Jesus, me chicoteia!

Coisas escritas na categoria ‘Sentimentalidades’

Rondó do Capitão

Bão Balalão
Senhor capitão
Tirai este peso
Do meu coração
Não é de tristeza
Não é de aflição
É só de esperança
Senhor capitão
A leve esperança
Aérea esperança…
Aérea, pois não!
Peso mais pesado
Não existe não
Ai, livrai-me dele
Senhor capitão.

(Manuel Bandeira)

Chega de paçoquinha

O post abaixo encerra aqui mais um ciclo de textos a respeito daquilo que o sábio Ruy Goiaba chama de “o sentimento que é nome de paçoquinha”.

Como conseqüência imediata, não teremos mais posts do JMC no Copy & Paste. Ratapulgo, eu já disse, é um romântico incorrigível.

Como outra conseqüência, passo agora a aceitar currículos de leitoras interessadas. Com foto e carta de referências.

Fim de leitura

Sabe aquela sensação de ver um livro muito bom chegando ao final? Aquela tristezinha de saber que em breve vai ter que se despedir dos personagens que você tem acompanhado com tanta atenção, da cabana à beira do lago, do barco, do beco sujo? Então. É assim que eu me sinto, agora que percebo que o sentimento que alimentei por você todo esse tempo começa a evanescer-se. Foi uma excelente leitura — uma espécie de Magnolia dos sentimentos — mas estou nas últimas páginas. Tento reduzir o ritmo, ler uma página hoje, tomar um café, contar os azulejos, olhar para o pé, cortar as unhas, ficar jogando minha bolinha de borracha na parede, ler outra página amanhã, ir ao banco, experimentar um chapéu, cantar no karaokê… Mas eu sei muito bem que esta leitura está terminando. Muito breve fecharei o livro, soltarei um suspiro, olharei para o vazio por um tempo pensando no que acabo de ler, e então botarei o livro de volta na estante.

Seria diferente se você tivesse vindo para ler comigo. Então leríamos até o final com alegria, faríamos comentários engraçadinhos ou melancólicos, como é de nossa natureza. Ao final, começaríamos a adicionar ao livro novas frases, novos parágrafos, páginas, capítulos. Tenho aqui em algum lugar um calhamaço que surgiu assim, escrito por mim e por outra garota. E é muito engraçado, bem escrito, denso. Eu só não sei onde está porque minha biblioteca é uma bagunça. Seria bom escrever um novo com você, mas esse tipo de pensamento não é muito saudável. O futuro do pretérito a Deus pertenceria, você sabe.

Então guardo o livro. Ele ficará lá na estante, emitindo seu brilho de uma cor muito linda — a sua cor predileta, aquela — e será difícil não olhar para ele por algum tempo. Talvez um dia você entre aqui na minha biblioteca do seu jeito leve e tímido, e com a voz vacilante me peça o livro emprestado. Se acontecer, será a melhor releitura de minha vida. Se não acontecer, paciência: há muitos livros nessas estantes de madeira escura que vão até o teto. E eu sou mais voraz que os cupins.

Magnolia

Magnolia

DONNIE: I’m sick.
THURSTON: Stay that way.
DONNIE: I’m sick and I’m in love.
THURSTON: You seem the sort of person who confuses the two.
DONNIE: That’s right. That’s the first time you’re right. I CONFUSE THE TWO AND I DON’T CARE.

Não, não assisti Magnolia de novo. Assisti American Beauty, e resolvi assistir a uns trechos do nosso filme depois. Magnolia não é só um filme: há quem abra a Bíblia ao acaso em momentos de agonia, há quem procure respostas num daqueles livrinhos que são vendidos no caixa das livrarias. Eu assisto trechos aleatórios de Magnolia. Não encontro resposta nenhuma, mas também nem estava perguntando nada. Só quero algum alívio.

Resistência

Ela entrou quando eu estava no meio de uma frase. Entre pessoas agradáveis e recém-conhecidas, falava minhas baboseiras de sempre. E então ela entrou. Linda, linda. Pensei que eu fosse interromper minha frase pela metade, olhando embasbacado para ela e deixando todos atônitos com meu estranho comportamento.

