Jesus, me chicoteia!

Coisas escritas na categoria ‘Périplos’

O inapto e o pneu

ocorsamorreu.jpg

Na noite de segunda-feira eu descobri que sei trocar pneu.

Que foi? Que que tem? Vocês acham que todo homem vem de fábrica com os genes de trocar pneus, abrir jarros e matar baratas? Pois eu só vim com o dos jarros. Matar baratas foi uma habilidade que eu adquiri com o tempo, e trocar pneu foi algo que surgiu com a necessidade. Conto.
Depois da saga que foi obter minha carteira de motorista aos 30 anos de idade, e de enfiar um carro no poste, achei que já tivesse passado pelo batismo da direção. O negócio começou a mudar, porém, quando recebi minha primeira notificação de multa, há uma semana. Quatro pontos na carteira por andar a estonteantes QUARENTA E OITO QUILÔMETROS POR HORA (o limite era quarenta). E então, na segunda-feira, o pneu.
Vinha eu feliz pela Marginal Tietê após deixar a namorada em casa. Havíamos saído para comemorar o aniversário de dois anos de namoro (vejam só que mulher paciente). Pensando no quanto o trânsito estava livre, e que ia chegar em casa rápido, peguei a alça que leva à avenida Governador Carvalho Pinto, via pública com baixo índice de acidentes e alto índice de trocadilhos. No meio da curva, a oitenta por hora (o limite é sessenta; vem me pegar, CET!), um estrondo e o carro fica manco de repente. Quase me enfio na lateral do viaduto. Consegui controlar o carro, porém, e percebi que o pneu dianteiro esquerdo havia estourado.
O que fazer? Eu não tinha idéia. Liguei o pisca-alerta e me pus a pensar. Por pouco tempo: as buzinas atrás de mim (todos os carros surgem do nada quando você está parado na faixa da esquerda de um viaduto com o pisca-alerta ligado) me fizeram perceber que, caso ficasse ali, seria abalroado (vixe mãe) em breve. Então fui conduzindo o carro para a direita, fazendo sinais frenéticos e meio abichalados para que me deixassem passar.
Já do lado direito, outro problema: estava no meio da favela do Boi Lambão Malhado (sei lá o nome da favela). Não sei quanto a vocês, mas eu não ando muito com vontade de morrer, então fui dirigindo o Corsa capenga até passar a favela do Macaco Leproso. O que não adiantou muito: enfiei o carro numa travessa logo do lado da favela do Sapo Pilantra. Os moradores da comunidade (eu estava no meio do território dos caras, melhor ter respeito) estavam todos reunidos num bar ali perto, dançando ao som de um rock retardado qualquer. Capital Inicial, essas coisas. Um sujeito de bicicleta passou três vezes olhando para o carro e para minha cara de babaca.
Sim, leitores, eu tinha medo. Mas ali estava meu meio carro (a outra metade ainda é do meu pai; alguém tem 11 mil reais pra me emprestar?) de pneu furado, e eu precisava solucionar aquele problema. E o pior: estava de calça nova. Se pelo menos estivesse de minissaia, era possível que algum rapaz bondoso parasse para me ajudar. Como não estava, botei mãos à obra: abri o porta-malas, retirei o estepe, o macaco e a chave de roda (não tinha triângulo, nem zabumba, quanto menos sanfona), e resolvi tentar trocar o pneu.
Eu lhes digo: a troca de um pneu parece tarefa corriqueira, mas não é. Ah, não é mesmo! Trata-se de uma ciência hermética, uma arte para iniciados. Aposto com vocês que o teste para chegar a Grão-Mestre da Maçonaria é trocar um pneu. Pois vejam: para começar, não conseguia fazer com que o macaco executasse seu trabalho. Enfiei o safado sob o carro, imaginei onde seria um ponto de apoio decente na lataria, e comecei a rodar aquela joça. O diabo da alavanca ficava batendo no asfalto, e o carro subia um pouco e logo caía. Algo errado. Hora de ler o manual do carro. Consultando o importante documento, descobri que estava usando a ferramenta de cabeça para baixo.
Com o macaco devidamente posicionado, erguer o carro foi moleza. Aí veio o outro desafio: tirar o pneu. Afrouxei o primeiro parafuso sem grande dificuldade, mas os outros não cediam nem a pau. Depois de muito tentar, aceitei a derrota e fiz o que qualquer mocinha faria no meu lugar: liguei para o seguro.
O rapaz que me atendeu deve ter achado graça na minha incapacidade, mas garantiu que o socorro chegaria em meia hora. Provavelmente um negão que me olharia com desdém e tiraria os três parafusos usando apenas dois dedos. Que se fodesse: no que me dizia respeito, o problema estava resolvido. Mais tranqüilo, saí para procurar um lugar onde pudesse comprar uma coca-cola. Logo na frente do bar, um trailer de cachorro-quente me surgiu como um oásis. Pedi minha coca-cola, conversei um pouco com os presentes sobre assalto a banco e notas marcadas (eu fico interativo quando estou nervoso, mesmo com o menos recomendável dos públicos), e voltei ao meu posto ao lado do pobre carro manquitola.
Meus amigos, levou menos de cinco minutos. Olhando para o carro ali tão vulnerável, já com os apetrechos jogados de volta no porta-malas, tive uma revelação: se erguido no ar, o pneu girava um pouco a cada golpe; firmemente plantado no chão, ofereceria um ponto de apoio muito melhor à chave de roda. Senti meu QI aumentar uns cinco pontos, abri novamente o porta-malas e dei início à Opareção Troca de Pneu 2.0.
Mais inteligente como estava, deduzi rapidamente que retirar todos os parafusos poderia trazer efeitos indesejados, como receber o peso do carro sobre o pé. Então apenas afrouxei os danados, agora com a maior facilidade, e levantei novamente o carro. Depois disso foi só terminar de desrosquear os parafusos e tirar o pneu furado. Ao tentar botar o estepe, porém, outro problema foi apresentado à minha poderosíssima inteligência: o eixo, ou seja lá como for o nome daquela porra onde se enfia o pneu, estava muito baixo para o encaixe. “Este pneu é muito grande”, pensei eu. Botei o danado ao lado de seu colega ferido, e de fato ele estava uns 10 centímetros maior. E eis que o gênio se manifesta novamente: os dois eram do mesmo tamanho, só que um estava furado e o outro não. Bastaria subir o carro um pouco mais e estaria feito. Pronto: com essa genial dedução final, terminei a troca do pneu, liguei para o seguro cancelando o chamado (atendido por uma moça, dessa vez) e voltei para casa.
A lição que aprendi e agora repasso a vocês: o bom mesmo é nascer mulher. Não que essa lição vá me servir para alguma coisa.

