Orgulho da burrice
Estava na livraria Cultura ontem caçando algo para ler, e acabei encontrando um livro que me pareceu interessante: “A Pré-História da Mente”, de Steven Mithen. O autor se propõe a fazer “uma busca das origens da arte, da religião e da ciência”. Abri o livro, li uns trechos ao acaso, e me detive um pouco no prefácio à edição brasileira, escrito por um certo Walter Neves. As primeiras palavras do prefácio do Sr. Neves me irritaram. Vejam:
Três motivos para minha irritação: primeiro esse “ciências” assim, entre aspas. Depois que ele começa pela abordagem errada, já que não se trata de uma obra de pedagogia (eu arriscaria dizer que o livro trata de psicologia evolutiva). E o que mais me irritou: a forma desdenhosa como ele fala do Brasil. Oras, onde já se viu coisa igual? Comprei o livro, mas já saí da loja indignado com o tal Walter Neves, que eu nem sei quem é. Comprei o livro, apesar do prefácio.
Pois bem: saí e fui direto para a outra loja da Cultura, essa especializada em livros técnicos e científicos, à cata de publicações sobre meu hobby predileto: Neurociência. Subi ao mezanino, encontrei a prateleira correspondente e comecei o garimpo. Decepção: os bons livros eram todos edições americanas, luxuosas e caríssimas. As edições nacionais eram quase todas coisas do tipo “Como fazer seu cérebro trabalhar para você”, “Como ganhar dinheiro com o lado direito do cérebro”, “Aumentando a capacidade de sua memória”, “Exercite seu cérebro”, “Como fazer amigos, influenciar pessoas e explorar o potencial dos lobos parietais sem fazer força”. Bom, os títulos não eram bem esses, mas algo nessa linha. Mesmo os livros “sérios” sobre o assunto restringem-se quase que totalmente às obras de Oliver Sacks. (Sacks é um dos neurocientistas mais respeitados da atualidade, mas como escritor popular de ciência é uma negação. Subestima a inteligência do leitor, o pior pecado que qualquer autor pode cometer).
Vendo o contraste entre as publicações nacionais sobre Neurociência e as estrangeiras (não apenas americanas), tive que ceder um ponto ao Sr. Walter Neves. Como é possível que num país tão populoso não haja um número suficiente de pessoas interessadas no funcionamento do cérebro a ponto de justificar a edição de livros sobre o assunto? Quando eu li Fantasmas no Cérebro, de V. S. Ramachandrian (já citado aqui), pensei que comprometeria todo o meu orçamento a partir de então com livros de neurociência. Qual o quê! O excelente livro de Ramachandrian (lançado pela Record) é uma exceção incompreensível: é científico, denso, e ao mesmo tempo fascinante e acessível. Eu pensava que encontraria outras publicações de mesmo nível, mas não: o que se encontra por aí são manuais de instrução do cérebro, livros com muita preocupação utilitária e quase nenhuma verdadeiramente científica. E isso se aplica não só à neurociência, é claro: tente você encontrar qualquer tipo de boa literatura científica. Nem precisa tanto, tente achar alguma boa literatura.
Indignado com esse estado de coisas, comecei a pensar em algo que observo desde criança: aqui no Brasil, ser inteligente não é considerado de bom tom. Pode parecer estranho eu dizer isso, mas apenas olhem ao redor. Pessoas bonitas não têm o mínimo pudor de se afirmarem como tal (e nem deveriam). Mas vá você dizer que é uma pessoa inteligente. Os outros vão olhá-lo com espanto, asco, reprovação. Ninguém quer ser feio, e isso é compreensível: ser feio é uma desvantagem e tanto, creiam em mim. O problema é que, por aqui, ninguém parece se importar muito em ser burro. Há até algum charme numa burrice despreocupada, numa ignorância graciosa. Claro que o Brasil tem sérios problemas em educação e saúde, mas não é esse o problema de que trato aqui: pessoas que estudaram nos melhores colégios, bem nutridas na infância, cultivam com o mesmo orgulho (e cinismo, sempre) suas ervas-daninhas de burrice.
