Jesus, me chicoteia!

Coisas escritas na categoria ‘Geral’

Bígola

Era um corredor com paredes dos dois lados. Sim, eu sei que corredores geralmente têm paredes dos dois lados, mas essas eram diferentes: imagine que você está de frente para um elevador e as portas se fecham. Imaginou? Pois bem, agora imagine que atrás dele há outro par de portas, que se fecham em seguida. E outro par de portas, e outro, e outro, e outro. Assim era o corredor: eu corria por ele, e as tais portas (que eram bem grandes, paredes mesmo), iam se fechando. Um segundo que eu vacilasse, já era. Para tornar tudo mais difícil, tinha que prestar atenção aos símbolos gravados em cada parede. Quando as duas que se chocavam tinham os mesmos símbolos (círculos, quadrados, cruzes), elas se desintegravam, formando um novo corredor. E aí era a mesma coisa: corre, corre, corre, símbolos iguais, paredes somem, corredor novo, corre, corre, corre. Uma voz em off me dava instruções para o bom uso do labirinto móvel:

“O objetivo do jogo é chegar ao centro e subir a escada. Lá você encontrará Nosso Senhor o Rei, o Bígola criador desse Cruel Entretenimento”

E então minha cunhada tropeçou no colchão em que eu dormia (era depois do almoço, tínhamos todos comido quilos de lasanha) e eu fiquei sem resposta para a pergunta que me martela o cabeção até agora: que cazzo é Bígola?

Novo sistema

Recentes acontecimentos provam definitivamente que a democracia não funciona. Pedir a dezenas de milhões de ignorantes que elejam seu líder é uma estupidez sem tamanho. Eleições indiretas talvez fossem a solução, mas a quem cabe escolher os componentes do colégio eleitoral. Pois é, os mesmíssimos ignorantes.
Pensando nisso, hoje de manhã (no banheiro, onde mais?) me saí com um novo sistema: a Millorcracia. Pergunta-se ao Millôr quem deve ser o presidente, e aceita-se sua escolha sem discussão.
Só pode dar certo.

Emotionrélio

No trabalho novo, muita gente vê minhas fotos no orkut e se faz uma pergunta muito pertinente: que diabo é aquilo? Pois então: aquilo é uma seleção de um blog que eu tive chamado Emotionrélio. Era uma cópia descarada do Emotioneric: eu fazia caretas a pedido dos leitores. Foi um sucesso modesto por um tempo; depois os pedidos começaram a se repetir e, como o blog dependia mais do que qualquer outra coisa da criatividade dos leitores, o Emotionrélio morreu e foi sepultado.
Acontece que hoje, fuçando no meu organizadíssimo disco, encontrei um backup dos posts do finado blog. Eu bem que estranhava o fato de ter acabado com ele sem deixar nem mesmo os arquivos por lá, para os saudosistas. Mas achei o tal backup, importei, dei lá uma garibada e eis o resultado: Emotionrélio para todos, nas imortais palavras de Rafael Capanema.
Não, não é a volta do blog, é apenas para matar saudades. Mas sei lá. Se começarem a fazer pedidos legais, talvez valha a pena voltar…

Mudanças

Acalmem-se, brutos (eu ia dizer putos, mas por que ofender os leitores logo de manhã?). Há tempos eu quero mudar o logo ali em cima. O outro era muito grande, ocupava quase toda a tela dos que ainda usam resolução 800 x 600 (pobres diabos). Então vou mudar. O que está aí em cima não é o definitivo, então sosseguem as periquitas. A namorada, que entende dessas coisas, vai me ajudar a fazer um treco decente.

Queimando a língua

Maldita a hora em que eu disse que a direita estava sem opções. Eis o que Luis Fernando Verissimo escreveu em sua última coluna:

… se está interrompendo a segunda tentativa de um governo popular, com todos os seus equívocos e concessões, no Brasil. E querem ter a certeza de que não haja uma terceira. Depois que o PT lhe fez o favor de se auto-imolar, a direita está cuidando de espalhar as cinzas e salgar o terreno para que nenhuma outra opção de esquerda viceje em seu lugar, num futuro previsível.

Vixe! O homem comprou (disfarçadamente) a idéia do Delúbio Soares, da conspiração da direita e não sei mais o quê. Exultai, companheiros, exultai! Não é só a direita que tem seu profeta maluco: agora temos nosso próprio Olavo de Carvalho.

É TRI!

Quero ver agora quem é que vai ter coragem de dizer que são-paulino é bicha. Mais respeito: agora somos trichas.

