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Dona Donata e a arte de contar histórias
Dona Donata, eu já disse aqui, era minha avó materna. Ninguém contava histórias como ela: era abrir a boca e começar a mágica. Eu ficava fascinado por aquela capacidade que ela possuía de formar imagens tão reais em minha mente. Vinha devagarinho, contava o começo da história, e logo ela, o crochê descansando sobre o braço do sofá, a TV passando algum filme antigo (geralmente era de madrugada; aprendi com ela a não dormir cedo) e ela própria sumiam, dando lugar à onça braba, à moça louca, ao Lango-Lalango, à Caveira da Cachorra. Histórias inventadas ou não por por ela, não importa. Lembro-me de ouvi-la falando sobre um jogo da seleção romena na Copa de 1994. Contava os lances principais, criticava a atuação do juiz, traçava com as mãos a trajetória da bola dos pés de Hagi até o gol. Vi depois o videotape da partida. A descrição dela era bem melhor. E assim ela fazia com filmes também: contava-os com tal riqueza de detalhes que eu nem precisava assistir a eles.
Vou tentar contar aqui uma de suas histórias, mas já adianto que não é a mesma coisa. Se vocês tivessem a sorte de ouvi-la contando, veriam a história acontecendo. Comigo é só a narrativa insossa de sempre. Mas vamos lá.
Ela começava essa história dizendo que em Estância, sua cidade em Sergipe, as casas costumavam ser assim: tinha a porta da frente, a sala, um corredor de frente para a porta, e a porta dos fundos, na cozinha. Desse modo, quem entrava pela porta da frente via a dos fundos, e vice-versa. Havia, inclusive, uma rua cujas casas não tinham portas dos fundos, o que lhe valeu a denominação de Rua do Cu Tapado.
Pois muito bem: numa das maiores casas da cidade, morava um homem muito rico. Além do dinheiro e do poder, o sujeito ainda ostentava uma filha lindíssima. A moça, porém, não era para qualquer um: o pai a vigiava o tempo todo, sem deixar que ninguém se aproximasse. Os rapazes da cidade suspiravam e sofriam por ela, sem coragem de chegar perto. Mas um dia (sempre chega um dia), apareceu um moço na cidade. Andou aqui e ali, conversou com as pessoas, acabou vendo a filha do ricaço saindo da missa. Apaixonou-se, obviamente, e foi falar com o pai:
— Seu Fulano, eu queria casar com sua filha.
— Casar com minha filha? E você acha que pode ir chegando assim e pedindo pra casar com a menina? Quem você pensa que é, rapaz?
— Eu quero me casar com ela, estou apaixonado. Sem ela eu morro. O senhor me peça qualquer coisa, eu faço.
— Faz, é? Hum. Pois traga uma onça aqui. É, uma onça. Se você trouxer uma onça bem grande, talvez eu deixe você casar com minha filha. Caso contrário, esqueça.
— Pode deixar, seu Fulano. Trago a onça ainda esta semana.
— Estou esperando.
A moça, vendo aquilo, ficou encantada com o forasteiro. Ela nunca pensara que alguém estaria disposto a correr tal risco por ela. Se dependesse de sua vontade, casavam-se logo no dia seguinte. Mas havia o pai. E a onça.
O rapaz saiu da casa de sua amada sem saber o que fazer. Por que diabo prometera uma onça ao homem, Deus do céu? Nunca nem vira uma onça, de que jeito ia caçar uma para entregar como dote? Era loucura, melhor mesmo seria sumir da cidade para sempre. Ia assim pensando quando teve uma idéia maluca. Seria possível? Não seria? Logo saberia.
No dia seguinte, a moça e seu pai estavam na sala da casa quando ouviram alguém gritando longe. Correram para a janela e viram que era o forasteiro que vinha correndo rápido, tão rápido como se estivesse fugindo do próprio Satanás. Vinha na direção da casa, e gritava alguma coisa. A princípio eles não conseguiam discernir as palavras, mas quando ele estava bem perto ouviram claramente:
— ABRA A PORTA! POR NOSSO SENHOR, ABRA A PORTA!
