Jesus, me chicoteia!

Coisas escritas na categoria ‘Sentimentalidades’

Tio Marcurélio

Semana passada, quando minha irmã e meu cunhado me telefonaram para dar a notícia, ela foi enfática:

— Só não vai falar nada no blog, tá?

Aquiesci sem problema nenhum. Afinal este blog, ao contrário do que possa parecer, não é minha vida.

Bom, entáo vocês podem imaginar minha surpresa quando fui ler os comentários do último post e me deparei com minha irmã me cobrando a divulgação da notícia. Como eu sempre digo, vá o diabo entender as mulheres. Enfim, é com alegria imensa que eu digo a vocês:

EU VOU SER TIO!!!

O jardim das veredas que se bifurcam

Se levarmos em conta que o Cosmos seja infinito, teremos que admitir que são infinitas suas partículas e também infinitas suas possibilidades. Raciocinando assim, é inevitável que pensemos num cenário de múltiplos universos, sendo que em alguns deles existem outras Vias Lácteas, Sistemas Solares como o nosso, planetas como este, duplicatas de cada um de nós.

Há um conto de Jorge Luis Borges entitulado O Jardim Das Veredas Que Se Bifurcam. Nele, um velho chinês se propõe a escrever um populoso romance e a construir um labirinto no qual todos os homens se percam, e gasta treze anos nessa tarefa, até sua morte. Séculos depois, já na I Guerra Mundial, um seu descendente descobre, através de um sinólogo inglês, a verdadeira natureza da obra de seu antepassado: o romance e o labirinto eram na verdade uma coisa só. A obra literária, aparentemente caótica e sem sentido algum, na verdade tem a ambição de cobrir todas as possibilidades de cada acontecimento. Citando:

Em todas as ficções, cada vez que um homem se defronta com diversas alternativas, opta por uma e elimina as outras; na do quase inextricável Ts’ui Pen, opta — simultaneamente — por todas. Cria, assim, diversos futuros, diversos tempos, que também proliferam e se bifurcam.

Ficamos então sabendo que o tal romance é uma imagem incompleta do universo tal como o concebia Ts’ui Pen, imagem esta bastante condizente com certas hipóteses cosmológicas correntes.

Um exemplo: estou aqui escrevendo este texto. Suponhamos que alguém o esteja lendo enquanto a esposa o espera no quarto. Imaginemos que esse homem começa a pensar demais no assunto abordado, e quando chega ao quarto a esposa já dormiu. Nada de sexo por hoje, então ele desce novamente e vai ver TV. Suponhamos, no entanto, que esse hipotético leitor veja o post, ache-o muito extenso e resolva deixar a leitura para amanhã. Sobe as escadas e encontra sua esposa acordada e muito disposta. Dessa noite de sexo resulta uma gravidez, e o garoto aí concebido cresce, torna-se um assassino. Daqui a vinte anos ele me mata numa briga de trânsito.

Pois bem, neste nosso mundo só uma das alternativas pode ocorrer de cada vez. Mas consideremos o panorama de vários universos sobrepostos: todas as alternativas podem ocorrer, e de fato ocorrem. Todas as bifurcações possíveis são percorridas.

*   *   *

Então eu penso que talvez numa outra alameda deste jardim labiríntico tudo tenha dado certo entre nós, que você tenha decidido que valia a pena ao menos tentar, e que agora mesmo nós dois vivemos juntos e felizes por lá. Encontramo-nos frente àquela bifurcação, só que ao contrário daqui acabamos escolhendo o mesmo caminho. Pensamentos assim me ajudam a dormir.

Lisbon Revisited

Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafisica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) ­
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!

Ó céu azul ­ o mesmo da minha infância ­,
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo …
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

(Álvaro de Campos)

Teatro

Há a peça, há os atores e há você. Você talvez não seja a atriz principal. Em compensação, você é o cenário, o figurino, o roteiro, a direção, a iluminação — Você é luz/É raio, estrela e luar —, você é o público e as poltronas puídas em que ele se senta, é a bilheteira mal humorada, o cara que toca a campainha para anunciar o início da peça.

Quando durmo, e começa a peça surrealista dos meus sonhos, você é a esfinge que cai do céu, espalhando enigmas por todos os lados em forma de esferas com ideogramas chineses. Você sai correndo com minhas roupas enquanto eu fico nu no meio da Avenida Paulista. Eu corro e não saio do lugar; é você me segurando. Eu começo a cair e foi você quem me empurrou. Eu vôo, mas é com as suas asas. Morro e vou para o inferno, julgado por você.

Eu precisava tirar você do meu teatro. Eu era ator principal desse negócio; agora me contento com qualquer figuração: acho que o tempo dos palhaços tristes ficou para trás.