Mas aí minha consciência — que tem a voz do Maguila, sério! — me acordou pra vida:

— Continua o que cê tava falando, senão eu vô ti dá mutcha pór-rada!

E com razão: interromper o que estava dizendo seria repetir um erro já por demais cometido, e embarcar mais uma vez para a mesma viagem ruim. O dèja-vu era muito forte para ser ignorado. Então continuei. Dei uma vacilada na voz, mas ninguém deve ter percebido.

Elas não vão mais me pegar tão fácil assim. Tô esperto.

Estrutura

Basta eu ter um de meus ataques de total intransigência/intolerância (são muitíssimo comuns), para alguém vir com o velho argumento: “Ah, mas pra você é fácil! Olha a família que você tem! Olha a estrutura!”. A essas pessoas eu tenho vontade de responder com o histórico de três mulheres admiráveis, com vários problemas familiares dos mais intrincados, e que no entanto dão provas quase que diárias de força de caráter. E, vejam só, me apaixonei pelas três. Isso talvez explique muita coisa, mas estou com preguiça de pensar agora.

(Há também o exemplo maior dessa verdade, que é Dona Ana, a senhora minha mãe. Mas quero evitar análises freudianas cansativas e não solicitadas.)

Conclusão

Com a minha coleção de CDs atual, se me enfiassem numa biblioteca grande o suficiente e só com livros bons, podiam até trancar e engolir a chave: eu não sentiria a menor falta das pessoas. Não, não: seria uma bênção me ver livre do convívio enfadonho das pessoas, a mesma meia dúzia de personagens repetindo sempre as mesmas histórias sem graça.

(É claro que tal conclusão não se aplica a certa garota de olhos azuis. Ela é a variável que bagunça todas as minhas equaçõezinhas perfeitas.)

Prestamento de confiança

— Ô, meu fio. O fio tem uma namorada, não tem?

Com seu sotaque do sertão da Bahia (que não guarda semelhança nenhuma com a fala dos baianos de novela), meu avô me fez a pergunta. Estávamos do lado de fora do velório e chorávamos a morte de minha avó.

— Tenho sim, vô.

— E vai casar?

— Pretendo — pobre de mim.

— Hum. Muito bom. Mas olha: casamento é prestamento de confiança, viu? Eu e a Silvana por exemplo: namoramos durante um ano. Aí eu pensei: “Vou casar”. Só que antes eu fiz um teste: desmanchei o namoro sem dar satisfação nenhuma e fiquei só observando — no meio de sua dor inimaginável, meu velho avô sorria com a lembrança. — Os amigos vinham me contar como ela se comportava, o que fazia, com quem falava, essas coisas. Isso durou um mês. Aí eu fui falar com ela: “Olha, eu quero voltar, você quer?”. Ela quis, e então nos casamos. Isso há sessenta anos. Casamento, fio, é prestamento de confiança.

Meses depois, tomado pela tristeza, meu avô morreu também. O prestamento de confiança era demais. Acho que ele se sentiu meio desleal ficando por aqui. Eu não me casei, nem creio que vá me casar um dia. Mas tenho vontade de gritar isso para esses casais de hoje em dia, essas pessoas que tratam o relacionamento com a leviandade de solteiros: E o prestamento de confiança, onde é que fica?

Acauã

Sempre que o tempo fecha em São Paulo, naquela ameaça prolongada de chuva, lembro-me de minha avó paterna, Dona Silvana, que nasceu e viveu quase toda a vida em Monte Santo, sertão baiano. Quando estava por aqui e via as nuvens crescerem, pintando todo o céu de chumbo, olhava fixo para cima e murmurava:

— Que tempo bonito…

A chuva era uma bênção, um milagre esperado com ansiedade por todos, e um pouco forçado pelas novenas e procissões dos católicos — meus avós, batistas, apenas lamentavam a ignorância do povo que se deixava explorar pelos padres.