A moça correu para a porta da frente, abriu e ficou esperando. Seu pretendente entrou, veloz como um corisco, pegou-a pelo braço e saiu arrastando-a pelo corredor. O pai, indignado, protestou:
— Mas e a onça?
— Tá vindo aí atrás! — e saiu da casa batendo a porta dos fundos.
Ana Beatriz, minha prima, nasceu dias antes da morte de minha avó. Fomos visitar a recém nascida, e nessa ocasião Dona Donata me contou sua última história.
Diz que havia esse casal. Amavam-se, namoravam, ficaram noivos, marcaram o casamento. Faltou dinheiro, adiaram o casamento para o ano seguinte. No ano seguinte morreu a mãe da moça, então empurraram a cerimônia para o outro ano. No outro ano o noivo sofreu um acidente, ficou de cama, remarcou-se novamente a festa. E assim foi: incidente após outro, iam adiando seu enlace, para desespero das famílias e, claro, deles próprios. Casal direito, queriam fazer tudo dentro dos conformes. Passaram-se dez anos, e um acontecimento acabou adiando o casamento indefinidamente: morreu a noiva.
O moço quase enlouqueceu, quebrou a casa toda, ficou desvairado. Um pouco mais calmo, tomou para si a obrigação de cuidar do velório e do funeral. Deu suas instruções: o caixão seria branco, as flores seriam brancas, brancas também seriam as cortinas, assim como a mortalha da defunta. Tudo branco, tudo branco. O pai da falecida quis confirmar:
— Tudo branco?
— TUDO! TUDO BRANCO! Caixão branco, flor branca, cortina branca, tudo branco!
— Mas vocês ficaram noivos por dez anos… Tudo branco mesmo?
— Olha… Bote um raminho roxo ali no canto…
Faz nove anos que minha avó morreu, e não passa um dia sem que eu pense nela, fale nela, sonhe com ela. Ela é minha maior influência. Se eu resolvi que contaria histórias, foi para tentar imitá-la. É uma pobre imitação, sei disso. Mas tento me aperfeiçoar a cada dia, para fazer jus aos genes que carrego comigo (ou que me carregam com eles, sei lá). Por enquanto, fica uma homenagenzinha: o Balde de Gelo, meu primeiro livro, é dedicado a Dona Donata. Se vierem outros, serão também.
Apelação desavergonhada
Sabem quanto custa uma caixa de Maleato de Enalapril 10mg? Sabem? DEZESSETE REAIS! Assim não dá! Comprem meu livro e me ajudem a pagar pelo meu anti-hipertensivo. Ou sintam-se culpados pelo meu inevitável infarto.
Oh!
Dúvidas, dúvidas
A cinco dias do lançamento, uma dúvida me rói a alma. Escrevi lá no site do livro. Leiam, leiam. E me ajudem.
A derrota de Absalão
Sentado numa cadeira entre os portões da cidade Maanaim, Davi pensa na situação em que se encontra e sente-se desgostoso. O reino que ele tanto lutou para unificar está novamente dividido. Pior: tudo por causa de seu filho, aquele moleque irresponsável com quem ele foi tão bondoso. Agora está aqui, do outro lado do Jordão, longe de Jerusalém. Jerusalém, que antes dele era apenas uma cidade grande e sem graça, bem ao gosto dos jebuseus, graças a ele tornou-se uma capital digna dos maiores reinos. E agora a Cidade de Davi é o valhacouto de Absalão e seus cupinchas. É triste, é injusto. Longe, lá na floresta de Efraim, mais uma vez há uma guerra entre irmãos: seus soldados enfrentam os homens fiéis a Absalão. Enquanto isso, ele, o rei que tornou Israel forte, fica sentado, só esperando. Que aporrinhação…
— Majestade! Vejo um homem correndo nesta direção!
