Promoção furada

Muita cara-de-pau do pessoal desse shopping center. Todo mundo sabe que um monte de gente lá da Ásia já ganhou essa promoção aí.

Muita cara-de-pau do pessoal desse shopping center. Todo mundo sabe que um monte de gente lá da Ásia já ganhou essa promoção aí.
Gostei do filme Meu Tio Matou Um Cara, de Jorge Furtado. Gostei mesmo. Boa história, direção excelente, Lázaro Ramos cada vez melhor, Sophia Reis surpreendente, Deborah Secco gostosa como ela só. Mas Jorge Furtado começa a me incomodar.
Depois que assisti ao último filme dele, O Homem Que Copiava, escrevi:
Pois bem, parece que Furtado vai agora na mesma direção: há uma cena longa demais de tomadas de favelas que termina com as expressões sofridas nos rostos dos visitantes do presídio. A câmera passa pelos barracos ao som de um rap; depois passa pelos rostos, e o diretor parece querer comover a platéia. Não consegue, a cena é apenas entediante.
Fosse só isso, eu deixaria passar. É difícil não se deixar contaminar por essa miséria-para-gringo-ver do cinema nacional. Mas há outra coisa que me irritou bastante e que me levou a questionar: por que é que eu, pago para ver filme brasileiro? Eu já pago meus impostos, a maior parte da verba para produção de filmes vem de empresas estatais através da Lei Rouanet, então como é que têm a cara-de-pau de me cobrar?
“Ah, mas o cinema brasileiro ainda está engatinhando”, há de argumentar alguém. Eu digo que esse bebê já está angatinhando há tempo demais, e chegou a hora de escolher: ou pára com esse negócio de ficar de bunda pra cima pra ganhar dinheirim do governo (ou seja, de mim e de você), ou leva logo no rabo. Ainda mais no caso de um filme como esse, em que o site do Terra aparece mais do que o Lázaro Ramos e os rótulos da Brahma mais do que a Sophia Reis. Mamar no governo e entuchar o filme de merchandasign merchandising (BURRO! BURRO!) é um pouquinho demais, não?
Enfim, assista ao filme, é bom. Mas tente pagar o ingresso mostrando sua declaração do Imposto de Renda, ou seu boleto de pagamento do Terra, ou doze rótulos de Brahma. Também queremos moleza, ué.
Está sim, e não me contestem. Maremoto na Ásia, aquela putaria toda no Iraque, os fogos de Copacabana foram um fiasco, e agora Marco Aurélio está namorando.
O fim está próximo, irmãos.
Arrependei-vos.
Ando tão bitolado que sonhei que procurava informação sobre antidepressivos no KBase da Microsoft.
Como vimos no último capítulo, aquele negócio de unificar o reino não funcionava muito bem. Tanto que, ainda no caminho de volta a Jerusalém depois de derrotar Absalão, Davi se viu no meio de uma briga entre os homens de Judá e os de Israel. Brigavam por ele, o que podia ser lisonjeiro, mas era também um pé no saco. Por acaso havia um revolucionário ali entre eles chamado Seba, da tribo de Benjamim. Usava barbicha, bolsa de crochê a tiracolo, boina na cabeça, camiseta do Che Guevara, e só não falo das sandálias de couro porque isso todo mundo usava. Cansado daquela discussão sem sentido sobre quem tinha mais direito a levar o rei de volta à capital, subiu numa pedra e gritou:
— COMPANHEIROS ISRAELITAS!
— CALABOCA, REFUGO DA FEFELECHE!
— CALABOCA É UM CACETE, SEU PORCO CAPITALISTA, CHEIRA-BUNDA DE DAVI! ABAIXO A DITADURA! ABAIXO O FILHO DE JESSÉ!
— QUEM???
— DAVI, PORRA!
— Ah…
— PARA QUE VAMOS SEGUI-LO, SE ELE SÓ VAI MESMO CUIDAR DE JUDÁ? COMPANHEIROS ISRAELITAS, VAMOS VOLTAR PARA CASA!
Os homens de Judá trocavam comentários sarcásticos sobre o revolucionário, e sorriam, condescendentes. No entanto, os israelitas começaram a cochichar, acenar com a cabeça, e foram se reunindo ao redor de Seba. Os de Judá não se conformavam:
— Mas que diabo essa baianada tem na cabeça???
E viram, estupefatos, os israelitas voltarem para suas casas. Todos sabiam como eram os israelitas: uma vez que encasquetavam com uma idéia, não adiantava tentar demovê-los. Então os de Judá fizeram Pffff… e acompanharam o rei até Jerusalém.
