Jesus, me chicoteia!

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Acabei! Acabei! JESUS! ACABEI!

Eu não acredito que acabei a catalogação dos livros, sua arrumação nas estantes e a limpeza do meu quarto. Ainda bem que fotografei para comprovar. As fotos seguintes foram tiradas dia 25 de junho:

Hoje, finda a arrumação, eis o resultado:

Viram só? Reparem na última foto: agora tenho espaço para botar uma TV e um aparelho de DVD. Quem quer dar presente pro Marcurélio?

Monstros e outras coisas

  • A TV mostra o buraco onde foram encontrados. São pai e filho, dormiam dentro de uma caixa pouco maior que um caixão de defunto. “Monstros”, diz a legenda. Os monstros, como todo mundo sabe, são mutações de humanos. Têm a cabeça em forma de triângulo equilátero invertido, de modo que o queixo é pontudo e a fronte, larga. Os cabelos, meio crespos, são repartidos rigorosamente no meio, e se estendem para cada lado da cabeça num formato que lembra um pouco chifres de bisão, retorcendo-se nas pontas. As sobrancelhas se encontram no meio da testa. Não têm barba, mas seu corpo é totalmente coberto de pêlos.
    O adulto capturado fala com os repórteres enquanto seu filho esconde o rosto. Diz que se orgulha de sua raça, e relembra os dois mil monstros mortos na Guerra do Vietnã. Diz que a luta por direitos iguais continua. A polícia o arrasta, e ele só pede que não maltratem seu filho.
  • Isso aí foi um sonho meu. Não falei porque senão o Polzonoff e o bobmacjack nem lêem.
  • Amanhã vou extrair um siso. Legal, né?
  • Ah! Terminei a catalogação dos livros, agora só falta botar tudo em ordem e colocar de volta na estante. Para quem tiver a curiosidade besta de saber que volumes compõem minha mini-biblioteca, aqui está a lista. Ah, usei o CollectorZ para fazer a catalogação. Recomendo.
  • Capítulo bíblico, né? Pois é.
  • Lançamento do Vida de Gato hoje. Não se esqueçam. Detalhes no post abaixo
  • Camilita tá de volta. Celebremos.

Lançamento

Sim, sim. Mais um lançamento. Dessa vez do Vida de Gato, da minha querida Clarah Averbuck. É o terceiro livro dela, Clarah já é veterana.

É amanhã a partir das 19 horas na Funhouse (Rua Bela Cintra, 567). Vamos? Então vamos.

deus

12 de fevereiro de 2002. Nesse dia eu escrevi um post falando sobre minha maior descoberta no mundo dos blogs: o Falecomdeus. O JMC tinha então cinco dias de existência e nenhuma perspectiva. Depois de conhecer o Falecomdeus, me animei: havia espaço para fazer humor tirando sarro do que é sagrado. Desde então me tornei fã incondicional do cara. Fui acusado de baba-ovo, puxa-saco, essas coisas. Nem liguei: a admiração que nutria por aquele sujeito — sobre o qual eu sabia quase nada, só que era carioca — aumentava a cada novo post, a cada novo achado humorístico, a cada piada surpreendente.
Em 5 de setembro de 2002, a surpresa: cheguei ao trabalho e havia uma pessoa pedindo autorização no meu ICQ. Era deus, e logo tratou de provar sua identidade, como eu contei nesse post. Senti-me honrado, lisonjeado, acariciado pela brisa matinal, tocado pelo aroma dos pomares, enfim, passei por um surto de veadagem quase insuperável. A veadagem só acabou quando deus, querendo ajuda num lance lá do blog, me mandou um e-mail usando seu verdadeiro nome. Um nome bem esquisito, aliás. Fiquei puto: ruía a ilusão do contato direto com deus.
Em fevereiro de 2003, outra surpresa: ele me perguntou se eu me importaria se uma divindade carioca aparecesse na festa de 1 ano do JMC. Achei que ele estivesse tirando sarro da minha cara, e só acreditei mesmo quando enfim nos encontramos no Café Piu-Piu, um dia antes da festa. Era um sujeito quieto com cara de pilantra, manjam o tipo? Tá lá no cantinho dele, mas a gente olha e logo saca que ele está tramando alguma.
Desde então fomos nos tornando amigos, e mais ainda depois que ele começou a namorar minha melhor amiga. Mudou-se para São Paulo (Osasco, na verdade…) há seis meses, e pudemos conviver mais amiúde (sempre quis usar isso, “amiúde”. Pô, só o Zé Ramalho pode?). Aprendi que ele é muito mais do que um cara maneiro: é talentoso, engraçado, inteligentíssimo, sabe expor seus argumentos de forma irrepreensível. É bom, leal, atencioso. Domina como poucos sua área de atuação, e começa a ser recompensado por isso.
Talvez tendo finalmente começado a perceber tudo isso — e tendo se mudado de volta para o Rio de Janeiro — resolveu que o Falecomdeus era pequeno demais para ele e resolveu acabar com o blog. Nós, os fãs, lamentamos o fim de uma era. Mas já estamos empolgados com o Tio Dada taí… e o BBC. O talento do Autor é inesgotável.

