Meu pai
(Seu Lindauro)
Uma das lembranças mais antigas que eu tenho é de brincar de aviãozinho com meu pai. Ele se deitava no chão, eu apoiava o peito na planta dos pés dele e ele me erguia no ar com as pernas: primeiro me segurando pelas mãos, depois me deixando solto lá em cima. Eu devia ser bem pequeno, porque a impressão que eu tinha era de estar muito alto, equilibrado sobre as pernas esticadas do meu pai. Eu morria de medo de altura, deveria ter medo dessa brincadeira também. Mas ele dizia que não tinha perigo e eu confiava nele. Meu pai não mentia.
Um infarto levou meu pai embora no sábado de manhã. Não consigo acreditar até agora. Estou aqui na casa da minha mãe. Viemos almoçar, fazer companhia a ela e uns aos outros. Esta é a hora em que ele entraria aqui me trazendo uma xícara de café. Meu pai fazia um café muito bom e sabia a quantidade de açúcar exata que eu gostava.
Muita gente apareceu para o velório e o enterro. Muita gente mesmo. Todo mundo gostava muito do meu pai. Ele não xingava, não reclamava, não sentia ódio. Estava sempre sorrindo, trabalhava assoviando. Quando alguém se queixava de problemas, ele estava sempre pronto a aconselhar, confortar. “Deus proverá” era o bordão constante dele, que ele proferia com uma convicção que fazia qualquer um acreditar. Todo mundo se lembrou disso no fim de semana. “Deus proverá.”
Paciência e fé eram duas virtudes que meu pai tinha de sobra (e que me faltam). As pessoas pediam para ele falar com Deus sobre elas; era como se ele tivesse privilégios de atendimento no céu. E devia ter mesmo. A relação dele com Deus era constante e muito próxima. Lembro dele pegando um filé de peixe empanado e colocando no meio do pão. “Quando eu como pão com peixe, lembro de Cristo quando multiplicou os pães e os peixes.” Ele falava assim mesmo, “lembro”, como se tivesse estado lá. Ele via aquela multidão toda comendo sanduíche de peixe, e se sentia perto deles ao fazer o mesmo. Quando via um arco-íris, ele se lembrava de Noé desembarcando da arca.
Meu pai era da Congregação Cristã do Brasil, que tem costumes diferentes das outras igrejas protestantes. Homens e mulheres sentam-se separados durante o culto. As mulheres usam véu na cabeça. Meu pai foi batista a vida inteira, mas foi para a Congregação há coisa de quinze anos. Acho que foi bom: ele se tornou mais tolerante (tolerava até um filho ateu), mais confiante em Deus (se é que era possível). O pessoal da Congregação alugou um ônibus para ir ao velório. Fizeram um culto muito bonito lá. Cantaram hinos, oraram pedindo conforto para nós, os familiares e leram o Salmo 15:
Senhor, quem habitará no teu santuário? Quem poderá morar no teu santo monte?
Aquele que é íntegro em sua conduta e pratica o que é justo, que de coração fala a verdade
e não usa a língua para difamar, que nenhum mal faz ao seu semelhante e não lança calúnia contra o seu próximo,
que rejeita quem merece desprezo, mas honra os que temem ao Senhor, que mantém a sua palavra, mesmo quando sai prejudicado,
que não empresta o seu dinheiro visando lucro nem aceita suborno contra o inocente. Quem assim procede nunca será abalado!
Parece que Davi escreveu isso pensando no meu pai. O ancião da igreja disse que Cristo vai crescendo dentro do cristão, até que ocupa todo o espaço e o cristão não tem mais nada a fazer por aqui. Ouvir isso me fez querer ter fé novamente. Foi isso que aconteceu com meu pai: ele ficou tão parecido com Jesus Cristo que já não cabia aqui na Terra.
