Fotos
De todo mundo que tirou fotos no lançamento, até agora só a Fer, minha fotógrafa oficial, fez a bondade de enviar-me os arquivos. Cliquem aí embaixo para ver as lindas fotos que ela tirou:

De todo mundo que tirou fotos no lançamento, até agora só a Fer, minha fotógrafa oficial, fez a bondade de enviar-me os arquivos. Cliquem aí embaixo para ver as lindas fotos que ela tirou:

Rapidinho: hoje às 18 horas no Virgula, chat com Daniela e eu, a respeito do Balde de Gelo. Para mais detalhes, procurem no blog da Alê Félix mais tarde.
O chat foi bem legal. Entrei agora e ainda está tudo lá. Não dá mais pra fazer perguntas (CLARO), mas quem quiser saber como foi, basta clicar aqui.
Ah! E tá rolando lá no Vírgula uma promoção para ganhar um exemplar do Balde de Gelo. Quer participar? Aqui.
Ei, pessoas que tiraram fotos nas festas de lançamento do Balde de Gelo aqui e no Rio: vocês bem que podiam me mandar as fotos, não? Humpf.
Por enquanto, mostro essas:
A lenda existe em todas as culturas de todas as épocas: um homem fabrica um boneco, este adquire movimento, consciência, e acaba se convencendo de que também pode ser humano. Pinóquio, o monstro do Dr. Frankenstein e os robôs de Isaac Asimov são apenas alguns exemplos desse mito universal.
Na tradição da cabala judaica, o mito recebe o nome de golem. Há muitas histórias de golems. A mais conhecida é a do rabino Judah Loew ben Bezalel, respeitadíssimo em Praga na virada do século XVII. Conta-se que Judah Loew, depois de muito estudar a Cabala, constatou que para dar vida a uma forma inanimada era necessário proferir uma série de combinações das letras YHWH, o nome de Deus. Tendo isso em mente, começou suas experiências. Depois de muito tentar, enfim conseguiu que um de seus bonecos se movimentasse. Para mantê-lo vivo, escreveu em sua testa a palavra Emet (verdade), e o bruto tornou-se seu empregado. Imagino o susto das pessoas quando o bichão desajeitado aparecia:
— Mas o que é isso?
— É meu golem — respondia o rabino. — Bonito, né?
— GAAAAAAAAAAAAH! — e saiam correndo.
Mas as pessoas foram se acostumando, o golem (a palavra significa “coisa amorfa”) cresceu, e a ele foi dada a tarefa de proteger o gueto judeu contra os constantes pogroms.
Tudo ia bem, mas logo o Golem começou a adquirir consciência, e daí para querer ser gente (e se apaixonar pela filha do rabino) foi um pulo. Com dor no coração, Judah Loew viu-se obrigado a por fim em sua criação.
A história do golem reflete o desejo que acompanha o homem desde sempre: o de suplantar Deus. O Gênesis diz que Deus criou o mundo através do poder da palavra: haja luz, que a terra produza plantas, que surjam o sol e a lua, que apareçam os animais. Deus ia dizendo e as coisas iam surgindo tiradas sabe-se lá de onde. Até a criação do homem, única obra pela qual ele botou a mão na massa (ou no barro), começa com Javé dizendo “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”. O golem, assim como o Universo, surge da força das palavras.
O sentimento, quando surge, é uma abstração. Você pensa, “Ei, e se eu e Fulana…?”, ou, “Ei, e se Fulano e eu…?”. Nessa fase não há perigo; ele só começa a existir a partir do instante em que você, não contente em cogitar sobre o sentimento, resolve exprimi-lo de alguma forma: conta a um amigo sobre Fulana, ou escreve o nome de Fulano no seu diário. Pronto, está feito o golem, e ele não vai sossegar enquanto você não o mandar até a casa de Fulana(o). Você tenta evitar, mas o golem é insistente, e você acaba cedendo. Ele vai, bate à porta, a pessoa atende. O golem, desajeitado que é — no fim das contas, é só um recém-nascido — se comunica como pode:
— Bu!
