Jesus, me chicoteia!

Coisas escritas na categoria ‘Política’

Um palácio vazio

Voltando para casa hoje, fui surpreendido por um pronunciamento do vice-prefeito Gilberto Kassab no rádio.

(No rádio da lotação, obviamente, já que não tenho carro nem carteira de habilitação e sou incapaz de aprender a dirigir, como vocês podem ler aqui e aqui. Voltemos).

No pronunciamento, Kassab dizia que o Brasil tem crescido menos do que poderia, que as rodovias continuam esburacadas, que o presidente Lula ainda está devendo os 10 milhões de empregos que prometeu etc.
Pois muito bem. Votei em Lula várias vezes, inclusive nessa última aí em que ele ganhou por falta de opção. Vou defender o presidente? Não, não vou. Perdi totalmente o meu interesse por política depois de sua eleição. Uns dizem que o país está crescendo por conta da administração petista, outros dizem que é só porque o mundo anda muito chato mesmo: não há mais nenhuma crise daquelas brabas como foram as da Rússia e da Argentina não muito tempo atrás. Enfim, não discuto: é? Não é? Estou me lixando.
No entanto, me irrita vir o senhor vice-prefeito, cuja reputação não é das melhores, encher meus ouvidos com sua conversinha oposicionista. Oras, o PFL (partido de Kassab) esteve no governo por quanto tempo? Quinhentos anos? E o que ganhamos com isso? Eu digo o que ganhamos com isso: nabo, como sói.
Mas o pior mesmo é o sujeito sentar no rabo e vir criticar a cauda alheia. Os leitores que não moram em São Paulo talvez não saibam, mas esta cidade só não está totalmente às moscas porque vemos aqui e ali sinais da presença do governo estadual ou federal. Prefeitura? Que prefeitura? José Serra foi eleito, tomou posse e puf! virou morcego. Melhor seria o Maluf. Até o Pitta. Ora, Jânio Quadros embalsamado no Palácio Anhangabaú teria mais presença; ao menos seria uma oportunidade de ver o Jânio sóbrio. José Serra destaca-se pela sua total ausência.
(Sinal bem claro disso é a seção “Governo” do site da Prefeitura de São Paulo: a notícia em destaque na página, de 1 de janeiro de 2005, anuncia a posse do prefeito. Podemos concluir daí que nada de importante aconteceu depois da posse).
Ou José Serra está preparando algo de muito grandioso para anunciar dia desses (e tomara que seja logo: o final do primeiro semestre de gestão está próximo), ou então devemos congratular-nos todo dia por uma coisa: pelo menos foi para o Anhangabaú que mandamos o vampirão. No Planalto provavelmente seria pior.

Soares Silva

Há blogs que eu reluto em recomendar, não por duvidar de sua qualidade ou originalidade, mas justamente por tê-las em grande conta. Tal relutância se deve a um certo pudor que nada tem de falsa modéstia: e se o autor sentir-se ofendido — ou ao menos constrangido — de ter seu blog recomendado pela vulgaridade óbvia que é o JMC? Além do mais, tenho consciência de que um simples link aqui envia para o destino, misturada na massa de leitores excelentes, uma corja de semianalfabetos broncos.

Estou titubeando (ARRÁ!) há dias em recomendar a vocês um blog que, no fim das contas, vocês já devem conhecer mesmo. Enfim, chega de veadagem: leiam Alexandre Soares Silva e arejem suas cabecinhas.

UPDATE: Escrevi o post e fiquei só de butuca esperando quem seria o primeiro a vir com papo de “O cara é de direita blablablá”. Pois não é que logo no primeiro comentário, de alguém que assina como marx, temos:

Desculpem, mas um cara que venera o Olavo de Carvalho não merece minha visita.

O que primeiro me chamou a atenção foi o verbo no plural. Nego tem mania de dirigir-se ao autor deste malfadado blog no plural. Será o tal de plural majestático, ou é possível que ainda não tenham percebido que isto aqui tem um autor só, e dos bem ruinzinhos?

E aí vem essa questão ideológica e tal: pra que levantar essa questão? Eu sempre me declarei de esquerda, hoje já não sei mais, mas de direita não sou. Acho que me tornei apolítico, se é que existe tal termo. Mas então: o cara escreve bem, o texto é elegante e bem estruturado, o humor é agradável. Então que sentido há em dizer que não vai ler porque o cara é de direita, porque venera o Olavo de Carvalho, porque blablablá? Medo de ser contaminado? Seu esquerdismo é tão frágil que é capaz de ruir frente a uma simples frase fazendo ironia com a distribuição de renda?

