Jesus, me chicoteia!

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O casamento de Sansão

(Juízes 14 e 15:1-8)

“E o Espírito do Senhor veio sobre Fulano”, “Então o Espírito de Deus se apossou de Beltrano” — fórmulas assim são recorrentes na Bíblia e, como vimos no capítulo em que Jefté derrotou os amonitas, geralmente significam que Fulano (ou Beltrano) ficou muito doido de repente. Parece-se, aliás, com o que dizem muitos serial killers: “As vozes me obrigaram”, “Deus mandou”, “O Diabo pediu com muito jeitinho e eu não tinha como recusar, sabe como é…”.
Pois muito bem, o menino Sansão cresceu e Javé ia com a cara dele. Um dia, quando estava no campo entre Zora e Estaol, na tribo de Dã, pela primeira vez ele sentiu que O Espírito de Deus o dirigia. Então, assim dirigido, desceu até a cidade de Timna e ali viu uma moça filistéia. Sansão ficou encantado por ela, e voltou correndo para casa:
— Pai! Mãe! Vi uma garota lá em Timna e me apaixonei por ela. Falem com os pais da menina, quero me casar.
— Er… Uma moça israelita, filho?
— Não. Filistéia.
— Ah, faça-me o favor! Com tanta mulher dando sopa aqui em Israel você foi se enrabichar logo por uma vagabunda filistéia. Sansão, aquele povo sequer é circuncidado!
— Mãe, que mentalidade atrasada! Não adianta vocês irem contra: é daquela moça que eu gosto, e vou me casar com ela, vocês aprovando ou não.
Diante da obstinação de Sansão, os pais cederam, mesmo contrariados. Não sabiam que essa loucura do filho era, na verdade, parte do plano de Javé para libertar Israel do jugo filisteu. Então a família pegou o caminho para Timna.
Quando estavam quase chegando, já passando entre as plantações de uva de Timna, um leão veio rugindo para cima de Sansão. Ele, dominado pelo Espírito de Deus, enfrentou o bicho com as mãos nuas e o rasgou ao meio, como se fosse um cabrito. Seus pais, que iam mais à frente, não viram nada, e ele achou melhor não contar o que acontecera.
Chegaram a Timna, Sansão foi conversar com a moça e gostou mais ainda dela. Os dois gostavam das mesmas músicas, haviam lido os mesmos livros, tinham hobbies parecidos. Nada de novo: quando se está apaixonado, tende-se a forçar a realidade para que um encontro fortuito pareça ter um significado maior, como se forças superiores manipulassem o tempo e o espaço para que se realizasse o encontro de duas almas gêmeas. Mas são palavras nascidas de um coração amargo: Sansão, pelo contrário, sentia-se arrebatado pela moça, e poucos dias depois voltou a Timna para casar-se com ela. Ficaram um tempo naquela conversinha doce e boba de casal por um tempo. Então ele lembrou-se do leão que matara dias antes, e resolveu ir ver como estava. Foi até o local onde havia matado o bicho, e ficou espantado ao ver que um enxame de abelhas havia feito sua colméia na carcaça do leão. Pegou um favo e saiu comendo pela estrada. Tendo encontrado seus pais, ofereceu mel a eles, sem no entanto dizer onde o havia encontrado.
Bom, mas Sansão e seus pais estavam em Timna para tratar de assuntos sérios, não para se lambuzarem de mel: Manoá foi à casa dos pais da moça para formalizar o pedido. Enquanto isso, Sansão fazia sua festa de despedida de solteiro. Os filisteus, sabendo da festa, levaram trinta rapazes da mesma faixa etária para participarem. Lá pelas tantas, todo mundo muito louco (não que o Espírito de Deus se movesse sobre eles, era manguaça mesmo), Sansão subiu numa mesa e todos fizeram silêncio para escutarem o discurso do noivo:
— Escutem, filisteus. Eu tenho uma adivinhação para vocês, quero ver se são inteligentes. Vou dar trinta túnicas de linho puro e trinta mantos a vocês, se conseguirem resolver minha charada antes do final dos sete dias da festa de casamento. Se não acertarem, porém, cada um de vocês me dará uma túnica e um manto. E aí, topam?
— Manda a charada, Sansão!
— Tá, lá vai:

“Do que come saiu comida,
e do forte saiu doçura”