Pronto, meu velho. A última puxada de saco tinha que ser para arrancar as bolas. Espero ter conseguido

A mulher do compadre Mané Pedro

Eu passei metade da vida perguntando a todo mundo se alguém conhecia um filme em que Paulo César Pereio cantava uma linda canção que incluía os seguintes versos:

A mulher do compadre Zé Pedro
Tem cabelo no cu que faz medo
Ela chorava, ela gemia
Era os cabelos do cu que doía.

Cheguei a perguntar aqui no blog, sem sucesso. O Lelê canta essa música sempre, mesmo sem ter visto o filme, de tanto eu repeti-la nesses nossos treze anos de convivência. Tantos anos, e nunca tive notícia do filme.
E eis que ontem, na companhia de amigos, alguém (acho que foi o Ney. É sempre o Ney) estava trocando de canal e caiu justamente nesse filme, justamente nessa cena. Então eu entendi porque nunca encontrara nem pista do que procurava: era o Nelson Dantas, não o Pereio, e era compadre Mané Pedro, e não compadre Zé Pedro. Ao chegar em casa, de posse dessas informações, descobri que se tratava de Cabaret Mineiro, de Carlos Alberto Prates Correia. Ontem, enquanto assistia ao filme, relembrei algumas outras cenas: Tânia Alves cantando nos momentos mais inesperados, uma mulher nua em meio a ruínas, um corpo humano girando num espeto de churrasco, uma mulher vestida como onça sendo abatida por Nelson Dantas. Tudo assim mesmo, sem nada que ligasse uma cena à outra. E eis que descubro que o filme ganhou sete Kikitos no Festival de Gramado de 1981: filme, diretor, ator (Dantas), fotografia (Murilo Sales), trilha sonora (Tavinho Moura), atriz coadjuvante (Tânia Alves) e montagem (Idê Lacreta). Agora, se alguém aí já viu o filme, faça-me o favor de explicar o porquê de tantos prêmios para uma produção tão rasteira. Será por que é “baseado livremente” na obra de Guimarães Rosa? Sei não, sei não… Só sei que pelo menos o prêmio de melhor trilha sonora foi merecido. Basta prestarmos atenção na letra da canção que ficou em minha mente por tantos anos, agora reencontrada graças ao Google no blog The Rabbi of Chelm:

Vamo dançá tudo nu – tudo nu
todo mundo com dedo no cu – menos eu
todo mundo com a bunda de fora – é agora
você disse que dava – e não deu.

Espora no pé tá tinindo, tá tinindo
pica no cu tá sumindo, tá sumindo
larga o teu marido, mulher, e vem fuder mais eu
teu marido é bom, mulher, mas não fode como eu
a foda é boa de madrugada, de manhã cedo não vale nada.