A foto de abertura deste post nada tem a ver com o episódio do pneu. Foi tirada numa estradinha perto de Piracaia, interior paulista, onde eu e Ana Cartola passamos dias agradáveis. Nesse penúltimo dia o radiador furou, o carro faleceu e voltamos de guincho para casa. Abrir o capô foi mera pose de minha parte. Entendo tanto de mecânica quanto de cirurgia abdominal de ruminantes.

Microsoft aos meus pés

Fui no início da semana ao evento de lançamento do Windows Vista, do Office 2007 e da nova versão do Exchange. Aquele oba-oba todo da Microsoft, shows de luzes no palco, apresentações que pareciam aqueles comerciais de aparelhos para perder a barriga, presença de Gabriel O Pensador e promessa de um show do Skank à noite (não fiquei para ver). Na hora da coletiva, uma mochila para cada jornalista.
Abri minha mochila para apanhar os press releases e notei lá dentro um embrulhinho. Como bom jornalista blasé, ignorei. É parte da etiqueta da coletiva: ninguém abre o pacote do jabá ali na hora, como se nem estivesse ligando. Assim que o jornalista entra no táxi, sai rasgando tudo que é embrulho pra ver o que ganhou. Pois bem: eu passei a coletiva toda na expectativa desse momento. Lançamento, Microsoft, infra-estrutura gigantesta, e “Windows Vista de graça” era tudo em que eu pensava.
A coletiva correu bem, no táxi eu nem lembrei do embrulho, e só de volta à redação lembrei de abrir o pacote. Vejam só de que se tratava:

Eu piso na Microsoft src="/imagens/havaianas_microsoft.jpg" width="480" height="360" />

Tem jornalista por aí que ia reclamar, dizer que é um absurdo, que a Microsoft dar a cada um uma licença de seu novo sistema operacional seria apenas “trivial” (depois eu conto essa história). Eu não: fiquei feliz pra caralho e passei a terça-feira trabalhando calçado de havaianas do Bill Gates.

E acabo de descobrir que até a Microsoft anuncia no Adsense. Shhhhhhhh…

Pequeno profeta

Enquanto esperava o ônibus para iniciar mais um dia agradável e nada estressante, assisti a uma cena que me fez voltar aos tempos do Velho Testamento. Na calçada, um moleque aplicava uma gravata no pescoço de outro. O que sofria a tentativa de estrangulamento primeiro recorreu a mim:
— Tio, ele tá me matando.
Vendo que eu só dava risada, ele resolveu argumentar com o outro:
— Cê tá apertando meu pescoço. Pára.
E o outro apertando.
— Olha que Deus tá vendo…
O outro nem aí. Emputecido ao limite, o moleque apelou de vez:
— Ô, Deus. Mata ele pra mim.
É ou não é um típico profeta dos tempos da juventude de Javé? Só o que estragou é que o outro moleque parecia um agnóstico daqueles bem ranhetas: relaxou um pouco o apertão e, vendo que não havia sinal de raio que o fulminasse, retomou a tortura.
O mal do mundo é essa falta de fé na ira divina.