Eu precisava escrever sobre meu pai, sobre a morte dele; escrever sempre me trouxe conforto. Mas estou aqui escrevendo e a dor só aumenta. Ele foi embora muito de repente, muito jovem. Fico lembrando de quando ele chegava do trabalho trazendo broas de milho embrulhadas em papel amarrado com barbante — como eu gostava daquelas broas! Eu abraçava ele apertado e respirava fundo para sentir o cheiro dele; um cheiro bom que só ele tinha, um cheiro de meu-pai-chegando-em-casa. “Que o pai trouxe?”, nós perguntávamos quando ele chegava, e ele sempre trazia alguma coisa: as broas, um pão doce, um brinquedinho besta. Lembro dele aos domingos saindo no quintal para nos ver chegar, recebendo todo mundo com alegria, ajudando minha mãe a por a mesa para o almoço. Como estava feliz! Os filhos todos encaminhados, a neta de 6 anos crescendo saudável, linda e inteligente, os netinhos gêmeos cada vez maiores e com os olhos mais azuis. Agora eu fico aqui esperando ele chegar, esperando ouvir a voz dele, sentir o cheiro dele. Só que eu sei que isso não vai acontecer, e me sinto vazio. Meu pai era minha referência na vida. Sem ele, não sou nada.




Meus sinceros sentimentos. Sou fã do Sr. Lindauro sem nunca tê-lo conhecido.
Ola. acompanho o jesus me chicoteia a muito temppo, desde que li sua resposta ao crente que o interpelou pelo blog, (hheheheheh). hj linkei pra ca. Cara….. senti tristeza por vc, pela sua perda, como se me colocando no seu lugar. Meu pai tem 83 anos, me encontro com ele toda manha. tomo cafe com meus pais, na casa dels, antes de ir para o trabalho. Senti a sua perda, mesmo sem conhece-lo, ou ate conhecendo suas ideiaas e sua etica, independente da religiao.
Que tenha uma boa jornada, ate nos encontrarmos com nossos velhos amigos , junto ao senhor
att.
Cezar
sinto muito, marco. ; (
Talvez a dor ainda seja algo de bom a se sentir… deu uma fechada na garganta ao ler esse texto… Força cara!
Abraço!
Marco, lamento. Do fundo do coração.
Um abraço grandão
Meus sentimentos…
Sei exatamente o que e` tudo isso… vai fazer 4 anos que meu pai partiu… E` como algue`m ja` isse aqui, a dor passa, mas a saudade vai existir sempre… Mas, saudade e` coisa boa, de quem amou e teve bons momentos juntos, o que resulta em boas histo`rias pra relembrar e pra contar…
Força, a vida segue seu rumo… A vida sempre segue. Boa sorte, bons caminhos pra ti e os teus.
Meus pais são da Congregação também. Eu sou ateu também. Eu sei bem como é esta vontade de voltar a ter fé.
Força aí, cara.
Olá Marco, entrei em seu blog por acaso mas nao contive minha sensibilidade depois de tal texto expressando tamanho amor. Eu sinto muito, embora tenha a certeza que ninguem que possa sensibilizar-se assim como eu, sinta mais do que vc e sua familia. Nunca perdi ninguem querido em minha vida, graças a Deus por isso ainda. Sei que é fato que uma hora isso aconteça. Mas tento lidar com as lembranças deixadas, lembranças tao boas quanto essas que voce contou aqui, daquelas que voce fecha os olhos e se coloca naquele momento novamente, daquelas que o cheiro dele só vc ainda consegue sentir….feche seus olhos, deixe que sua alma te leve até seu Lindauro sempre que a saudade apertar, tenho certeza que ele estará sempre ao seu redor te protegendo, e aguardando por este momento sempre único de voces. Deus te abençõe.
Sinto muito por você e sua família. Esse foi seu primeiro post, em tantos anos, que me trouxe lágrimas aos olhos.
Se há céu, sem dúvida seu pai está lá.
Momento muito difícil, sinto muito… chorei com o seu texto…
Pois, Marco… amor é feito energia, ele não se perde, ele se transforma! Deixou de ser físico para ser sempre aquela saudade gostosa, aquela coisa que transcende o que está apenas ao alcance dos nossos olhos. Que Deus realmente proverá, é certo. Mas mando muita força pra você e pra Cartola neste ano tão pesado. Abraço daqui de Recife =)
Me fez chorar e querer acreditar mais também. Que pai maravilhoso. Parabéns.
Primeira vez a olhar o seu blog,e o que falar ??
Eu digo que chorei..feito menino inocente,feito menino sem pai,tenho 19 anos,e a alguns anos atras,nesta mesma data,perdia o meu pai..Fé,quantas vezes eu pensei que já não existia dentro de mim.Mas as nossas forças se rejuvenescem na dor.O pior,é que não queriamos nem aceitamos esta dor…Força,que vc nao supere esta dor,pq supera-lá é esquecer de tudo,mas que vc aprenda com ela..
Sinto muito, cara. De verdade.