Quando meu avô ligava lá para casa — Seu Júlio tinha que andar seis quilômetros até a cidade para usar o único telefone da região — o diálogo com meu pai seguia sempre a mesma fórmula, inevitável entre dois homens de poucas palavras. Então cresci ouvindo meu pai ao telefone:

— Bença, papai… Amém… E mamãe, como está?… Graças a Deus… E a chuva?

A chuva em Monte Santo era tema corrente em casa, e torcíamos e esperávamos por ela como se lá estivéssemos, mesmo que São Paulo estivesse sofrendo com os alagamentos de sempre.

Estava pensando em coisas assim quando vi que Ruy Goiaba botou Luiz Gonzaga em seu seleto panteão. Quando eu era criança, Gonzagão me impressionava menos pela música do que pelo fato de ainda fazer shows e gravar discos com a idade que tinha, fato sempre reforçado pelo meu pai:

— Esse aí tem a idade do meu pai, como é que ainda agüenta o acordeão? — Seu Lindauro falar algo mundano como "sanfona"? Nem pensar!

Com o tempo fui pegando gosto pelas canções do Lua, e hoje sou um conhecedor razoável de sua obra. Uma música, no entanto, me emociona acima das outras: Acauã, composta por ele e Zé Dantas. Tem nada a ver comigo: sou um jovem paulistano, e da Bahia onde estão minhas origens só conheço (mal) a aprazível região do sul. Ainda assim, a canção faz ressoar algo aqui dentro, algum atavismo insuspeitado, sei lá. Talvez seja porque a aridez, os espinhos e a insalubridade do sertão combinem tão bem com minha personalidade. Não há litoral em meu espírito.

Acauã

Acauã, acauã vive cantando,

durante o tempo do verão,

no silêncio da estrada aboiando,

chamando a seca pro sertão,

chamando a seca pro sertão.

Ai cauã, ai cauã

teu canto é penoso e faz medo

te cala acauã,

que é pra chuva voltar cedo.

Toda noite no sertão,

cantam joão-corta-pau,

a coruja, mãe da lua,

apeitique e o bacurau,

na alegria do inverno

canta sapo, jia e rã,

mas na tristeza da seca,

só se ouve acauã,

só se ouve acauã.

Santa Rita de Cássia

Como eu disse, estou lendo Viver Para Contar, livro autobiográfico de Gabriel Garcia Márquez, por influência de dois luminares das letras nacionais (Polzonoff, me deve um chope por essa puxada de saco. Adailton Sem-Vergonha, de você eu nem cobro mais nada). Estou lendo o livro do jeito como o próprio Gabo descreve sua leitura de A Ilha do Tesouro: devorando “… letra por letra com a ansiedade de saber o que acontecia na linha seguinte e ao mesmo tempo com a ansiedade de não saber para não perder o encanto”. Pois bem: hoje, na hora do almoço (eu vou almoçar sozinho para poder ler sossegado, e leio enquanto como. Fodam-se as boas maneiras) li um trecho que me fez rir muito, e depois me fez chorar um pouquinho escondido por me lembrar MUITO as histórias de minha avó. Ele conta que uma de suas irmãs recebeu o nome de Rita devido à devoção da família por Santa Rita de Cássia, baseada principalmente na paciência da santa com um marido sangue ruim:

Minha mãe nos contava que esse marido da futura santa chegou certa noite em casa enlouquecido pelo álcool um minuto depois de uma galinha ter plantado sua cagadela na mesa da sala de jantar. Sem tempo para limpar a toalha imaculada, a esposa conseguiu tapar a caca com um prato para evitar que o marido a visse, e apressou-se em distraí-lo com a pergunta habitual:
— O que você quer comer?
O homem soltou um rugido:
— Merda.
A esposa então levantou o prato e disse com santa doçura:
— Está servida.
A história conta que o próprio marido se convenceu na hora da santidade da esposa, e converteu-se à fé de Cristo.

Ah, Dona Donata! Queria que a senhora estivesse aqui para eu te contar essa. Seria uma boa para contar para o bisneto que vem aí.

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