(I Reis 13)

É da eterna prepotência humana acreditar que Deus ouve todas as orações e as considera uma por uma. Nada mais pretensioso. O que ocorre, na verdade, é que as orações são dirigidas ao Limbo. O Limbo, como vocês sabem, é o lugar do além reservado aos infiéis virtuosos e às crianças que morrem sem batismo. Toda oração que é feita aqui da Terra, independentemente da religião de quem profere a prece, é encaminhada ao Limbo. Lá os receptores classificam as orações de acordo com a filiação religiosa e as repassam ao Purgatório.
O Purgatório, como vocês também sabem, é reservado àquelas pessoas que não foram boas o suficiente para ir para o céu nem más o bastante para queimar no inferno. Como o próprio nome diz, é um local para purgar os pecados cometidos em vida. O que vocês não sabem é que todo mundo que vai para o Purgatório é colocado para trabalhar numa central de atendimento. Cada religião, seita ou culto tem seu próprio contact center por lá. Os atendentes, sentados em suas baias com seus headsets, recebem as orações do Limbo e a encaminham ou não ao Céu (ou ao Inferno, no caso dos satanistas). Preces que tenham alguma relação com ganhar na loteria, por exemplo, são sumariamente descartadas. Pedidos para passar no vestibular são analisados caso a caso. E assim vai. Assim que a oração é repassada, cessa a responsabilidade do Purgatório.
“Mas o que tem isso a ver com o reino dividido de Roboão e Jeroboão?”, há de perguntar um que outro leitor mais impaciente. Já explico.
Aconteceu que, nos tempos de Jeroboão, um dos atendentes da empresa de contact center dedicada ao judaísmo no Purgatório recebeu uma ligação urgente do Limbo. A pessoa do outro lado da linha parecia agitada.
— A religião de vocês tem alguma coisa a ver com bezerro?
— Um momento, senhor. Vou estar verificando.
[musiquinha de espera]
— Obrigado por aguardar, senhor. No judaísmo, os bezerros são utilizados em rituais de sacrifício ao nosso deus, Javé.
— Só isso?
— É o que consta no relatório, senhor. “O bezerro vai estar sendo sacrificado a Javé, que vai estar aceitando ou não o sacrifício. Se no caso Javé não aceitar, ele vai estar fulminando quem ofereceu o sacrifício, para estar deixando de ser besta”. Mais alguma informação, senhor?
— Tenho recebido umas orações estranhas aqui, nego falando em bezerro. “Ouvi nossa prece, ó Grande Ruminante! Parai de pensar na morte da Bezerra, sua santíssima progenitora”. Essas coisas.
— Senhor, não tenho informação sobre esse tipo de oração dentro do judaísmo. O senhor tem certeza que não foi algum hindu? Sabe como é hindu: adora tudo que é coisa estranha.
— Que mané hindu! Aqui eu só recebo oração dos narigudinhos. Era judeu mesmo.
— Pois não, senhor. Vou estar anotando sua solicitação e passando ao setor responsável.
— Obrigado.
— Mais alguma informação?
— Não, só isso.
— A Shalom Contact Center agradece por sua ligação. Tenha uma ótima tarde!
— Bah.

