Estava lá no fumódromo. Cantarolando Sonhos Sonhos São, e pensando nas coisas que escrevi, quase nem me lembrava da existência dele. Mas não durou muito: Logo ele apareceu, vindo das bandas de Santo Amaro, descendo em círculos preguiçosos até a altura do décimo-quinto andar.
— E aí, mané?
— Vai entrar?
— Depende. Que que cê tem aí?
— Marlboro.
— Ah, muito bom! Aquele Lucky Strike me embrulhou o estômago. E olha que meu estômago é forte. Dá um cigarro aí.
Empoleirou-se no friso da janela e ficou dando suas baforadas. Constrangido pelo silêncio, voltei a cantar.
— Que música é essa, mané?
Sonhos Sonhos São. Chico Buarque.
— Você canta mal, hein? Consegue deixar a música irreconhecível.
— Você conhece?
— Conheço tudo o que você conhece.
— Como?
— Um dia você vai entender. Por enquanto, não faça mais perguntas. Isso irrita. Basta a você saber que eu conheço a música. E que sei que você fica aí cantando e pensando naquela garota.
— Você a conhece também?
— Claro, oras. Ela mora aqui perto.
— É verdade. E vocês conversam?
— Não. Só pessoas de alma sombria conversam com os urubus.
— Ah.
— Mas e aí? Vai continuar pensando nela até quando? Não percebe que é inútil?
— Percebo. E se fosse fácil, já teria parado de pensar.
— É, tô sabendo. Mas você tem que decidir. Veja só, esse sentimento que você tanto alimentou enquanto estava em gestação acabou por nascer morto. E agora suas opções não são nada agradáveis: Pode enterrá-lo, e ficar dolorosamente cônscio de sua presença lá no fundo da mente; ou abandoná-lo ao relento, como pasto fácil para aves necrófagas. Você só não pode ficar acalentando essa criança morta. É doentio.
— Suas metáforas são sempre macabras assim?
— A morte é minha realidade.
— Faz sentido.
— Sempre faz sentido. Eu penso para falar, sabe? Ao contrário de você, que tem preguiça de botar seu cérebro supostamente evoluído para trabalhar.
— Vou ignorar a provocação. E pensar no que você disse antes.
— Pense, mané. Eu vou nessa.
E saiu voando seu vôo circular, ainda com o cigarro no bico.