Jesus, me chicoteia!

Coisas escritas na categoria ‘Política’

Fundamentalistas

Por mais de sete anos eu tenho agüentado comentários furibundos de fundamentalistas cristãos que odeiam meus escritos hereges. Agora, depois do post sobre a Yoani, tenho de agüentar também os fiéis devotos de São Fidel, São Guevara, São Stalin. Esses são ainda mais fanáticos. Religião é uma coisa do capeta mesmo.

Desce até o chão, Yoani

Pobrema no figo

Pobrema no figo

Essa moça magriiinha aí do lado é Yoani Sanchez. Você já ouviu falar dela. É uma cubana, autora do blog Generación Y. Vejam a foto do perfil dela no blog. A mulé é zuada, tadinha. Mas também, o que eles comem lá? Cana e charuto?

Yoani quer vir ao Brasil. Yoani quer dançar funk rebolando até o chão. Yoani quer mais é beijar na boca. Quer conhecer as pessoas, quer ver as praias, quer entrar numa churrascaria pra depois ter as histórias mais incríveis pra contar em Havana (“Aí o cara vem com um espeto de carne DESTE tamanho e te dá quanto você quiser”, ela diz para os cubanos incrédulos). Mas ela não pode.

No blog dela, Yoani escreve sobre a vida em Cuba. Não é uma boa vida. Depois de 30 anos dependente da União Soviética, Cuba passou por um perrengue desgraçado nos anos 90. Hoje, depende do petróleo de Hugo Chávez. Sei não, acho que era melhor depender dos russos. Pelo menos as roupas deles eram melhores. Tem aquela história da Itália fascista, que o Mussolini era bom porque os trens chegavam na hora certa. Numa entrevista à Época, a Yoani diz que algo parecido aconteceu em Cuba quando Raul Castro assumiu o poder: sem os discursos compriiiidos de Fidel Castro, as novelas brasileiras começam na hora certa. Fora isso, não mudou nada: a comida ainda é pouca, e a Yoani cada vez mais magrela. Ó a foto. Tadinha.

Yoani escreve lá o blog; também escreve artigos para publicações mundo afora. Ganhou prêmios, apareceu na Time como a 31ª pessoa mais influente do mundo. Depois de mais de dois anos de blog, ela tomou o caminho natural: lançar um livro com um apanhado de posts e tentar faturar uns caraminguás. Só que, é claro, essa coletânea do Generación Y é muito mais relevante do que a média dos livros baseados em blogs.

Com carinho

Com carinho

A Editora Contexto vai lançar o livro dela no Brasil. A edição brasileira do livro escapou por uma sílaba de ter nome de filme pornô: De Cuba Com Carinho. O lançamento é este mês. A editora quer trazer Yoani para o Brasil e ver se ela, fraquinha como é, agüenta uma tarde de autógrafos. Mas está difícil da mulher vir para cá, e não é porque ela tenha medo de ser assaltada ou atacada por jaguatiricas.

Cuba é igual a Coréia do Norte, só que mais animadinho. Duvido que na Coréia do Norte as pessoas saiam às ruas dançando mambo. Fora isso, os dois países são prisões para seus cidadãos. Eu não vou discutir se o regime é bom ou ruim. É uma merda, é uma aberração, mas não vou discutir. Só digo o seguinte: da única vez que eu precisei sair do Brasil, meu único empecilho foi o visto de entrada no país de destino. Ninguém por aqui disse que eu não podia sair do país. Fui lá, fiz meu trabalho, voltei. Mas em Cuba não é assim. Nego sai e não volta, porque a vida por lá é uma merda. Sabendo que a é uma merda, o governo não deixa neguinho sair. Fácil.

MENSAGEM SUBLIMINAR: Quando você se sentir tentado a agradecer ao Estado por interferir na sua vida, lembre-se de Cuba.

Yoani quer rosetar no Brasil, só que ela não pode sair de Cuba. Ninguém pode, ela pode menos ainda. O blog dela é bloqueado em Cuba. Ela só arruma empregos ilegais, como dar aulas particulares (sim, isso é ilegal em Cuba). Em entrevista à Veja, ela fala da campanha suja que o governo faz contra ela. Sair do país seria impensável.

