Não é costume dos moradores de São Paulo observar a natureza. Primeiro porque não restou muita natureza para ser observada nesta cidade, e depois porque são todos muito ocupados e apressados. Eu, no entanto, aprendi com meu pai a manter os olhos abertos para as manifestações naturais e nunca me arrependi disso.
É quase primavera, as flores começam a surgir, as plantas vão fazer seu sexo anual (quem me dera trepar com tanta freqüência!). Agora mesmo, se você olhar entre os ramos das árvores, verá passarinhos começando a construção de seus ninhos. Daqui a um tempo veremos os rituais de acasalamento: os pombos de peito inflado tentando impressionar pombas exigentes, os bem-te-vis cantando suas serenatas com voz esganiçada, os lagartixos dançando break, os ornitorrincos tocando castanholas de saia rodada.
Porém, o que mais me impressiona quando a primavera vem chegando é o comportamento dos humanos. Todos parecem mais sentimentais, mais propensos ao flerte, ao jogo amoroso, aos seus próprios rituais do acasalamento. Não é ainda aquela coisa escancarada do verão, todo mundo pelado e vamos trepar logo que daqui a pouco chega o outono e a broxada é geral. Não: é algo mais tranqüilo e calculado. Alea jacta est, e por enquanto jogamos pôquer: consideramos cada jogada, mantemos a fisionomia impassível. E blefamos, muito. No verão começa o truco, a gritaria, vale tudo, vale roubar, vale gritar “SEIS, MARRECO!” na orelha dos outros jogadores. Mas não agora: estamos jogando pôquer e ninguém sai. Ninguém sai!
Comecei a reparar nisso porque de uns tempos pra cá não se passa um dia sem que eu ouça histórias do tipo “Um ex-namorado que eu não via há anos me ligou ontem. Sei lá onde arrumou meu telefone!”, ou “Lembra aquela mina maluca do ano passado? Então, me mandou um e-mail. Assim, do nada!”. Posso estar errado (geralmente estou), mas acho que nós somos muito mais controlados pelo instinto e pela influência das estações do que gostaríamos de admitir.