É o sentinela que interrompe seus pensamentos. Tanto melhor, ao menos alguma coisa está acontecendo.
— Um homem sozinho?
— É.
— Então traz boas notícias. Que bom.
— Epa! Lá vem outro, um negão.
— Cheio de paixão?
— Como?
— Nada, nada. Se o crioulo também vem sozinho, traz mais boas notícias.
— O outro já está perto. Olha como corre! Ah, deve ser Aimaás, filho de Zadoque.
— Ah, Aimaás é um bom garoto. São notícias boas, tenho certeza.
O primeiro homem já entrou no campo de visão do rei. É, de fato, Aimaás. Vendo o rei, grita:
— Tudo vai bem!
Nem tudo ia bem, porém. Naquela manhã, Davi dividira seu exército em grupos de mil e de cem. Juntou esses grupos, comandados por oficiais, em três grupos maiores, sob o comando dos irmãos Joabe e Abisai, e de Itai, o giteu. Com tudo pronto, Davi chamou os três comandantes e disse:
— Muito bem. Vamos.
— Vamos? Mané vamos! O senhor fica.
— Tá doido, Abisai? Acha que eu vou perder essa? Seu irmão endoidou, Joabe.
— Majestade, eu concordo com ele. Se o negócio ficar ruim para nosso lado no campo de batalha, se precisarmos fugir ou se os homens de Absalão acabarem com metade do nosso exército, isso não fará diferença para eles. Mas se eles pegam o senhor, aí acabou-se. Sua vida vale dez mil das nossas. O melhor mesmo é o senhor ficar por aqui, e nos mandar reforços se precisarmos.
— Hum. Tá bom. Mas só peço uma coisa a vocês.
— Pode dizer, majestade.
— Se vocês gostam mesmo de mim, tratem bem ao meu filho Absalão.
Davi disse isso olhando firmemente para Joabe. Sabia que o excesso de zelo de seu general o fazia partir sempre para a solução mais simples e segura. Enquanto Abisai e Itai assentiam, Joabe apenas sustentou o olhar do rei.
Davi postou-se junto ao portão, e assistiu à saída de seu exército. Exército esse que não fez por menos: chegando ao bosque de Efraim, não deu tempo para a reação do inimigo. Vinte mil homens foram mortos, e muitos mais morreram enquanto fugiam, em prosaicos acidentes na floresta. O próprio Absalão, que fugia montado numa mula, de repente se viu como que flutuando no ar, enquanto a montaria disparava bosque adentro. Levou um tempo para perceber o que lhe acontecera: seus cabelos, tão longos e bem cuidados, haviam se enroscado nos galhos de uma árvore de tal forma que ele, por mais que se esforçasse, não conseguia se desvencilhar. Um soldado do exército de Davi que passava por ali à caça de inimigos o viu naquela situação e foi falar com Joabe:
— Comandante, acho que vi Absalão pendurado numa árvore.
— Pendurado numa árvore? Aquele puto acha que isso é hora de brincadeira?
— Hum… Acho que não foi por querer não, comandante. Ele estava preso pelos cabelos.
— HAHAHAHAHAHA! Ridículo! E você matou o desgraçado?
— Er… não.
— COMO NÃO? Porra, se você matasse, eu te daria aí uns cem gramas de prata, mais um cinto.
— Um cinto muito?
— Acha que estou de brincadeira aqui, cavalgadura?
— Não senhor. Desculpe.
— Humpf.
— Mas, comandante, veja só: todo mundo viu quando o rei disse que Absalão devia ser bem tratado e coisa e tal. Suponha agora que eu fosse lá e acabasse com a raça dele. O rei ia saber, ele sabe tudo. E aí o senhor ia se lembrar de me defender? Ia nada! Pois então: nem por dez quilos de prata!
— Bah, não vou perder meu tempo com você. Onde foi que você viu o Absalão?
— Praquele lado ali, ó.