Chegando à capital, a primeira providência de Davi foi isolar as dez concubinas que havia deixado para guardarem o palácio. Deixou-as numa casa guardada por soldados, e dava-lhes tudo de que precisavam. No entanto, nunca foi visitá-las. Pegara nojo delas depois de saber do que Absalão fizera. Com essa providência tomada (providenciazinha um tanto covarde, digamos), o rei resolveu preocupar-se com a revolta arquitetada por Seba. Para isso, chamou Amasa:
— Amasa. Você é o novo comandante do meu exército.
— Sou?
— Ai, ai… Não está lembrado? Eu destituí Joabe, e dei o cargo dele a você.
— Ah, é verdade!
— Então…?
— …?
— Você não está sabendo da revolta de Seba, Amasa?
— …?
— O DA BARBICHA!
— Ah, aquele! Sim, sim. Que coisa, não?
— Pois é. O que você pensa dessa situação?
— Penso que alguém tem que tomar providências!
— Oras, não me diga!
— Olha, o senhor vai me desculpar, mas eu já disse. Então…
— VOCÊ É O GENERAL DO MEU EXÉRCITO, AMASA! VOCÊ TEM QUE TOMAR PROVIDÊNCIAS!
— E-eu? Olha, majestade, não é muito a minha. Sou um cara mais pacífico, sabe? Gosto de orquídeas, de palavras cruzadas, essas coisas…
— MANÉ ORQUÍDEAS! VOCÊ VAI CONVOCAR TODOS OS HOMENS DE JUDÁ, ESTÁ ME OUVINDO?
— Claro que estou. Gritando desse jeito…
— Humpf. Convoque a todos, e esteja de volta com eles depois de amanhã. Entendeu?
— Sim senhor. Mais alguma coisa?
— Por enquanto não. Só faça o que eu mandei.
Os dois dias se passaram, e nada de Amasa aparecer com seu exército. Davi bem desconfiava que aquilo não podia dar certo: conhecia bem o temperamento de Amasa. Mas não podia voltar atrás e devolver o cargo a Joabe. Isso o desmoralizaria para sempre. Por outro lado, não podia ficar esperando pela boa vontade de Amasa. Havia uma revolta a ser contida, havia urgência. Então o rei pensou num meio-termo: mandou chamar Abisai, irmão de Joabe.
— Abisai, o tal de Seba vai dar mais trabalho do que Absalão.
— É só um moleque, majestade.
— Um moleque cheio de idéias, não se esqueça. Idéias são perigosas. Quero que você vá atrás dele com os homens do palácio, antes que ele tome pontos estratégicos de Israel.
— Sim senhor.
Abisai convocou a elite do exército, não esquecendo, é claro, de seu irmão Joabe. Saíram da cidade para perseguir Seba, e pararam na pedra grande que ficava em frente a Gibeão. Amasa, que finalmente conseguira juntar um exército um tanto mal ajambrado, foi encontrar-se com eles.
— Ô, pessoal. Tô atrasado? Puxa, isso dá um trabalhão, né não? Abisai! Como vai você, rapaz? E Joabe! Puxa, sou seu fã. Espero que você não tenha… hum… guardado rancor pelo que houve.
— Mas é claro que não!
— Ufa… Sabe como é, eu não tenho culpa. O rei decidiu. E quem sou eu para discutir com o rei?
— E eu, então?
— Hehehe.
— Deixe de bobagem, rapaz. Dê cá um abraço.
Dizendo isso, Joabe pegou-o pela barba, demonstrando a intenção de beijá-lo. Encantado pelas boas maneiras de Joabe, Amasa não percebeu a espada que o general trazia na outra mão. Quando percebeu, já era tarde: tinha os intestinos expostos e um triunfante Joabe em sua frente. Ficou estrebuchando no meio do caminho. Vendo que todos paravam para olhar o comandante que agonizava no chão, segurando as tripas e balbuciando algo sobre orquídeas, um soldado o arrastou para fora da estrada e o cobriu com uma manta.
Enquanto isso, Seba já havia atravessado todas as tribos de Israel, e agora estava na cidade de Abel-Bete-Maacá. Marcara uma reunião ali para decidir os rumos da nação. Parecia uma boa idéia, mas não funcionava direito: entre tantas questões de ordem, autocríticas, votações sobre cada item da agenda, a reunião estendia-se e nada era resolvido. Melhor para Joabe e Abisai, que tiveram tempo de colher informações, ir até a cidade e cercá-la. Faziam de tudo para derrubar as muralhas, quando uma mulher botou a cabeça por cima do muro.