Tia Cris está acompanhando o caso e participa da campanha para trazer a mulézinha ao Brasil. Tem muita gente querendo a mulher aqui para o lançamento do livro; basta fazer uma busca no Google que você acha. E vai achar também esse povinho esquisito dizendo que a direita quer trazer Yoani Sanchez para o Brasil como um troféu do imperialismo e da série B do Paulista. Sei lá, papo de comunista é muito confuso. Essa gente diz que Cuba é um país livre, com eleições democráticas. Devem ter confundido com outra ilha. Tem muita ilha na América Central, é fácil confundir. Essa gente também diz que a direita brasileira está em campanha aberta para trazer Yoani ao Brasil e assim desmoralizar o regime livre e democrático de Cuba. Com vocês, uma das vozes da direita brasileira:

O Suplicy! O Suplicy ama Cuba, meudeusdocéu. Quando não está fazendo seu gabinete de albergue nem levando a namorada para passear com dinheiro público, o senador sonha com a brisa socialista que sopra nas praias cubanas. Pois até ele quer Yoani no Brasil. Sem muita convicção, falando com cuidado para não criticar o regime cubano em nenhum momento, mas mesmo assim: até o Suplicy quer que a mulézinha (tadinha) venha ao Brasil para o lançamento do livro dela. Eu também quero. Não li o blog dela, nem sei se ela é boa bisca. Mas a mulher quer viajar. As pessoas devem poder viajar. Né?

A mão peluda do Estado bolinando os negócios particulares

Corre, pega a estaca!

Corre, pega a estaca!

Todo mundo achando linda essa lei que proíbe o fumo em ambientes fechados. Eu não fumo, então poderia não dar a mínima pro assunto. Mas o caso é que não gosto de ver o Estado se metendo na vida das pessoas. O Estado que cuide do que é público: do que acontece na minha casa, cuido eu. No meu bar. Na minha empresa. Se eu resolver fumar, minha marida vai me mandar fumar na rua. E eu vou acatar, que não sou besta. Esse acordo vale para todos os lugares. Numa empresa:

— O que vocês acham, os funcionários devem fumar dentro da empresa ou não? Não? Então o que acham da gente reservar aquela sacada ali como fumódromo? Legal? Então pronto.

Eu trabalhei numa empresa que ocupava dois prédios de 20 andares. Havia uma área para fumantes no térreo e outra no 16º andar. Os que fumavam (eu fumava, na época) tinham que ir para uma dessas áreas quando queriam pitar um bocadim. No 16º tinha até uma lanchonete onde era permitido fumar — quem não tolerava fumaça podia ir a uma das outras lanchonetes do prédio, ué. Só que a lei do Serra proíbe os fumódromos, claro, e tira das pessoas o direito de decidir se vão tolerar ou não o cigarro, e em que nível.

Se o tabaco não é droga ilícita, então as pessoas devem decidir onde seu uso é tolerado ou não. A nova lei trata as pessoas como débeis mentais, e elas aceitam esse papel de bom grado. E se eu quiser abrir um bar só para fumantes? Por que o dono do bar não pode decidir se é permitido fumar lá no bar dele? Ou se é permitido só numa área? Quem achar ruim, que não vá ao bar dele. Outro dono de bar vai proibir o cigarro. Fumantes que achem outro lugar pra ir dar suas baforadas. Outro vai permitir o fumo totalmente e vender maços de Marlboro a dez reais pra encher o cu de dinheiro. O bar é dele, o cu é dele, o dinheiro também será.

Mas nãaaaaaaaao. O negócio é estimular o dedurismo (tem um 0800 pros dedos de seta), é jogar as pessoas umas contra as outras, é gastar dinheiro público pra fazer propaganda dessa lei tão legal. Tem até uma ampulheta, e eu imagino que começou a juntar gente em volta às onze da noite, tudo de ancinho e tocha na mão pra sair caçando fumante à meia-noite — sendo que há um ser muito mais perigoso à solta. Zé Serra quer proibir coxinha nas escolas, quer proibir quentão em festa junina, quer proibir cigarro nos bares. Daqui a pouco ele proíbe água benta na igreja e todo mundo vai achar bonito.

Esquerda, direita e os quadrantes escondidos

Eu fui doutrinado para ser comunista. Estudei em escola municipal de periferia. Toda escola tem um professor de História meio comuna, isso não é segredo pra ninguém. Mas minha escola era diferente. Nas eleições de 1986, o professor de Educação Física dizia que a gente tinha de convencer nossos pais a votar no PT. Eu voltava pra casa e falava isso. Meus pais diziam que era uma estupidez. Eu me sentia incompreendido.

O doutrinamento prosseguiu por todo o primeiro grau, atravessou o segundo grau e mostrou a cabeçorra em todas as faculdades que tentei cursar. Funciona mais ou menos assim: esquerdistas autoritários se fazem passar por esquerdistas libertários, a única posição política aceitável. Você acaba aceitando como verdade plena que a única forma de ser libertário é ser um libertário de esquerda. Se você passa para a direita, passa a ser automaticamente um autoritário.

