Jesus, me chicoteia!

Coisas escritas na categoria ‘Périplos’

Quebrante

Atrasado para o trabalho, trânsito recorde em São Paulo, sem café-da-manhã. Eu já estava fodido mesmo, e resolvi que seria melhor para meu humor parar em um lugar qualquer e comer minha refeição matinal predileta: misto quente e suco de laranja. Parei num boteco perdido na Mooca, numa paralela da Radial Leste, e quase dei meia-volta. O lugar era escuro e sujo, as donas eram meio assustadoras. Mas eu tinha fome, então fiz meu pedido. Má notícia: a chapa estava quebrada. Pedi uma coxinha feita na Copa de 2002 e um guaraná.

Enquanto comia (e pensava no estrago que aquela gororoba faria em minhas vísceras), observava uma das donas do boteco, que segurava um bebê no colo. O moleque tinha pedido maçã, lambido a fruta e não queria mais, então a mãe botou a maçã de volta na prateleira de frutas. Que beleza.

— Pediu tanto e agora não vai comer.

— Esse menino tá com quebrante — disse a que havia me servido.

— Eu também acho. Mas não tem nenhuma benzedeira por aqui.

— Ele está com esse olho triste, sei não. Melhor colocar uma fitinha vermelha no braço.

Olhei para a rua de paralelepípedos e fiquei esperando uma carruagem passar lá fora. Um Corolla me trouxe de volta à realidade: eu estava no século XXI, elas duas estavam erradas.

Meu primeiro pensamento foi de revolta. Aquele bebê (um ano de idade, no máximo) tinha algum problema, e elas queriam resolvê-lo com uma fita vermelha, já que não havia benzedeira disponível. Minha vontade era seqüestrar o moleque e levá-lo a um pediatra.

E então pensei melhor. Lembrei de uma ocasião na minha infância, uma crise de bronquite, uma cruz de metal gelado contra as costas, uma velha que murmurava rezas. Eu estava assustado, mas também aliviado. Em comparação com as injeções a que eu estava habituado, aquilo era um tratamento bastante agradável. Depois dos oito anos de idade, a bronquite sumiu.

Os pais e mães de hoje em dia são uns paranóicos, essa é que é a verdade. Uma tosse, um espirro, uma febrezinha, qualquer coisa é motivo para corridas ao médico. E tome-lhe antibiótico, antitérmico, analgésico, o capeta. Essa nova geração é um imenso laboratório de superbactérias e dores incuráveis: o uso indiscriminado de remédios causa microorganismos mais resistentes, que exigem medicamentos mais poderosos, e assim vai o ciclo.

O que é, então, mais perigoso: a ignorância inofensiva ou a informação paranóica? Eu sei lá. Só sei que amanhã levo uma fitinha vermelha pro moleque.

Dica para os barbados

Opa! Vários leitores interessados no barbear clássico. Pois bem, achei esse produto à venda no Mercado Livre. O vendedor tem boa reputação, o produto é novo, feito na China (de quebra, descobri que meu Flying Eagle é de uma marca tradicional chinesa, e tem reputação de agressivo. Ou seja, não me cortei apenas por conta da falta de coordenação motora). Apesar de anunciado como Gillette, descobri que se trata de um aparelho da marca Weishi. Andei pesquisando, e parece ser um aparelho ideal para iniciantes: não muito agressivo e parecido com o clássico Gillette Super Speed. Já reservei o meu. Vão lá, e pesquisem outros modelos também.

Quem estiver a fim de vôos mais altos, pode procurar por “safety razor” no eBay (tem alguns Parker bem bonitos, além de algumas relíquias) e na Amazon (procure pelos Merkur — esse, esse, esse). Se escolher comprar na Amazon, aproveite para encomendar uma caixa de lâminas também, que é bem baratinha. Caso queira fazer a festa completa, aproveite para comprar sabão ou creme, pincel, caneca. Acreditem, vale a pena.

Vivo e liso

Muito bem. Então eu anuncio ao mundo todo que vou ali manusear um instrumento cortante, digo que volto já, demoro dois dias e ninguém demonstra um PINGO de preocupação? Putos de merda!