— EI! VOCÊ É JOABE?
— HEIN? SIM, SOU EU!
— VEM AQUI UM INSTANTINHO?
— POIS NÃO!
— ESCUTA, EU…
— Er… Já estou aqui, pode parar de gritar.
— Ah, desculpe. Então. O senhor não conhece a fama desta cidade? Não sabe que antigamente as pessoas vinham aqui pedir conselhos? Abel é conhecida como a cidade mais leal e pacífica de todo o Israel.
— Sim, eu sei.
— E agora o senhor quer destruí-la?
— Olha, querer mesmo eu não quero. Mas um tal de Seba começou uma revolta contra Davi, e nós fomos incumbidos de capturá-lo. Entreguem só esse homem, e deixaremos a cidade em paz.
— Ah… Deve ser o sujeito da reunião secreta. Vou lá pegar o danado.
— Ué. A reunião não é secreta?
— É.
— E como a senhora sabe onde encontrá-lo?
— Ah, estenderam uma bruta bandeira vermelha na porta da casa em que estão reunidos.
— Que burros!
— Pois é. Então, espere aqui. Vamos jogar a cabeça dele por cima do muro.
— Er… Não precisa tanto, sabe? Só traga o homem aqui e pronto.
— Ah, mas assim não tem graça…
A mulher saiu e foi falar com os habitantes da cidade. Eles pesaram suas opções: ou cortavam a cabeça de Seba ou teriam sua cidade arrasada. E, para falar a verdade, ninguém mais agüentava aquela propaganda revolucionária de Seba. Foram, portanto, até a casa onde ele estava e, muito gentilmente, explicaram-lhe que teriam que cortar-lhe a cabeça. Ele quis resistir, mas cedeu quando foi informado que a decisão tinha sido tomada por votação unânime. Suas últimas palavras foram:
— Morre um revolucionário mas.
Talvez ele tivesse algo mais a dizer, não se sabe. É muito difícil falar com a cabeça separada do corpo. Experimentem.
Joabe levou um susto quando ouviu um barulho e viu que fora causado pela queda da cabeça de Seba a seus pés. Ordenou a um dos homens que a colocasse num saco, e voltaram todos para Jerusalém.
O Sr. Pedro Mantovani fez uma crítica negativa ao livro Balde de Gelo lá no site da Saraiva. Eu gostei: acostumado às críticas de fundamentalistas semianalfabetos, é um alívio ser criticado por alguém que ao menos conhece o idioma e sabe expor argumentos.
O negócio, porém, é que agora temos uma crítica positiva e outra negativa para o livro. Isso é muito chato. Então eu resolvi pedir as suas opiniões. Não aqui, claro: no site da livraria. Vão, vão lá. Falem bem, achincalhem, mas opinem.
Estou trabalhando muito, meu povo, e sem vontade nenhuma de escrever. Segurem aí.
Seguraram?
Hmmmm, dotoso…
O Mochileiro das Galáxias, Monty Python e uma teoria besta sobre a natureza do tempo
No Natal eu finalmente criei coragem para começar a ler o The Ultimate Hitchhiker’s Guide, que reúne os cinco livros da série de Douglas Adams. Ler em inglês me dá uma preguiça danada, e ainda mais quando se trata de um catatau de mais de 800 páginas, como é o caso. Enfim: comecei, e logo de cara comecei a imaginar se o Monty Python fizesse uma versão cinematográfica do Mochileiro das Galáxias. Enquanto leio, penso em John Cleese no papel de Arthur Dent, Graham Chapman como Ford Prefect, Michael Palin fazendo o L. Prosser, Terry Gilliam como algum Vogon, essas coisas. Um problema: Graham Chapman está morto. Outro: os cinco sobreviventes estão meio velhos para os papéis. O que fazer? Hum… Talvez voltar à década de 60, ir morar em Londres, dar um jeito de conhecer os Pythons antes mesmo que eles se conhecessem, tornar-me o 23º Python (eu ia dizer o sétimo, mas o posto é da Carol Cleveland. O de oitavo é do Neil Innes. E tem mais um monte. Mas o lugar de 23º ninguém tasca). Surge outro problema: as conseqüências para o presente de mudanças feitas no passado, questão já mais do que abordada, mais recentemente no filme Efeito Borboleta. O negócio seria voltar ao passado e alterá-lo como bem entendesse, sem afetar o presente. Como?