Essa foi apenas a primeira ligação. Durante o dia, os ramais da central ficaram congestionados com tantas ligações de ouvidores do judaísmo reclamando do crescente número de preces destinadas não a Javé, mas a um bezerro. “Tem boi na linha”, comentou um atendente mais gaiato, mas foi logo advertido por seu supervisor. O supervisor passou o problema para o gerente, que o repassou para o diretor, que o empurrou para o presidente, que decidiu que aquilo era problema do Céu. Enviou, portanto, um relatório ao Paraíso. O anjo que o recebeu não soube o que fazer daquelas informações, então enviou o relatório a seu arcanjo-chefe. O arcanjo-chefe resolveu repassar o problema às potestades superiores. Resumindo: só meses depois, quando o culto dos bezerros no Reino do Norte já estava consolidado, é que Javé veio a receber a notícia. Ficou puto, esbravejou, ameaçou demitir todo mundo. Foi lembrado por um serafim, porém, que todos tinham estabilidade de emprego e não podiam ser demitidos. O Senhor dos Exércitos maldisse as leis trabalhistas, jogou a cadeira para o outro lado da sala, esmurrou a parede. Já mais calmo, procurou na agenda o telefone de algum profeta confiável que estivesse desocupado.
No judaísmo, só os profetas tinham o número do telefone vermelho de Deus. Não foi, portanto, grande surpresa para esse profeta de Judá ver em seu identificador de chamadas o nome “Javé” piscando. Atendeu, ouviu os gritos, concordou com tudo e foi cumprir sua missão

No dia seguinte, quando Jeroboão estava diante do altar de Betel oferecendo sacrifícios a seus deuses bovinos, levou um susto com o grito do profeta de Judá, recém-chegado de viagem.
— Ó, ALTAR MALDITO! JAVÉ MANDA DIZER QUE VIRÁ UM REI CHAMADO JOSIAS (1), QUE QUEIMARÁ SOBRE VOCÊ OS SACERDOTES QUE OFERECEM SACRIFÍCIOS A OUTROS DEUSES!
Em seguida, contradizendo-se, o profeta continuou:
— COMO PROVA DE QUE FUI ENVIADO POR JAVÉ, ESSE ALTAR VAI SE QUEBRAR EM PEDAÇOS.
Jeroboão nem parou para pensar em como é que o tal Josias viria a queimar gente sobre aquele altar, se ele ia se quebrar em pedaços. Em vez de entrar numa discussão que poderia ser longa e enfadonha, apelou para seus poderes reais, apontando para o profeta e gritando:
— PEEEEEEEEEEEEEEEEGA ESSE CABRA SEM-VERGONHO!
No mesmo instante o braço do rei ficou paralisado e sua mão secou. O altar implodiu e suas cinzas espalharam-se pelo chão. Assustado, quase chorando, Jeroboão disse ao profeta:
— Rapaz, faça isso não! Diga a Javé que eu tenho muito apego por essa mão, posso ficar sem ela não…
O profeta orou, e imediatamente a mão do rei voltou ao normal e ele recuperou os movimentos do braço. Aliviado, botou as mãos sobre os ombros do profeta e propôs:
— Bora lá em casa mais eu? Lhe dou um agradozinho…
— O senhor está tentando subornar?
— Subornar? Deixe disso, homem! É só uma lembrancinha, uma bestagem!
— Mas nem que o senhor me oferecesse metade da sua fortuna. Javé me ordenou que não comesse nem bebesse nada aqui, que não aceitasse nada de ninguém, e que não voltasse pelo mesmo caminho que segui para vir pra cá.
— Arre, égua! Por quê?
— Misteriosos são os caminhos do Senhor.
— Eita, piaba. Bom, tu é que sabe.
Sem pedir licença ao rei, o profeta saiu dali e começou sua viagem (por outro caminho) para o Reino do Sul.