E são poucos os torcedores do Tricolor que conhecem membros da torcida do Atlético Paranaense. Eu sou um desses sortudos: no primeiro jogo, uma torcedora do BFuracão mandou uma mensagem pro meu celular quando seu time abriu o placar. Tirando sarro, é lógico. Eu respondi quando o Atlético fez o gol contra mais bonito da história, mas achei pouco. Ontem eu me diverti mandando mensagens SMS a cada gol do São Paulo. E questiono: como é que a Fer, que tem tanto medo de anão, torce por um time cujo técnico é o Antonio Lopes?

Uma vítima da exclusão digital

Hoje no metrô tive uma demonstração gritante do que é a exclusão digital no que Alexandre Soares Silva chama de “esse Brasilzão de meu Deus”. Entrei no trem e notei que alguém falava em voz alta e pastosa. Olhei ao redor e logo encontrei a fonte do discurso: um homem sujo, de cara encardida, raça indefinível. Usava um gorro ensebado, várias camadas de camisas, e uma calça jeans curta que deixava à mostra a perna de outra calça, essa social, provavelmente usada à guisa de cueca. Olhando o jornal do vizinho, comentava:
— Olha lá, olha lá! Dez milhões! Feladaputa… Eu com dez milhões fazia a festa, rapaz. Fazia mesmo. Vixe.
Os passageiros riam. O senhor sentado ao lado do eloqüente maltrapilho ria mais que todos, um riso condescendente. Animado pelo apoio velado do público, o sujeito continuou:
— Mas não preciso de nada disso não. Não preciso. Eu só preciso é da minha fé em Deus. Gosto muito de Deus, muito mesmo. Eu não gosto é do Diabo.
Mais risos. Seu vizinho de assento acenou em aprovação.
— Não gosto mesmo! Chamei o Diabo pra porrada e ele não veio, o cuzão. Arrombado… Se eu morrer, vou pegar o Diabo de porrada no inferno. Feladaputa…
O senhor ao lado arriscou um comentário:
— É isso aí!
E ele:
— Eu não tenho nada na vida. Durmo na rua, não tenho cama, nem colchão, nem cobertor. Minha cama é o asfalto. Às vezes durmo no metrô mesmo. Olha isso — mostrando a canela. — Olha a feridona. O cara lá diz que é câncer. Câncer é o caralho!
Desconforto entre os passageiros.
— Quem tem câncer é o meu pai. O velho. Câncer nas costas. Toooooodo fodido, o velho. É foda.
O senhor ao lado fez outro aceno, esse de compreensão da dor alheia.
— Mas eu não tenho câncer nenhum. Que câncer nada! Eu tenho é piolho. Rapaz, os feladaputa dos piolho quase me come vivo. Eu mato tudo, toco fogo na roupa, mas não adianta: os bicho volta tudo depois.
O vizinho tratou de procurar outro lugar para se sentar.
— Bicho desgraçado… Piolho comigo é na unha, rapaz!
Silêncio no vagão.
— Sou soldado, sabia? Fuzileiro da Segunda Região Militar, Barueri. Bom de tiro. Vai mexer com meu pai pra ver se não leva tiro. Vai mexer com a minha mãe, vai. Dou tiro, arranco a cabeça fora. Não mexe com meu pai! Não mexe! Tá vendo esse vidrinho aqui? — tirou o vidrinho de um envelope — Nitroglicerina!
Silêncio tenso.
— Nitroglicerina! Se eu jogo essa porra no chão, já era. Hehehe. É nada, brincadeira. É perfume, ó. Ó, tô passando. Eita perfume ruim da porra!
Nesse momento, entrou um moço numa cadeira de rodas. A cadeira era empurrada por uma moça gordinha.
— Ô, rapaz. Sua cadeira é automática?
— Né não.
— É… Parafusada?
— Não.
— Pô, sua cadeira não é porra nenhuma! Sua mulher?
— É sim.
— Bonita, bonita… Têm filhos?
— Não.
— GRAÇAS A DEUS!
Gargalhadas de alívio entre os passageiros. Levantando-se, o mendigo agradeceu a atenção de todos e desembarcou.
Mas por que eu falei em exclusão digital lá no começo do post? Oras! Imaginem esse mendigo com um computador conectado à Internet. Suas declarações sem relação uma com a outra eram posts prontos. Seria melhor que a maior parte dos blogueiros que se vê por aí.

E aí vem ela me dizer que tem a exclusividade das pessoas bizarras no metrô. Ilusão.

