Dizem que as lembranças mais antigas que a gente tem não são de verdade: são memórias falsas, criadas a partir de histórias que os pais contam sobre nossa infância e que a gente acaba incorporando. Acho que é isso mesmo; até porque tenho uma tendência besta a incorporar histórias alheias. Alguém me conta um negócio que lhe aconteceu; tempos depois eu lembro com detalhes da história acontecendo comigo. Doença. Mas eu acredito que uma das minhas lembranças mais antigas seja de verdade. E por um motivo simples: não tinha ninguém da família presente para me contar o que aconteceu.

Foi há 32 anos. Vocês nem eram nascidos, provavelmente. Eu tinha três anos de idade e fui internado por conta de uma crise de gastrite e…

Merda. Escrevi um puta texto enorme aqui, só pra descobrir que já tinha contado essa história:

Não perguntem, não sei como eu fui ter gastrite aos três anos. Mas me lembro perfeitamente dos quatro dias que passei no hospital. Lembro de um médico que me impressionou por ser preto e por ter um cabelão black power (era 1978, a lama do Dilúvio ainda não havia secado). Lembro de ficar importunando as enfermeiras para me levarem pra casa, de argumentar com uma enfermeira que veio botar fraldas em mim na primeira noite (“Fralda? Eu não uso fralda. Quem usa fralda é criança”), e do constrangimento que foi me ver de fraldas minutos depois.
E lembro da hora do banho.
Ah, o banho! Eu ficava em pé na banheira e começava a dançar e cantar músicas do Sidney Magal, meu ídolo máximo então. Engrossava a voz e mandava:

Tenho
um mundo que é cor-de-rosa
de coisas maravilhosas
que tanto sonhavas ter.

As enfermeiras se acotovelavam na porta do banheiro, todas com cara de óun! Eu tinha meu charme.

Bom.

Anos depois, aporrinhei minha mãe para fazer uma camisa igual às do Sidney Magal. Era impossível, claro: a bicha usava umas mangas bufantes na época, umas coisas meio de cetim, abertas no peito. Minha mãe fez uma camisa social de seda e me falou que era igual a uma camisa do Magal. Eu acreditei, fiquei feliz da vida.

Hoje fui ver o Sidney Magal na Virada Cultural como presente de aniversário parar mim mesmo. Nada de mais: foi só sair do prédio; o show foi no fim da rua. Eu não costumo dançar nem nada em shows, fico quieto, parado. Mas arrisquei uns passos no show do Magal. Ele estava com um paletó todo brilhoso, coisa de Cauby Peixoto. Vou pedir pra minha mãe fazer um igual.