Oras, vão se roçar nas ostras!

(ou como me disse agora há pouco o próprio deus: “Esse pessoal de esquerda e direita tinha mesmo que se preocupar com o centro, que é onde está o cu deles.”)

Transgênicos

Do meu amigo de infância:

Há, na verdade, muito humor nesta coisa de transgênicos. Primeiro, a indecisão de José de Alencar, vice-presidente e autor de O Guarani (não a ópera, claro). Segundo, a comemoração dos plantadores de soja gaúchos, com carreata e foguetório. Nada poderia ser mais rural, pejorativamente falando. E, por último, a manifestação dos sem-terra.
Responde uma coisa para mim: por que é que os sem-terra têm que se meter nesta história toda, se não têm terra, porra?! E mais: por que todo mundo que é “de esquerda” é também contra a plantação de transgênicos?
Será que é porque eles não comem Pringle´s?

Tá, tá, eu sou de esquerda. Mas não há como não rir disso.

Meu nome é [ponha seu nome aqui] !

Ê, Doutor Enéas… Primeiro foi seu clone, envolvido em escândalos na Câmara Municipal de São Paulo. Depois o Baratão, que tendo obtido apenas 700 votos nas últimas eleições para vereador, acabou sendo puxado pela esmagadora votação da Doutora Havanir, ganhando uma cadeira na Câmara, só para depois trocar de partido. E agora surge uma denúncia: A mesma Havanir teria cobrado 5 mil reais para eleger um deputado estadual. Assim não pode, assim não dá! Todo país precisa ter políticos de direita e de esquerda, mas no Brasil a direita é uma esculhambação só. Aí surge o PRONA, um partido nanico de direita raivosa, com ares de austeridade. Só para depois mostrar que é mais um valhacouto de papalvos. Mas enfim, queriam o quê? Até médico de Niterói se elege deputado federal pelo PRONA de São Paulo com duzentos votos…

Ah, outra coisa

Não sou tão velho como meu post imenso sobre política pode fazer parecer. Sou apenas um rapaz de 27 anos de idade com boa memória.

Porra, esqueci do Jânio!

O Risadinha lembrou muito bem a virada do Jânio sobre o Fernando Henrique nas eleições para a prefeitura de São Paulo em 1985. FHC chegou a se sentar na cadeira do prefeito antes do pleito (pleito!). No fim das contas, Jânio saiu vencedor, e desinfetou a cadeira no dia da posse, para desmoralização do adversário.

E lembrou coisa melhor ainda: A virada do São Paulo sobre o Vasco ontem. Não me entendam mal: Sou são-paulino, gosto de futebol e me emociono quando meu time apronta dessas. Também fico nervoso assistindo jogo. Só não consigo ser apaixonado por futebol, não tenho problema nenhum em deixar de assistir as partidas do São Paulo. Agora perguntem se eu perco UM debate em época de eleição. De jeito nenhum! Não sou doido de perder!

Hum

Caralho, me empolguei.

Sobre política

Fico espantado, até meio escandalizado, quando ouço nego dizendo que não gosta de política. Como pode??? Como é possível alguém preferir acompanhar novelas, seriados, campeonatos de futebol ou gamão, se temos a política, meu deus do céu?

Meu interesse pela política foi despertado precocemente: Aos sete anos, nas eleições para governador de 1982. Aquele, aliás, foi um ano de descobertas para mim: fui ao cinema pela primeira vez (Lagoa Azul num dia, Loucos De Dar Nó no outro), a primeira Copa do Mundo (tinha apenas três anos em 78, não ligava para futebol, não ligo muito até hoje). Dentre todas essas pequenas revoluções, no entanto, o que mais me impressionou foi saber que as pessoas podiam juntar-se num determinado dia para escolher seus governantes. E foi então que peguei gosto pelo Horário Eleitoral, que mantenho até hoje. Lembro-me até do resultado daquela eleição: Franco Montoro, então no PMDB (depois fundou o PSDB, e agora que morreu partido nenhum o aceita), foi eleito. Reynaldo de Barros, do PDS (que depois mudou pra outro nome que não me vem a memória, e hoje é o PPB do Maluf) ficou em segundo. Em terceiro, o ex-presidente Jânio Quadros, do PTB. Em quarto, nosso presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT. Por último, Rogê Ferreira, do PDT. Meus pais votaram no Montoro, mas lembro-me muito claramente do meu pai dizendo que se Hélio Bicudo fosse o candidato petista, com Lula de vice, votaria no PT sem dúvida. Guardei aquilo na cabeça e comecei a prestar atenção naquele barbudo que não me parecia tão assustador quanto diziam.

