Após uma tarde intensa de debates

Os bichos aqui de casa são religiosos. Deístas, no mínimo. Acreditam em Deu, é isso que me dizem.

(depois descobri que “Deu” é “Deus” em catalão, então fica aí a possibilidade de que eu tenha adotado um cachorro e um gato catalães, vejam que chique)

Rondeli, o cão, diz que Deu criou os cachorros os cachorros criaram as pessoas. Açaí, o gato, diz que Deu criou os gatos, que criaram os cachorros, que criaram as pessoas. Um acusa o outro de heresia. Rondeli diz que Açaí é protestante, reformista, não-sei-quê. Nem entro muito na discussão, não entendo direito.

O cachorro é muito disso aí, da doutrina, da letra. O gato é mais místico. Pensa mais em Deu do que na religião organizada. Deu, ele me explicou, é o que eles (os gatos) chama de “Um Gatão Bem Grandão”. Perguntei o que Deu faz. “Cuida dos gatos, ué.” E dos cachorros? “Também, porque são criaturas nossas.” E das pessoas? “Às vezes. Nos dias em que Deu está bem, a caixinha de areia dele está limpa e ele não vomitou nenhuma bola de pêlo.”

Rondeli só resmunga em desdém e vira para o outro lado.

É fascinante.

Hoje é Páscoa, dia muito adequado para ressuscitar o JMC. Ando deprimido e Ana Cartola diz que eu preciso encontrar algo que goste de fazer. O problema é que ultimamente eu não gosto de fazer nada. Então pensei: o que é que me dava prazer antes quando eu estava triste?, e lembrei aqui do véio JMC. Resolvi voltar, então.

Pensei muito antes disso. Um pensamento só, na verdade: será que meu pai se ofenderia se lesse este blog? Acho que não: eu e ele temos isso em comum, essa intimidade com os personagens da Bíblia. Meu pai, eu já contei aqui, comia pão com peixe e dizia: “Isso me lembra de quando Cristo multiplicou os pães e os peixes. Dois peixinhos, cinco pãezinhos: cinco mil pessoas comeram e ainda sobrou pão e peixe pra elas levarem pra casa”. Era como se ele tivesse estado lá. E assim ele era com Moisés, Davi, Paulo, João Batista, Daniel: contava histórias deles do mesmo jeito que contava histórias da infância em Monte Santo.

Mas mais do que isso, meu pai acreditava que todas as coisas eram segundo a vontade de Deus. Já recebi muitos e-mails e comentários de leitores cristãos dizendo que a minha versão da Bíblia os fez entender alguns trechos mais obscuros. Esses leitores dizem que Deus me usa para clarificar a mensagem dele. Eu às vezes gosto de fingir que acredito nisso: que existe um Deus, e que ele quer que eu tire sarro da Bíblia. Que meu pai está lá com esse Deus agora, e com os amigos que ele nunca conheceu aqui na Terra: Moisés, Davi, Paulo…

*   *   *

Para reabrir os trabalhos, um negócio que eu escrevi sobre ressurreição uma vez:

E há também a ressureição, é claro. Porque, vejam, hoje em dia você dizer que Jesus ressuscitou ou não dá no mesmo, ao menos em lugares razoavelmente civilizados. Porém, quando o cristianismo começou, professar essa certeza significava ser crucificado, ou comido pelos leões, ou exilado numa ilha remota até ficar maluco ou, na melhor das hipóteses, condenado a uma prisão domiciliar perpétua, que foi o que aconteceu a São Paulo. E, apesar disso, dezenas e dezenas de homens e mulheres continuaram afirmando que o tal judeu que morrera poucos anos antes era filho do único Deus existente, e que ressuscitara ao terceiro dia. Ei, há algo de errado aí. Pensem em Pedro, por exemplo. Pedro andou com Jesus o tempo todo. Devia ser seu discípulo mais chegado, se repararmos no quanto Jesus tirava sarro do coitado. Então: quando chegou a hora do vamos ver, Pedro não titubeou em fazer todas essas afirmações perigosas. Ora, se a ressureição fora um embuste, que razão o pescador teria para manter essa posição? Será que ele estava doidinho para morrer crucificado de cabeça para baixo?

