Fui ao fumódromo para ficar olhando um pouco pela janela e pensando na vida. Como era de se esperar, depois de alguns minutos ele veio se aproximando com seu típico vôo circular.
— E aê, mané.
— E aê.
— Me arruma um cigarro aí. Qual cê tá fumando agora?
— Tô fumando nenhum não.
— Como, não tá fumando? O que tá fazendo no fumódromo?
— Só olhando a paisagem.
— Bela paisagem para se olhar… Pára de brincadeira, me arruma logo um cigarro.
— Já disse que não tenho cigarro. Parei de fumar.
— Parou por quê? Porque faz mal?
— Também. Mas é que uma garota me pediu para parar.
— E foi só ela pedir e você parou?
— Hum… Mais ou menos. Ela disse que se eu fumasse um cigarro teria hemorróidas. E se fumasse mais que um seria estuprado por cangurus.
— Urubus?
— Cangurus.
— Que pena. Mas e aê, essa mina? Tá pegando?
— Porra, que linguagem é essa?
— Sem frescura, estamos só nós dois aqui. Tá pegando ou não?
— Não.
— Se não tá pegando, porque quer agradá-la tanto?
— Acho que o relacionamento entre pessoas é um pouco mais complexo do que entre urubus.
— E daí? Só demonstra mais uma vez a fraqueza de vocês. Primeiro ritualizaram o simples ato de comer. Depois o sexo. Inventaram todo esse negócio de amor, namoro, noivado, casamento, família, divórcio, comunhão ou separação de bens, padre, juiz, alianças, certidão, padrinhos, festa, bolo, buquê, gravata picotada, e tudo isso pra quê? Meramente para justificar e ao mesmo tempo camuflar o desejo natural. Vocês são muito estranhos. Têm vergonha do que é natural mas não tem pudor nenhum de se matarem uns aos outros, de destruírem o planeta, de infernizarem a vida de tudo quanto é vivo. Parasitas nojentos…
— Cê tá mal humorado hoje.
— Dormi mal esta noite. E nem sequer tenho um cigarrinho para fumar. Bah, vou-me embora.
E voou na direção da Hípica.