Mal o profeta saiu, dois rapazes que ouviram a conversa correram para a casa. O pai deles era um velho profeta que morava em Betel havia muitos anos. Ao saber que um profeta viera de Judá para dar um recado ao rei, ficou encafifado. Ele era um profeta tão bom como qualquer outro, apesar da idade. Por que Javé se dera ao trabalho de chamar um profeta de tão longe, se o tinha ali à mão? Perguntou aos filhos que caminho o profeta do sul tomara, ordenou que lhe encilhassem o jumento, e tocou pela estrada até encontrar seu colega de profissão descansando à sombra de um carvalho.
— Ô, rapaz. Tu é o profeta de Judá, é?
— Sou sim.
— Eita, que faz é tempo que não encontro um colega. Bora lá em casa forrar o bucho?
— Sua hospitalidade muito me comove, mas não posso ir. Javé me ordenou que eu não comesse nem bebesse nada por aqui, nem que…
— … voltasse pelo mesmo caminho. Ora, eu tô sabendo, rapaz. Eu sou profeta também, e um anjão desses bem ‘retados que me mandou vir aqui e te chamar pra ir lá em casa.
O profeta de Judá não tinha razões para duvidar. Se o outro estava mentindo, como saberia das ordens precisas que Javé lhe dera? Além do mais, anjo chega, dá seu recado e vai embora, não deixa nada por escrito. Foi de boa fé, portanto, que ele se levantou e acompanhou o velho até sua casa em Betel, onde já os aguardava a comida pronta. Enquanto comiam, porém, o telefone da casa do velho tocou.
— Dê licença um pouco, vou só atender e já volto.
— Claro, claro.
Depois de cinco minutos, o profeta voltou esbravejando:
— FIO DUMA QUENGA!
— Como é?
— CABRA SAFADO! ERA JAVÉ NO TELEFONE, TÁ ME OUVINDO? TU DESOBEDECEU O QUE ELE TE MANDOU FAZER! ELE MANDOU, EXPLICOU, MAS TU É UM CABRA RUIM DA PORRA!
— Peraí, peraí! Você me convidou para vir até aqui, disse que um anjo tinha…
— NÃO INTERESSA, FIO DUM CÃO! TU VAI MORRÊ, E NÃO VÃO TE ENTERRAR JUNTO COM SUA FAMÍLIA, QUE É PRA TU DEIXAR DE SER UM SUJEITINHO SAFADO!
O profeta de Judá, sem entender nada, saiu depressa, montou em seu jumento e picou a mula (no sentido figurado). No meio do caminho, um leão que ia passando saltou sobre o profeta e o matou. Sim, um leão. Sim, em Israel. Não perguntem. O negócio é que o bichão ficou por ali, ao lado do jumento e do cadáver, sem nem pensar em comer nenhum dos dois. Era uma cena rara de se ver, e a notícia se espalhou rápido. Quando o velho profeta ficou sabendo, entendeu que se tratava de seu colega, e mandou novamente que preparassem sua montaria.
— Fiquem aí que eu vou lá ver o defunto. Cabra besta, desobedecer Javé desse jeito, já se viu?
Quando chegou ao lugar onde jazia o profeta de Judá (com o leão e o jumento já dormindo um do lado do outro, como personagens de desenho animado ), pediu ajuda a seus filhos e jogou o cadáver sobre o jumento, levando-o de volta a Betel. Lá o enterrou em sua própria sepultura, e chorou junto com seus filhos.
— Ah, meu irmão! Meu irmãozinho de Judá! Quando eu morrer, quero ser enterrado ao lado dele.
Pense num cabra hipócrita…

Mesmo depois do aviso do profeta, de ver sua mão secar e o altar despedaçar-se, e de saber o que acontecera ao profeta por conta de uma desobediência menor, Jeroboão não tomou jeito. Continuou a cultuar os bezerros, e nomear profeta qualquer um que quisesse sê-lo. O critério dele era semelhante ao de certas igrejas modernas para ordenar pastores: ministrava uns cursinhos de oratória, marketing e vendas, e pronto, estava o cara pronto para ser líder religioso. Ele não tardaria a sentir o peso da mão de Javé. O castigo, como de hábito, seria desproporcional e injusto. Como veremos.

(1) Ainda leva tempo para o rei Josias aparecer nessa história (ainda mais nesse ritmo). Basta dizer, por enquanto, que ele patrocinou uma grande reforma política e religiosa em Judá. Os autores do livro The Bible Unearthed levantam a hipótese muito plausível de boa parte do Velho Testamento que conhecemos ter sido produzida nos tempos de Josias como ferramenta de propaganda. Isso explicaria a menção de seu nome tantos anos antes de seu nascimento. Os fundamentalistas, é claro, dirão que se trata de uma profecia. Que digam.