Acho que vocês sabem que eu venho trabalhar de fretado todo dia. Moro pra lá da Penha, trabalho no Brooklin, é longe pra caralho. A Fer fez o trajeto comigo uma vez e ficou espantada com a distância. Bobagem dela: só uma hora e meia da minha casa até aqui. Dá pra dormir bastante.
Pois muito bem: até a última terça-feira o motorista do fretado deixava o rádio ligado na Alpha, que toca aquelas musiquinhas fáceis de ignorar, boas para dar sono logo de cara. Não sei o que houve com ele, só sei que na quarta-feira entrei no ônibus e estava tocando uma música do Chico César, aquela que tem o inspiradíssimo refrão “ÔOOO / A maradzaia zoiê / Dzaia, dzaia / A i-i-i-inga do rãaaae”. O dial tinha pulado pra freqüência da Nova FM. Desde então não consigo mais dormir no ônibus, com aquela seqüência de artistas cujas músicas para mim são piores do que unhas arranhando um quadro-negro: Simone, Ivan Lins, Kleyton & Kledyr, conjuntos vocais, filhos genéricos da Elis Regina e sua patota da Trama. Lamentável.
Mas não é que hoje estava melhorzinho? Entrei no ônibus ao som de Quase Sem Querer, da Legião Urbana. Deixei de ser fã da Legião assim que abandonei a adolescência — isto é, há uns três anos — mas tem valor sentimental. Logo depois, Iolanda. Tá, eu sei que tem a Simone nessa, mas é só concentrar os ouvidos na bela letra e no Chico Buarque cantando.
Enfim, uma seqüência que se manteve por umas quatro músicas, até descambar para a ignorância: música nova dos Engenheiros do Havaii, os gaúchos que Dani adora. Nessa música nova, Na Veia (ouçam aqui), Humberto Gessinger conseguiiu superar-se. O refrão, “Vem / Ver com os próprios olhos / Vem / Ver a vida como ela é”, fará para sempre a alegria do Homem Chavão. Coisa impressionante.
Nunca mais eu vou cochilar no ônibus. Merda.