Sim, sobrevivi, muito obrigado. Já fiz a barba duas vezes com o aparelho novo, não me cortei nenhuma vez e desde os 10 anos de idade eu não sentia a cara tão lisa. E agora entendo porque os homens de minha geração têm tanta preguiça de se barbear, enquanto nossos pais e avós o faziam todos os dias. Para nós, com nossos Mach 3 de lâminas caríssimas, o ato de raspar a barba é algo automático, que fazemos sem pensar, como obrigação. Até duas semanas atrás eu me barbeava no chuveiro, de qualquer jeito, sem espelho, deixando sobras de barba por toda a cara.

Em um dos sites que encontrei em minha busca pelo barbear perfeito, li algo que me pareceu exagerado: o autor falava em obsessão pelo ato de fazer a barba após adquirir um safety razor. Depois de experimentar a sensação, sou obrigado a concordar: com os apetrechos adequados, o barbear torna-se um ritual prazeroso. Você se concentra no que está fazendo, mesmo porque pode amputar o nariz ou uma orelha em caso contrário. O som da lâmina deslizando, a textura do creme, o batuque do pincel na caneca de ágata, tudo forma uma experiência muito mais agradável do que espalhar um gel safado pela cara e raspar tudo de qualquer jeito com um pedaço de plástico vagabundo e caro.

Convido os leitores (e as leitoras que tiverem barba, coitadas) a engavetarem por uma semana aquele aparelho de sempre e tentar aprender a se barbear como homens (ou mulheres de circo). Garanto que o Mach 3 vai ganhar teias de aranha. Ou por falta de uso, ou pela morte do dono.

A primeira faz tchan. E só.

Stumbla daqui, stumbla dali, acabei encontrando esse post do blog The Art of Manliness. O texto fala sobre a arte de se barbear usando aqueles aparelhos antigos, feitos de metal e com uma lâmina só. O autor compara a troca de um Mach 3 por um safety razor à diferença entre um Pinto (o carro, não isso aí) e uma Mercedes. “É legal segurar um pedaço de metal robusto e pesado ao se barbear, em vez de um plástico barato”, ele diz. “Um safety razor é uma máquina“, ele afirma.

Bem, a descoberta foi há pouco mais de uma semana, e a partir de então eu só pensava em uma coisa: arrumar um barbeador clássico para finalmente me sentir como um homem. Procurei no Mercado Livre, mas só achei coisas velhas, enferrujadas. No eBay, dei mais sorte: encontrei por lá uns belos aparelhos da Parker e da Gillette. Depois, ao ler o artigo com mais atenção, vi que o autor recomendava uma marca específica, Merkur, que tinha seus produtos à venda na Amazon. Fui conhecer os aparelhos e ler os depoimentos dos compradores, e acabei de me convencer — principalmente depois de ver esse aparelho — da necessidade de fazer a barba como meu avô fazia.

Estava ainda tentando escolher o barbeador que me acompanharia pelo resto da vida, quando veio em minha salvação a sempre providencial namorada. Expliquei a história toda a ela, que a princípio não gostou muito da idéia.

— Você vai se cortar todo — ela disse.

Mas eu sou teimoso, e ela acabou aceitando a idéia. No dia seguinte, me deu uma excelente notícia: havia encontrado um aparelho “de velho” em casa. Era um brinde que nunca havia sido usado e vinha num estojinho muito do bonitinho. Perguntou se eu queria e eu, comovido, disse que sim, claro. Então ela me revelou uma observação feita por minha sogra ao encontrar o aparelho:

— Ele vai se matar com isso…

Eu não sei de onde vem essa falta de confiança na minha habilidade e coordenação motora. Eu me corto com Mach 3? Sim, me corto. Eu me corto com Prestobarba? Ok, é verdade. Mas isso lá é motivo para pensar que um homem vá se ferir seriamente com o simples ato de se barbear usando um aparelho em que a lâmina entra em contato direto com a pele? Sei lá! Só sei que, no último sábado, Ana Carlota me entregou (com uma admoestação, “Se você usar isso para raspar a cabeça, está tudo acabado!”) essa belezinha:

Ah, meus amigos, que alegria! Eu já estava com uma barba de dois ou três dias, e corri para testar o brinquedo novo. Minutos depois, voltei para a sala assim:

Tá, me cortei um pouquinho. Ou mais. Sangrou bastante. Eu achei que nunca fosse estancar o sangue. “Me matei”, eu pensei enquanto jogava água fria na cara e tentava conter o sangue com pedaços de papel higiênico.