Joabe começou a andar na direção que o soldado apontara, e logo deu com Absalão pendurado num carvalho, esperneando. O comandante saboreou o momento: sorrindo de leve, foi se aproximando lentamente, enquanto brincava com sua lança. Dava-lhe gosto ver a expressão de pavor na face do príncipe.
— Com medo, Absalão? Você não parece tão poderoso agora, pois não? Ai, ai… Um lindo dia. Podíamos estar todos em Jerusalém, tomando sol no terraço do palácio, bebendo umas cervejas. Afinal de contas, foi para isso que eu fiz aquele esforço todo para que você e seu pai se reconciliassem. E você mostrou alguma gratidão? Claro que não! Precisava estragar tudo, não é? Precisava usurpar o trono, botar o velho para correr, humilhá-lo. E tudo isso para quê? Para acabar com sua linda cabeleira enroscada numa árvore, olhando em volta como um coelho assustado. Puxa, você precisava ver sua cara agora. Que situação ridícula, majestade! Tão ridícula que me deixa até constrangido. Vamos acabar logo com isso.
Ainda com o sorriso no rosto, Joabe cravou três lanças no corpo de Absalão. O príncipe ainda ficou estrebuchando, de modo que dez dos homens de Joabe o cercaram e terminaram o serviço.
Com Absalão morto, não havia razão para continuar a luta. Então Joabe tocou a corneta para chamar as tropas de volta. Quando todos voltaram, alguns foram designados para sepultar o corpo de Absalão. Nada muito elaborado: apenas pegaram o cadáver e o jogaram numa cova funda no meio da floresta, cobrindo-a com um montão de pedras. Assim, ridícula e violenta, foi a morte de Absalão. A esse tempo ele já não tinha mais filhos, e só deixou para a posteridade um monumento que mandara construir em homenagem a si mesmo no vale dos Reis.
Joabe ainda pensava num jeito de contar ao rei o que acontecera quando foi abordado por Aimaás, filho de Zadoque:
— Comandante! Peço permissão para ir a Maanaim dizer ao rei que Javé o livrou de seus inimigos.
— Não, de jeito nenhum. Notícia boa, só amanhã. Hoje lamentamos a morte do filho do rei.
— Como? Lamentamos? Mas não foi o senhor mesmo que…
— … Você ouviu o que eu disse?
— S-sim, comandante.
— Só estou querendo preservar sua imagem, rapaz. Vou mandar um crioulo qualquer levar as notícias. Negão! Cadê aquele etíope quando eu preciso dele?
— Aqui, general.
— Ô, negão. Corre lá pra Maanaim e conta ao rei o que você viu.
— Sim senhor.
O escravo etíope de Joabe saiu correndo na direção de Maanaim. Aimaás continuou por ali, olhando para o general com cara de cachorro sem dono.
— Ai, meu saco… Que foi, rapaz?
— Ô, seu Joabe. Deixa eu levar a notícia também…
— Mas pra quê, meu filho? O negão já foi, que diferença faz? O que você ganha com isso?
— Eu só queria dar as notícias ao rei.
— Tá, tá! Vai logo, então.
— Sério? Sério MESMO? Puxa, seu Joabe! Muito obrigado! Muito, muito obr…
— VAI LOGO!
Entusiasmado, Aimaás saiu correndo pela estrada do rio Jordão, e logo ultrapassou o etíope. Quando viu de longe o rei às portas da cidade, gritou:
— Tudo vai bem!
Aproximou-se, fez uma reverência ao rei e completou sua notícia:
— Louvado seja Javé, que deu ao senhor a vitória sobre seus inimigos.
— Ganhamos? E meu filho, está bem?
— Seu filho? Er… Qual deles?
— Oras, qual deles! Absalão, rapaz!
— Ah. Esse filho. Então. Ah, não sei. Absalão, né? Sei não. Quando Joabe me mandou vir, eu vi uma agitação lá, mas não sei o que era.
