Ressureição
Mel Brooks e Ray Bradbury ressuscitaram recentemente. Ao menos para mim: há anos julgava-os mortos.
E daí?
Sei lá, achei legal compartilhar com vocês minha alegria pela ressurreição de dois ídolos.
Mel Brooks e Ray Bradbury ressuscitaram recentemente. Ao menos para mim: há anos julgava-os mortos.
E daí?
Sei lá, achei legal compartilhar com vocês minha alegria pela ressurreição de dois ídolos.
Quanto mais eu olho o mundo, menos eu entendo. Eu sou bem burrinho, é verdade, mas não é só isso. Tomemos as religiões. Como é que o sujeito escolhe a religião que vai seguir? A impressão que eu tenho é que nego pega a primeira que aparece, e então passa a defendê-la com paixão e fúria. Estupidez. Há por aí religiões que são exclusivistas, e isso é um perigo. Suponha, por exemplo, que você é um homem bomba. Amarra os explosivos no corpo, veste a roupa, verifica o mecanismo do detonador, se despede da mulher e dos filhos e sai de casa feliz, pronto para cumprir seu dever. Tudo porque no céu há 72 virgens sedentas esperando por você. Suponha, porém, que após explodir a si mesmo numa rua de Jerusalém, matando vinte pessoas, você descubra (tarde demais) que certos mesmo estavam os cristãos. Danou-se: enquanto cai pela boca do poço que leva ao inferno, você vê lá em cima Jesus Cristo rindo da sua cara. Enquanto isso, o Profeta o espera lá embaixo. “Pô, Maomé”. “Tá, tá, já sei. Todo muçulmano que vem pra cá vem logo reclamar comigo. A gente não pode errar, porra?”
É um perigo isso, mas também há o outro lado, das religiões que não são exclusivistas. O sujeito que é espírita, por exemplo. Pra que ser espírita? Se o espiritismo estiver certo, e existir mesmo todo aquele negócio de encarnações sucessivas, sendo espírita ou não você vai cair no ciclo universal. Vai morrer, reencarnar, morrer, reencarnar, morrer, reencarnar. Repito a pergunta: para que ser espírita, se não há risco nenhum em não ser espírita? Besteira.
O mesmo serve para o budismo, o hinduísmo, uma cambada de religiões. Mesmo o cristianismo, com todo o lance de plano de salvação e o risco constante do inferno, tem lá suas tolerâncias. Um padre relativamente conservador me disse certa vez que o importante é ter o sentimento da caridade, do amor ao próximo. Segundo ele, Sócrates está salvo (o filósofo, não o doutor), assim como outros pagãos e ateus piedosos. Descarte-se, pois, o catolicismo: seja bonzinho, e está tudo certo.
Os evangélicos já não são tão tolerantes. Você precisa aceitar a idéia do sacrifício vicário de Jesus na cruz como vetor de salvação para a humanidade. Caso contrário, vai passar a eternidade queimando o brioco na casa de Satanás. No entanto, há gradações de tolerância até entre os bíblias. O pastor da igreja batista que eu freqüentava dizia que, uma vez convertido, nego não perdia a salvação nem que quisesse. Funcionaria assim: o sujeito aceita a idéia toda do plano de salvação, se converte, pois. Ainda que mais tarde ele renegue a Deus e a Cristo, o nome dele não sai da lista de Javé nem a pau. Segundo ele, então, eu estou garantido.
Segundo a Congregação Cristã no Brasil, porém, eu estou é ferrado. E vocês também, porque a crença deles é que só a Congregação é o verdadeiro cristianismo, e só por ela o homem pode escapar do fogo eterno.
Então é simples: basta irmos todos para a Congregação. As mulheres terão de usar véu, manter cabelos e vestidos longos. Os homens terão de vestir terno mesmo nos dias quentes, e andar sobraçando bíblias do tamanho de videocassetes. O que é isso, porém, diante da salvação eterna? Nada! Além do mais, poderemos beber à vontade, já que a Congregação não proíbe o consumo de álcool.