E Tiago, então? Tiago era irmão de Jesus. E quem tem irmãos sabe bem que eles não vão dar muita trela para o que você fizer. Não sei se Einstein tinha irmãos, mas vamos supor que tivesse: aposto que o irmão de Einstein achou todo aquele negócio de Relatividade, revolução da ciência, nova visão do universo e o escambau apenas “outra bobagem dessas do Albert”. Tiago era irmão de Jesus, portanto devia ser o último a se deixar convencer pela religião fundada pelo primogênito da família. E no entanto, sabem como ele saúda os cristãos em sua epístola universal? “Tiago, servo de Deus e do Senhor Jesus Cristo, às doze tribos da Dispersão, saudações”. Opa, aí está uma coisa que eu queria ver só uma vez: meu irmão se referindo a mim como “senhor”. Mas sabem quando isso vai acontecer? Nunca! Mesmo que um dia eu ganhe o Nobel de Literatura, ou descubra a cura definitiva para as frieiras, ou invente o moto-contínuo, meu irmão só vai olhar e dizer, “Ih, lá vem o Marco com as coisas dele”. Porque irmãos são assim, ora. Então por que Tiago não só se referia a seu finado irmão com o respeito devido a um deus, como ainda afirmou sua ressurreição, sendo levado à morte pela espada por isso? Não é normal, não é normal.

A fé que eu sustentei pela maior parte da minha vida era herdada de meus pais. Esse tipo de crença não se sustenta, e estou feliz por tê-la abandonado. Agora, porém, reconheço a possibilidade de voltar à fé por um caminho mais difícil e totalmente inesperado. E talvez não, talvez seja só minha cabeça me pregando peças. Eu sei lá. Nada no universo me leva a crer nem por um instante que exista algum tipo de deus, mas essa questão toda de Jesus Cristo me apoquenta diariamente.

Leiam o post todo, se puderem. Não é particularmente bem escrito, mas é muito atual para mim.

… eu quero que Deus se foda.
(Só pra não deixar dúvidas)

Quando eu tinha fé, achava que minha fé era fraca. Hoje, no vôo que me levava a Belo Horizonte, percebi que fraco mesmo é o meu ateísmo. Basta uma turbulência de modesta intensidade para eu começar a rezar.

Explico o porquê de minha contrariedade ao me ver definido como um ateu sem argumentos.

Já faz uns dias que eu e Ana fomos assistir ao excelente Millions, de Danny Boyle (Boyle é responsável por coisas díspares e muito boas como Cova Rasa, Trainspotting, A Life Less Ordinary, e por aquela porcaria com Leonardo DiCaprio, The Beach. Millions recebeu por aqui um título até que feliz, Caiu do Céu; e chega de parêntese). O filme se passa em tempos recentes, mais exatamente quando da adoção do Euro. Dois irmãos se deparam com um problema e tanto: uma mala cheia de libras esterlinas, dinheiro que deve ser trocado ou gasto rapidamente, antes que se oficialize a troca da moeda na Grã-Bretanha. Até aí, nada de mais: Danny Boyle parece gostar muito mesmo de malas de dinheiro. O que faz desse um filme belíssimo, porém, é o personagem Damian, um garoto que sabe tudo da vida dos santos, e chega mesmo a falar com eles: fala com Santa Clara, com São Francisco de Assis, com o velho pescador Pedro e com São José, pai de Jesus. O menino é daqueles personagens feitos especialmente para conquistar o público logo de cara, como na cena em que o irmão o censura por ter levado uma enorme quantia de dinheiro à escola:

— What did you bring a thousand pounds to school for? Can’t you see that’s suspicious?

— It’s not suspicious, it’s unusual.

Pois muito bem: numa cena muito tensa do filme, eu achei que o menino fosse encontrar Jesus Cristo. Senti que ia começar a chorar, que é minha reação de sempre, ateu ou não, quando se fala de Jesus, ou quando o personagem aparece num filme, num livro, num quadro. No fim das contas o encontro nem acontece no filme (para meu alívio), mas comecei a pensar no quanto eu admiro Jesus, apesar de não ir com a cara do Pai dele.

Pensando nisso, cheguei a um trecho do livro A Misteriosa Chama da Rainha Loana, de Umberto Eco. O livro é narrado em primeira pessoa por um homem de sessenta anos que perde totalmente a memória, retendo apenas o que leu durante sua vida, o que não foi pouco. Ele viaja à propriedade rural da família para tentar recuperar suas lembranças, mas só consegue mesmo reproduzir sua formação literária, musical e política, sem conseguir lembrar lhufas. Bom, não vou contar o que acontece então, mas nesse trecho que citei um personagem chamado Gragnola, um anarquista na Itália de Mussolini (pense num cabra azarado…), expressa ao jovem Yambo (o protagonista) essa minha idéia sobre Jesus:

Jesus é a única prova de que pelo menos nós, homens, sabemos ser bons. Para dizer tudo, não estou seguro de que Jesus fosse filho de Deus, como uma matéria boa assim pode nascer de um pai cuja maldade é tanta coisa que não sei explicar. Também não estou seguro de que Jesus realmente existiu. Talvez nós o tenhamos inventado, mas é justamente esse o milagre, que tenhamos tido uma idéia tão bonita. Ou talvez tenha existido, era o melhor de todos e dizia ser filho de Deus por bom coração, para nos convencer que Deus era bom. Mas se você lê bem o Evangelho, percebe que ele também se deu conta no final de que Deus era mau: assustou-se no monte das Oliveiras e pediu que afastasse dele aquele cálice, e necas, Deus não lhe dá ouvidos; grita na cruz, pai, por que me abandonaste, e necas, Deus estava virado para o outro lado. Mas Jesus nos ensinou o que um homem pode fazer para reparar a maldade divina.

E há também a ressureição, é claro. Porque, vejam, hoje em dia você dizer que Jesus ressuscitou ou não dá no mesmo, ao menos em lugares razoavelmente civilizados. Porém, quando o cristianismo começou, professar essa certeza significava ser crucificado, ou comido pelos leões, ou exilado numa ilha remota até ficar maluco ou, na melhor das hipóteses, condenado a uma prisão domiciliar perpétua, que foi o que aconteceu a São Paulo. E, apesar disso, dezenas e dezenas de homens e mulheres continuaram afirmando que o tal judeu que morrera poucos anos antes era filho do único Deus existente, e que ressuscitara ao terceiro dia. Ei, há algo de errado aí. Pensem em Pedro, por exemplo. Pedro andou com Jesus o tempo todo. Devia ser seu discípulo mais chegado, se repararmos no quanto Jesus tirava sarro do coitado. Então: quando chegou a hora do vamos ver, Pedro não titubeou em fazer todas essas afirmações perigosas. Ora, se a ressureição fora um embuste, que razão o pescador teria para manter essa posição? Será que ele estava doidinho para morrer crucificado de cabeça para baixo?

E Tiago, então? Tiago era irmão de Jesus. E quem tem irmãos sabe bem que eles não vão dar muita trela para o que você fizer. Não sei se Einstein tinha irmãos, mas vamos supor que tivesse: aposto que o irmão de Einstein achou todo aquele negócio de Relatividade, revolução da ciência, nova visão do universo e o escambau apenas “outra bobagem dessas do Albert”. Tiago era irmão de Jesus, portanto devia ser o último a se deixar convencer pela religião fundada pelo primogênito da família. E no entanto, sabem como ele saúda os cristãos em sua epístola universal? “Tiago, servo de Deus e do Senhor Jesus Cristo, às doze tribos da Dispersão, saudações”. Opa, aí está uma coisa que eu queria ver só uma vez: meu irmão se referindo a mim como “senhor”. Mas sabem quando isso vai acontecer? Nunca! Mesmo que um dia eu ganhe o Nobel de Literatura, ou descubra a cura definitiva para as frieiras, ou invente o moto-contínuo, meu irmão só vai olhar e dizer, “Ih, lá vem o Marco com as coisas dele”. Porque irmãos são assim, ora. Então por que Tiago não só se referia a seu finado irmão com o respeito devido a um deus, como ainda afirmou sua ressurreição, sendo levado à morte pela espada por isso? Não é normal, não é normal.

A fé que eu sustentei pela maior parte da minha vida era herdada de meus pais. Esse tipo de crença não se sustenta, e estou feliz por tê-la abandonado. Agora, porém, reconheço a possibilidade de voltar à fé por um caminho mais difícil e totalmente inesperado. E talvez não, talvez seja só minha cabeça me pregando peças. Eu sei lá. Nada no universo me leva a crer nem por um instante que exista algum tipo de deus, mas essa questão toda de Jesus Cristo me apoquenta diariamente.

Poucas páginas adiante, Yambo fala sobre Gragnola:

Seu problema era só com Deus, e devia ser um trabalhão, porque era como atirar pedras num rinoceronte, ele nem percebe e continua fazendo suas coisinhas de rinoceronte, enquanto você fica vermelho de raiva e acaba tendo um ataque.

É assim que eu me sinto. Não, não exatamente: sinto como se houvesse um muro, e que algumas pessoas dissessem que existe um rinoceronte do outro lado. Então eu apanho pedras no chão e jogo por cima do muro, para acertar o rinoceronte, o que é duplamente imbecil: se houver rinoceronte, ele nem se dá conta das pedradas; se não houver, estou jogando pedras em quê?