— Tá bom. Fica aí do lado, descansa um pouco. Vamos ver se o outro mensageiro sabe mais detalhes. Obrigado pelas boas notícias, filho.
— Não tem de quê, majestade.
O etíope chegou logo depois com sua mensagem:
— Majestade, tenho boas notícias! Javé acabou com a raça daqueles que se revoltaram contra o senhor.
— Tô sabendo. Mas e Absalão, tudo bem com ele?
— Olha, majestade… Eu queria que o que aconteceu com ele acontecesse com todos os seus inimigos!
— PRETO FILHO DA…
Oooooooooolha…
Epa.
Bom, não vamos permitir que o rei acabe cometendo crime de racismo. Encerremos o capítulo por aqui.
Eu quero seu dinheiro
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Aitofel e Husai
Com o dinheiro que ganhara vendendo as fitas de Absalão comendo as mulheres de Davi, Aitofel era um homem muito feliz. Foi, portanto, muito pimpão que atendeu a um chamado do novo rei:
— Aitofel, estou aqui pensando no que fazer em seguida.
— Hum.
— Hum o quê?
— Nada, majestade, nada!
— Vai vir de novo com aquele papo de insegurança e não sei que mais?
— Mas de forma alguma!
— É bom mesmo. Humpf. Fique sabendo que nunca houve um rei tão seguro quanto eu. Já tenho tudo planejado aqui, sou dono da situação, sabe?
— Sei.
— Como assim, “sei”? Olha, você não é pago para ser sarcástico comigo!
— Sarcástico, eeeeeeu? Longe de mim, majestade!
— Grunf. Mas eu ia dizendo: estou aqui pensando no que fazer. Comi as concubinas do meu pai, mas e daí?
— Olha, acho que o negócio agora é foder o velho.
— DE JEITO NENH…
— Calma, calma. No sentido figurado.
— Ah… Ufa.
— Então. Deixe que eu escolha doze mil homens. Sairei com eles para perseguir Davi ainda esta noite. Ele está fugindo há mais de vinte e quatro horas, deve estar cansado e desmoralizado. O bicho vai se cagar todo, os que estão com ele fugirão. Então eu matarei apenas o rei… digo, ex-rei, e trarei o resto de volta para cá, para que sejam seus súditos. O senhor só quer matar a um homem, os outros podem ser deixados em paz.
Absalão achou bom o conselho de Aitofel, assim como todos os outros conselheiros. Mas ainda estava com a pulga atrás da orelha devido ao episódio das concubinas: nada lhe tirava da cabeça que Aitofel só o aconselhara a fazer aquilo para filmar tudo. Então resolveu que precisava de uma segunda opinião e mandou chamar Husai. Quando ele chegou, expôs-lhe o conselho de Aitofel e perguntou:
— E aí, o que você acha? Sigo o conselho de Aitofel ou você por acaso tem outro?
— Olha, majestade… Quem sou eu para discordar de Aitofel? O homem foi conselheiro de seu pai, sempre muito respeitado, então não vou querer discutir com ele.
— Ué, que porra é essa? Você concorda com ele ou não?
— Bom. Já que o senhor quer mesmo saber, digo que o conselho não é muito bom não.
— Ah, não? E o que você propõe?
— O senhor conhece seu pai. Davi é um homem valente, assim como os homens que estão com ele, e devem estar todos furiosos. Além disso, Davi é um guerreiro experiente, e durante a noite não fica com os soldados. Deve estar entocado nalgum canto. Se formos atacá-los com doze mil homens, como propõe Aitofel, eles vão reagir e talvez tenhamos uma surpresa desagradável. O povo vai começar a falar que o exército de Absalão foi derrotado, os soldados de Israel ficarão com medo de enfrentar Davi, e pronto: está a merda formada. Então o meu conselho é o seguinte: que o senhor reúna por todo o país todos os homens em condições de batalha, e que o senhor mesmo seja o comandante desse exército imenso. Com tanta gente na cola dele, Davi não vai ter onde se esconder: desentocamos ele até do inferno, antes que ele perceba o que está acontecendo. Então matamos o ex-rei e seus homens, não deixando unzinho para contar a história. NEM UNZINHO! Se eles se esconderem numa cidade fortificada, vai ser fácil para nós derrubar os muros com cordas. E AÍ A GENTE MATA GERAL! SANGUE! SANGUE! SANNNNNNNNGUEEEEEEE!