Enquanto isso, de longe, você torce para que Fulana(o) aceite o golem. Ele é grande e feio, mas é seu, oras. Se for aceito, viverão os três juntos: o casal feliz e o golem que os sustenta e protege. Caso contrário, o bicho volta pra casa puto da vida e o janta — um golem rejeitado é muito perigoso. Aí, meu amigo, já era: você não é mais você; você é o golem. Anda por aí desajeitado, não sabe direito quem é nem o que faz, vive triste e perdido em pensamentos confusos.
Alguns dizem que o negócio é você mesmo ir ter com a outra pessoa, sem golem nenhum. Mas e adianta? O golem cresce, cresce, e um dia a pessoa percebe:
— Mas o que é isso?
— Eu te amo.
— GAAAAAAAAAAAAH! — e sai correndo.
Não adianta, não adianta. O negócio mesmo é não arriscar, é nunca falar o nome do golem. Amor, seus bobinhos, é um dos nomes de Deus.
Eu queria falar sobre as duas festas de lançamento do Balde de Gelo, mas não posso. Descobri hoje que dormir no ônibus entre o Rio e São Paulo não equivale a uma noite de sono. No meio do treinamento na nova firma, comecei a ouvir vozes. Achei que fossem instruções do curso em CD-ROM, mas constatei em seguida que estava sem os fones de ouvido. Sou um zumbi, me deixem.
E comprem o livro no site da Editora Gênese, na Saraiva, na Siciliano, no inferno. Preciso comprar o Maleato de Enalapril, vocês sabem.
Tudo correu melhor do que o previsto: vendemos mais do que esperávamos, foi até que fácil escrever as dedicatórias, nenhum chato apareceu, conheci pessoas legais, revi velhos amigos. Daniela, que tinha passado o dia inteiro ansiosa, transformou-se assim que tomou seu lugar à frente da fila: parecia que nunca tinha feito outra coisa na vida além de escrever dedicatórias e sorrir para as pessoas. É linda, a minha amiga.
Obrigado a todos que foram; fizeram nosso dia muito feliz. Dos que não foram, só espero que tratem de comprar o livro. Humpf.
E hoje tem mais. Esperamos a cariocada na Livraria da Travessa:

Dona Donata, eu já disse aqui, era minha avó materna. Ninguém contava histórias como ela: era abrir a boca e começar a mágica. Eu ficava fascinado por aquela capacidade que ela possuía de formar imagens tão reais em minha mente. Vinha devagarinho, contava o começo da história, e logo ela, o crochê descansando sobre o braço do sofá, a TV passando algum filme antigo (geralmente era de madrugada; aprendi com ela a não dormir cedo) e ela própria sumiam, dando lugar à onça braba, à moça louca, ao Lango-Lalango, à Caveira da Cachorra. Histórias inventadas ou não por por ela, não importa. Lembro-me de ouvi-la falando sobre um jogo da seleção romena na Copa de 1994. Contava os lances principais, criticava a atuação do juiz, traçava com as mãos a trajetória da bola dos pés de Hagi até o gol. Vi depois o videotape da partida. A descrição dela era bem melhor. E assim ela fazia com filmes também: contava-os com tal riqueza de detalhes que eu nem precisava assistir a eles.
Vou tentar contar aqui uma de suas histórias, mas já adianto que não é a mesma coisa. Se vocês tivessem a sorte de ouvi-la contando, veriam a história acontecendo. Comigo é só a narrativa insossa de sempre. Mas vamos lá.
Ela começava essa história dizendo que em Estância, sua cidade em Sergipe, as casas costumavam ser assim: tinha a porta da frente, a sala, um corredor de frente para a porta, e a porta dos fundos, na cozinha. Desse modo, quem entrava pela porta da frente via a dos fundos, e vice-versa. Havia, inclusive, uma rua cujas casas não tinham portas dos fundos, o que lhe valeu a denominação de Rua do Cu Tapado.
Pois muito bem: numa das maiores casas da cidade, morava um homem muito rico. Além do dinheiro e do poder, o sujeito ainda ostentava uma filha lindíssima. A moça, porém, não era para qualquer um: o pai a vigiava o tempo todo, sem deixar que ninguém se aproximasse. Os rapazes da cidade suspiravam e sofriam por ela, sem coragem de chegar perto. Mas um dia (sempre chega um dia), apareceu um moço na cidade. Andou aqui e ali, conversou com as pessoas, acabou vendo a filha do ricaço saindo da missa. Apaixonou-se, obviamente, e foi falar com o pai:
— Seu Fulano, eu queria casar com sua filha.
