(II Samuel 12:1-15)

Ao enviar Urias para a morte e assim desposar a viúva, Davi excedera qualquer limite. Javé não gostou nada daquilo, e ordenou que o profeta Natã fosse dar uma bronca no rei. “Dar uma bronca no rei!”, preocupava-se Natã, “Falar é fácil. Por que não vai lá ele mesmo? Como é que eu vou dar essa bronca sem deixar o homem puto?”. Foi pensando nisso por todo o caminho, e ao chegar ao palácio havia decidido abordar o assunto de forma suave, contando uma parábola. Então, quando o rei enfim o recebeu, começou a contar sua história:
— Dois homens moravam na mesma cidade…
— Qual cidade?
— Hein?
— Você disse que dois homens moravam na mesma cidade. Qual?
— Oras, não vem ao caso! Sei lá! Belém, vá.
— Belém? Olha, então eu devo conhecer os dois. Como se chamavam?
— É só uma história, majestade!
— Ah! Não é de verdade, então?
— Não!
— Bom, bom. Continue, adoro histórias.
— Então. Um dos homens era muito pobre, o outro era milionário. O rico tinha muitos bois, jumentos, ovelhas, camelos. O pobre, coitadinho, tinha só uma ovelha. Era apegado ao bichinho: a ovelha comia de sua comida, bebia em seu copo, dormia em seu colo.
— Ih. Esse cara aí com a tal ovelha, sei não…
— Pô, majestade, não fode. A ovelha era como uma filha para ele.
— Filha? Sei.
— NÃO IMPORTA! O negócio é que o milionário lá recebeu a visita de um amigo tão rico e importante quanto ele. E sabe o que ele fez?
— O quê? O quê?
— Com tantos animais à disposição em sua propriedade, resolveu, por puro capricho, matar a ovelha do vizinho pobre para servir ao visitante.
— COMO É QUE É??? O cara tinha gado à vontade, mas preferiu matar o bichinho de estimação do outro, que não tinha mais nada na vida?
— Isso mesmo.
— ESSE SUJEITO É UM FILHO-DA-PUTA! Deve dar quatro ovelhas para o vizinho e depois ser executado. Não consigo imaginar outro castigo para ato tão cruel.
— Pois esse sujeito é o senhor, majestade.
— COMO??? Não sei do que você está falando.
— Não sabe? Urias? Bate-Seba?
— Er… Quem?
— JAVÉ SABE TUDO, DAVI! Ele mandou dizer que o fez rei de todo o Israel, que o salvou de Saul e entregou o reino em suas mãos. Tudo isso ele lhe deu, e daria tudo duplicado. Então por que é que você foi cometer um crime tão vil?
— C-Crime…?
— VOCÊ ORDENOU A MORTE DE URIAS, PARA PODER FICAR COM A MULHER DELE!
— Eeeeeeeeeeeeeeeeu?
— JAVÉ SABE TUDO! Como punição por seus atos, ele diz que sua descendência terá uma história violenta. Além disso, uma pessoa de sua própria família causará sua desgraça. Suas esposas vão se entregar a outro homem, e ele vai traçar todas no meio da rua, à luz do dia, para que todo o Israel saiba que o rei é um chifrudo.
— Tá certo, tá certo… Eu errei.
A confissão do rei fora mais fácil do que Natã esperava. O profeta não resistiu à tentação de dar uma boa notícia:
— Ah, não fica assim! Javé perdoou seu pecado, não vai matá-lo nem nada assim.
— Que bom.
— É, é. Muito bom. Só tem uma coisinha…
— O quê?
— Sabe o menino, filho de Bate-Seba?
— Claro! Aquele menino é a alegria da minha vida!
— Er… Então. O menino… — bem devagar, Natã ia andando de costas na direção da porta enquanto falava — O menino vai pagar por essa.
— Como?
— Deus vai matar o seu filho, Davi.
O rei ficou sem acreditar por um instante: primeiro Javé o repreendia por matar um homem inocente, e agora punia por isso alguém mais inocente ainda, um bebê? Não podia ser verdade. Quis confirmar com Natã, mas o profeta já dera no pé.