“Tornar o amor real
é expulsá-lo de você
pra que ele possa ser de alguém.”

(Nando Reis – Quem Vai Dizer Tchau?)

A lenda existe em todas as culturas de todas as épocas: um homem fabrica um boneco, este adquire movimento, consciência, e acaba se convencendo de que também pode ser humano. Pinóquio, o monstro do Dr. Frankenstein e os robôs de Isaac Asimov são apenas alguns exemplos desse mito universal.
Na tradição da cabala judaica, o mito recebe o nome de golem. Há muitas histórias de golems. A mais conhecida é a do rabino Judah Loew ben Bezalel, respeitadíssimo em Praga na virada do século XVII. Conta-se que Judah Loew, depois de muito estudar a Cabala, constatou que para dar vida a uma forma inanimada era necessário proferir uma série de combinações das letras YHWH, o nome de Deus. Tendo isso em mente, começou suas experiências. Depois de muito tentar, enfim conseguiu que um de seus bonecos se movimentasse. Para mantê-lo vivo, escreveu em sua testa a palavra Emet (verdade), e o bruto tornou-se seu empregado. Imagino o susto das pessoas quando o bichão desajeitado aparecia:
— Mas o que é isso?
— É meu golem — respondia o rabino. — Bonito, né?
— GAAAAAAAAAAAAH! — e saiam correndo.
Mas as pessoas foram se acostumando, o golem (a palavra significa “coisa amorfa”) cresceu, e a ele foi dada a tarefa de proteger o gueto judeu contra os constantes pogroms.
Tudo ia bem, mas logo o Golem começou a adquirir consciência, e daí para querer ser gente (e se apaixonar pela filha do rabino) foi um pulo. Com dor no coração, Judah Loew viu-se obrigado a por fim em sua criação.
A história do golem reflete o desejo que acompanha o homem desde sempre: o de suplantar Deus. O Gênesis diz que Deus criou o mundo através do poder da palavra: haja luz, que a terra produza plantas, que surjam o sol e a lua, que apareçam os animais. Deus ia dizendo e as coisas iam surgindo tiradas sabe-se lá de onde. Até a criação do homem, única obra pela qual ele botou a mão na massa (ou no barro), começa com Javé dizendo “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”. O golem, assim como o Universo, surge da força das palavras.

O sentimento, quando surge, é uma abstração. Você pensa, “Ei, e se eu e Fulana…?”, ou, “Ei, e se Fulano e eu…?”. Nessa fase não há perigo; ele só começa a existir a partir do instante em que você, não contente em cogitar sobre o sentimento, resolve exprimi-lo de alguma forma: conta a um amigo sobre Fulana, ou escreve o nome de Fulano no seu diário. Pronto, está feito o golem, e ele não vai sossegar enquanto você não o mandar até a casa de Fulana(o). Você tenta evitar, mas o golem é insistente, e você acaba cedendo. Ele vai, bate à porta, a pessoa atende. O golem, desajeitado que é — no fim das contas, é só um recém-nascido — se comunica como pode:
— Bu!
Enquanto isso, de longe, você torce para que Fulana(o) aceite o golem. Ele é grande e feio, mas é seu, oras. Se for aceito, viverão os três juntos: o casal feliz e o golem que os sustenta e protege. Caso contrário, o bicho volta pra casa puto da vida e o janta — um golem rejeitado é muito perigoso. Aí, meu amigo, já era: você não é mais você; você é o golem. Anda por aí desajeitado, não sabe direito quem é nem o que faz, vive triste e perdido em pensamentos confusos.
Alguns dizem que o negócio é você mesmo ir ter com a outra pessoa, sem golem nenhum. Mas e adianta? O golem cresce, cresce, e um dia a pessoa percebe:
— Mas o que é isso?
— Eu te amo.
— GAAAAAAAAAAAAH! — e sai correndo.
Não adianta, não adianta. O negócio mesmo é não arriscar, é nunca falar o nome do golem. Amor, seus bobinhos, é um dos nomes de Deus.

1Para contar a história do Golem, usei como base os textos O Golem: fabricando um homem, de Voltaire Schilling, e Golem, Frankenstein e Cia., de Renato Sabbatini