Pena que não seja tão simples: e se certos estiverem os muçulmanos? É o diabo.
Fala-se muito de fundamentalismo nos dias que correm, e fala-se principalmente mal. No entanto, se pensarmos bem, notaremos que as únicas religiões que podem valer a pena são os fundamentalismos cristãos, judeus ou muçulmanos. As três grandes religiões monoteístas levadas ao extremo. Desista, portanto, desse negócio de ir cada dia a um templo, terreiro ou o que seja, na esperança de encontrar a Verdade. É sua alma imortal que está em jogo! Concentre-se nas religiões exclusivistas, e faça sua aposta.
Ou então admita logo que não existe alma imortal, Deus, céu, inferno, nada disso. E viva sem encher o saco dos outros.
Ah, eu ia escrever um monte de coisas aqui, mas já não sei mais escrever (aliás, acho que deixei para trás as fantasias de ser escritor). Só queria celebrar o ano que se vai, e que me trouxe tantas boas mudanças: com a coragem que me deu minha menina, consegui me livrar de um emprego que estava me matando aos poucos, apostei tudo o que tinha numa mudança. E ganhei: consegui, contra todas as expectativas, mudar de área e de ares, entrar num novo ritmo de trabalho. O salário é uma bosta, mas 2006 trará novidades.
Cheguei aos trinta sem crise, cercado por velhos e novos amigos. A família de minha namorada tornou-se extensão natural da minha. Aprendi a dirigir, finalmente, e fui batizado colidindo de frente com um poste. Saí ileso da batida, e o seguro pagou muito mais do que aquela jabiraca valia.
Enfim, como diria meu amigo pastor, foi um ano para contar as bênçãos.
Espero que o de vocês tenha sido bom também. Se não foi, paciência. Guardemos as boas notícias para 2006. Feliz ano novo, meus queridos.
Já ia me esquecendo: voltei ao consultório quarta-feira passada. Temia pela minha vida, mas sosseguei um pouco ao perceber que seria atendido apenas pelo Dr. Japonês Maluco, e sem nenhum bisturi elétrico à vista. Ele colou um botão novo no dente exposto (o outro ficou encravado numa borda de pizza), um outro no aparelho, e conectou os dois com uma linha de pesca. Diz ele que isso vai puxar o dente para seu lugar. Por enquanto nada aconteceu.
Passando pela Avenida Liberdade hoje à tarde, no sentido da Praça João Mendes, ouvi por acaso uma putinha gorducha comentando com uma colega de ponto:
— Perfume é importante. Homem que não tem perfume para mim não é homem.
Vinte metros à frente, três garotas na entrada de uma perfumaria ofereciam amostras grátis.
Boa sacada.
Os leitores mais antigos, dos bons tempos do Emotionrélio, devem se lembrar dos meus dentes tortos. A arcada superior vinha certinha até o meio; daí pra direita era como se os dentes não gostassem um do outro: tão separados que me dispensaram o uso de fio dental por toda a vida. Isso começou a mudar, porém, em janeiro de 2004, quando o Dr. Japonês Maluco entrou em minha vida e me botou trilhos na dentadura. Desde então, os incisivos se reconciliaram, deixando um vão imenso no lugar onde deveria haver um canino.
Pois, vejam, quando eu era moleque esse canino superior direito foi o último dos meus dentes de leite. Demorou tanto pra cair que o outro, cansado da espera, resolveu que ficaria ali dentro da gengiva para sempre. E por lá ficaria, não fosse o fato de o aparelho tê-lo reposicionado de uma forma tal que levou o Dr. Japonês Maluco a me propor uma pequena cirurgia, coisa muito simples, para puxar o danado para o lugar que lhe estava reservado há tantos anos.
