O Evangelho segundo Mel Gibson
Meu primeiro contato com a Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana foi aos seis anos. Eu cursava a pré-escola numa sala anexa à igreja Nossa Senhora Aparecida aqui do glorioso Jardim Três Marias. Às vésperas da formatura, a professora nos levou para conhecer a igreja. Lembro-me de ter ficado um tanto desconcertado com o que vi. Acostumado com as paredes austeras da Igreja Batista, foi um choque ver tantas imagens, tantos adornos e rococós. Mas o que mais me espantou foi ver Jesus lá na frente, grandão, dependurado na cruz e com a maior cara de sofrimento do mundo. Eu sabia toda a história da paixão e morte de Cristo, mas a imagem que tinha dele era de um barbudo sorridente que brincava com as crianças, não aquele homem esquálido, grave e moribundo.
O choque repetiu-se com maior ou menor intensidade em todas as outras vezes em que entrei numa igreja católica. Há uns anos, entrei pela primeira vez na Catedral da Sé, e me impressionou ver uma imagem do Cristo morto, deitado num esquife. Esses choques foram gerando uma pergunta dentro da minha cabeça: por que o Jesus Cristo dos católicos é um derrotado? Ou, melhor elaborada: por que o símbolo do cristianismo é a cruz, em vez da pedra removida da porta do sepulcro?
E então veio o filme A Paixão de Cristo, de Mel Gibson. O diretor fez questão de deixar bem explícito o sofrimento de Jesus, sempre que possível com close ups. Parece ter a necessidade de fazer Jesus sofrer muito mais do que os Evangelhos dão a entender. É tão exagerado nos suplícios que a certa altura do filme me perguntei: será que Mel Gibson, lá no fundo, não sentiu um certo prazer com isso? Quanto mais eu penso e me lembro de certas cenas, mais me convenço de que sim.
Mas o prazer inconfessável do diretor não basta para explicar o filme: seu extremo catolicismo deve ser incluído na equação. Com sua história de penitências, venda de indulgências, auto-flagelação (só as primeiras subsistem ainda), a Igreja de Roma quebrou a espinha dorsal do Cristianismo: a idéia de que o Cordeiro de Deus, tendo sido sacrificado e depois ressuscitado, tirou o pecado do mundo. Sendo assim, expressões como “estou pagando meus pecados” não fazem sentido num contexto cristão: seus pecados já foram pagos, paspalho. É curioso que Mel Gibson tenha tirado de seu contexto o trecho do livro de Isaías usado como epígrafe no filme. Tirou toda a beleza do que escreveu o velho profeta:
Considerar Jesus apenas um “ferido de Deus”, e mostrar detalhadamente como e o quanto ele foi ferido (de acordo com suas próprias fantasias), é botar em segundo plano toda a beleza do Cristianismo: cansado de escolher homens para salvarem seu povo, para depois da morte desses homens tudo voltar a ser como era, Deus resolve estender o título de “povo escolhido” a toda a humanidade, fazendo-se ele mesmo homem e se oferecendo como sacrifício para zerar a dívida e reconciliar-se com os homens. Para tal propósito, não importava muito como seria sua morte, mas era imprescindível que ressuscitasse. Não fosse assim, o sacrifício deveria ser repetido periodicamente, o que acabaria cansando o cara (que me corrijam John, Alecrim e Daniel, meus teólogos prediletos, se estou falando besteira nesse resumo do Plano de Redenção visto por um agnóstico).
Mel Gibson não quer saber disso, é claro. Ele precisa gritar: “ESTÃO VENDO? ESTÃO VENDO O QUE O FILHO DE DEUS SOFREU POR VOCÊS? VEJAM QUANTO SANGUE! VEJAM QUANTO SOFRIMENTO! ECCE HOMO!”. Dizem até que, no filme, o braço empunhando o martelo que finca os cravos nas mãos de Jesus é dele, Gibson. Deve ter sido o paroxismo de sua fé, e talvez de seu prazer.




Só uma coisa sobre a profecia de Isaías:
O cordeiro já dorme ao lado do leão ou continuam trocando de carneiro toda manhã?
Eu não vi o filme do Mel Gibson, mas prefiro “A vida de Brian”, porque sempre vou preferir os humoristas britânicos.
Sobre o sofrimento de Cristo, acho que é só uma prova de que sempre vão matar em nome de Deus, até o próprio.
Então, se fossemos fazer uma leitura mais precisa, necessitariamos dizer que a morte e ressurreição de Cristo saí do plano histórico como marco e passa a ser vivencial para cada um de nós, ou seja, é preciso que morramos e revivamos a cada dia, deixando de lado o pecado e a maldade humana para a busca de uma vida de amor e esperança, sacou? Deus não quer que nos sacrifiquemos, quer que busquemo o amor e a esperança entre todos, isso tudo só foi possível depois de muito sofrimento de Seu Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo. Sacou?
Sem pudor nenhum: ESTE FILME MUDOU MINHA VIDA!
E olha que nem católico eu sou.
Te mandei um e-mail, aguardo tua resposta.
Abraço.
“Always look for bright side of life” fiufiu,fiufiufiufiufiufiu
Marco Aurélio, como disse o John, “você
ainda é um crente por dentro dessa carrapaça de agnóstico…”. Acrescento eu: só precisa de um papo pessoal com ele, fazer as pazes (ou de umas boas chicotadas). Oremos.
Voce parece entender bem melhor o propósito da vinda de Cristo e de sua mensagem do que o malfadado Nietzche.
Você é mesmo agnóstico?
Eu adoro a história de Jesus Cristo e costumo ler o que aparece por aí sobre novos evangelhos e tal. Vi o filme logo na estréia e achei bom, bem feito, porém muito violento, mas diferente da grande maioria dos filmes que há por aí.
Concordo com vc sobre a cruz e as imagens e pinturas com Jesus sempre triste e em sofrimento. Não acredito que isso seja do cristianismo. Eu sou espírita hoje e nos centros kardecistas sempre há quadros com Cristo sorrindo ou com uma expressão serena ou mesmo perto de pessoas. Acho que a igreja católica e suas “criações” criaram isso, o que para mim é triste.
Acho interessante o que vc escreve e eu realmente gostaria de ter mais tempo para ler sobre a vida de Jesus.
Andreia
Olá Marco.
Verdadeiramente Cristo não é um derrotado e a fé cristã não é nada sem a ressurreição. Contudo eu vi o filme de uma outra perspectiva. Todo o sofrimento físico, psicológico e espiritual de Cristo realmente tiveram as proporções relatadas no filme de Gibson. Mas o que mais me impressionou foi que nesse filme, Jesus ao dizer: “Pai, perdoa-lhes pois não sabem o q fazem”, trouxe-me a mente a magnitude do Amor Dele por nós. Vi toda a natureza humana, em sua iniquidade, estampada nos rostos daqueles que o escarneciam e simultaneamente percebi nas pessoas q tiveram compaixão pelo Cristo q mesmo em pecado ainda somos imagem e semelhança de Deus.