— HEIN???
— É isso aí. Vocês têm os sete dias da festa para me trazerem a resposta.
Passaram-se três dias e eles ainda não tinham idéia da resposta. No quarto dia, foram falar com a noiva:
— Seguinte, dona: dá um jeito de descobrir a resposta da adivinhação do seu noivo, ou então nós vamos botar fogo na casa, com você e toda a família dentro. Vocês só nos convidaram para poderem nos roubar, né? Pois não tentem ser mais espertos do que nós.
A moça, assustada, resolveu fazer o que fazem todas as mulheres quando querem algo de seus homens, e rápido: começou a chorar.
— Você não me ama! Não, você me odeia!
— Queisso, mulher? Endoidou? É o Espírito de Deus?
— Você sabe muito bem o que é!
— Er… Não, não sei.
— Se você não sabe, eu é que não vou dizer!
— Ah. Tá bom, então. Me chama quando estiver se sentindo melhor…
— MONSTRO INSENSÍVEL!
— Ai meu caralho… O que te deu, mulher?
— VOCÊ ME ODEIA!
— Não odeio não, mas se você continuar com frescura eu posso começar…
— Frescura? FRESCURA??? Você propôs uma adivinhação aos seus amigos e não me falou a resposta!
— HEIN??? Ih… Primeiro: não são meus amigos, são filisteus. Segundo: nem para os meus pais eu falei a resposta, vou falar para você? Terceiro: ISSO LÁ É MOTIVO PRA ARMAR ESSA CENA TODA???
— SEM CORAÇÃO!
A mulher chorou durante os dias restantes da festa. Ao sétimo dia, não agüentando mais tamanha chateação, Sansão contou-lhe qual era a resposta da charada. Ela foi correndo contar aos rapazes filisteus, os quais vieram falar com Sansão.
— Sansão, nós temos a resposta da sua charada!
— É mesmo? E qual é?
— Bom, é uma charada meio besta essa sua, mas lá vai a resposta:

“Que coisa é mais doce que o mel?
E o que é mais forte do que o leão?”

— PUTA QUE PARIU! Se vocês não lavrassem a terra com minha novilha, jamais saberiam a resposta.
— Que porra é essa? Outra charada???
— Nah. Tô dizendo que se vocês não tivessem conversado com minha mulher, não saberiam a resposta nem fodendo. Grandes filhos da puta vocês são, e ela também.
Então o Espírito de Deus se apossou de Sansão, que foi até Ascalom e ali matou trinta homens bem vestidos que encontrou no caminho. Tirou suas roupas e levou aos filisteus como pagamento da aposta. Depois voltou para a casa de seu pai, emputecido como nunca (era esquentado, o Sansão, ainda mais quando o Espírito de… Bom, vocês sabem). Com o sumiço do genro, o pai da noiva resolveu dá-la em casamento ao padrinho.
O tempo passou, Sansão esfriou a cabeça e, na época da colheita do trigo, achou que era tempo de voltar a Timna e fazer as pazes com a mulher e sua família. Para isso, levou um cabrito de presente. Foi falar com o pai da moça:
— E aí, sogrão, beleza? Trouxe esse cabrito aqui pra vocês, olha só que bichão! E queria… Bom, o senhor sabe… Queria cumprir meus deveres de esposo.
— Como?
— Não, não: eu como. Vou ali no quarto da sua filha, tá bom? Daqui a pouco eu volto aí pra gente tomar uma cerveja e conversar.
— No quarto da minha filha? De jeito nenhum!
— Er… Não sei se o senhor está lembrado, mas eu sou o MARIDO dela. Tenho esse direito, ou melhor, essa obrigação!
— Não, Sansão, nada disso. Veja bem: você sumiu aquele dia, saiu batendo a porta e pisando forte, achei que você odiasse minha filha. O que você queria que eu pensasse, oras?
— Tá, eu sei. Sou esquentado às vezes, isso me atrapalha bastante. Mas vou ver se entro numa terapia agora, se começo a fazer ioga, balé, sei lá. Vou melhorar, prometo. Só que agora eu PRECISO ir até o quarto da sua filha. Tô na seca, sogrão. Você é homem, entende minha situação…
— Entendo, claro que entendo. Mas acontece que eu, pensando que você tinha rejeitado minha filha, dei-a em casamento ao seu amigo.
— COMO É QUE É???
— Ei, Sansão, fique calmo… Ela tem uma irmã mais nova, ainda mais bonita que ela. Se você quiser…
— EU QUERO É PORRA NENHUMA! EU TÔ MUITO PUTO COM VOCÊ, COM SUA FILHA E COM TODA ESSA TERRA DE MERDA QUE É A FILISTIA! E TÔ SENTINDO O ESPÍRITO DE DEUS CHEGANDO! CÊ VAI VER SÓ!
Saiu da casa do sogro furibundo e foi para o campo, onde capturou trezentas raposas. Amarrou-as duas as duas pelos rabos, prendendo a cada dupla uma tocha acesa, e soltou as raposas nas plantações de trigo dos filisteus. O fogo queimou o trigo já colhido, o trigo por colher, e ainda por cima as oliveiras. Ao verem o tamanho do prejuízo, e sabendo que Sansão o causara por ter sido contrariado pelo pai de sua noiva, os filisteus foram e queimaram vivos a moça, seu pai e toda a família. Sansão, o rei do autocontrole e da arte zen, conseguiu ficar mais puto ainda:
— EU NÃO VOU DESCANSAR ENQUANTO NÃO ACABAR COM ESSA RAÇA MALDITA!
Nesse mesmo dia ele matou muitos filisteus, e depois refugiou-se numa caverna que ficava em Etã. E esse foi só o começo dos problemas para os filisteus, como veremos mais adiante.