Ah, as pequenas e simples cirurgias! Fui ao consultório ontem, e lá conheci o Dr. Japonês Bobo, cirurgião-dentista cabeludo e sorridente encarregado de expor o dente rebelde, cravar-lhe um botãozinho de ferro e conectá-lo ao aparelho, que então o puxaria para o lugar certo. Coisa besta. Bobagem. Claro.
— Preparado?
— Acho que sim. Olha, sou hipertenso. Isso pode atrapalhar?
— Ah, pode sangrar um pouquinho mais, bobagem. O Dr. Japonês Maluco te explicou o que vamos fazer?
— Mais ou menos.
— Ah… Hum. Cê sabe se tem alguma radiografia desse dente aí?
— Acho que ele tem.
— Hum. Bom, muito bom. Vou ali ver, já volto.
Peraí. O sujeito encarregado de fazer a cirurgia sequer tinha visto as radiografias? Mau sinal. Mas eu já estava lá, não ia saltar da cadeira e sair correndo sem olhar para trás, embora a idéia me passasse pela cabeça. Tentei relaxar e esperar pelo melhor.
O cirurgião voltou depois de alguns minutos, devidamente munido de radiografias e Japonês Maluco.
— Está trans-cisplatino, tá vendo?
— Tô.
— Na direção do suriname, certo?
— Certo.
— Então você abre, encontra o subsaariano, cola um botão na mitocôndria, e pronto.
— Ah, tá. Simples.
— Simples.
— Muito simples.
— Pois é.
— Xacomigo.
Os termos utilizados não foram bem esses, mas outros igualmente obscuros para minha ignorância ortodôntica. O cabeludo abriu uma bolsa e tirou lá de dentro uma caixinha com fios e um negócio que parecia um vibrador. Suei frio. Aparentemente ele pretendia utilizar uma técnica heterodoxa para puxar o dente pelo lugar mais difícil. Mas ele logo me tranqüilizou:
— Isto é um bisturi elétrico. Eu ponho essa ponta nele, conecto naquela caixinha, ligo na tomada, piso no pedal e pronto.
— E não dói?
— Nah, dói nada! Só a anestesia no céu da boca que vai doer um pouco.
— No céu da boca?
— É. Mas depois é tranqüilo, cê só vai sentir um cheiro de churrasco, bobagem.
O sujeito pretendia queimar minha boca, e parecia achar tudo muito divertido. Aplicou-me a anestesia, que afinal nem doeu tanto, e começou a cortar a parte de trás da gengiva com o tal bisturi. Fumaceira danada, cheiro de carne queimada, e ele achando tudo bonito.
— O bom do bisturi elétrico é que não sangra quase nada.
Comentário infeliz: terminou de dizer a frase e arregalou os olhos. Manja japonês de olho arregalado, aquela cara de mangá? Pois é. Ele botou uma gaze na gengiva, apertou. Tirou a gaze, deu uma olhadinha e logo desviou o olhar. Um cirurgião com medo de sangue. Ótimo.
Nisso entrou uma terceira personagem, a Dra. Ruiva.
— Fazendo churrasquinho aí? — todos eles pareciam muito felizes e empolgados com o bisturi elétrico.
— É. Acho que cortei uma arteriazinha, alguma coisa assim.
— Como assim?
— Tá sangrando, ó.
— Vixe. Vou chamar o Japa Maluco.
Ficaram, então, os três à minha volta, se revezando para apertar a gaze. Pelo rabo do olho eu via aquele chumaço rubro dentro da minha boca, e não achava nada engraçado. O Maluco resolveu ter um surto de sanidade:
— Marco, nós vamos dar um ponto aí. Está sangrando muito, melhor não arriscar. Tudo bem?
— HHHHMMMF.
— Ok, então.
O japonês costurou o buraco, limpou tudo e depois veio olhar.
— Ué. Por que você cortou aqui?
— Pra achar o dente.
— Mas não tem dente nenhum aqui. É mais pra cima, ó?
— Não, não. É aí mesmo. Trans-planaltino.