Com a vitória esmagadora da oposição por todo o país, o regime militar estava definitivamente enfraquecido. E em 1984 surgiu a campanha pelas eleições diretas para presidente. O “Diretas Já” tomou conta do Brasil, a frase “Eu quero votar pra presidente” virou o mote de todos os cidadãos. Chorei quando a emenda pelas diretas, de autoria do deputado Dante de Oliveira, foi derrubada pelo Congresso. Mas não havia tempo para chorar: Começava a briga no Colégio Eleitoral, com Tancredo Neves candidato da oposição. Não lembro direito como funcionou isso, houve preliminares, parecia um campeonato na base do mata-mata. Só sei que acompanhei junto com minha amiga Luciene (eu com 9 anos, ela com 13) a disputa entre Tancredo e Paulo Maluf. Terminou com a vitória de Tancredo, e saímos gritando para a rua. Fizemos um monte de músicas bobas xingando o milico da vez, João Figueiredo.

Chegou o dia da posse de Tancredo, em 85, mas ele não foi empossado: teve um piripaque e foi internado, enquanto seu vice, José Sarney, o substituía. No dia 21 de abril (dados oficiais, ninguém sabe nada), morria Tancredo. E lá ia eu chorar de novo. Foram cinco anos de Sarney, e todos sabemos o desastre que foi. Mas ainda tínhamos esperança em 28 de fevereiro de 1986, quando foi lançado o Plano Cruzado. A economista Maria da Conceição Tavares chorava na TV, emocionada com os novos rumos do país. O presidente convocava os “brasileiros e brasileiras” para uma batalha contra a inflação. E no primeiro momento foi isso mesmo que se viu: consumidores munidos de tabelas de preços fiscalizando os estabelecimentos, gente fechando supermercados e cantando o Hino Nacional. Enlouquecemos todos: Não havia mais inflação, nossa moeda valia mais que o dólar, maravilha! Mas desandou, a inflação voltou mais forte que nunca, nada deu certo. No final do ano houve eleições novamente, com o PMDB se consolidando na posição de maior partido do país. Naquelas eleições o mais importante era eleger bons representantes para o Legislativo. Afinal, seriam eles os homens responsáveis pela nova Constituição. Ninguém foi bem informado sobre isso, no entanto, e os picaretas de sempre acabaram eleitos, com honradas exceções, como Ulysses Guimarães, que veio a ser presidente da Assembléia Constituinte e Lula, então deputado federal mais votado da história. A nova Constituição ficou pronta em 5 de outubro de 1988.

E finalmente, em 1989, o povo teve a oportunidade de eleger seu presidente. Tudo corria bem, com políticos tradicionais (Ulysses, Covas, Maluf, Aureliano Chaves, Lula, Brizola) na disputa. Mas a mídia descobriu o então governador de Alagoas, Fernando Collor de Melo, emprestando a ele a figura de austero, moralizador, messias. A disputa foi acirrada entre ele e Brizola até a última semana. Mas Lula surpreendeu na última hora e acabou indo para o segundo turno com Collor. O povo votou com medo e deu no que deu: Um maluco na presidência, confisco das cadernetas de poupança, bandalheira nunca vista em Brasília, e impeachment depois de dois anos de mandato. Nossa primeira eleição presidencial depois de quase trinta anos fora um fracasso. Dela ficou o fortalecimento de Lula e os candidados folclóricos: Há quem não se lembre de Marronzinho e Pedreira, mas não há como esquecer o Enéas, por mais que se queira. Surgido naquele ano, o candidato do PRONA ganhou visibilidade nacional e hoje é o deputado federal mais votado da história, suplantando o recorde de Lula (ou de Maluf, não lembro direito).

Com o impeachment, foi a vez de Itamar. Topete, a volta do Fusca, Lilian Ramos sem calcinha ao lado do presidente. Tempos engraçados, os do Itamar. Mas foi então que surgiu o Plano Real, que ficou definitivamente associado ao Ministro da Fazenda na época, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, que soube muito bem deitar na cama.