Apesar do susto, valeu a pena. Quando finalmente tirei os curativos improvisados e criei coragem para passar a loção pós-barba, reparei na qualidade do barbear. Pela primeira vez desde a adolescência eu tinha o rosto liso e sem pêlos encravados. Pensei em fazer um upgrade para a navalha, mas minha mãe e minha namorada berraram de horror. Tudo bem, a navalha fica para outro dia.

Na segunda-feira eu resolvi tentar novamente, e dessa vez me cortei bem menos e só perdi um pouquinho de sangue. Hoje eu arranjei tempo para pesquisar um pouco mais sobre o barbear clássico e aprendi algumas coisas importantes. Por exemplo: a lâmina deve ser usada como foice e não como enxada. O cabo deve formar um ângulo de 30º em relação à perpendicular do rosto. O pincel deve estar umedecido com água quente. E mais, muito mais.

Agora vocês me dêem licença, que eu vou ali fazer a barba do jeito certo, feito macho. Depois eu volto para contar como foi. Se não voltar, avisem minha família.

Polissonografia

Estou convencido de que nunca na história deste país todos os meus problemas de saúde, da obesidade à hipertensão, da ansiedade à calvície, têm sua origem nas horas de sono que perco para a apnéia. Ninguém pode se manter saudável tendo longas paradas respiratórias durante a noite. Por conta de um conjunto infernal (desvio de septo, carne esponjosa, amígdalas, glote e palato muito grandes), esse sempre foi um problema para mim. E piorou, é claro, depois que eu engordei como um peixe-boi castrado e alimentado com banha. Tendo chegado aos 115 quilos, decidi que era hora de reverter a situação: procurei uma endocrinologista, que me passou uma dieta camarada, antidepressivos e uma batelada de exames. Entre eles, a tal polissonografia que fui fazer na última quinta-feira.

Eu não sabia que fazer um exame podia ser tão complicado. Para começar, custa entre 800 e 1.200 reais. Além disso, liguei para vários lugares em dezembro e os caras só tinham vaga para março, para maio, para o dia de São Nunca, para o Juízo Final (o que seria uma merda: eu faria o exame mas nunca saberia o resultado). Depois de muito aperreio, encontrei um lugar que a) tinha uma desistência no dia 3 de janeiro e b) atendia o meu convênio graciosamente. Marquei o exame como particular, para segurar a vaga, e corri atrás da autorização do convênio (tudo por fax, claro, é uma modernidade sem fim). Depois de muita aporrinhação (e a sempre providencial ajuda da namorada, que cuida de mim como ninguém), consegui marcar o danado. Preparatório para o exame: não cochilar, evitar café, lavar os cabelos com sabão neutro. Não tenho cabelos, um problema a menos.

No dia e hora marcados, fui ao hospital. Tudo lindo, atendimento de primeira, uma breve espera. Outra breve espera. Outra. Na sala, outros maldormidos. Alguns gordos, outros nem tanto, todos com olheiras. Ao meu lado, um garoto de seus vinte anos que fizera questão de levar seu próprio travesseiro, enfiado numa fronha amarela com borboletas estampadas. O travesseiro, não o garoto. Prestem atenção.