— Não, é trans-cisplatino. Olha aqui a radiografia. O que acha, Dra. Ruiva?
— Essa não é a raiz do lateral?
— Não, não. Ele tá na direção do suriname.
— Ah! Achei que fosse a guiana.
— É, são parecidos.
— Hum.
— Xeu cortar aqui então.
O Japonês Maluco pegou o bisturi e começou a passar na minha gengiva.
— Ué, esse negócio não tá funcionando.
— Ué.
— Ué.
— Pois é.
— Ei, cê tá pisando no pedal?
— Que pedal?
— Esse pedal.
— Ah! Esse pedal?
— Esse.
— Ah, agora sim!
— Achou o dente?
— Que dente?
— O canino.
— Ah. Acho que é ele aqui. Não é?
— Acho que esse é o lateral. O que acha, Dra. Ruiva?
— Acho que é o osso.
— Não, não. O osso é aqui, ó. Põe o dedo.
— Ah, é.
— O dente tá mais pra cá. Lisinho, tá vendo?
— Tô, tô.
— Então. Tá pronto.
— Mas e essa pelinha aí?
— Hum. Cê acha melhor cortar?
— Corta.
— Tá. Xeu ver… Ah, o pedal. Pronto. Cortei.
— Beleza.
E eu lá, deitadão. Depois de hora e meia, os doutores declararam a cirurgia um sucesso. Agora estou com um buraco quase no céu da boca, com um botãozinho de ferro grudado no dente exposto. Dizem que preciso voltar lá na semana que vem, para botar o tal fio nesse botão e começar a puxar o dente para onde deveria estar.
Ainda não sei se vou.
Naquele 6 de dezembro quando Ana Cartola nasceu, os sapos do mundo todo saltaram de alegria ao mesmo tempo. O pulo coletivo causou uma leve oscilação no movimento da Terra, e a lua minguante tornou-se cheia por alguns segundos.
Enquanto isso, lá na outra ponta da cidade, eu me deliciava com a novidade constante que é ter dois anos de idade. Admirava minha irmãzinha, nascida havia duas semanas, e pensava como seria quando fôssemos grandes.
Agora eu já sei como é ser grande: é bom, é divertido, é doce e alegre, cheio de cores surgidas de repente no meu mundo antes todo cinza e, às vezes, azul. Porque, dentre todos os sapos do mundo, fui eu o escolhido pela menina da lua.
Feliz aniversário, Ana Cartola. Eu te amo.
Eu estava andando por uma praça. Não sei onde era. Pela tranqüilidade das pessoas, pela preguiça das árvores e pelas casas coloridas, deduzo que era uma cidade do interior, e é só. Caminhava com as mãos nos bolsos, Que é onde elas ficam a maior parte do tempo. Um sujeito de bicicleta passou por mim. Pedalava despreocupado, acho até que assoviava.
Quando ia dobrar o canto da praça, porém, quase trombou com outra bicicleta. Era a Morte que vinha em sentido contrário, pedalando furiosamente e brandindo sua foice acima da cabeça. Cruzou com o ciclista e passou-lhe a lâmina no pescoço.
Parei onde estava, sem acreditar no que via. As pessoas ao redor continuavam bestando, e eu lá tentando entender o que acontecia. A Morte veio na minha direção, agora pedalando devagar. Preparei-me para levar com a foice na garganta também, mas ela apenas olhou para mim, sorriu (um sorriso meio cômico, como o dos esqueletos de A Noiva Cadáver) e disse:
— No dia da inauguração do gasômetro eu te pego.
— Que gasômetro — eu perguntei, mas ela já havia sumido.
Olhei em volta, e notei no meio da praça um grupo de operários que trabalhavam em torno de uma espécie de coluna de ferro verde de mais ou menos dois metros de altura, fincada na terra revolvida e com um cilindro na outra extremidade. Deduzi que se tratava de um gasômetro e me aproximei dos trabalhadores.
— Bonito gasômetro.
