou ao acampamento, os soldados se revoltaram e ali mesmo coroaram seu comandante, Onri. O oficial reuniu a tropa, e seguiram todos para Tirza. Quando Zinri viu que a cidade estava cercada, e por seu próprio exército, desesperou-se e tocou fogo no palácio. Zinri morreu queimado, tendo reinado em Israel por apenas sete dias.
Com a morte de Zinri, o reino dividiu-se. Parte do povo apoiava a subida de Onri ao trono, outra parte queria coroar um tal Tibni, filho de Ginate. No fim das contas, o partido de Onri prevaleceu e Tibni foi morto.
Onri ainda tentou governar a partir de Tirza, mas a cidade já não era a mesma. Com o palácio incendiado e parte da cidade destruída pelo cerco, saía mais barato mudar a capital. O rei, então, comprou umas terras de um tal Semer, pagando por elas setenta quilos de prata. As terras incluíam uma montanha, na qual Onri construiu uma cidade e defesas militares. Em homenagem ao seu primeiro proprietário, o rei chamou a cidade de Samaria. Após doze anos de reinado, durante os quais deu continuidade à idolatria dos reis anteriores, Onri morreu e foi sucedido por seu filho, Acabe.

Os reis iam e viam em Israel, e Asa continuava firme no trono de Judá. Em seu trigésimo-oitavo ano de governo, o filho de Onri foi coroado no Norte. Acabe foi, provavelmente, o rei que mais trabalho deu a Javé. Não contente em deixar que o povo continuasse a adorar os deuses que quisesse, o rei tomou alegremente parte ativa na idolatria. Casou-se com Jezabel, filha do rei de Sidom, Etbaal, e adotou o deus da família da esposa, Baal. Os altares e ídolos construídos por outros reis antes dele eram nada diante do templo erguido por Acabe em honra a Baal, em Samaria. Para piorar, permitiu que um tal Hiel de Betel reconstruísse a cidade de Jericó. Pode parecer pouco, mas após a destruição de Jericó Josué havia amaldiçoado a cidade, dizendo que quem colocasse os alicerces perderia o filho mais velho, e quem erguesse os portões perderia o caçula. Como Hiel fez as duas coisas, Hiel perdeu seu primogênito, Abirão, quando botou os alicerces, e Segube, o mais novo, quando colocou os portões na cidade pronta.
Enquanto seus antecessores pecavam apenas por omissão, Acabe deleitava-se em desafiar Javé de todas as maneiras. Para um cabra ruim assim, o Senhor dos Exércitos ia precisar arrumar um oponente daqueles. Os velhos profetas, pouco mais do que garotos de recado, não dariam conta de tamanha tarefa. Era preciso um paladino, quase um Moisés. Conseguiria Javé arrumar um sujeito assim para enfrentar Acabe? É o que veremos.