Aconteceu há alguns anos. Estava de carona com um amigo (não lembro qual, provavelmente o Risadinha) e passávamos pelo Tatuapé. Eu estava no banco de trás com a Bárbara, então minha namorada. O carro parou num semáforo e eu, distraído, olhei para o lado.

Não entendi de imediato o que estava vendo. Era uma bunda, sem dúvida nenhuma, semicoberta por uma microssaia. Só que ao final da caneleta central, ao contrário do que se poderia esperar de uma bunda tão feminina e delicada, havia um saco. Sim, um saco. Tratava-se de um travesti que, debruçado sobre a janela do carro vizinho, deixava na minha cara aquela visão horrenda. E ainda bem que havia um vidro entre nós. Levei um susto, olhei depressa para o lado, mas já era tarde: surgia mais um trauma.

Estava pensando nisso porque agora estou numa situação ruim (de novo). Eu não sei como me portar com as pessoas, não sei quando é hora de pegar pesado e quando é hora de ser suave. Só eu não conheço as regras do jogo em que todos estão. Sinto-me deslocado do mundo, sinto-me bizarro.

Eu sou o saco do travesti.