Momento de louvor

Gota D’Água

Já lhe dei meu corpo, minha alegria
Já estanquei meu sangue quando fervia
Olha a voz que me resta
Olha a veia que salta
Olha a gota que falta pro desfecho da festa
Por favor

Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota dágua

(Chico Buarque)



O Pouco Que Sobrou

Eu cansei de ser assim
Não posso mais levar
Se tudo é tão ruim
por onde eu devo ir?
A vida vai seguir
Ninguém vai reparar
Aqui neste lugar
eu acho que acabou
Mas eu vou cantar pra não cair
fingindo ser alguém
que vive assim de bem
Eu não sei por onde foi
Só resta eu me entregar
Cansei de procurar
o pouco que sobrou
Eu tinha algum amor
Eu era bem melhor
Mas tudo deu um nó
e a vida se perdeu
Se existe Deus em agonia
manda essa cavalaria
que hoje a fé me abandonou

(Marcelo Camelo)

Chat com rádio? Agora?

SIM! AQUI!
(Rolando REM ao vivo no Rock In Rio 3)

Sobre a festa de dois anos

Como muitos de vocês sabem, dia 7 de fevereiro isto aqui completará dois anos de existência. Quem foi à festa do ano passado está ansioso por outra, eu sei. Aquela festa foi memorável (graças aos convidados,claro. Porque se dependesse do anfitrião…).
Pois bem: a Bárbara (minha agente e ex-namorada) estava procurando um lugar legal pra fazer a festa e acabou achando um bar ali no centro da cidade. Fácil acesso, infraestrutura, espaço suficiente e, o que é melhor, disponível para reserva no dia 7 de fevereiro. Então liguei para o dono lá do lugar, confirmei com ele e marquei um dia para ir até lá para acertar os detalhes. Fui ontem. Pra começar, parecia um esquema de suruba máfia: cheguei perguntando pelo cara, o que me atendeu perguntou meu nome, pensou e depois disse: “Acompanhe-me”. Ele subiu para o primeiro andar e, chegando ao corredor, me fez sinal para parar. Entrou numa sala e disse:
— Fulano, é o Marco Aurélio.
E então me fez sinal para entrar. Falei da festa, expliquei de que se tratava, e o mafioso:
— Bom, é o seguinte: todo sábado o bar fica reservado para uma festa já tradicional. Mas você pode fazer naquele espaço ali, ó.
Fui ver o espaço ali, ó. Pequeno. Voltei pra falar com ele.
— Cabem 200 pessoas ali?
— DUZENTAS???
— É. Na festa do ano passado foram mais de 150, então acho prudente esperar pouco mais que isso este ano…
— Hum… Por que você não faz na sexta-feira?
— Porque vem um pessoal de outros estados, e todo mundo chega no sábado de manhã.
— Sei, sei… Hum… É. Então faz na sexta-feira, oras!
— Na sexta não dá. Tem que ser no sábado.
— Ah, tá. E porque você não faz na sexta, então?
— Já expliquei: vêm pessoas de fora, chegam no sábado, impossível fazer a festa na sexta.
— Sei… Reserva pra sexta-f…
— Seguinte, Fulano: vou ver e ligo pra você durante a semana. Tchau.
Saí de lá querendo quebrar todos os estabelecimentos suspeitos do mafioso. E agora estou sem lugar para fazer a festa. Eu tinha pensado em fazer na Central das Artes de novo, mas um monte de gente falou que era melhor não: é longe, é chato, é isso, é aquilo. Só que ninguém sugere lugar melhor. Assim é fácil, caralho.
Então em verdade, em verdade vos digo: esta semana vou ver mais UM lugar com a Bárbara. Se não rolar, reservo a Central das Artes para algum sábado de fevereiro que ainda esteja disponível. E aprendo a nunca mais ouvir ninguém.