Primeiro em 1994, quando ganhou já no primeiro turno, deixando Lula a comer poeira. Motivo de festa: O povo havia aprendido, e elegia um intelectual, um homem equilibrado e honesto para a Presidência. FHC tinha tudo para ser a maior figura da política nacional de todos os tempos, mas preferiu trocar seu lugar na História pela garantia de mais um mandato. Vendeu a alma (suspeito que até o corpinho) para conseguir fazer passar a emenda da reeleição. Triste. Concorreu em 1998 novamente, contra um Lula desmotivado. Ganhou novamente no primeiro turno, mas não com a mesma folga de 94. O povo começava a perceber que nem só de Plano Real vivia o “hômi”.

No segundo mandato, a base de apoio a FHC foi se esfacelando. O PSDB tinha dificuldades para escolher o candidato à sucessão. A morte de Mario Covas abriu um rombo no partido, que demorou para recuperar-se. E com tanta gente boa no tucanato, foram escolher justo o Zé Serra. Oras, todo mundo sempre soube que uma levantada de sobrancelha do Covas (ou do Paulo Renato, com aquelas sobrancelhas imensas) tem mais carisma que o Serra, mesmo que ele se esforce muito.

Deu no que deu: escaldado pelas derrotas, com o comando de sua campanha e uma ampla base de apoio, cercado de pessoas confiáveis e com um bom histórico, Lula finalmente chegou lá.

Porra, eu não sei como tem gente que não se emociona com essas coisas e prefere assistir corrida de fórmula 1…

Tão sacaneando o Lula

Só pode ser. Primeiro ele tava saindo da casa do Celso Furtado quando foi abraçado e beijado (mas não furtado. Rá.) pelo dançarino Carlinhos de Jesus. Depois, saindo da casa de não sei quem, foi beijado pelo Clóvis Bornay, a única bicha fossilizada do mundo.

E então, como se não bastasse o presidente eleito correr o risco de virar muso da bicharada carioca, ainda tem que agüentar o peculiar senso de humor do Sr. Fernando Henrique Cardoso: O presidente ofereceu a Granja do Torto para Lula trabalhar durante a transição. Mostraram a entrada da casa da Granja do Torto no Jornal Nacional. Tem um capacho enorme na porta, escrito: “Residência do Torto”. FHC deve estar se divertindo muito com isso. Mas eu, se fosse Lula, falava: “Torta é sua boca, caralho!” e alugava um escritório em Brasília. Não gostar do cara, tudo bem, mas chamar de torto na cara dura é sacanagem.

Gênio

Todos já devem ter percebido que não sei mais escrever, né? Então vou apelar. Verissimo, por favor.

As razões do clube

Parece mentira, né? Lula presidente. Para quem, como eu, votou nele desde a primeira tentativa, é um pouco como dar adeus a um velho hábito. Já estávamos acostumados à decepção, a perder de quatro em quatro anos só para concluir de novo que o Brasil não tinha jeito mesmo, que alguém como ele jamais seria eleito, que a maioria oprimida jamais teria vez, porque as elites, porque o capital internacional, porque os americanos… E não é que o homem me ganha? Mas o ceticismo entranhado custa a morrer. Depois dos festejos vem a desconfiança. O que deu errado desta vez? Ou, mais intrigante: o que deu certo?

A primeira tentação é a de invocar o filósofo Marx, Groucho Marx, e alertar o Lula sobre o risco de entrar num clube que aceita sócios como ele assim tão facilmente. O segundo pensamento é mais especulativo, e otimista: e se o clube mudou? E se o Lula ganhou o apoio de gente que antes assustava não apenas porque a barba preta ficou grisalha e o discurso abrandou, mas porque há um sentimento generalizado de que algo está desmoronando, algo está chegando ao fim, e que é preciso colocar outra coisa pelo menos organizada no seu lugar, antes que a pura raiva antitudo tome conta? O anti-Lula desta vez não se criou porque o sistema desanimou cedo. O Serra foi um produto do desânimo do sistema.

Fala-se muito que o governo Lula terá pouco espaço de manobra para fazer o que pretende, com os compromissos que herdará. Mas o sistema internacional também está em crise, também há luta dentro do clube deles sobre o que é conveniente e o que é negociável para que o sistema sobreviva à sua própria irracionalidade, e talvez também haja interesse em facilitar a vida do novo sócio. Que, afinal, já declarou que não vai limpar os sapatos com o guardanapo, só quer mais consideração e justiça.

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