No andar dos roncadores, duas enfermeiras guiaram cada um para seu quarto. Quartos de hospital meio antiquados, mas com ar-condicionado e TV. Me disseram para ficar à vontade, então liguei o ar, a TV, vesti minha roupa de dormir (não chega a ser um pijama) e me deitei. O raio da televisão só pegava a Globo, então comecei a ver a novela. Uma bagunça, o Pereio comandando uns malacos na invasão de uma favela, O Fagundes e a Marília Gabriela pegando armas num piso falso, o Lázaro Ramos se esgueirando para o meio da confusão, a Marília Pêra e uns crentes. Entendi nada. Veio a enfermeira (devia estar esperando terminar a novela) com um questionário. “A gente começa daqui a pouco”. Preenchi o questionário, vi Sinais, nada da enfermeira. Já no final do filme, com o Joaquim Phoenix descendo o sarrafo no ET, vem a outra enfermeira. Simpática. Simpatícissima. Um nojo. “Quer que desligue o ar?”. Não, eu não queria. “É que tem gente que não gosta de dormir com ar-condicionado”. Eu gosto. “Quer que desligue?”. Eu não queria, de verdade. Perguntou se eu tinha certeza. Calei-me. Ela também, e começou a ligar os eletrodos. Vários na testa e na cabeça, no nariz, no queixo, no peito, nas pernas, no cu. “E se eu precisar ir ao banheiro?”, perguntei, torcendo para ela não responder que eu teria de usar algum apetrecho para mijar ali mesmo. “A gente traz um papagaio”. Por um momento, imaginei o que a ave teria com isso. Viria me distrair para eu esquecer que precisava esvaziar a bexiga? Era um papagaio bebedor de urina? Opa, nada disso. Era um negócio de mijar na cama. Ô, merda.

A mulher desejou boa noite, apagou a luz, saiu. E aí foi o inferno. Imaginem, leitores, a maravilha que é tentar dormir todo cheio de fios. Eu só pensava em dormir, e o sono, vocês sabem, é traiçoeiro: é só pensar nele que ele não vem de jeito nenhum. Depois de muito tempo, consegui dormir um sono estranho, sem sonhos. Acordei algumas vezes durante a noite, com uma sede maldita. Manejando com cuidado os eletrodos entre a boca e o nariz, consegui ingerir alguma água. Eu não podia passar sede, mas já sabia no que daria aquela água toda. O exame ia até as 6h30 da manhã, eu só esperava agüentar até lá.

Mas qual! Lá pela madrugada, acordei com a bexiga gritando. Olhei o relógio sob a luz do monitor cardíaco. Passava um pouco das quatro da manhã. Eu suportaria? Não suportaria? Decidi que não, e apertei a campainha. Logo veio a enfermeira simpática ver o que eu queria. Expliquei, ela abriu um armário e sacou um negócio de aço inoxidável, com um tubo na diagonal. O tal do papagaio. Explicou que eu deveria ficar de lado para usar o negócio e apertar a campainha quando terminasse. Saiu do quarto, eu deitei de lado, procurei o pinto, enfiei no bico da ave e relaxei.

Ah, meus amigos, o alívio! A alegria! O belo som dos respingos contra o aço! O sono!… Eu já sou atrapalhado quando totalmente desperto, imaginem naquela situação. Quando vi, tinha entornado boa parte do conteúdo na cama. Apertei a campainha, e lá veio ela, toda sorridente. “Essa merda virou, caralho”, eu disse. Ela me olhou com ceticismo. “Virou, né? Que pena que virou… Virou…”. Ficou repetindo “virou”, depois trouxe uns lençóis para cobrir a poça. E aí que eu não dormi mesmo: a consciência de estar numa cama mijada, mesmo que sob camadas de lençol seco, me revoltava.

Levei mais de uma hora para pegar no sono novamente. Às 6h40, a (in)feliz veio me acordar e arrancar os eletrodos. Manifestou preocupação com minha demora para dormir e me disse que eu sofria de apnéia. Fiz cara de “não diga!”, me levantei e fui tomar banho.

Dia 17 sai o resultado. Espero que seja o primeiro passo para resolver o problema. Acima de tudo, espero não precisar repetir o (v)exame.

Sono

Eu não durmo mais porque não respiro à noite. Procurei o Instituto do Sono. Eles não atendem meu convênio. A consulta custa 300 reais, a polissonografia, 800. Porra, 800 reais pra dormir? Durmo no Hilton que é melhor.
Então comprei esse troço:

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Na teoria, o adesivo expande as vias nasais, aumentando em 31% o fluxo de ar pelas narinas. Na prática, você acorda às 4 da manhã com o adesivo grudado no antebraço.