Hum…

Que tal um CHAT COM RÁDIO???

CHEGA!

O nascimento de um super-herói

(Juízes 13)

E então mais uma vez os israelitas abandonaram Javé e começaram a adorar outros deuses; e outra vez Javé se vingou, agora deixando que os filisteus dominassem Israel por quarenta anos. Nessa época, vivia na cidade de Zora, em Dã (dã!), um homem chamado Manoá. A grande tristeza da vida de Manoá era não ter filhos, pois sua esposa era estéril. Até que um dia um anjo apareceu para ela:
— Você que é a mulher de Manoá?
— Sou sim. Quem é você?
— Não interessa. Eu sei que você não pode ter filhos, e por isso nunca foi mãe.
— Er… Meio ÓBVIO isso, não?
— NÃO ME INTERROMPA! Vim aqui para lhe trazer boas notícias: você vai engravidar em breve. Não tome vinho nem qualquer outra bebida alcóolica, não coma nenhuma comida proibida, porque você vai ter um filho que será dedicado a Deus.
— Como é que é? Tá me dizendo que eu vou ter um filho? Cê é vidente, é? Olha, pode até ler minha mão se quiser, mas vou logo adiantando que não tenho dinheiro.
— Ô MULÉZINHA RANHETA QUE O MANOÁ FOI ARRANJAR, HEIN? DEIXA EU TERMINAR!
— …
— HUMPF! Como eu dizia, seu filho será dedicado a Javé, será um nazireu.
— NARIZEU???
— NAZIREU, PORRA! Será possível que você não saiba o que é um nazireu?
— Eu não. É contagioso?
— Ai ai… Aqui, ó. Nazireu é o homem que é dedicado ao serviço de Deus. Um nazireu não pode tomar vinho, nem beber suco de uva, nem comer nada que seja feito de uvas. Não pode cortar os cabelos nem a barba e não pode tocar em cadáveres.
— Vixe, quanta regra…
— Pois é. Seu filho será um nazireu desde o nascimento. Ele será um grande líder, e começará a livrar Israel do poder dos filisteus.
— Dos filhos meus? Mas eu não tenho…
— FILISTEUS! FILISTEUS! OS CARAS DA FILISTIA!
— Ah, sim. Os filhos-da-puta.
— Esses.
— Mas peraí, se eu vou mesmo ser mãe, como é que… Ei. Moço? Moçoooooo… Putz, sumiu.
Intrigada com a súbita aparição do estranho, e ainda mais com seu sumiço, ela foi falar com o marido.
— Manoá do céu, cê não sabe o que me aconteceu hoje!
— Quebrou uma unha?
— BAH! Um homem veio falar comigo…
— Um HOMEM??? QUEM FOI O DESGRAÇADO???
— Calma, Manoá! Eu acho que era um anjo…
— MANÉ ANJO!
— Sério mesmo! Era grandão, usava roupas brancas. Apareceu de repente, e mais de repente ainda sumiu. Estava com uma mochila nas costas. Uma mochila MUITO GRANDE. Sei não…
— Que que tem?
— Acho que a mochila era pra esconder as ASAS dele!
— Mulher, cê andou bebendo?
— Claro que não! Aliás, o anjo me proibiu de beber.
— Peraí: um cara que cê nunca viu mais gordo já chega logo dizendo o que você deve ou não fazer? Ele pelo menos se apresentou?
— Não. Mas ouve só: ele falou pra eu não beber vinho e pra não comer comidas proibidas, porque eu VOU TER UM FILHO!
— DELE???
— ¬¬. SEU, ORAS!
— \o/
— \o/
— QUE LEGAL! Mas será que era um anjo mesmo? E se tiver sido só trote de algum engraçadinho?
— Ah, acho que não. O cara manja até de leis e tal. Falou que nosso filho vai ser nazireu.
— Ah, é?
— Você sabe o que é nazireu???
— Claro, ué. Você não sabe?
— Er… Claro que sei! Só me faltava essa, não saber o que é um nazireu. Sei desde pequenininha.
— Hum… Sei não… Será que era um anjo mesmo?
— Ai ai… Homem desconfiado…