Não quero saber

Foi eu clicar no “publish” do último post para o pensamento surgir: “Todo mundo vai associar o texto aos recentes acontecimentos em Brasília”. Dito e feito: praticamente todos os comentários falam em mensalão, em PT, em Roberto Jefferson e não sei mais o quê. Confesso que eu mesmo me senti tentado a traçar o paralelo enquanto escrevia, mas rechacei a idéia: daqui a alguns meses, quando o primeiro livro dos Reis estiver pronto, essa história toda já estará esquecida, soterrada por algum outro escândalo. Querem apostar? Vale uma mariola, pois.
Os escândalos se sucedem, e no fim das contas nenhum deles tem importância. De tudo isso que ocorreu recentemente, por exemplo, só um fator se destaca. Curiosamente, ninguém parece ter prestado atenção. Foi assim: o Roberto Jefferson disse que gostava do Valdemar Costa Neto por ele ser jogador e mulherengo. Em resposta, o presidente do PL disse que preferia gostar de mulher a gostar de um rapaz de Cabo Frio. Por Deus! Quem é o rapaz de Cabo Frio, alguém sabe? Roberto Jefferson, o mais novo paladino dos valores da República, atraca de popa? Oras, mas seria um detalhe deveras interessante…

A organização do reino de Salomão

(I Reis 4)

Depois de receber de Javé tamanha sabedoria, Salomão achou por bem utilizá-la para reformular a estrutura do reino. Seu pai fora um grande rei, mas era mais um guerreiro do que um estadista. O funcionamento da máquina oficial podia ser muito melhorado, e Salomão sabia exatamente como fazê-lo. Para começar, nomeou os trutas para os cargos de confiança:

  • Sacerdote: Azarias, filho de Zadoque
  • Escrivães: Eliorefe e Aías, filhos de Sisá
  • Conselheiro do rei: Josafá, filho de Ailude
  • Comandante do exército: nosso já conhecido mano Benaías, filho de Joiada
  • Sacerdotes: Zadoque e Abiatar
  • Chefe dos administradores distritais: Azarias, filho de Natã
  • Conselheiro particular do rei: o sacerdote Zabude, filho de Natã
  • Mordomo: Aisar
  • Encarregado dos trabalhadores forçados: Adonirão, filho de Abda

Notem que nada nessa vida é de graça: Natã desempenhara papel primordial para que Salomão subisse ao trono; em troca, dois de seus filhos foram nomeados para cargos de confiança.
Tendo nomeado seus servidores diretos, Salomão partiu para uma reorganização do reino em distritos. Para isso, nomeou doze homens para serem administradores dos distritos de Israel. Cada um dos administradores era obrigado a prover o palácio de mantimentos durante um mês do ano. Dos doze administradores, dois eram genros do rei. Tudo coincidência.

Israel funcionava como um conjunto bem azeitado de engrenagens. Como nada faltava, não havia necessidade de guerras, e Salomão pôde governar em paz e com grande prosperidade. Viveu em paz com os reinos vizinhos durante toda sua vida, e muitos deles pagavam tributos a Israel. Os gastos do palácio do rei só eram comparáveis aos da Casa da Dinda: por dia eram consumidas três toneladas de farinha de trigo, seis toneladas de outras farinhas (não especificadas, sei de nada), dez bois gordos, vinte bois de pasto e cem carneiros. Isso sem contar veados, gazelas, cabritos monteses e aves domésticas. O rei tinha quatro mil baias para os cavalos de seus carros de guerra, e doze mil animais da cavalaria. Fornecer palha e cevada para as montarias também estava entre as obrigações dos administradores distritais, cada um no seu mês.
Com o reino perfeitamente organizado para gravitar em torno do palácio, não deixando que nada lhe faltasse, Salomão tinha tempo de sobra para cultivar sua descomunal sabedoria: estudou as árvores e plantas, os animais, os astros; escreveu três mil provérbios e compôs mais de mil canções (a mais conhecida delas é provavelmente o Cântico dos Cânticos). O rei de Israel foi considerado o homem mais sábio de seu tempo, e reis do mundo inteiro mandavam representantes para ouvi-lo.

(Assovia e disfarça)

Todo dia eu encaro pelo menos uma vez a interface do Movable Type para escrever algo novo neste blog. E todo dia eu penso: “Nah, amanhã eu escrevo”.
Não é só porque eu ando trabalhando muito, e passei três dias fora de São Paulo fazendo curso: é também porque a vontade de escrever é nula. Tenho idéias, tenho um texto pronto sobre a viagem, mas só pensar em escrever já me dá sono.
Se ao menos meu cérebro tivesse interface USB…

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