— Calma, Husai, calma. Puxa, não sabia que você odiava o outro tanto assim… Bom, acho o seu conselho melhor. E vocês, o que acham?
Os outros conselheiros e conspiradores concordaram com Absalão, então decidiram fazer conforme Husai aconselhara.
O plano do espião enviado por Davi parecia mais cruel do que o de Aitofel: enquanto este propunha que um exército pequeno caçasse e matasse Davi, aquele queria atacar com força bruta, esmagando um inimigo acuado. A primeira vista, portanto, Husai parecia mesmo ter mudado de time. Mas a chave era tempo: se seguisse o conselho de Aitofel, a caçada poderia começar em seguida. Juntar doze mil homens era trabalho de não mais que um dia, e Davi seria atacado no meio de sua fuga, sem chances de reação. Por outro lado, convocar todos os israelitas para a luta era tarefa para muitos dias, o que daria tempo ao ex-rei. E tempo era tudo de que Davi precisava.
Pois muito bem: assim que terminou de receber os cumprimentos por seu plano brilhante, Husai correu para contar aos sacerdotes Zadoque e Abiatar — espiões como ele — o que acontecera no palácio. Contou a história por alto, e entregou a eles um bilhete destinado a Davi:
Não perca tempo aí no meio do deserto. Sei que vai ser cansativo e que muita gente vai chiar, mas faça de tudo para cruzar o Jordão o mais rápido possível. Absalão tá com sangue nos zóio, se liga.
H.
Outro elo da cadeia de espionagem criada por Davi era a dupla Jônatas e Aimaás, filhos de Abiatar e Zadoque. Os dois passavam os dias na fonte de Rogel, a uma distância segura dos muros da cidade para não serem vistos. Vez por outra uma empregada ia até lá como se para buscar água, lhes contava o que andava acontecendo e eles levavam as informações a Davi. Nesse dia não foi diferente: a empregada foi até a fonte e entregou o bilhete de Husai aos rapazes. Mas um moleque futriqueiro que ia passando viu aquilo e correu para contar ao rei. Jônatas e Aimás também o viram, e correram para a casa de um sujeito que também estava a serviço do rei deposto, na cidade de Baurim. Eles se esconderam dentro do poço, que a dona da casa cobriu com um pano e jogou sobre ele cereais socados, de modo que o poço ficou camuflado. Quando a polícia chegou para fazer a averiguação e enquadramento dos dois elementos alta periculosidade, não encontrou nada.
— Ô, madame, cadê os meliantes?
— Atravessaram o rio.
— Puta que pariu!
— Olha, rimou!
— Vá à merda.
A polícia foi embora, e os dois espiões saíram correndo para levar o recado e o bilhete de Husai a Davi. O rei recebeu a mensagem, compreendeu que ganhara tempo e deu a ordem para a travessia. Ao raiar do dia, todos já estavam na banda oriental do rio.
Aitofel recebeu a notícia e percebeu o que significava: as tribos do outro lado do Jordão, sempre isoladas do resto do reino, e por isso sempre dispostas a alguma agitação, certamente apoiariam a Davi. Absalão ainda estava começando a arregimentar homens de Dã até Berseba, seguindo estupidamente o conselho absurdo de Husai. Era demais para o conselheiro: além de ter traído seu antigo senhor, fora desprezado pelo novo, e agora veria a vitória do inimigo sem poder nem dizer “Mas eu avisei”. Então Aitofel montou em seu jumento, voltou para casa, botou seus negócios em ordem e enforcou-se.
