Eu não sou de olhar extrato bancário. Chega aquele envelopão pelo correio, eu olho para ele e sei que lá dentro há informações deprimentes, então jogo fora sem abrir. Quando preciso muito verificar uma coisa ou outra, dou uma olhada (relutante) no extrato online. Pois muito bem: vez em quando eu via lá um tal “Débito Internet” no valor de 19,90 reais, e deduzia que era o pagamento do meu provedor. Eis, porém, que recebi o extrato da conta pelo correio esta semana e, sabe Deus por quê, resolvi abri-lo. Na seção débito automático estavam a conta do celular, do telefone fixo, da energia elétrica e do Internet Group. Internet Group. iG. Eu não sou cliente do iG. Nunca fui.

Epa.

Entrei na central do assinante da Globo.com, meu atual provedor. Cobrança em cartão de crédito. Valor: 11,90 reais.

Epa.

Entrei na central do assinante do UOL, meu antigo provedor. Tudo direitinho, conta cancelada, e cobrança feita até maio no cartão de crédito.

Epa.

Liguei para o atendimento do banco. O banco não tem como saber de onde veio esse débito. Ao que parece, eu posso me cadastrar num serviço qualquer aí pela Internet, fornecer o número da conta de qualquer mané, e o mané será cobrado até o dia em que resolver ler seu extrato bancário. Liguei para o IG e me deram o telefone de uma tal central de relacionamento, equipada para lidar com esse tipo de situação. Isso foi na segunda-feira à noite, e os danados só atendiam até as 21 horas. Sem problemas.

Tentei ligar na tal central ontem. Meia hora de espera e nem sequer uma musiquinha. A intervalos de cinco segundos (juro) um sujeito dizia “IG: o mundo é de quem faz”. Enquanto esperava, fui adiantando o trabalho. Li e editei uma nota enviada por uma repórter (“IG: o mundo é de quem faz”), botei a nota no site da revista (“IG: o mundo é de quem faz”), editei outra nota (“IG: o mundo é de quem faz”), botei no site da outra revista (“IG: o mundo é de quem faz”), tomei um café (“IG: o mundo é de quem faz”), outro (“IG: o mundo é de quem faz”), um copo d’água (“IG: o mundo é de quem faz”), mandei e-mail cobrando um fornecedor (“IG: o mundo é de quem faz”) e finalmente desliguei o telefone (iG, vá para o caralho).

Acordei cedo hoje para conseguir ligar para a tal central. Depois de 15 minutos ouvindo “IG: o mundo é de quem faz”, uma senhorita finalmente me atendeu. Pediu meu CPF e, claro, não localizou meus dados. Então me pediu algo que eu achei a coisa mais surreal do mundo: que eu juntasse meu extrato, meu CPF, meus telefones todos e meus dados bancários e enfiasse tudo no cu enviasse tudo por fax ao departamento financeiro. Fax.

FAX!

O iG, empresa moderninha, descolada, cheia de preocupações com posicionamento da marca, me pediu que enviasse um fax. Uma empresa de Internet, que nasceu, vive e respira web, não tem nenhum tipo de atendimento pela rede. Tem um e-mail, é verdade. Mandei uma mensagem explicando (em dolorosos detalhes) a situação. Sabe o que me responderam? Que não conseguiram localizar o serviço em questão! Ora! Se eu não contratei serviço nenhum, e é esta justamente a natureza da reclamação, é claro que não há serviço em questão a ser localizado! PORRA!

Mas voltemos ao fax.

Eu não consigo pensar em nada tão obsoleto quanto o fax. Num mundo em que transações eletrônicas são a coisa mais comum, em que trilhões de dólares trafegam de um lado a outro sem virar papel em momento algum, em que todo mundo se fala por instant messaging ou — vá lá — e-mail (acho e-mail uma coisa meio antiga), a idéia de pegar um punhado de folhas de papel e enfiá-las num aparelho de telefone grande e desengonçado para que outra pessoa receba uma cópia quase sempre ilegível da mensagem, ah, por Deus, é um absurdo. Já seria um absurdo num escritório de contabilidade de Carapicuíba, e o é ainda mais para uma empresa do grupo que inclui, vejam só, a Brasil Telecom.

Mas tudo bem, tudo bem. Vou juntar esses papéis todos e mandá-los por (brrrr!) fax. Só preciso lembrar onde é que tem um aparelho desse. Talvez no Museu do Ipiranga.