Continuo tentando, porém. Pelo menos enquanto não encontro um jeito de fazer uma polissonografia por um preço decente. Ou isso ou dou um jeito de botar as mãos numa dessa:

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Oguniê! (um post tão grande que tem até intertítulos)

Todo ser humano tem uma missão nesta vida, uma busca que é sua obsessão e sua motivação para continuar. Levado pelos caminhos de minha própria busca, fui a um terreiro de Candomblé no último sábado para ver a festa de Ogum. Não, não fui em busca de conforto espiritual nem de respostas para minhas dúvidas. Minha busca, minha missão, podia ser resumida numa só palavra, proferida com volúpia por meu cunhado: feijoada. Haveria lá uma cerimônia qualquer para o orixá, e depois feijoada à vontade pra todo mundo.

Indo, portanto, contra todos os meus preconceitos de educação protestante, fui até o alto de uma favela no Embu para ver que diabo era o tal Candomblé. Comigo iam Ana Cartola (claro), sua irmã, seu convincente irmão e sua (dele) esposa. Depois de ver as casas simples no caminho (ruas escuras, cada qual com seu respectivo cu na mão) foi um susto ver todos aqueles carros, alguns deles caros, estacionados. Passamos por um portão, descemos uma ladeira e lá embaixo, transpondo a porta que ficava entre esculturas que representavam um búfalo e um veado, entramos no templo.

Decepção total: com suas luminárias bonitinhas, janelas com vitrais e platéia vestida normalmente, o terreiro parecia uma igreja. A diferença era dada principalmente pela disposição das coisas: em vez de filas de bancos de frente para o altar, um retângulo vazio no meio, enquanto nós, curiosos e não iniciados, nos acomodávamos como podíamos ao redor. Lá na frente, grandes cadeiras trabalhadas pareciam prontas a receber a elite do culto. No canto esquerdo, os instrumentos, mesmo lugar reservado aos músicos na igreja que freqüentei até os 20 anos de idade. Em vez de guitarra, baixo, bateria e um órgão velho, porém, dois atabaques, uma cabaça, um agogô, três biliques, um cambão-de-foles e sete traquebuquis (tá, esses três últimos eu inventei) ocupavam o espaço.

A cerimônia logo começou. Outra decepção: em vez de negros retintos com roupas brancas de algodão cru rodopiando em extático frenesi e sangrando animais, o que vi foram pessoas de todas as raças (inclusive uma mãe-de-santo japonesa, empolgadíssima) numa coreografia organizada e, depois de um certo ponto, previsível. Ao que parece, é uma dancinha diferente para cada orixá, cada uma acompanhada por seu canto correspondente, puxado pelo babalorixá, um sujeito que ficava lá na frente, de pijama, apenas acompanhando o ritmo com o corpo. Os participantes saudavam o babalorixá com reverências complexas, depois faziam o mesmo virados para a porta de entrada.

Chamou-me a atenção a grande quantidade de bichas entre os participantes do ritual. Não é para menos: enquanto a maioria das religiões disponíveis por aqui condena e rechaça os homossexuais, o Candomblé não só os aceita como estimula a veadagem. É uma religião de muito luxo, roupas coloridas, dança, música, reverências, com os celebrantes sendo ao mesmo tempo centro das atenções. Não há veado que resista.

O duro ofício de flanelinha

Depois de um tempo, porém, o bicho começou a pegar. O babalorixá anunciou que uma das celebrantes receberia um cargo naquela noite. Depois de fazer um comentário infeliz sobre gente de cabeça pequena e gente de cabeça grande (o que me fez virar alvo de chacota), recomeçou a batucada.

Uma das moças que dançava deu um grito, fez um beiço do tamanho de um filé do Outback e começou a andar de forma estranha. Logo outros começaram a incorporar seus orixás. Cada um se comportava de uma forma: uma bichinha que parecia o Marquinhos Moura incorporou a ararinha azul (o que é bom, com a espécie ameaçada e tal), um negão recebeu o Mussum, outro pegou um jogador de basquete. Comum a todos eles, o beiço. Orixá deve ser um bicho muito beiçudo: quando baixa, trata logo de fazer bico.

Bom, com uma galera considerável servindo de busão de orixá, um sujeito separou os incorporados. “É o flanelinha de orixá”, explicou meu cunhado. E era mesmo. O cara pegava cada um dos incorporados, fazia com ele a dança de seu santo e depois estacionava o sujeito.