Quando Absalão finalmente conseguiu juntar seu exército (sob o comando de Amasa, primo de Joabe), Davi e seus homens já haviam chegado a Maanaim, cidade que muitos anos antes abrigara Isbosete, filho de Saul, num outro período conturbado da monarquia israelita. Como já era esperado, as tribos transjordanianas passaram imediatamente para o lado de Davi. Guerra haveria, mas não seria tão fácil quanto Absalão pensava.
Capitão Sky e o mundo de hoje
Quando do lançamento de The Tingler, Willian Castle teve uma idéia estapafúrdia: instalar em algumas poltronas das salas onde o filme seria exibido um dispositivo chamado Percepto. O tal dispositivo era de uma simplicidade infantil: apenas fazia a poltrona vibrar. Associado, porém, a certas cenas do filme, esse efeito causava sustos imensos. Na cena mais marcante, a tela fica toda preta e a voz Dr. Warren Chapin (Vincent Price) anuncia que o monstrengo está à solta no cinema. E diz:
— Ladies and gentlemen, please do not panic! But SCREAM! Scream for your lives! (Gritar era a única arma contra o Tingler. Não vou explicar nada, o filme foi lançado em DVD, assistam. Ou tenham um amigo legal feito Rodrigo Segatti, que me deu essa obra-prima de presente).
Logo em seguida a tela fica branca e aparece a silhueta do monstrinho, como se ele tivesse atacado a sala de projeção. Um primor.
Hoje essa parafernália toda para assustar a platéia não funcionaria: a maioria ia achar apenas ridículo. Vivemos num mundo chato e cinzento, ninguém mais liga para fantasia. Você quer fazer um filme? Ok, muito bem. Mas fale sobre coisas REAIS e SÉRIAS. Nada de aventura e fantasia, que ninguém aqui é criança. E olhe lá, hein? Se o filme tiver alguma cena que considerarmos absurda, todos gritaremos “Bãaaaaaa, té parece!”. Porque não somos trouxas, viu? Você não pode nos enganar.
Capitão Sky e o Mundo de Amanhã é um filme que surpreende por ir contra esse consenso estúpido: seria feito tranqüilamente nos anos 30 (época em que se passa a ação), se então já se pudesse contar com a tecnologia de hoje. Os enquadramentos, a trilha sonora, os diálogos, tudo faz lembrar de um tempo mais ingênuo e, sejamos meio gays, saboroso. É claro que pouca gente vai entender: ontem, na sala em que eu tentava assistir ao filme, o partido do “Bãaaaaa, té parece!” atacava a cada cinco minutos. Tive que ir sentar lá na frente para não brincar de Mateus Meira com aquele povo idiota e sem imaginação.
Mas procurem um cinema meio vazio e assistam. Muito bom mesmo.
Aliás, uma idéia para o Percepto 2004: as cadeiras do cinema seriam todas eletrificadas. Quem atendesse o celular no meio do filme, ou falasse alto, ou risse nas horas impróprias, ou fizesse “Bãaaaaaa, té parece!”, seria imediatamente eletrocutado. Funcionários do cinema entrariam discretamente para remover o corpo, que seria cremado e as cinzas entregues à família dentro de um saco de pipoca, com um par de ingressos de cortesia.
Quando foi internado numa clínica psiquiátrica nos anos 50, João Gilberto passava horas olhando através das janelas. Um dia uma das psicólogas se aproximou e ele comentou:
— Olha o vento desarrumando o cabelo das árvores…
A doutora, demonstrando preocupação, disse:
— Mas, João, as árvores não têm cabelo.
E ele, fuzilando:
— E certas pessoas não têm poesia…

Eu notei, Ieda também: primeiro foi Daryl Hannah em Kill Bill, agora Angelina Jolie em Capitão Sky. O tapa-olho tem tudo para virar fetiche.