The end of the world as we know it

Ao contrário do que possa parecer, o furdunço que bota São Paulo de pernas para o ar tem nada a ver com comemorações pelos meus 31 outonos. Minhas relações com o mundo do crime organizado encerram-se na impressionante parecença com Fernandinho Beiramar. E só.

Ontem à noite, voltando da casa da namorada, quase que me estrepo na Marginal Tietê. A geralmente pacata saída que vai dar em meu pitoresco bairro estava uma putaria só. Carros na contramão, policiais em viaturas pedindo passagem delicadamente (“TIRASSAPORRADÁICARAY!”), buzinas, o diabo. Fui indo, indo, e quando vi a ponte estava fechada por uma barreira policial. Vi labaredas altas e resolvi voltar. Vim pela contramão (na Marginal, meu deus!), pisca-alerta ligado, sinalizando com farol alto pra todo mundo. Um bando de gente atrás de mim. Uma viatura da PM quase bateu de frente com meu carro. Uma lindeza.

Hoje fomos dispensados mais cedo do trabalho. Todos nós, na cidade. O metrô estava um inferno. As pessoas, desesperadas. O empurra-empurra muito maior do que o normal. Pânico, coisa horrenda. Quase não chego em casa.

Agora: será que o PT tem alguma coisa a ver com isso? Sei não, sei não…

* * *

Ouvi agora a entrevista coletiva com o comandante da Polícia Militar, o Capitão Fulano de Tal (sei lá o nome do cara). Finalmente uma autoridade diz algo que preste. O hômi mandou jornalista deixar de ser besta e só publicar informação verificada, em vez de correr atrás de boato de internet. De fato, há muito sensacionalismo no que se diz por aí. E o comandante ainda elogiou essa nota de minha amiga Juliana Carpanez. Way to go, girl!

E o presidente disse que a onda de ataques é uma provocação do crime organizado. Ah, vá! Jura? É uma capacidade, esse presidente. E eu, besta, não só votei nele como fiz campanha e ainda fui à posse. Nosso dignatário máximo ainda disse que “não há mágica para combater o crime organizado” e que “é preciso inteligência para enfrentar as facções criminosas”. Mas é de um gigantismo intelectual! Acho que o presidente tem um bloquinho com várias folhas impressas com a frase “Gente, não tem mágica pra combater ____________. É preciso inteligência e determinação para enfrentar ____________. E este governo está fazendo a maior revolução da História Universal contra ___________”. Ele só preenche as lacunas.

Reparem.

Câmera lenta

O pior do acidente foi que tudo aconteceu em câmera lenta. Vi o poste chegando, chegando, beeem devagar. E pensava:

— Viiiiiiixe, o pooooooooooosteeeeeeeeee…

Então houve o impacto e eu senti a traseira do carro levantando, a frente se retorcendo e o bicho girando.

— Foooooooodeeeeeeeeeeeeeu. O ciiiiiiiiiiiiinto nãaaaaaaaaao agüeeeeeeeeeenta…

O cinto agüentou, porém, o banco foi jogado pra trás e eu fiquei balangando pra lá e pra cá por um tempo (mas muito lentamente). Vi pedaços do volante e do painel voarem em câmera lenta, e então o mundo voltou a sua rotação normal.

O negócio é que agora eu revivo a cena em todos os seus detalhes. Retrocedo a fita, avanço rapidamente, depois em slow motion, depois quadro-a-quadro. Com o tempo, a coisa sofisticou-se: agora vejo a cena do meu ponto de vista, depois de trás do carro, depois da calçada oposta, depois do ponto de vista do pobre poste.

O resultado é que eu não durmo, então acho que vou atormentá-los com outro post sem pé nem cabeça (ao contrário deste que vos fala, que milagrosamente tem pé, um exagero de cabeça, e tudo intacto entre os dois extremos).

No último post (post, e não poste, seus engraçadinhos), o Leandro Gambim fez um comentário sarcástico perguntando se eu tinha agradecido a Deus por sair bem do acidente. Para minha própria vergonha, devo confessar que sim.

Um momento histórico

E lá fui eu — de novo, meu Jesus — fazer o exame prático do Detran. Foi a quarta vez (contem comigo: uno, dos, tres). Como das outras vezes, essa foi cheia de situações inusitadas.

Para começar, o aviso da marcação da prova. Como vocês sabem, passei quatro dias na empolgante cidade de Águas de Lindóia cobrindo o excitante CSO Meeting. Voltei no domingo à noite e fui ouvir as mensagens da secretária eletrônica. Entre elas, uma da autoescola. A pessoa confirmava a data da prova, lembrava que eu devia levar o RG original. No final, um toque singelo:

— Se tiver qualquer dúvida, ligue para a autoescola. Boa noite, boa sorte, e que Deus o ilumine.

A pessoa certamente sabia do que estava falando: um sujeito que consegue levar bomba três vezes no teste do Detran precisa de toda ajuda sobrenatural que conseguir. Devidamente iluminado pela lanterna de Javé, tratei de me preparar para o exame.