Não sei como é isso hoje. Sei que antigamente são-paulino tinha fama de gente pouco ligada em futebol. Eu e alguns amigos ainda somos assim:
— E o São Paulo, hein?
— Que tem o São Paulo?
— Cê não viu o jogo ontem?
— O São Paulo jogou?
— Mas rapaz! Que raio de são-paulino é você?
— São-paulino típico, oras.
Funciona assim: o São Paulo joga e joga, e eu nunca sei os resultados, nem a posição do time na tabela, nem por qual campeonato é esta ou aquela partida. Escalação, então, faço nem idéia: sei do Rogério Ceni, e é só. Dia desses teve um São Paulo X Santos e eu queria assistir. Haviam me dito que os dois times estavam na briga pelo título. Não lembro o resultado, mas sei que só depois do jogo fui saber que a partida não era pelo Campeonato Brasileiro, era outra coisa qualquer (é Campeonato Brasileiro isso que está rolando agora, né?).
Como eu dizia, não sei se a torcida do Tricolor ainda carrega essa pecha. A fama de torcida gay continua a mesma, disso eu sei, mas nada impede os Bambis de terem se envolvido mais com esse negócio de futebol nos últimos anos. Não vem ao caso: a fama era essa. Dizia-se que a bola passava a quilômetros da trave adversária, saía quase pela lateral, e a Independente exclamava “Uuuuuuuuh…!”, como se tivesse sido um lance perigoso.
Mas esse nariz-de-cera já ficou grande demais e eu ainda não disse a que vem a conversa: hoje estava pensando na relação que as pessoas têm com sua crença (ou falta dela), e me ocorreu que a maior parte age como a torcida do São Paulo. Um sujeito diz que acredita em Deus e pára por aí. Não considera sua fé um fator determinante de sua vida. Outro diz que não acredita, e pronto. Não pára pra pensar no vazio em que pode se tornar uma vida sem a noção da transcendência.
Eu não acredito, e sofro por isso. Queria acreditar. Queria que Deus falasse comigo, que me sussurasse alguma coisa, que me mandasse um sinal, que me desse um beliscão na bunda, qualquer coisa que me fizesse ao menos pressupor sua existência. Nada disso acontece, porém, e eu sofro. Penso na fé artificial que parcamente sustentei pela maior parte da vida, e percebo o quão ridículo era aquilo. Olho ao meu redor e vejo outras pessoas tentando equilibrar sua fé sobre os mesmos fundamentos podres que eram o arrimo da minha. Penso na minha vida, que vai acabar um dia, e ela não faz o mínimo sentido. Olho para o céu e tento imaginar o tamanho do Universo e a dimensão de minha insignificância. Chego a sentir náuseas.
Levando tudo em conta, sou obrigado a concluir algo que me causa o maior desgosto: em termos espirituais, sou corintiano.

— Você é muito engraçado para ser ateu.

Polzonoff me disse isso logo que nos conhecemos, e até hoje a frase não me sai da cabeça. De fato, ateus são chatos, dogmáticos, teóricos, repetitivos. Logo que eu decidi que seria ateu (vejam só que coisa mais besta), tratei de procurar sites sobre ateísmo na internet. MEU DEUS! Quanta baboseira, quanta gente espumando de ódio. Para que isso? Identificar-me com essa gente pegava mal demais, as pessoas iam parar de me convidar para festas. Decidi então adotar o rótulo mais suave e civilizado de agnóstico. Nada de mais: eu já era agnóstico mesmo quando tinha fé.

Porque — me corrijam se eu estiver falando besteira, mas só hoje — o agnosticismo apenas nega que seja possível compreender o que é sobrenatural através da razão. Em outras palavras, não se pode provar a existência ou a inexistência de Deus. Sendo assim, uma vez agnóstico você pode decidir que uma questão que não pode ser respondida pelo intelecto é irrelevante, e prefere acreditar que não há Deus, ou então crer pura e simplesmente pela fé. Minha mudança se deu desta para aquela opção, nada de muito radical, portanto.

Hoje eu já não sei mais. Eu sempre quis acreditar, e antes acreditava porque me disseram que era verdade. Mas agora isso não me basta. Agora eu quero evidências. Não estou falando em provas científicas, porque não sou doido: queria apenas intuir de alguma forma a existência de algum ser superior.