Bom, aí surge outro problema: minha intransponível preguiça. Eu vivo pensando em física, mas nunca me animo a ler nada a respeito. Então começo a forjar umas teorias sem qualquer alicerce, surgidas da pura especulação de uma mente vazia. É o caso dessa que vou tentar apresentar agora. E por que me exponho à vergonha pública? Porque quero abusar de vocês, meus leitores: vejam aí se há algo entre as modernas teorias da física que trate desse assunto. E me mandem links. A preguiça, meus filhos, a preguiça…
Vêem a figura aqui do lado? Então. Bonita, né? Fiz no Paint. Sozinho!
Aham.
Eu comecei a pensar no tempo dividido em porções tão pequenas que seriam elas mesmas indivisíveis (algo parecido com a idéia clássica de átomo). Dessa forma, o tempo não seria uma linha contínua, mas uma sucessão de “partículas”. Precisamos de um nome para elas. Crônons, pronto (ah, a irresponsabilidade!). Cada crônon tem, digamos, 10-1024 milionésimos de segundo. Os crônons se sucedem num só sentido, sendo que cada um deles é destruído pelo crônon subseqüente (pensem numa mesa de bilhar em que cada bola atingida por outra é encaçapada). No entanto, assim que surge, o crônon se desdobra em outros dois: um que é sua cópia exata e uma outra. A primeira é só isso mesmo, uma cópia que fica num outro plano, dimensão, sei lá. A segunda é conseqüência de uma escolha. Por exemplo: você tem que escolher entre uma bomba de chocolate e um sorvete. Escolhe o sorvete. Está atravessando a rua, o sorvete cai no chão, plóft. Você se distrai com isso, vem um caminhão e te atropela. Se tivesse escolhido a bomba de chocolate as coisas seriam diferentes: você comeria a bomba, voltava pro trabalho feliz da vida. Na saída, resolveria passar na doceria para comprar outra. Mas seu sapato sairia do pé no meio da rua, viria um caminhão e páft. Claro que no dia a dia as escolhas não são binárias: há sorvete, há bomba de chocolate, há torta de morango, há pudim de leite. Mas acredito que o processo de decisão no nível dos crônons é binário: ou você escolhe um logo de cara e descarta o resto, ou escolhe um grupo de três sobremesas e despreza o resto. O processo se repete para o grupo de três, até que você escolha um. Cada uma dessas etapas até a escolha é um processo binário: você escolhe uma coisa e descarta outra. Então o outro crônon gerado é o do futuro do pretérito: o que aconteceria em seguida se a escolha fosse a outra (falo em escolhas para exemplificar, o negócio todo serve para acontecimentos acidentais e tal). Resumindo: no eixo X, temos o tempo correndo como o conhecemos; os crônons paralelos no eixo Y, e os alternativos (do futuro do pretérito) no eixo Z. Enquanto os crônons do eixo X vão sendo destruídos pelos novos crônons, os dos outros dois eixos permanecem isolados, sem qualquer ligação com os outros, portanto sem serem destruídos. Entenderam? Não? Nem eu, então vamos adiante.
Dessa maneira, viajar para o passado não tem qualquer efeito sobre o presente: na verdade, o viajante do tempo vai para o crônon paralelo àquele do momento ao qual quer voltar (o qual, é claro, não existe mais). Esse crônon, que existe isolado e auto-suficiente, muda assim que alguma ação é exercida sobre ele. Ou seja: no momento em que chega o viajante, uma cópia é criada (num outro plano, dimensão, universo). Essa cópia, então, inicia um ciclo de tempo normal: crônons surgindo e sendo em seguida substituídos por outros, fazendo antes suas cópias e coisa e tal. Eu poderia voltar, por exemplo, ao crônon correspondente ao instante que John Cleese e Graham Chapman se conheceram, ficar amigo dos dois, vir a tornar-me o 23º Python. Depois de A Vida de Brian e antes de O Sentido da Vida, produziria o Mochileiro das Galáxias com eles. Tudo isso sem afetar nada do que continuaria acontecendo aqui no plano de vocês.
Outra opção seria voltar a um crônon no eixo Z e descobrir o que teria acontecido se eu tivesse escolhido o pudim de leite. Mesma coisa: com a ação sobre o crônon, ele inicia a seqüência usual.
— Mas e se eu quiser ir para o futuro?
Ok, minha cabeça dói.
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