— Pois é. Pena que demora tanto pra ficar pronto. Estamos trabalhando nisso há anos.
— Há anos, é? Que beleza! Então a inauguração vai demorar?
— Demora nada, moço. Já tá marcada pro mês que vem.
Acordei assustado, convicto de que vou morrer em janeiro.
Preciso parar de dormir de estômago cheio.
(I Reis 8)
Jerusalém vive seu quinto dia de carnaval, e a festa parece que não vai acabar tão cedo. A multidão, formada por gente de todo o Israel, desde a subida de Hamate, ao norte, até a fronteira meridional com o Egito, se espreme atrás dos trios elétricos. Das janelas das casas e do alto das muralhas, alguns gaiatos borrifam urina de camelo sobre os foliões. Pelas ruas, o álcool e as drogas correm soltos. Um grupo de danitas, após fumar uma boa quantidade de raiz de mandrágora, mostra o pinto para as moças que passam, dizendo “Também sou judeu, ó aqui” com seu estranho sotaque. Do alto do principal carro alegórico, o carnavalesco Yowab ben Yowab Shelowshiym1 admira a grande festa toda organizada por ele em tempo recorde.
Porque a festa não era para ser esse carnaval todo. Trata-se, na verdade, da Festa das Barracas, instituída lá no Levítico. A idéia toda da festa é relembrar os tempos do Êxodo. Para isso, durante sete dias por ano os israelitas saem de suas casas e moram em tendas. Dessa vez, porém, a festa está empolgada demais. E por quê? Alívio.
No último capítulo (lá se vão quase três meses, melhor reler), vimos que Salomão concluiu a construção do Templo. Ficou faltando, porém, um objeto sem o qual a Casa de Deus seria uma casa vazia: a Arca do Acordo, verdadeira manifestação da presença de Javé. Ora, transportar a Arca por aí não era nenhuma brincadeira de criança. Que o dissessem os filisteus: após roubar o baú sagrado dos israelitas, pensaram ter humilhado Israel. Tiveram, porém, que devolvê-lo rapidinho depois que Javé mandou sobre eles uma constrangedora praga de hemorróidas. Na volta para Jerusalém, um boi tropeçara, fazendo a Arca escorregar do carro que puxava. Um tal Uzá, muito bem intencionado, tentou impedir a queda, e foi fulminado assim que encostou a mão na Arca. Tendo em vista esse retrospecto, é compreensível que a perspectiva de carregar a Arca, mesmo que fosse pela curta distância que separava o antigo palácio de Davi do novo Templo, fosse algo preocupante para todos, especialmente Salomão.
Pensando assim, o rei achou melhor arrumar todo o respaldo com que pudesse contar. Aproveitando que viria gente de todo o Israel à capital para celebrar a Festa das Barracas, Salomão convocou todos os chefes das tribos e clãs do país para irem se encontrar com ele e ajudar na mudança da Arca para o templo. Quando chegou o mês de etanim (sétimo mês do antigo calendário hebraico, que ficava entre setembro e outubro), os israelitas vieram em massa à capital, e também os líderes chamados pelo rei.
Na presença dos chefes todos, os sacerdotes e os levitas (cagando de medo, imagino) botaram sobre os ombros os varais que sustentavam a Arca e levaram o objeto sagrado até seu lugar de direito: o espaço entre as asas dos querubins no Santo dos Santos, a morada de Deus dentro do Templo.
Com a Arca já em seu lugar, todos saíram.
— E agora?
— Sei lá.
— Hum.
— Pelo menos não morreu ninguém.
— Isso é.
— Mas e agora?
— Hum…
— Vambora?
— Melhor. Parece que vai ch…
ZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZP!
De repente, do templo saiu uma luz forte, como se mil flashes disparassem ao mesmo tempo. Algumas bichinhas presentes acharam que fosse isso mesmo, adotando imediatamente as poses mais blasé, o que foi motivo de chacota mais tarde. Tratava-se, na verdade, do próprio Javé descendo até o Templo para ver se estava tudo certinho.