1. Notaram a grafia de Deus com “d” maiúsculo? Pois é, escrever com minúscula, eu finalmente percebi, é mera birra que só consegue atingir uns e outros de mentalidade muito limitada. Então ontem fui tomado pelo maior dos terrores: escrevendo com minúscula eu estava cometendo um erro gramatical! CÉUS! Então resolvi mudar. Não pensem, no entanto, que trata-se de um movimento na direção da fé, da salvação e do pagamento do dízimo rigorosamente em dia. Nananinanão.
2. Não sei se sou de esquerda ou de direita, não sei se creio ou não em Deus. Sei não, sei não. Tô achando que o próximo passo será questionar minha orientação sexual. Ou, pior ainda, tornar-me corintiano.

O Carlos escreveu no JORNALECO! um excelente post falando sobre o misticismo em torno dos santos da Igreja Católica e sobre buzinas também. Não vou explicar nada, leiam lá que vale MUITO a pena. Minha beecha querida sempre mandando muito bem.
“E Moisés com isso?”, perguntarão vocês, provavelmente atônitos diante da disparidade entre o título deste meu post e o texto do Carlos. Pois bem: no post ele colocou uma figura de São Miguel Arcanjo. Quando a vi, bati a testa na mesa e senti ódio de mim mesmo por ter me esquecido do aspecto da morte de Moisés que desde a infância (sim, eu comecei a ler a Bíblia aos seis anos de idade) me impressiona muito. Uma história que faz parte da tradição judaica, e na Bíblia cristã é citada apenas no penúltimo livro do Novo Testamento, a epístola de Judas. O Judas em questão, claro, não é o Iscariotes. O autor identifica-se como “Judas, irmão de Tiago”, o que nos leva a crer que talvez se trate de um dos irmãos de Jesus. Sua epístola, muito breve, é plena de citações da Torá e de histórias folcóricas de Israel. Nos versículos de 8 a 10 do único capítulo do livro, ele diz a respeito dos homens incrédulos:

Também do mesmo modo esses homens têm visões que os fazem pecar contra seus próprios corpos. Desprezam a autoridade de Deus e insultam os seres angélicos. Nem mesmo o arcanjo Miguel fez isso. Na discussão que teve com o Diabo, para saber quem ia ficar com o corpo de Moisés, Miguel não se atreveu a condenar o Diabo com insultos, mas apenas disse: “Que o Senhor repreenda você!”. Mas esses homens xingam aquilo que não entendem.

(Tradução na Linguagem de Hoje, Sociedade Bíblica do Brasil)

Como vocês sabem (ou saberiam, se lessem os capítulos bíblicos em vez de perder tempo com as outras bobagens que escrevo), deus sepultou o corpo de Moisés em lugar incógnito. De acordo com a tradição, no entanto, antes desse sepultamento houve uma disputa entre Miguel e o diabo para decidir quem ficaria com o cadáver. Miguel o queria para que Javé fizesse as honras fúnebres e tal. Quanto ao diabo, não sei. Churrasquinho, provavelmente.
— Satanás, que porra cê quer com o corpo de Moisés?
— Humpf. Churrrrrrasco!
E nego ainda me pergunta por que a Bíblia me fascina tanto…

Chamo meus leitores de fariseus, mas é brincadeira. No entanto, vez por outra aparecem por aqui fariseus de verdade, pessoas que acham que religião é uma série de regras e leis e rituais, e não um tipo de ligação do homem com seu deus. Estes invariavelmente me acenam com a velha ameaça do fogo do inferno e com a promessa de salvação de minha alma se eu deixar o mau caminho, ou seja, tirar este blog de circulação.
Para estes, fariseus hipócritas, eu recomendo a leitura do Cabeça Oca, blog da minha querida Vanessa. Ela é da Assembléia de Deus, toca trumpete na igreja, e é minha leitora assídua. Digo mais: A mãe dela é da mesma igreja, uma senhora muito zelosa de sua fé, e também ri das minhas bobagens aqui.
Fariseus, fariseus… Se o deus de vocês é capaz de condenar um cara que faz um blog de humor bíblico, puta que pariu, esse deus aí é muuuuuuito fraquinho… Essas duas mulheres, sim, acreditam num deus forte, e mais além, num deus capaz de rir. Eu não acredito em deus nenhum, mas essa fé merece meu respeito. Ritualismo puro só merece escárnio e desprezo.

Deixando a política de lado e voltando à religião: Estava no fretado hoje, voltando do trabalho, quando vi de relance o adesivo colado no vidro traseiro de um Escort vermelho. Tenho quase certeza de que estava escrito “Deus é cruel”. Bom, talvez não fosse, mas é uma boa resposta ao “Deus é fiel” que tanto se vê por aí.