A pica tá dura que tá danada,
ela entra enxuta, ela sai molhada
a mulher do compadre Mané Pedro…
tem cabelo no cu que faz medo…
ela chorava, ela gemia,
era os cabelos do cu que doía
ela chorava, ela gemia,
era os cabelos do cu que doía

Seu Guilherme do pilão de Sapucaia
disse que o bicho que mata homem mora debaixo da saia
adonde a pica trabaia.

Um primor, eu lhes digo. Um primor!

A prova

Só para enriquecer o último post, digitalizei as páginas com as dedicatórias. Vejam:

Dedicatórias

Depois de uma crise de rinite um pouco mais chata, devido àquelas edições em papel jornal das obras de Agatha Christie, tomei um antialérgico e fiquei meio zureta. Continuei mesmo assim: faltam poucos para chegar ao 400º volume; sou obsessivo-compulsivo e quero fechar o trabalho de hoje com um número redondo. Pois bem, mas eis que cheguei ao 381º livro, o Decamerão, de Boccaccio. Comprei esse livro há anos num sebo e nunca o abri. Sabe aquelas leituras que a gente vai adiando, o volume vai ficando lá na prateleira mais alta e a gente esquece? Então. Hoje, porém, tive que abri-lo para fazer o cadastro. É uma edição da coleção Os Imortais da Literatura Universal, da Abril Cultural, uma série de livros de capa vermelha, vocês devem conhecer. Abri o livro, portanto, botei lá título, autor, editora, ano de publicação e… Epa, uma dedicatória!
O melhor de comprar livros em sebos é encontrar essas dedicatórias totalmente alheias a você. Um dia uma pessoa comprou o livro, escreveu uma dedicatória e o deu de presente para alguém que tinha algum significado. O destinatário não gostou do livro, ou o perdeu, ou lhe roubaram o volume, ou morreu e, passando de mão em mão, o livro foi parar num sebo, com sua dedicatória totalmente despida de sentido e calor. Essa aqui, porém, me deixou um tanto encucado. Transcrevo, com erros e tudo, a primeira parte, escrita a lápis:

Eu gostaria de dizer que a saudade e a ilusão de ser fiel é banal, que vida pertencendo a outra vida é fatal. As emoções do ser humano resume só em pavor e medo e dor. O medo de sair lá fora e gritar que é livre, que é gente, gente de verdade não maltrata outra gente.
Homem de verdade pode andar desolado e indefeso, vida boa é aquela que só os grandes vivem e conhecem.
Eu gostaria de dizer grandes verdades aos jovens que estão carentes de segurança e amor, preocupados com a dificuldade da grana, do futuro. Mas prefiro me calar para que o Pai não venha me sovar salvar. Mas vocês verão um dia que eu jamais menti e nem escondi este grande lamento e massacre maior do que a dor da Morte.

Sinha em 1/09/79 – sábado – 22:20min – SP

Na página seguinte, mais palavras apressadas (mal) escritas com a mesma caligrafia, também a lápis:

Olha, os dias tristes e sombrios me faz senti perdida como no meio de uma floresta.
O sonho bonito, torna solidão. A verdade vira fantasia, não consigo pensar direito. Tudo torna fosco e frio sem você; mas sempre chegam as doces recordações do seu jeito quieto , pacífico e fascinante e faceiro. Seu beijo doce e seu sorriso criança, amor sincero, bandido e medroso. Amor distante, presente só as recordações lembranças.
Mas mesmo assim eu tenho você… Se eu voltar sei que você vai gostar.
Mas…
Olha, lamento…
A volta pra mim virou tristeza, no caminho só sangue existe. A natureza da sua terra virou tristeza, minha solidão. O amor agora é como se fosse pecado. Impossível te amar agora aí, a não ser que tu venhas e me procure, estou aqui vivendo e sofrendo os meus dias de saudade, desalento e paixão recolhida!!!

Otavina em 1/09/79 – sábado – 22:30min – SP

Apenas dez minutos separam os dois textos confusos. “Eu, hein…”, pensei, e folheei o livro para poder cadastrar o número de páginas. Fui surpreendido por outro texto, esse a tinta e com outra caligrafia, escrito por uma pessoa um tanto menos culta que a Sinha/Otavina:

Otavina!