— Casar com minha filha? E você acha que pode ir chegando assim e pedindo pra casar com a menina? Quem você pensa que é, rapaz?
— Eu quero me casar com ela, estou apaixonado. Sem ela eu morro. O senhor me peça qualquer coisa, eu faço.
— Faz, é? Hum. Pois traga uma onça aqui. É, uma onça. Se você trouxer uma onça bem grande, talvez eu deixe você casar com minha filha. Caso contrário, esqueça.
— Pode deixar, seu Fulano. Trago a onça ainda esta semana.
— Estou esperando.
A moça, vendo aquilo, ficou encantada com o forasteiro. Ela nunca pensara que alguém estaria disposto a correr tal risco por ela. Se dependesse de sua vontade, casavam-se logo no dia seguinte. Mas havia o pai. E a onça.
O rapaz saiu da casa de sua amada sem saber o que fazer. Por que diabo prometera uma onça ao homem, Deus do céu? Nunca nem vira uma onça, de que jeito ia caçar uma para entregar como dote? Era loucura, melhor mesmo seria sumir da cidade para sempre. Ia assim pensando quando teve uma idéia maluca. Seria possível? Não seria? Logo saberia.
No dia seguinte, a moça e seu pai estavam na sala da casa quando ouviram alguém gritando longe. Correram para a janela e viram que era o forasteiro que vinha correndo rápido, tão rápido como se estivesse fugindo do próprio Satanás. Vinha na direção da casa, e gritava alguma coisa. A princípio eles não conseguiam discernir as palavras, mas quando ele estava bem perto ouviram claramente:
— ABRA A PORTA! POR NOSSO SENHOR, ABRA A PORTA!
A moça correu para a porta da frente, abriu e ficou esperando. Seu pretendente entrou, veloz como um corisco, pegou-a pelo braço e saiu arrastando-a pelo corredor. O pai, indignado, protestou:
— Mas e a onça?
— Tá vindo aí atrás! — e saiu da casa batendo a porta dos fundos.
Ana Beatriz, minha prima, nasceu dias antes da morte de minha avó. Fomos visitar a recém nascida, e nessa ocasião Dona Donata me contou sua última história.
Diz que havia esse casal. Amavam-se, namoravam, ficaram noivos, marcaram o casamento. Faltou dinheiro, adiaram o casamento para o ano seguinte. No ano seguinte morreu a mãe da moça, então empurraram a cerimônia para o outro ano. No outro ano o noivo sofreu um acidente, ficou de cama, remarcou-se novamente a festa. E assim foi: incidente após outro, iam adiando seu enlace, para desespero das famílias e, claro, deles próprios. Casal direito, queriam fazer tudo dentro dos conformes. Passaram-se dez anos, e um acontecimento acabou adiando o casamento indefinidamente: morreu a noiva.
O moço quase enlouqueceu, quebrou a casa toda, ficou desvairado. Um pouco mais calmo, tomou para si a obrigação de cuidar do velório e do funeral. Deu suas instruções: o caixão seria branco, as flores seriam brancas, brancas também seriam as cortinas, assim como a mortalha da defunta. Tudo branco, tudo branco. O pai da falecida quis confirmar:
— Tudo branco?
— TUDO! TUDO BRANCO! Caixão branco, flor branca, cortina branca, tudo branco!
— Mas vocês ficaram noivos por dez anos… Tudo branco mesmo?
— Olha… Bote um raminho roxo ali no canto…
Faz nove anos que minha avó morreu, e não passa um dia sem que eu pense nela, fale nela, sonhe com ela. Ela é minha maior influência. Se eu resolvi que contaria histórias, foi para tentar imitá-la. É uma pobre imitação, sei disso. Mas tento me aperfeiçoar a cada dia, para fazer jus aos genes que carrego comigo (ou que me carregam com eles, sei lá). Por enquanto, fica uma homenagenzinha: o Balde de Gelo, meu primeiro livro, é dedicado a Dona Donata. Se vierem outros, serão também.