Outra constatação: o candomblé é a religião mais contraproducente que existe, é um verdadeiro desperdício de energia. Primeiro todo mundo canta, dança e bate tambor pros orixás descerem. Quando, aporrinhados por tanto barulho, os santos resolvem atender ao chamado, os felasdaputa começam a cantar, dançar e bater tambor de novo para mandá-los de volta. Eu, se fosse orixá, mandava esse povo tomar no cu e nunca mais baixava em terreiro nenhum.

Intermezzo

Estacionados os orixás, o pessoal começou a sair. Oba, feijoada. Já era tempo. Lá fora, a não ser pelos muitos cigarros acesos com sofreguidão, o ambiente lembrava uma saída de igreja: grupinhos conversando, crianças correndo, misteriosos nigerianos falando ao celular. Tá, na minha igreja não tinha os nigerianos também, mas o resto era igualzinho. Aquele clima de “ok, tivemos uma experiência sobrenatural, testemunhamos a ação de forças que não compreendemos, agora vamos falar da novela”.

Eu e Ana Cartola só pensávamos na feijoada quando veio o balde de água fria: era só um intervalo, ainda teríamos mais batuque pela frente. De fato, após um tempo, o pessoal começou a voltar para dentro e se acomodar. Minutos depois, ouvimos o som do cambão-de-foles. Uma senhora muito simpática saiu lá de dentro sobraçando vários pacotinhos feitos de folhas. Dentro deles, pedaços de inhame cozido. Parte do ritual exigia que os participantes comessem um pedaço do inhame e devolvesse a metade para um balaio. Não era a feijoada ainda, mas era comida, então aceitamos.

Continuamos do lado de fora, e sem querer presenciamos um dos pontos altos da festa: um negão saiu lá de dentro, todo vestido de branco, levando o balaio cheio de restos de inhame e empunhando um facão. Atrás dele não um, mas dois flanelinhas de orixá. “É a noiva do Exu!”, constatou minha doce namorada. Não era. Tratava-se de Ogum, o dono da festa, carregando sua oferenda para dentro do mato.

O dono da festa

Voltamos para dentro, e depois de um tempo o rapaz com Ogum incorporado retornou. Vinha agora todo paramentado de azul, ainda com o facão na mão. Esse deu trabalho para os flanelinhas: dançou, pulou num pé só, rodopiou. De vez em quando triscava o facão no chão, arrancando de alguns celebrantes a saudação do orixá, “Oguniê!”. Um rapaz que estava bem de frente para mim parecia particularmente assustado com o facão. Sempre que Ogum chegava perto, ele levantava as duas mãos e sussurava a saudação. Vi em seus olhos a semente do ceticismo.

Num determinado momento, chegou a hora da sacolinha. As pessoas pegavam cédulas dobradas, davam uma volta ao redor da própria cabeça, outra ao redor da cabeça de Ogum (sempre de olho no facão), e a depositavam lá na frente.

Durou muito tempo a dança de Ogum. Uma eternidade, na verdade. Pessoas da platéia receberam lá seus orixás, e os atabaques não paravam nunca mais. Quando eu já pensava num pretexto qualquer para ir lá fora, a festa acabou. Que viesse a feijoada.

Enfim, a feijoada

Do lado de fora do templo, numa área com mesas e cadeiras de ferro, o pessoal começava a se reunir. Sentamo-nos, os infiéis, numa mesa um tanto afastada e ficamos observando o movimento. Pessoas chegavam perto do babalorixá e se deitavam de bruços para saudá-lo. Alguns fumavam. Colocaram um samba para tocar, e lá vieram os panelões fumegantes. Atrás do balcão, as mães-de-santo. Entre elas a japonesa, que dançava e cantava acompanhando Zeca Pagodinho.

O babalorixá se aproximou para nos cumprimentar. Foi simpático:

— Gente, mas o que vocês vieram fazer na macumba? Não sabem que isso é baixo espiritismo?!

E depois, mais sério:

— A nossa religião é muito mal compreendida. É muito preconceito, muitas idéias errôneas.

Concordamos. Eu, de minha parte, concordaria com tudo, desde que tivesse logo acesso ao meu prato de feijoada.

Enquanto os outros enfrentavam uma fila para pegar seus pratos, nós fomos agraciados com serviço diferenciado. Uma senhora muito prestativa nos ofereceu cerveja, refrigerante, e depois mandou servir nossa feijoada. Meu povo, eu digo sinceramente: valeu cada segundo de batuque.