É desesperador. É triste observar as pessoas no metrô e notar os olhares bovinos (e o comportamento bovino, quando as portas se abrem na hora do rush). É triste ver os livros com que as poucas pessoas que lêem ocupam seu tempo: coisas esotéricas, auto-ajuda. Ninguém quer ser inteligente. Faça o teste: chame alguém de inteligente, à queima-roupa. Ninguém gosta desse elogio. Os poucos conscientes (e um tanto orgulhosos) de sua capacidade mental buscam cercar-se de pessoas com capacidade semelhante, salpicando a paisagem de burrice geral com nódoas de inteligência aqui e ali.
Posso prever os comentários do tipo “ae mew ce é mó nerd huahuahuahuahua vai comer alguem flw!!!”. É triste, muito triste. Eu queria entender por que isso acontece. Queria estudar o cérebro das pessoas e descobrir que área dele está adormecida nos brasileiros. Mas não é possível, é claro. PORQUE NÃO SE ACHAM BONS LIVROS DE NEUROCIÊNCIA NESTE PAÍS, CARALHO!




Eu acho que ser inteligente é opção. E aqui uso “inteligência” como sinônimo para uma abordagem crítica e racional do mundo. Não é necessária, não é especial, não é particularmente útil… É uma questão de opção, pílula vermelha ou pílula azul. Eu fiz a minha. Mas não acho que ela deva servir pra todo mundo. Claro que do ponto de vista social seria mais justo se as pessoas fossem inteligentes. Mas é mais útil que elas não sejam. E vivemos num mundo utilitarista, não justo.
Se não me engano, a Scientific American Brasil lançou uma edição especial sobre o cérebro humano mês passado. Ainda deve estar pelas bancas desse “brasilzão de meu deus”, e me pareceu interessante. Pelo menos é uma publicação séria, e as últimas edições têm sido bastante boas.
Tem até linkzinho pra revista que eu citei ali:
http://sciam.uol.com.br/sciam/estatica_edicoes_especiais_04.aspx
Marco, é preciso se ver as origens do problema. O Brasil tem uma boa porcetagem de analfabetos e um sistema de ensino público péssimo. Não é a toa q as vezes as pessoas tenham essa atitude. No Brasil tambem existe aquela cultura do “malandro”: que brasileiro tem q ser esperto, “dar um jeitinho” em tudo, jogar futebol e gostar de bunda. Ai um cara que cresce ouvindo essa filosofia vê um “nerd” e acha logo que o cara é otário e “não curte a vida”! A única forma de mudar essa situação seria remover esse aspecto cultural e dar um jeito na educação pra que pelo menos o povo tenha acesso à essa cultura. Afinal não podemos esperar que pivetes de rua e favelados venham nos aparecer com “Guerra e Paz” ou “Dom Casmurro” na mão!
foi mal aí, não resisti… bromco é um personagem meu, ele é a personificação da falta de intelecto, grande, quexudo e tal… mas na realidade é extremamente culto, sabe um monte de coisa, só que prefere viver na tosquera, pq convenhamos, o conhecimento estraga as coisas, a ignorancia é uma benção, se vc fosse mais burro acreditaria em deus cegamente e teria uma vida feliz com a experança de uma vida eterna, ou não…
Do Sacks eu só li “O dia em que confundi minha mulher com um chapéu”, isso mostra as sutilezas do cérebro humano, pelo qual eu também tenho grande curiosidade. Estou lendo um livro bem bacana, é uma edição de 500 exemplares de “Um Caso Tenebroso” de Kafka de 1967 que encontrei num sebo ainda com as páginas cerradas (daqueles que vinham as páginas grudadas de 4 em 4)…adoro esses livros com cheiro de mofo…hehehe
Caro Marco
O problema é mais de natureza sociológica que de neurociência. Não é o cérebro do brasileiro, mas um contexto cultural que valoriza algumas coisas em detrimento de outras e não me parece que lá fora seja muito diferente hoje em dia (em Londres todo mundo lê no metrô… tablóides sensacionalistas…).