A preparação não envolvia muita coisa. Como não fiz aulas adicionais, treinei um bocadinho em todos os carros da família (do pai, do irmão, do cunhado marido da irmã, do cunhado irmão da namorada, do sogrão) e tomei uma decisão estratégica: não contar a ninguém sobre a prova (muito menos a vocês; a torcida de vocês não vale nada). Contei à namorada, e só.

Acordei às seis e meia da manhã hoje, fui para a autoescola sem dizer a ninguém aonde ia e dirigimo-nos todos ao estacionamento do shopping Aricanduva.

O terror foi o mesmo de sempre: dezenas de alunos nervosos, fila para assinar a papelada, examinadores carrascos. Esperei pacientemente a minha vez, entrei no carro.

— Bom dia — disse eu ao examinador.

— Grunfdia.

Atomanocu feladaputa — pensei eu. As frases em itálico são pensamentos. Se eu falasse tudo o que penso, seria processado o tempo todo.

Ajustei banco, botei o cinto, dei a partida, baixei o freio de mão (isso eu não esqueço nunca mais), engatei a primeira, dei seta e fui.

— Faço a primeira baliza?

— Não. Gagagarro — resmungou o examinador.

— Faço qual?

— Passa o carro — tinha um carro no meio do caminho.

— Ah, é pra passar esse carro?

— Não foi o que eu disse, pra você passar o carro?

Sua mãe é uma coruja.

Sujeito mal educado dos infernos!

Bom, passei o tal carro e me preparei para fazer a baliza. Parei o carro, engatei a ré, e adivinhem? Pois é, o desgraçado do Corsa foi pra frente. Freio, embreagem, engata ré de novo. O bicho foi para trás e passou do ponto. Engatei a primeira para ajustar.

— Errou uma, tem mais duas chances.

Sua mãe passa atum na xana e dá pro gato lamber.

Engatei a ré novamente e comecei aquela giração de volante pra encaixar o carro na vaga.

TÁ ERRADO! TÁ TUDO ERRADO! ESTA MERDA VAI SUBIR NA CALÇADA, DERRUBAR O CONE, O MOTOR VAI EXPLODIR E VAI MORRER TUDO MUNDO. Ó LÁ, O FELADAPUTA TÁ ABRINDO A PORTA PRA DIZER QUE EU SUBI NA CALÇADA E DEVIA MAIS ERA DAR UM TIRO NA CABEÇA.

— Tá bom. Pode sair.

Eita porra.

Saí, virei à direita para sair do estacionamento, parei na parada obrigatória (outra coisa que eu não esqueço mais).

— Não pode dirigir com o pé na embreagem.

Olhei para o meu pé esquerdo (não o filme, o meu pé esquerdo mesmo) e o danado estava lá, apoiadão no pedal da embreagem.

Corno manso dos infernos, se você marcar ponto por essa bobagem, eu te enfio esse pedal cu adentro.

O sujeito deve ter visto pelo meu olhar o que eu estava pensando, porque não marcou nada. Quando comecei a subir, ele se limitou a avisar:

— Estaciona ali para fazer a ladeira.

Ó LÁ. TÔ PARANDO, ESTA MERDA VAI MORRER, VOU PARAR LONGE DA GUIA E O CORNO VAI FALAR PRA EU SAIR CORRENDO E NÃO OLHAR PRA TRÁS.

— Pode ir.

Fiz a presepada toda de embreagem-acelerador-freio de mão, e o bicho milagrosamente saiu do lugar.

Logo depois da ladeira havia a maldita via preferencial responsável pela minha última reprovação. Dessa vez entrei com todo o cuidado, não veio carro nenhum. Contornei a rotatória e voltei para dentro do estacionamento.

Mais à frente, o lugar onde eu não dei seta da outra vez. Dessa vez, sinalizei uns cem metros antes. Parei onde tinha que parar, entrei à esquerda, outra rotatória, outra conversão à esquerda.

— Paro o carro ali?

— Isso, atrás daquele.

Fui parando, parando, parando, parei. Puxei o freio de mão, ponto morto. O examinador vindo do nono círculo do inferno abriu a porta e apontou para a guia.

— Olha aí, parou longe.

— É verdade. Foda-se, seu feladaputa, já passei.

— Pode desligar o carro. Seu boleto, seu RG.

— Muito obrigado. Bom dia, bom trabalho.

— Sgrumble.

Então lamba minhas bolas, veado.

Saí do carro e fui mostrar o papelucho ao Cláudio, instrutor mais paciente do universo.

— Parou longe, Marcão.

— Mas não errei mais nada.

— Deixa eu ver. Hum. Vixe, já era. Parabéns.

Agora imaginem a cena: este que vos fala, do alto de seus noventa e cinco quilos, pulando e rodando como uma gazela emaconhada.

Foi isso. As trapalhadas continuam acontecendo, mas dessa vez eu passei.

Louvem-me.