Escambo óptico

Encontrei a solução. É tão óbvia, não sei como não tínhamos dado com ela ainda: trocaremos nossos olhos. Não se assuste, nada de pornográfico, apenas os olhos que enxergam. Assim ambos ganhamos: você, porque finalmente poderá se ver com meus olhos, e perceberá a mulher linda e admirável que é. E eu porque, vendo-a como você se vê hoje, talvez consiga esquecê-la e sair por aí pegando tudo quanto é vagabunda, munido do meu novíssimo par de olhos azuis. É tão simples!

Futuros amantes

Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar

E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos

Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização

Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você

(Chico Buarque)

Balanço

Aniversário é dia de se fazer balanço, então resolvi fazer o meu. Aí lembrei que não levo jeito pra essas coisas. Acho que vou pedir pro meu tio serralheiro fazer um pra mim.
Serralheiro!
Balanço!
Rá!

Ok, vamos tentar de novo.

Geralmente penso na morte no meu aniversário. Este ano foi estranho: Só agora me dei conta que não pensei nela. Não tive tempo. Família, velhos amigos, novos amigos, todo mundo falando tantas coisas lindas para mim, então acabou que só consegui pensar mesmo na vida e no quanto ela às vezes vale a pena.
É o terceiro aniversário seguido em que não tenho um deus ao qual agradecer por mais um ano de vida. Isso faz falta, demais até. O vazio aqui dentro é imenso. Mas meus amigos quase o preenchem. E, houvesse deus em minha vida, muito teria a agradecer a ele. Como não há, vou me dirigir a este moleque de braço quebrado aí.
Ô moleque. Temos convivido esses anos todos. Essa foto aí foi tirada há mais de 26 anos, mas me orgulho de dizer que não deixei que você mudasse muito. Você cresceu, é verdade. Engordou feito um porco, depois emagreceu até virar um esqueleto, aí engordou de novo até ficar parecendo uma porca prenha obesa. Não tinha cabelos nessa época, depois os cabelos cresceram, mas não duraram muito. Mas esse brilho inocente nos olhos e esse sorriso abobalhado continuam quase intactos, as pernas tortas são as mesmas, o jeitinho meio aviadado é idêntico. Eu não o traí, eu não o abandonei, eu sempre ouvi sua voz aqui dentro de mim. Nunca falei com você em tom condescendente, mas sim do jeito que se deve falar com toda criança: Sério, olhando no olho, sem mentiras. E você sempre foi absolutamente sincero e direto comigo, como bom menino que é. Tenho cuidado bem de você esses anos todos, e você de mim.
Houve momentos em que estivemos sozinhos, podendo contar apenas um com o outro, e sobrevivemos. Somos uma dupla e tanto.
Sei que o decepcionei algumas vezes, que o entristeci, que o fiz chorar. Peço desculpas. A convivência com gente grande é prejudicial demais, por isso tento evitá-la ao máximo. Mas há momentos em que é inevitável, e acabo influenciado pelo comportamento sujo dos adultos. Perdão, meu menino.
Vamos prosseguir nosso caminho juntos. Continuarei falando com você da mesma forma que você falava com o Buduque, seu amigo imaginário. Espero que você também continue falando comigo.
Feliz aniversário atrasado, moleque.

Covardia

Depois que essa molecada descobriu que eu choro fácil, virou moda me sacanear. É foda. Dessa vez foi a Maira.
Assim não dá, porra.
Chuif.

Fertilidade

Tempos atrás alguém me perguntou se eu estava apaixonado. Pensei com cuidado na questão e respondi que estava fértil. A pessoa não entendeu, então tentei desenvolver a idéia: Sabe quando a mulher está no período fértil, e o útero fica todo receptivo e assanhado? Então. Era assim que meu coração estava: Vazio ainda, mas na maior disposição para abrigar alguma garota tola o suficiente para passar por perto.
Acho que quem perguntou achou que era doidice minha, porque continuou sem entender nada e tratou de mudar de assunto. O fato é que acabei me apaixonando de verdade, escrevendo coisas das mais inesperadas e surpreendendo-me comigo mesmo. Oras, sou um ateu insensível, então que porra é essa?
Acabou que não deu certo, e acho que agora voltei ao estado anterior. Ao período fértil.
Isso não vai dar certo…

(E fodam-se, se eu quiser que esta porra aqui seja diarinho, será diarinho)

Rumo dos Ventos

A toda hora rola uma história
e é preciso estar atento
a todo instante rola um movimento
que muda o rumo dos ventos
quem sabe remar não estranha
vem chegando a luz de um novo dia
o jeito é criar um outro samba
sem rasgar a velha fantasia.

Mulher, é isso aí
só existe a gente mesmo
levando um barco pesado
apesar do agitado mar
sem a lua e seu encanto
ao sabor da ventania
mesmo no gelo da noite
meu coração não esfria.
E quando o vendaval passar
acharemos uma ilha
e até quando Deus deixar, mulher
iremos tocando a vida.

(Paulinho da Viola)

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