Ficamos com um esquema meio capenga, de apenas dois lados: a esquerda libertária e a direita autoritária. Direita libertária, eles dizem, é uma contradição de termos. Esquerda autoritária, que é o sonho deles, é um conceito negado com ênfase ou, no máximo, aceito como fase de transição para o verdadeiro comunismo. O stalinismo, as execuções na China e em Cuba, tudo isso são dores do crescimento. Mais cedo ou mais tarde, esses países viriam a ser paraísos de igualdade e fraternidade entre os homens — não fosse a nefanda influência do capitalismo com seus dentões amarelos e afiados.

Não entendeu? O tio desenha:

Economic Left/Right: 0.75 <br/>Social Libertarian/Authoritarian: -4.05

O quadrante-fantasma

Segundo meus doutrinadores de esquerda, só podem existir o quadrante 1 (azul) e o quadrante 3 (verde). O quadrante vermelho pode existir de vez em quando. Quadrante roxo nunca existiu nem existirá, então o que cê tá fazendo aí, menino encapetado?

Direitista, libertário e ateu. Tô pensando em virar travesti e corintiano, só pra ver gente chorando pelos cantos.

Para não esquecer

No post anterior, eu chamei o quarto quadrante de segundo. Peço desculpas ao quarto quadrante, coitado.

A ordem correta dos quadrantes no plano cartesiano

A ordem correta dos quadrantes no plano cartesiano

O Giggio deu a dica do Politicômetro, teste muito parecido elaborado pela Veja. MUITO parecido. Os caras têm a cara-de-pau de dizer que elaboraram um questionário com a ajuda do sociólogo Alberto Almeida. Na verdade, traduziram 18 das perguntas e sapecaram no meio duas pegadinhas só pra todo mundo ficar mais à direita do que esperava: uma sobre o MST (é certo invadir terra dos outros, pelamordedeus, nhenhehém?) e outra sobre direito trabalhista. Mas no fim das contas o teste até é bonzinho, principalmente pra quem não tem saco de respoder 75 perguntas em inglês. Meu resultado no Politicômetro arduamente elaborado pela equipe da Veja com a ajuda do sociólogo Alberto Almeida e do Babylon:

Pelo menos o gráfico é mais bonitinho

Pelo menos o gráfico é mais bonitinho

Tenho pensado muito nisso. Mais tarde eu volto para mais algumas considerações sobre a bússola política. Nah, não reclamem. Caralho.

Acho que eu endireitei

De tempos eu tempos eu refaço esse teste. Há dois anos, meu gráfico era assim:

Economic Left/Right: -4.75<br>Social Libertarian/Authoritarian: -5.08

Libertário de esquerda

Hoje eu levei um susto ao ver a bolinha mais para a direita do que o esperado (o que, noutro contexto, significaria uma corrida ao urologista):

Economic Left/Right: 0.75 <br/>Social Libertarian/Authoritarian: -4.05

Libertário com um pé na direita

Alguma coisa aconteceu, não sei ainda o que é. Ou melhor, acho que até sei: peguei birra de intervenção do Estado na economia. Oras.

Mas fiquei feliz por ter um quadrante só pra mim, ó:

Political Compass - International Chart

Quadrante 2 QUATRO é tudo nosso!

E o Sarney, hein?

Estranho. Pelo que dizem os jornais, José Sarney continua na presidência do Senado Federal, todo pimpão em seu jaquetão, escovando e engomando seu bigode como se não houvesse amanhã. Muito estranho. Ninguém mais fala do Sarney no Twitter; isso não devia significar que ele renunciou, ou foi derrubado, ou morreu? Há coisa de duas ou três semanas, só se falava em #forasarney no cortiço. Aí veio a final da Copa das Confederações, todo mundo mandou o Kelso chupar, foi uma festa. Depois o irmão da Sandyjúnior pediu pro Kelso dar uma força no #forasarney. O Kelso disse que tinha porra nenhuma a ver com isso. Alienado feladaputa.

Mas os twitteiros brasileiros não desistiram. Começaram a falar em levar o #forasarney para as ruas.

(A bem da verdade, começaram a falar disso antes, até. Eu apoiei o #forasarney logo no começo, movido pelo meu incontrolável desejo de me juntar à boiada. Mas aí falaram em ir pra rua, o que foi a deixa para que eu desistisse do movimento. Deus me livre e guarde de ir pra Paulista protestar. É inverno, lá é muito alto, bate vento, tem um monte de comunista. Tenho medo.)