Estava resolvido: a Arca fora transportada sem maiores problemas, e Deus aceitara a casa que Salomão construíra para ele. Emocionado, o rei gritou lá para dentro:
— Oh, Grande Truta das Parada Lá de Cima! Tu postes o sol lá no céu, e resolveres morardes entre as nuvem escura. Mas eis que levantei a goma para vós, e tu aceitastes e vinheste morar aqui com nóis na parada, estás ligado? Amém!
O povo aplaudiu, e Salomão resolveu improvisar um discurso:
— Manos de Israel! Essa vai pra tudo os mano de Suném, Bete-Peor, Horma, Megido, Hazor, Jabes. Aê, pra todo mundo que tá nas quebrada aí, só na humildade, correndo atrás. Nosso Grande Camarada Sangue Bão das Quebrada do Céu é ponta firme memo, cês tão ligado? Ele deu a letra pro meu véio que eu que ia vir e fazer tudo a parada do Templo e pá e pum. Agora tá tudo no esquema, com a Arca lá no meio dos querubim. É isso aí. Paz. Poder Para o Povo de Pau Cortado. É nóis, obrigado pelos aprauso.
Os aplausos dessa vez foram mais calorosos, e levaram Salomão a mais um surto de inspiração oratória. Dessa vez, foi até o altar para falar com Javé. Sabendo, no entanto, que o deus israelita não primava exatamente pelo humor estável, resolveu portar como bom malandro: antes de se aproximar, levantou os braços e se ajoelhou no chão. Nessa posição, começou a falar:
— Javé, Javé, tu sois o cara! Olhais aí o vosso povo de Israel, que beleza, Javé! Cuidais aqui das nossa parada, Sangue Bão do Céu. Ficais aqui com nós, protegendo dos filhodaputacorno… Ô, foi mal aê, Javé. Protegendo nós dos inimigo. Ajudais os mano que vierem aqui no Templo para pedir sua proteção, Grande Truta. Ficais com seu povo na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, a parada toda do casamento, estás ligado? Amém, Mano!
E continuou, dirigindo-se novamente ao povo:
— Manos de Israel! Tá tudo pela órdi. Já é! Bora chapá o coco!
Está explicado, portanto, porque Israel está nessa festança toda. A comportada Festa das Barracas tornou-se quase uma orgia, tamanha era a tensão a ser liberada pelo povo. Os preparativos de Salomão e do carnavalesco Yowab ben Yowab Shelowshiym ficaram à altura: foram sacrificados 22 mil bois e 120 mil ovelhas.
Depois de sete dias de festa e mais um para curtir a ressaca, os israelitas voltaram para suas casas. Da sacada de seu quarto, Salomão acenava para a correnteza de homens e mulheres que andavam pelas estradas que saíam de Jerusalém, e dizia, emocionado:
— Javé vos abençoeis, manos. Javé vos abençoeis.
A edição de hoje do jornal Diário de São Paulo traz uma matéria sobre blogs, com uma foto enorme de minha cabeçorra. Um jornal de Bauru também me entrevistou dia desses. Não é uma beleza?
Não, não é.
É uma merda ver minha cara por aí, sendo que a atenção que eu dou ao blog ultimamente é bem próxima a zero. Depois que inventei de virar jornalista, minha vontade de escrever nas horas vagas tem diminuído a cada dia. Quando chego em casa, quero ver TV ou jogar Counter Strike.
Ontem mesmo eu tive uma idéia (mais uma) para o próximo capítulo bíblico, que está emperrado há séculos. Mas hoje em dia abrir um editor de texto e começar a escrever é algo muito parecido com o trabalho, então não me empolgo. Pelo contrário: esse negócio de escrever me parece cada vez mais chato e sem sentido.
Bom, mas essa conversa tá muito chata. Alguém aí joga Counter Strike? Podíamos marcar um produtivo arranca-rabo online.