Estava eu banhando este corpo moreno, cheiroso e gostoso ontem à noite, quando notei um grilo verde de uns 10 centímetros de comprimento se equilibrando sobre a borda do cesto de lixo.
— Um GRELO verde de 10 centímetros???
Eu disse GRILO
— Ah…
Então. Ele se equilibrava como podia sobre a borda do cesto, olhava para cima como se calculando a distância até a janela, dava uma reboladinha de ensaio. Por fim saltava, desajeitado, e caía atrás ou dentro do cesto. Aí voltava, pacientemente, se equilibrava na borda e começava tudo de novo: “Hmmmm… Dessa vez vai. Um… Dois… E… ZZZZZZZZZUMP! PLAFT! Merda. Lá vamos nós”.
Assistindo àquela cena (e a água correndo, e as contas de luz e água aumentando), lembrei do Pinóquio, ou mais exatamente do Grilo Falante, que desempenhava o papel de consciência do boneco de pau, pau de carvalho. E, claro, comecei a conversar com o bicho.
— E aê? Cê é um grilo falante também?
(reboladinha)
— Sabe o que é? Ando sentindo falta de uma consciência.
(ZZZZZZZZZZZUMP!)
— Não acreditar em deus é uma merda. Você acaba perdendo a sintonia com aquela voz interior, saca?
(PLAFT! caiu dentro do cesto)
— Aquele lance de anjinho e diabinho nos ombros, cochichando coisas em nossas orelhas, sabe? Então.
(reboladinha, dessa vez com maior determinação)
— Mas ter um grilo como consciência ia ser bem mais legal. Eu ia andar com você no ombro. Você é um belo inseto.
(hesitada)
— Ia render papo com a mulherada.
(ZZZZZZZZZUMP!)
— Ô. Fala comigo.
(PLAFT!)
— Fala comigo, bicho estúpido! Até um urubu é mais inteligente que você!
(reboladinha)
— Ah, filho da puta!
Tomado de repentina ira, sapequei três certeiras chineladas naquela barata verde puladeira e continuei meu banho. Quando estava saindo, no entanto, notei um movimento com o olho do rabo, digo, o rabo do olho. O bicho, todo estropiado no chão, mexia uma de suas possantes pernas traseiras, arrastando-se na direção da parede. Tinha os olhos alucinados voltados para a janela. Era inútil, ele já era um inseto condenado, mas ainda assim se agarrava ao fio de vida que lhe restava, ainda se permitindo o direito de sonhar com a liberdade representada pela janela aberta.
Não suportanto aquela cena terrível, desferi-lhe mais duas chineladas, abreviando enfim sua vida.
Não foi à toa que o criador de Pinóquio colocou um grilo como consciência do boneco. Dormi muito mal essa noite.