Rodrigo
Curitiba
“Na minha nada inteligente opinião, um dos sintomas da inteligência é a humildade.” Mr Birdman –
Nao acredito q se haja vergonha em ser inteligente. Ainda mais pq os q são inteligentes bradam q o são. Se coçam p/ responder perguntas. Gostam de ser desafiados. Minha irmã é muuuito inteligente. É linda também (mas nao vem ao caso). Também, num mundo onde se cultuam os belos, ser e se divulgar inteligente é a tentativa de se criar uma nova divindade.
Mas como diz o post q copiei acima, a humildade é algo muito sábio. Se me dizem “vc é inteligente!”,eu agradeço -mas se me perguntam se sou inteligente, humildemente, e cheia de curvas e voltas, respondo que compreendo e questiono muitas as coisas. Gosto de saber um pouco de tudo pq é um prazer poder me comunicar com todo tipo de pessoa, desde o mano até vc, por exemplo.
Acredito q existem diversos tipos de inteligência e todas baseadas na experiência e emoção.
Diria que inteligente é aquele que busca sempre o saber e persiste nas coisas até coompreendê-las ou concluí-las. É aquele q sabe lidar bem com as situações da vida.
Agora, tolo é aquele que não faz questão de saber, de conhecer, é aquele q tá sempre engrossando com tudo.
Q mais nós temos p/ fazer neste mundo, gente? Nossa vida aqui é ver, conhecer, amar e ir pro saco!
O conhecimento se leva por toda a vida e p/ todos. é algo q se pode dividir. Vaidade….ah, o resto é vaidade.
Boa sorte e boa vida p/ todos.
Verônica
Acho que a questão é o que é ser inteligente para nós?Acho que o brasileiro considera inteligência o “ser malandro” e não o ser culto.E pra malandragem não precisa necessariamente ser letrado.
Mas o preconceito exite tanto do “burro” para o “cult”, como do “cult” para o “burro”,e como somos um país de maioria desprovida de oportunidades de estudo e tudo mais, quem se fode é o “cult”;fora a questão da auto-estima do brasileiro ser lá embaixo,grudado na sola do sapato junto ao chiclete e a merda do cachorro que o cara pisou na calçada, então ele teme quando alguém provido de mais cultura se aproxima,e como bom malandro quer continuar por cima da situação, e quer deixar a entender que sua ignorância é a verdadeira inteligência.Acho que essa sequela só tende a piorar,não só por aqui,em todo mundo, seja no 1º ou no 3º,
mas não pense que sou pessimista,sou malandro e me preparo para opior, pra no final estar por cima.
ei! eu tive umas aulas com o Walter Neves na facu, numa matéria de evolução, mas devo confessar que sentia muito sono e não freqüentei muito… mas pagavam um pau pra ele!
Oi Marco. Brilhante abordagem.
Bem, eu faço cursinho e veja bem, como todo vestibulando, assunto no ônibus com os colegas de sala só rola sobre vestibular, matéria, literatura e cultura. (Quer dizer, isso quando vc pega ônibus com alguém interessado sobre) Mas o mais interessante é, enquanto a conversa rola, olhar ao redor e ver aquelas “caras” de nada te olhando como alien, como se falasse outro idioma. Aí vira um ‘oba-oba-que-quer-azarar-no-cursinho-e-nao-estudar’ e fala: Ái seus nerds, para com esse assunto. – e a galera em volta respira fundo de alívio pq foi dito exatamente o que passava nas respectivas “mentes”. Você vai à academia e comenta que passa o dia estudando. Vixe. Te tomam de louco, estranho. Estudar pra que? Ter cultura pra que? Dá um trabalho danado… tem que ler muito… e quanto mais vc lê, mais descobre que não leu nada ainda. Po, meu prof. essa semana mesmo fez um comentario sobre o filme “O Nome da Rosa”. Clássico. O conhecimento é como a Rosa que a cada pétala que vc tira, tem outra abaixo e assim segue infinitamente. Ora, adquirir algo que nunca vai ter fim é perca de tempo… (!!!)
