(Levítico 14:1-32)

— Ué, cadê o Arão?
— L-lá fora. D-disse que p-precisava to-tomar um p-pouco de a-ar.
— Hum. Seu irmão não vai muito com a minha cara, né?
— N-não. Mas ta-também, cê q-queria o q-quê, de-depois de t-ter ma-matado o-os…
— … de ter matado os filhos dele. Tá bom, tá bom, já tô cansado desse papo. Isso já faz tanto tempo, o cara não esquece.
— F-foi se-semana p-passada!
— Ah, foi? Hum… Esse negócio de eternidade me faz perder a noção do tempo. Ok, tudo bem, vamos continuar sem o Arão. Deixa ver aqui onde eu estava. Ah, tá. Um leproso que achar que foi curado deverá vir falar com o sacerdote, que o levará para fora do acampamento para examiná-lo. Se ele estiver curado mesmo, o sacerdote mandará trazer duas aves puras, um pedaço de cedro, lã tingida de vermelho e um hissopo.
— Hi-hiss… Hi-hi-hisso… O q-quê?
— Hissopo, Moisés. Planta medicinal da família das labiadas que pode ser usada como broxa.
— U-ué, p-pra i-isso a ge-gente po-pode usar o A-Arão m-mesmo.
— Não, Moisés. Não estou falando do indivíduo sem potência sexual, mas da broxa, do francês brosse, pincel grande de pêlos curtos usado para caiação e outros serviços de pintura pouco apurada.
— Ca-caraca, Ja-Javé, tá p-parecendo um di-dicionário fa-falando.
— Pois é, comprei um Aurélio, facilita as coisas. Mas retornemos ao nosso assunto… O sacerdote vai pedir essas coisas todas. Depois mandará que matem uma das aves em cima de um pote de barro cheio de água. Mas tem que ser água da fonte, hein?
— Vi-vixe, tá pa-parecendo ma-macumba isso a-aí…
— Não enche, prestenção. Aí ele vai pegar o outro passarinho, o cedro, o pedaço de lã e o hissopo e mergulhará tudo no sangue da ave morta. Em seguida borrifará o homem sete vezes com o sangue (usando o hissopo) e o declarará limpo.
— P-pô, p-precisa me-melecar o ca-cara com sa-sangue?
— Precisar não precisa, mas é que eu gosto dessas coisas. E como quem manda aqui nessa porra sou eu, vocês vão fazer do jeitinho que eu tô dizendo. Humpf. Depois de borrifar o cara, o sacerdote soltará a outra ave no campo, para que voe linda, leve, solta, FLY AWAAAAAAAAAAAAAAAY, SKYLINE PIGEON FLYYYYYYYYYY…”
— Me-menos, Ja-Javé.
— Aham… Então. O ex-leproso deverá lavar a roupa que estiver usando, rapar todos os cabelos e pêlos do corpo e tomar um banho. Feito isso, entrará no acampamento, mas ficará sete dias fora da barraca. No sétimo dia, vai rapar de novo o cabelo, a barba, as sobrancelhas e todos os pêlos do corpo, lavar a roupa e tomar um banho, e estará limpo.
— Q-que sa-sacanagem, Ja-Javé!
— É mesmo, não é? O cara parecendo o Espiridião Amin e sendo obrigado a dormir ao relento. Rá! Me divirto com essas coisas.
— M-mas aí j-já é de-demais.
— É nada! Ainda tem mais: No dia seguinte, o cara levará ao sacerdote dois carneirinhos e uma ovelhinha de um ano, três quilos de farinha com azeite e mais um quarto de litro de azeite puro. O sacerdote levará o homem e suas ofertas até o Tabernáculo, onde matará os bichos todos e fará uma baita melequeira no ex-leproso, com sangue, azeite e farinha.
— Po-porra, Ja-Javé, o po-povo não vai a-aceitar i-isso não!
— Vai sim, Moisés. Primeiro porque eu estou mandando, e se não aceitarem eu mato todo mundo. E segundo porque você não vai falar desse jeito pra eles. Redigi o texto aqui de forma a parecer uma coisa séria, um ritual a ser seguido e tal. Passa assim pro Arão que ele nem vai perceber a sacanagem.
— Que que tem eu?
— Ô, Arão! Chegou bem na hora. Estava falando aqui pro Moisés que o próximo assunto vai interessar muito a você: lepra nas casas.
— Mofo, Javé.
— Que seje.
— Que seja, Javé.
— Não abusa.