Agora eu tenho uma namorada, comecei minha carreira profissional e tenho carteira de habilitação. Esse final da adolescência é cheio de novidades…

Marco Aurélio na Ilha de Caras

Com esse negócio de blog, alguns amigos gostam de tirar sarro da minha cara chamando-me de celebridade. É ridículo, claro. Mas o que poucos sabem é que eu, Marco Aurélio, um dia pisei o solo sagrado da Ilha de Caras, a Meca das celebridades instantâneas. Como isso aconteceu? Já conto.
Em janeiro de 1996, tirei as primeiras férias remuneradas de minha vida. Recebi algo em torno de 900 reais, uma fortuna, para ficar vinte dias de papo para o ar. Eu tinha vestibular dali a uns dias, então poderia ficar em casa estudando ou viajar. Claro que escolhi a segunda opção. Resolvi ir a Angra dos Reis, sozinho (o Risadinha, que iria comigo, desistiu por algum motivo do qual não me recordo). Eu falava em Angra dos Reis e as pessoas ficavam espantadas: “Tá podendo, hein, negão?”. Mal sabiam elas que eu ia encarar sete horas de ônibus para me instalar na Pousada do Rio Bracuí, uma afiliada dos Albergues da Juventude no meio do mais absoluto nada (quase nada: dias depois, descendo o tal rio Bracuí de caiaque, descobri que ele desembocava numa praia linda e absolutamente deserta).
Foram oito lindos dias. Todas as manhãs eu me levantava, caminhava até a BR-101 e pegava um ônibus qualquer. Saltava em qualquer lugar que me cheirasse a praia e me embrenhava em alguma trilha. Invariavelmente saía nalgum lugar lindo, com águas transparentes e calmas, peixes coloridos, e o mais importante: pouca gente. O ponto culminante da viagem foi a chegada à Praia Secreta, graças à indicação do Fabiano, dono da pousada. Passei dias felizes na tal praia, achando ser o único vivente além dos pescadores a saber de sua existência. Minha fantasia de Robinson Crusoé foi por água abaixo quando resolvi ir à Praia Secreta num sábado: a areia estava tomada por niteroienses que ouviam um pagode fuleiro em alto volume, falavam gritando e preparavam um churrasco fedorento. Coisa triste.
Depois dessa decepção, resolvi que no domingo não iria a praia nenhuma. Afinal, raciocinei eu, todas elas deviam estar tomadas de niteroienses pagodeiros churrasqueiros gritadores. Foi assim que decidi fazer algo que evitara durante toda a semana: ir até a cidade de Angra dos Reis e fazer um passeio de escuna. Fui, pois. O preço me assustou: 45 reais, muito dinheiro para mim na época. Mas já estava lá, faltavam dois dias para eu voltar pra casa, que diabo. Paguei e embarquei na tal escuna.
Ah, o inferno! Na parte de cima do barco, jovens bonitos e de bem com a vida dançavam axé e exibiam seus corpos bronzeados e abdômens definididos. Eu, que era jovem e magro mas nunca fui bonito nem de bem com a vida, e além do mais detesto música de bunda, resolvi ficar na parte coberta. A companhia não era das mais animadoras: um inglês de meia idade, muito branco, usando bermudas cáqui um tanto apertadas, meias brancas até os joelhos ossudos e sandálias de borracha, tentava conversar com uma senhora baiana e gorda, de cabelos muitas vezes pintados e roupas floridas. A senhora trazia um moleque a tiracolo, e o capeta não parava quieto um só instante. Queria ver minha câmera, saber meu nome, onde morava, quantos anos tinha. “E o tamanho da minha pica, moleque, você quer saber?”, eu pensei (devia ter dito, mas acho que ia pegar mal). Havia também um casal de holandeses. Os dois estavam vermelhos devido ao sol e eram ruivos, de modo que pareciam duas pimentas silenciosas, sentadas no convés e olhando em volta com ar desconfiado. Além deles, os argentinos de sempre. E eu.
Estávamos todos ali quando chegou a guia para saudar nosso alegre grupo: uma perua de uns quarenta anos de idade, com um penteado super elaborado e óculos de sol dependurados no pescoço. Falava conosco e às vezes parava para dar ordens pelo rádio. O rádio não emitia qualquer ruído: ou seus subordinados eram excessivamente obedientes e dóceis, ou o rádio era só enfeite para fazer com que ela parecesse ocupada e importante. A sensação de falsidade aumentou quando ela nos apresentou o comandante do barco: um rapaz de quase dois metros de altura, muito forte e bronzeado, com dentes branquíssimos exibidos num constante sorriso. Durante o passeio, ele virava o timão para lá e para cá, e sorria o tempo todo. Ninguém me tira da cabeça que, nalgum recôndito do barco, algum crioulinho pilotava de verdade aquela joça, enquanto o bonitão se exibia e deixava molhadas as senhoras (não que ele tenha lançado as senhoras ao mar. Vocês entenderam).
A guia tinha um sotaque indefinível. Parecia ser brasileira, mas tentava afetar um sotaque meio argentino, talvez para agradar à maior parte da clientela. Com esse estranho acento, ela nos apontava os pontos importantes da Baía de Angra: a ilha do Dr. Pitanguy, a casa que fora do Ayrton Senna (e todos fizeram oh!, menos eu, que sempre achei o Senna um babaca), o iate do Roberto Carlos:

Aí eu me empolguei um pouco; afinal era o iate do Rei. O nosso comandante, porém, esclareceu:
— Esse aí é o Lady Laura II, o barquinho dele. É um bote salva-vidas perto do Lady Laura original.
Matutei um pouco sobre o que levaria um homem já entrado em anos a batizar seus iates com o nome da mãe. Não tive tempo para pensar muito, porém, porque chegáramos ao ápice de nosso passeio, anunciado de boca cheia pela guia:
— Señoras y señores… LA ISLA DE CARAS!
Todos voltaram os olhos para a ilha. O inglês e o casal de holandeses provavelmente não sabiam do que se tratava, mas lia-se nos olhos da baiana gorda e dos argentinos o êxtase do peregrino ao chegar à Terra Prometida, que mana leite e mel. Saquei a câmera (era só o que eu fazia, fotografar. Enquanto isso, meus coetâneos lá em cima sacolejavam seus belos corpos, numa dança do acasalamento ao som de música baiana) e registrei a imagem da Terra Sacra:

Mas, ao contrário de Moisés, não estávamos destinados a apenas ver de longe a Terra Prometida. Não! A guia anunciou que nós atracaríamos (não que nos atracaríamos. Vocês entenderam) e teríamos a honra, o deleite supremo, de almoçar na ilha abençoada. Não entraríamos nos domínios restritos, é claro: a parte atrás do muro era uma espécie de Santo dos Santos da frivolidade, e estava destinada apenas aos eleitos. A nós, indignos mortais, era permitido apenas tocar a fímbria do Paraíso. Fomos autorizados, então, a tomar banho de mar na minúscula praia da entrada da ilha e a almoçar no restaurante que ficava quase sobre o píer. Subi até lá com os outros e almocei sentado sozinho numa mesa distante, maldizendo minha decisão de fazer aquele passeio estúpido com pessoas mais estúpidas ainda.
Tendo terminado minha refeição, fui sentar-me na beira do píer para tirar umas fotos. Fui interrompido pelo vozeirão do nosso comandante:
— Ô, grande. Você fala, português?
— No, I don’t.
— Well… W-we needing a… A… You see…
— Pô, olha bem pra minha cara. Isto aqui lá é cara de gringo?
— Hein? Ah… Então. Você não pagou.
— Não paguei o quê?
— O almoço.
— Ué! Não tá incluído no preço do passeio?
— Claro que não!
— Porra, por que não me avisaram? Eu nem estava com fome, só comi porque pensei que fosse de graça. Quanto é?
— Treze reais mais a bebida. Paga no caixa.
Fui pagar, maldizendo mais ainda a decisão idiota de entrar naquela escuna. Dez minutos depois a falsa argentina veio me chamar para retornar ao barco.
— E vamos para onde agora?
— Ah, agora voltamos para Angra.
— Ufa, graças a Deus!
— Ué! Não gostou do passeio?
— Achei tudo uma merda. Mas não esquente, não é culpa sua.
Dei as costas e fui andando para a embarcação maldita. Durante toda a viagem de volta, além de ter que me concentrar para não ficar mareado (o mar resolvera ficar bravo de uma hora pra outra), ainda tive que fingir que não entendia as indiretas de nossa guia:
— Uma maravilha de passeio, não? Pois é! Todo mundo gosta. Quase todo mundo, pelo menos. Mas quem não gosta é gente que não sabe aproveitar a vida, vocês sabem como é…
E eu lá, firme, controlando a ânsia de vômito que o balanço do barco e as palavras da mulher me causavam.
Cerca de uma hora depois, estávamos em Angra dos Reis. Saí sem me despedir de ninguém (pra quê?) e fui pegar o ônibus que depois de mais meia hora me deixou na Rio-Santos. Na pousada, fui recebido pelo Fabiano:
— E aí? O que fez hoje?
— Passeio de escuna.
— Puta que pariu, aquilo é uma merda!
— Não me diga…

* * *

Ah, o vestibular: cheguei no dia da prova, sem estudar. Fui segundo colocado. Como disse Raul Seixas numa situação semelhante, é fácil ser medíocre.

Maldito elástico

Quando se é bonito, tudo contribui para a beleza. O sujeito compra uma roupa qualquer, e lhe cai bem. Engorda, e a mulherada começa a chamar de fofinho, de gostoso. Conheci um bonitão que ganhou o apelido de Bruce Willys quando começou a ficar careca. Bruce Willys!

Eu nunca tive como apelido nome de algum astro de Hollywood (Oompa Loompa não conta). Sim, porque quando você é feio parece que o universo conspira — diria Paulo Coelho — para sublinhar a feiúra. Comprei uma camisa antes de ir a Salvador. Queria uma roupa legal para proferir minha palestra, então comprei uma calça preta de corte reto e uma camisa com listras verticais — aprendi no Queer Eye For The Straight Guy que listras verticais me fariam parecer mais magro e valorizariam meu torso. Qual o quê! No hotel, vesti a camisa, me olhei no espelho e constatei horrorizado que a maldita era transparente e só valorizava mesmo meus mamilos.