De fato, Manoá era um tanto desconfiado. Então resolveu apelar para Javé:
— Ô, Deus. Não leve a mal não, mas essa história toda que minha mulher contou… Se foi um anjo mesmo que falou com ela, será que dava pro senhor mandá-lo de volta pra me contar direito essa história de filho nazireu e tal? Obrigado.
A oração de Manoá foi atendida: no dia seguinte, quando sua mulher estava sentada no campo, o anjo reapareceu para ela.
— Opa, e aí?
— Hum? EI! VOCÊ! PERAÍ, JÁ VOLTO!
Saiu correndo para chamar o marido:
— Corre, Manoá, que o anjo tá lá no campo!
Manoá largou o que estava fazendo e saiu, esbaforido, atrás da esposa. Chegando aonde estava o anjo, perguntou:
— Foi você que falou com minha mulher ontem?
— Eu mesmo.
— Hum… Eu queria mais detalhes sobre o assunto que vocês trataram.
— Que detalhes? O que eu tinha a dizer, já disse à sua mulher. Você não confia nela não? Ou será que é tão machista que pensa que só você decide as coisas em casa?
— …
— Bah! O Chefe me falou que você tinha me chamado, por isso eu vim. Mas se eu soubesse que você só queria que eu repetisse tudo, nem teria me dado ao trabalho. Vou embora.
— Espera, espera! Não vai assim! Espera um pouco, que vamos cozinhar um cabrito pra você.
— Se eu ficar, não vou comer da sua comida. Mas se você quiser cozinhar o cabrito mesmo assim, que seja para queimá-lo como oferta a Javé.
— Por mim tudo bem… Escuta, como você se chama? Preciso saber o seu nome, para lhe fazer uma homenagem quando meu filho nascer.
— Por que você quer saber o meu nome? Basta saber que é um nome maravilhoso…
Ui, santa…
— COMO???
— Hã? Nada não. Peraí, vou buscar o cabrito.
Então Manoá pegou o cabrito e uns cereais, queimando tudo sobre uma pedra. Enquanto o fogo consumia o sacrifício, o anjo fazia umas mágicas para o casal, para impressioná-los e provar que era mesmo um anjo. Depois de uma série de truques embasbacantes, o gran finale: começou a levitar e subiu ao céu no meio das chamas. Só nessa hora Manoá se convenceu de vez de que tinha visto um anjo de verdade.
— Ai, mulher, fodeu! Nós vimos um anjo, vamos morrer!
— Ah, deixa de ser bunda-mole, Manoá! Tanta gente já viu anjo e não aconteceu nada, por que é que justamente nós iríamos morrer?
— Hum… É, você tem razão. Como sempre, né, meu amor?
— Pára, bobo…
— Minha mulherzinha falando com anjo. Que orgulho!
— Pára, tô ficando encabulada…
— Você fica tão linda assim, coradinha… Vamos voltar pra casa?
— Mas eu tenho coisas pra fazer aqui e… Ei, eu conheço esse olhar!
— …
— Tá, vamos.
Como resultado do que se seguiu a esta cena patética, nove meses depois nasceu o filho do casal. Chamaram o menino de Sansão.

Boa sorte

Pessoas persistentes merecem uma chance.

[post cifrado e sem comentários]

Esclarecimento

Lendo o Asimov’s Guide To The Bible, descobri que a palavra “chibolete”, que os gileaditas usavam para descobrir quem era de Efraim, significava “córrego”, “corrente de água”. E também aprendi que, em inglês, o termo shibboleth é usado para definir qualquer palavra que sirva para distinguir um grupo de pessoas de outro. A frase “Espera a pêra”, por exemplo, que o Jô Soares — achando que é engraçado — faz qualquer um que fale espanhol pronunciar (“Espêra pêra”), é um shibboleth.