Bom Marco, como já dizia o seu herói Dostoiévski, na pele do Raskólhnikov (to sem o livro aqui pra conferir o nome, é complicado…) que estamos cercados de idiotas e que nada fazem para aprender… e que isso é solitário… foda pra caralho mesmo.
Olá Marco,
eu sei bem o que é a carência bibliográfica na área de neurociências no Brasil. Durante 2 anos estive no Mestrado de Neurociências da USP e posso dizer que 99% da bibliografia estudada foi em outras linguas que não o português. Há várias razões para isso, as que você levanta são bastante consideráveis, mas também há o fato da pesquisa em neurociências no Brasil ainda ser incipiente, sendo a maior parte dela voltada para processos bem básicos. Alguns dos trabalhos mais interessantes na área, feitos no Brasil, estão nas escolas de engenharia(?), coisas envolvendo IA e questões ligadas ao processo cognitivo no geral.
Mas, tentando ajudar, aí vão umas dicas de livros e sites em português. É possível que você conheça alguns deles (ou todos) – se não, bom proveito!
- J. Eccles e K. Popper: O Eu e o cérebro, da Papirus
- H. Gardner: Estruturas da mente, da Artes Médicas
- John Le Doux: O cérebro emocional. Os misteriosos alicerces da vida emocional, da Objetiva
- M. Lira Brandão: Psicofisiologia: as Bases Fisiológicas do Comportamento, da Atheneu
- M. Bonden: Dimensões da Criatividade, da Artmed
- D. Dennet: Tipos de mentes: rumo a uma compreensão da consciência, da Rocco
- J. Khalfa: A natureza da inteligência, da Fundação Editora da Unesp
- H. Maturana: A ontologia da realidade e Cognição, ciência e vida cotidiana, ambos da Editora da UFMG
- H. Maturana e F. Varela: De máquinas e seres vivos: autopoiese – a organização do vivo, da Artes Médicas
- J. Searle: A redescoberta da Mente, da Martins Fontes e Mente, linguagem e sociedade, da Rocco
- Bear, Connors & Paradiso: Neurociências – desvendando o sistema nervoso, da Artmed
- R. Lent: Cem bilhões de neurônios, da Atheneu
- Martins de Oliveira & Rocha do Amaral: Princípios de Neurociência, da TecnoPress
- P. Lavie: O Mundo Encantado do Sono, da Climepsi
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/PubMed/
http://www.pubmedcentral.nih.gov/
http://www2.uol.com.br/sciam/
http://www.epub.org.br/cm/home.htm
Olá de novo,
só um comentario sobre Piaget. No Brasil a figura e a obra de Piaget ficaram indelevelmente associadas a pedagogia – mas Piaget não era pedagogo e sim biólogo – isso acontece porque esse pensador desenvolveu toda uma teoria sobre o desenvolvimento da inteligencia na criança, o que obviamente é largamente usado por educadores.
Mas Piaget é essencialmente um cientista dos processos mentais, ele foi um pioneiro ao trazer para a discussão sobre o conhecimento, o aspecto biológico/evolutivo do desenvolvimento da inteligencia a partir da interação organismo-meio.
Recomendo a qualquer pessoa que queira se aventurar na discussão sobre os processos mentais, cognição, conhecimento e inteligencia, que leia Piaget. Muito do que ele escreveu pode ser questionado hoje, mas boa parte da sua obra ainda serve de sustentáculo para se compreender os processos tipicamente humanos de construção do conhecimento, especialmente nas crianças.
Pois é, como dizia o velho poeta, “Se o cérebro humano fosse menos complexo, seríamos tão burros que não conseguiríamos compreendê-lo.”
Acho que me desviei do assunto…