Os problemas não se resumem à vestimenta, é claro. Com ser feio, tive que me adaptar a ser gordo e careca. Tudo bem, não é nada. Meu maior problema eram os dentes: ainda na infância, meu último dente de leite a cair foi o canino superior direito. Caiu, e o outro não compareceu para substituí-lo: tímido, ficou enfiado na gengiva. O tempo foi passando, e na adolescência minha dentadura já parecia o teclado de um piano caído do oitavo andar. Um desastre, um desastre. No início deste ano, finalmente criei coragem e resolvi fazer um tratamento ortodôntico.

O destino quis, porém, que meu ortodontista fosse o Sr. Dr. Japonês Maluco. Logo que eu fui lá, ele me disse que seria fácil tracionar o canino para botá-lo em seu devido lugar. Empolguei-me. Bobagem! Hoje meus dentes estão razoavelmente alinhados, e onde deveria existir um canino há um vão livre maior que o do MASP. O arco do aparelho vai passando bracket por bracket nos dentes, e quando chega a esse imenso espaço vazio, atravessa-o como a ponte Rio-Niterói. É uma coisa triste de se ver.

Mas eu dizia que quando você é feio, tudo conspira para piorar as coisas: banguelo do lado direito, eu me esforçava para ser sempre visto pelo lado menos mau. Fazia malabarismos parar rir voltando sempre a face esquerda para as pessoas. Pois até essa pequena vantagem acabou-se: voltei ao Japonês Maluco dia desses, e ele me sapecou um elástico na boca. O desgraçado sai do canino superior esquerdo e engancha sua outra ponta num pré-molar inferior. Para quem olha de repente, parece um fiapão de carne que ficou emaranhado no aparelho. Detalhe: tenho que usar o elástico o tempo todo. Ou teria. Quinta-feira eu fui a uma entrevista. Depois de pensar um pouco, achei melhor deixar o elástico em casa. O troço é feio demais!

Sei não, mas acho que o Japonês Maluco tá de sacanagem comigo. Ou ele ou Deus.

Outra vez no Morrão

A maravilhosa vista. A construção verde no centro é a fábrica da Panco, antiga Seven Boys. Estão ainda na foto a minha casa e a do Maguila, única celebridade da região.

Hoje o menino — chama-se Rubens — veio me mostrar sua bicicleta. Disse que deu cinco reais “pro ôme”, e ele lhe deu a bike. Estava toda quebrada, o pai consertou. Sentada no banco ao lado estava uma senhora de uns setenta anos. Claro que a velha puxou assunto comigo, velhos gostam de mim:

— Esse menino é doido! Olha como corre com a bicicleta, é perigoso ser atropelado, ou cair lá embaixo. A mãe não cuida, tá lá dentro, deitada. Só véve deitada.

— A senhora é avó dele?

— Sou sim.

— E a mãe dele é sua filha?

— É não. — aqui ela tapou a boca com a mão esquerda para dizer em tom de confidência — Ela é amigada. Mora com…

Aqui a velha levantou dois dedos da outra mão. Entendi que a morena tem dois homens. Achei justo: queria ver quem é que dava conta daquilo tudo sozinho.

— Ah…

— Então eu fico aqui cuidando dos meninos… Ó lá a irmã dele chegando. Tadinhas dessas crianças…
Nisso o moleque já estava dando voltas de bicicleta pela calçada. Enquanto ele pedalava, parando às vezes para me explicar por que sua bicicleta é tão veloz, a avó continuava:

— Um dia eu ainda dou uma paulada na canela dela, quebro-lhe a perna.

— Sei… — assustado.

O garoto perdeu o controle e bateu num arbusto florido. Chorou um pouco, depois veio trazendo uma flor feia.

— É pra minha mãe.

— Essa aí tá murcha — disse a avó, levantando-se para pegar outra. Enquanto escolhia uma flor mais vistosa, continuou — Quando eles vieram pra cá fizeram de tudo pra gente ir embora. Mas eu não vou, ora! Aqui é minha casa. Sabe? Logo que eles chegaram esse homem que mora com ela quis bater no meu marido.

— Nossa.

— Pois é. Mas eu não deixei. Deixei nada! E venha ele me encher o saco pra ver o que acontece. Pego assim — fez o gesto de quem destronca a cabeça de um frango — torço o pescoço dele e jogo aqui do barranco.

— Hum.

— Eu não sou daqui, sabe? Sou daqui não. Sou de Guaratinguetá. Vixe, ali é o povo mais ruim que existe, o mais ruim! E eu nasci lá. Aprendi a ser assim também, né?

— Pois é.

— Torço o pescoço e jogo do barranco. Vem ele mexer comigo, quero ver!