Bom, nego se empolgou em sair para protestar. Marcaram um dia de mobilização nacional. Em São Paulo, 50 pessoas pararam a Avenida Paulista, era o Diretas Já! de volta com força total. Na Cinelândia, centro do Rio de Janeiro, 26 pessoas se acotovelavam para derrubar o Sarney. Em Brasília, foi aquele tumulto: bem uns 20 estudantes entraram no Senado para protestar. Em Florianópolis não apareceu ninguém para a manifestação, mas estou certo de que todos os catarinenses de bem estiveram lá em espírito. Enfim, uma manifestação que surgiu no Twitter e parou o Brasil. Não dá para entender como é que o Sarney ainda está lá.

Talvez tenha a ver com as pessoas de um lugar distante chamado Amapá. Essas pessoas votam no Sarney a cada oito anos. Elas devem ter alguma razão para eleger o bigodão. Os revolucionários do Twitter eram todos de São Paulo, do Rio de Janeiro, do Rio Grande do Sul… Ninguém pensou em consultar os caboclo lá do Amapá, entender por que eles votam no sujeito. Devem achar que os amapaenses são tudo gado, que votam no Sarney porque alguém manda. Engraçado ver gente que  elege muito nego mais safado do que o Sarney pensando que só os amapaenses são idiotas.

Encontro

Holy crap, the man is missing a finger. FREAK SHOW!

Holy crap, the man is missing a finger. FREAK SHOW!

Gotícula de sabedoria marcureliana

Posse de Obama: são tantos brancos em volta de um preto, parece festa da Ku Klux Klan.

Respeitáveis senhores

Como vocês podem imaginar, tenho peregrinado por agências de carros usados nos últimos tempos. Não, não parem de ler. Este não é mais um post sobre meu problema com o carro (VENDO CORSA SEDAN 2002 COMPLETO).

O negócio é que ontem eu fui cobrir um evento na Assembléia Legislativa de São Paulo. A certa altura (uma palestra de fornecedores que não me interessava), fui dar uma volta pelo prédio. Bem legal, todo mundo devia ir lá. Tem relíquias da Revolução de 32, fotografias antigas e modernas de São Paulo, esculturas, pinturas, o diabo.

Mas os itens que mais me chamaram a atenção foram os digníssimos deputados estaduais.

(Afanei a agenda de votações da quarta-feira. O vice-presidente da casa tinha em pauta um projeto que institui o Dia do Capelão. Outra deputada queria instituir o Dia dos Clubes da Terceira Idade. A maior parte dos projetos mudava o nome de viadutos, trevos e rotatórias nas rodovias estaduais.)

Os deputados estaduais são senhores com olhinhos de verruma e personalidade de camaleão. Oferecem café e dizem “a casa é sua”. Abrem sorrisos sinceros, apertam sua mão com firmeza e olham dentro dos seus olhos, têm voz suave, dão piscadelas de cumplicidade, compartilham de suas opiniões e valores. Uma total franqueza, cuidadosamente ensaiada na frente do espelho.

São ótimos atores, os deputados estaduais. Assisti a uma sessão no plenário. Um deputado chamado Cido Sério (pelo que eu entendi, ele acaba de ser eleito prefeito de Araçatuba, talvez Araraquara) discursava para o plenário quase vazio. Apenas um deputado ouvia o discurso. Na mesa diretora, todo mundo conversava, inclusive o presidente, enquanto o Sério discursava. Acabou o discurso, o único espectador subiu à tribuna para louvar os feitos do Sério — que, na platéia, conversava com outro deputado recém-chegado, ignorando os elogios que o outro lhe dirigia lá de cima. Um outro entrou falando ao celular, foi até o fundo, depois saiu de novo. O Sério e seu companheiro saíram, o outro desceu da tribuna, o do celular subiu para discursar. Enquanto falava, o presidente deixou seu posto. O que discursava chiou, o presidente fez um sinal para ele, outro cara assumiu a cadeira do presidente. Depois do discurso, o próprio presidente subiu à tribuna para falar ao plenário vazio. Enquanto ele falava, o do celular avisava que voltaria a discursar em seguida. No painel, 93 deputados presentes, um licenciado, nenhum ausente.No plenário, ninguém. A conta não batia. Os oradores não ligavam: continuavam seus discursos como se estivessem diante de um auditório lotado.

Os deputados estaduais dariam excelentes vendedores de carros usados.

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