Observação: Se vocês se dessem ao trabalho de ler os capítulos bíblicos, entenderiam este post. Caralho.

I’m going through changes

APARELHO!!!

Acabei de botar esse troço. Fiquei mais BONITO ainda…

Jefté e a tribo de Efraim

(Juízes 12)

No capítulo em que Gideão derrotou os midianitas, ficamos sabendo que os homens de Efraim eram os melhores guerreiros de Israel. Tudo muito bem, mas tinha um detalhezinho chato: eles gostavam de ver sangue e não admitiam de forma alguma serem deixados de fora de qualquer batalha. Jefté os convocou para a guerra quando os amonitas já estavam praticamente derrotados, o que os emputeceu deveras. O exército efraimita atravessou o Jordão e os líderes foram falar com Jefté:
— Porra, Jefté! Agora cê vem chamar a gente pra guerra? Tá doido? Isso não vai ficar assim! Vamos queimar sua casa com você dentro, filho da puta!
— Ei, peraí! Primeiro: sou filho da puta mesmo, e tenho muito orgulho da profissão de mamãe. Segundo: eu mandei um e-mail convocando vocês para a guerra. Não receberam não? Mandei o e-mail e fiquei esperando. Como vocês não vieram me ajudar, vim com os soldados que tinha e derrotei os amonitas, com ajuda de Javé. Sinto muito.
— MENTIROSO! NÓS VAMOS ACABAR COM A TUA RAÇA!
— Ei, não fiz nada contra vocês! Que negócio é esse?
— Vocês, gileaditas, vivem nas terras de Efraim e Manassés, e no entanto são uns traidores! Você é um desertor de Efraim!
Jefté não tinha metade do jogo de cintura de Gideão, então nem tentou uma solução diplomática:
— EU QUERO MAIS É QUE EFRAIM SE FODA! E AÍ? VÃO ENCARAR?
O clima ficou bem pesado, e a guerra foi declarada, Gileade contra Efraim. Como estratégia, os gileaditas tomaram todos os pontos de travessia do Jordão, para evitar que os efraimitas passassem. Então, sempre que alguém chegava por ali, a sentinela perguntava:
— É efraimita?
Se o cara respondesse “sou”, era morto na mesma hora. Se negasse ser efraimita, a sentinela fazia um teste:
— Fala “Chibolete”.
— Como???
— FALA “CHIBOLETE”, CARALHO!
Parece absurdo, mas na verdade era um jeito simples e eficaz de saber se o sujeito era efraimita ou não: devido ao sotaque de Efraim, qualquer um nascido naquela terra pronunciaria “Sibolete”. Algo como pedir a um carioca para falar “sinistro” (“sinishtro, aê!”) ou a um paulistano para dizer “evento” (“evêinto, meu!”). E o que aconteceu ali às margens do Jordão foi mesmo um evêinto sinishtro: 42 mil efraimitas mortos por causa de seu sotaque. Diabólico, não?
A vitória sobre Efraim foi o último feito digno de nota na vida de Jefté. Depois disso, ele governou Israel por seis anos, após os quais morreu e foi enterrado em Gileade.

Jefté foi sucedido por um certo Ibsã, da cidade de Belém (aquela). Ibsã tinha trinta filhas e trinta filhos, para os quais arrumou noivos e noivas de outras tribos. Governou Israel por sete anos. Depois que Ibsã morreu e foi enterrado em Belém, foi a vez de Elom tornar-se juiz. Ele governou por dez anos, e foi enterrado em Aijalom, na tribo de Zebulom, sua terra natal. Abdom, filho de Hilel, sucedeu a Elom, e seu governo (se é que podia se chamar assim) durou oito anos. Foi enterrado em Piratom, sua cidade de origem, na tribo de Efraim.
Três juizezinhos muito dos sem-vergonhas, que nada fizeram de notável. Em compensação, depois de Abdom (o inventor dos abdominais, rá!), vem o cara que fez algumas das coisas mais impressionantes de toda a Bíblia, um verdadeiro herói. Começaremos a falar dele no próximo capítulo.

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