— É… Olha, eu vou ali. Preciso trabalhar.

— Ah. Trabalha onde?

— Trabalho em casa.

— Ah, assim que é bom. Vá com Deus, meu filho.

— A-Amém.

Voltei pra casa com medo da velha. Mas amanhã eu volto, é claro.

O escadão maldito

No Morrão

Aproveitei minha hora do almoço para subir ao Morrão. Engraçado: tanto tempo sem mais nada para fazer, e nunca me ocorrera subir até lá. É verdade que a total vadiagem me constrangia, impedindo-me de desfrutar totalmente do ócio. Mas agora trabalho, passo o tempo lidando com grandes questões, então na hora do almoço eu tenho o direito de ser totalmente vagabundo. Assim sendo, subi ao Morrão.

O Morrão fica na rua de cima, e não se chama Morrão, é claro: chama-se Praça Maestro Assis Republicano. Nome bonito para um lugar que é só uma elevação com uma rua embaixo, uma rua em cima e uma escada no meio para unir as duas; enfim, um morrão, como bem o chamamos por aqui. Subi, pois, o escadão imenso (“imenso” é um pouco demais, mas eu subi de dois em dois degraus e ao chegar lá em cima mal me agüentava em pé) e me sentei num dos bancos, um livro nas mãos, para passar meia horinha de ócio.

Quando eu e meus irmãos éramos crianças, vez em quando meu pai subia conosco ao morrão. Lá de cima mostrava os pontos interessantes daqui de perto (a escola, a fábrica da Seven Boys, a igreja) e lá de longe (o prédio do Banespa, as antenas da Paulista). Chegando lá em cima hoje, me dei conta de que era minha primeira visita ao Morrão desde aquela época. Está diferente: a rua foi asfaltada há anos, e agora há bancos em cima e um playground e um campinho de futebol lá embaixo, enfim, Dona Marta resolveu transformar o Morrão em praça de verdade.

Eu sei, eu sei: este já é o terceiro parágrafo e a história ainda não começou. Eu tenho esse problema, sei muito bem. Mas prometo que a história começa no próximo parágrafo. Querem ver?

Estava eu lá meio lendo, meio olhando a paisagem, quando um menino de uns cinco anos veio se aproximando. Trazia nas mãos uma bola verde, grande, de borracha.

(Viram? Começou a história).

O menino veio vindo e eu já sabia que ia falar comigo. Crianças sempre falam comigo.

— Eu sei chutar essa bola, sabia?

— É mesmo?

— É!

— Sabe nada…

— Sei sim, ô!

— Quero ver — botei o livro de lado. — Só não vá chutar a bola lá pra baixo.

Todo mundo conhece o efeito de um “não” sobre a mente infantil: foi justamente lá pra baixo que ele chutou a bola.

— Te avisei… E agora, hein?

— Hum… Agora eu vou chamar meu pai pra ir lá pegar.

Saiu correndo para casa, e eu fiquei rindo sozinho da esperteza do moleque. Voltou acompanhado da irmã pouco mais velha, que se dispôs a descer o escadão para buscar a bola do caçula. Já ia começar a descer quando aquela voz grave, meio rouca, chamou:

— ÁGATA! Aonde você vai?

Era a mãe dos dois. Ah, a mãe dos dois! Morena alta enfiada num shortinho branco que contrastava com as coxas bronzeadas e mais do que surgeria o formato e firmeza da bunda que lutava por esconder. Os peitinhos miúdos estavam soltos dentro de um top que era pouco mais que uma fita branca envolvendo-lhe o busto, como se ela estivesse embrulhada para presente. Ante aquela visão eu tomei a atitude de sempre: voltei a enfiar o nariz no livro, encabuladíssimo pela presença da mãe das crianças.

Ao final de uma pequena discussão, a morena autorizou a filha mais velha a descer. Então ficou em pé perto de mim, de costas, orientando a menina lá embaixo. Aquela bunda atraía meus olhos, e eu não conseguia pensar em nada para falar com a morena. Nem um “Crianças!”, tão propício à ocasião, nada. Ela acabou voltando para dentro. Fiquei por ali ainda um tempo, entretido com o menino que agora me chamava de amigo e me mostrava como conseguia jogar pedras para acertar as pessoas lá embaixo. Eu tinha que voltar ao trabalho, porém, então me despedi dele e desci o escadão.

Não acredito até agora que tão perto de minha casa mora a mulher que anda seminua. Amanhã eu volto.

— Sexista!

— Hum?

— Sexista! CHAUVINISTA!

— Que foi que eu fiz, minha senhora?

— É só assim que você sabe descrever uma mulher? Peitos, bunda, mais nada?

— Peraí, olha a injustiça! Falei em coxas também, e até dei um jeito de enfiar um “busto” no texto.

— PORCO! Você acha que aquela mãe de família é um pedaço de carne, não é?

— É, é. Mas olha: é um BAITA PEDAÇÃO…

Página 4 de 6« Primeira...23456