Se gosto de você tenho motivos. Se eu a encontrei um dia foi por acaso. Se fui ao seu encontro foi por querer.
E foi querer amar você que eu sofri mudei tanto!
E foi somente para agradar você que eu sofri.
Se antes eu já gostava de você, não sei…
E se agora eu sofro por amar demais
— não tenho paz…
Se eu sou assim, não tenho culpa
E se eu magoe você peço disculpas
Se eu amo tanto assim, não sei porquê
E não me pergunte mais “se eu gosto de você”!

de sua amiga que muito lhe estima,

Regina
2/06/80

Epa! Otavina e Regina??? Uau! E a Regina conclui na página seguinte, à guisa de P.S.:

— De onde vens?
— Do vale dos sonhos.
— O que trazes?
— Um coração ferido.
— Por que sofres?
— Por um amor perdido.
— Amaste?
— Sim, uma vez na vida.
— O que encontraste?
— Epocrezia. [AI!]
— Por que choras tanto?
— Porque ainda amo.
— Amas?
— Sim
— A quem?
— Você.

Que belezura, não? E agora eu não vou dormir pensando nessa história. Quem foram Otavina e Regina? Por que trocaram mensagens assim, através do Decamerão? Onde Regina estava que não podia mais ser amada por Otavina? Por que a resposta de Regina veio nove meses depois da mensagem de Otavina? Otavina leu essa resposta, ou foi apenas algo que Regina escreveu para guardar? Muitas perguntas.

A história que imaginei: deprimida e doente, Otavina escreve a lápis na folha de rosto do livro as palavras que lhe vêm à mente. Meses depois ela morre. Seus filhos lêem o que a mãe escreveu e não entendem nada. O pai morrera anos antes, a que amor secreto ela se referia? Visitando a tia Regina (ela não era tia de verdade, só era assim tratada por ser muito amiga da mãe) tempos depois, os filhos mostram-lhe o livro. Perguntam se ela sabe a quem as palavras da mãe se destinavam. Tentando dissimular a forte emoção, Tia Regina diz que não tem a mínima idéia, mas pede para ficar com o livro. Chora a noite toda abraçada ao volume, e no dia seguinte vai a um centro espírita. Lá, o espírito de Otavina pergunta se ainda gosta dela. Ela jura por tudo o que há de sagrado. À noite, em casa, escreve seu texto no final do livro.

Nah, não funciona.
Droga. Não vou dormir.

Relíquias

A parte mais legal de arrumar livros é encontrar as coisas mais estapafúrdias entre suas páginas. Eis duas relíquias que me fizeram relembrar tempos estranhos de minha vida:

Em julho de 1988, aos treze anos, eu cogitei participar do I Prêmio Juerp de Literatura Evangélica Para Adolescentes. Acabei não enviando a ficha de inscrição. Acho que fiquei com vergonha da minha caligrafia.

Em 1993, aos 18 anos, aproveitei a presença de cabelos e total ausência de gordura para fazer shows privê para casais gays. Foi um sucesso total, porém passageiro. Hoje eu poderia ao menos ser um astro decadente — como Elvis em Las Vegas — mas ninguém se lembra dos meus tempos de glória.

Droga

— Qual a sua pretensão salarial?
— Algo entre dois mil e quinhentos e três mil reais.
— Opa, beleza!
Odeio quando isso acontece. Fico sempre pensando: “Por que não pedi mais? POR QUÊ? IMBECIL!”.

Malditos livros

Ninguém perguntou, mas eu explico: sumi do blog porque finalmente criei coragem para catalogar e organizar meus livros. Claro que, para isso, eu tive que esperar que Seu Lindauro criasse coragem para arrumar a parede de onde caiu a prateleira (se eu me meto a fazer um negócio desses só sai merda, melhor explorar meu pai). Então comecei com a organização. Aqui vocês podem ver o que já fiz até agora. Quando terminar, publico tudo aqui e talvez até faça umas doações de livros e tal. Por enquanto, sofro crises de rinite graças aos volumes empoeirados, e deixo o blog abandonado. Não chorem. Eu volto.

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