Depois de alimentados, fomos conhecer o museu da casa. Muito bonito e bem organizado, o museu tem representações de todos os orixás, suas cantigas em iorubá e português e as características dos filhos de cada um deles. Após a visita (conduzida por um guia acometido de um tique nervoso quase imperceptível), fiquei me perguntando por que ali não havia qualquer informação sobre Xogum. Antes que eu proferisse a pergunta em voz alta e fosse para sempre condenado ao ostracismo pela família da namorada, meu próprio id bronqueou: não tinha xogum porque os xoguns não eram orixás e eram todos japoneses.

O sacerdote

De volta à mesa, fomos agraciados pela companhia do babalorixá. Novamente ele falou sobre a pouca compreensão a respeito da religião e nos explicou: o Candomblé não é uma religião africana, mas sim egípcia, trazida pelos atlantes (!!!). Condenou o sincretismo religioso (“É uma praga”), o cristianismo (“Um homem morrer e ressuscitar é um absurdo. Basta raciocinar, gente!” — como se não fossem absurdas as incorporações de santos, isso sem falar no continente submerso de Atlântida), o islamismo, a Umbanda (“É uma mistura danada, um horror, uma deturpação”). Explicou que lia de tudo (“Só não leio Machado de Assis nem aquele outro, Salamargo” — com um “e quem lê?” nas entrelinhas). Contou que chegara a cursar o seminário (“Larguei depois do Concílio Vaticano II, aquilo foi uma distorção” — com o tom de quem critica as novas regras do vôlei). Falou que a religião foi distorcida porque foi entregue nas mãos de mulheres, mães-de-santo que não sabem nada. Foi a surpresa maior da noite: o babalorixá não passava de mais um sacerdote fundamentalista e misógino.

Epílogo

Foi engraçado, em alguns momentos estranho, em outros muito bonito. Mas da próxima vez chega de macumba pra turista, quero ver os negões bebendo sangue de galinha. Porque no fim das contas eu estranhei mais as semelhanças do que as diferenças.

Poliglota e abusado

— Vamos todos pra Miami. Miami, capital da… Miami, capital da Blfurrrgh.
Olhei para trás. Sentado no ponto de ônibus, um mendigo segurava um pote de iogurte e resmungava de cabeça baixa. A barba enorme e branca, em forma de pá, compensava a total ausência de cabelos na cabeçorra.
— … da Califórnia. Capital da Califórnia. Vamos todos pro Havaí, capital da… Capital da Flunghaaaa.
A senhora ao lado deve ter olhado feio, ou feito algum comentário, porque o maluco imediatamente deixou de falar com os duendes (ou ETs, ou Deus, ou qualquer desses interlocutores de maluco) para dirigir-lhe a palavra.
— Minha senhora, eu sou aposentado! Eu sou aposentado e falo inglês.
— Pois deveria dar aula de inglês, então.
— Mas eu sou aposentado!
— E por ser aposentado não pode trabal…
— FUCKY-FUCK YO!
— Não pode trabalhar?
— FUCKY-FUCK YO! Aí! Te chxinguei e cê nem sabe!
— Vai dar aula de inglês, então, já que sabe falar tão bem!
— TU PINCHE MADRE! Sei espanhol também, ó! Aprendi em Miami. Miami, capital da… Capital da Glembheeeeeeeeerg…

É preciso estar atento

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Quando você está andando sem nada melhor para fazer, e esbarra com a capa da Playboy por aí, é melhor considerar isso um sinal.
Amanhã será um bom dia.

Era impossível tirar uma foto da moça sem algum mané do lado. Homem é um bicho muito babão, credo.

Vacas calouras e uma lição do caçula

Post escrito originalmente para o maravilhoso blog Gente, foi horrível!

Estou prestes a completar 32 anos. Não sou nenhum jovenzinho, sei muito bem. Nem por isso, porém, vou aceitar desaforo. Pois vejam: semana passada estava eu feliz da vida encarando o trânsito da Radial Leste para chegar ao trabalho. Eis que paro num farol1 ali na Mooca e sou abordado por duas garotas de cara pintada. “Amazonas guerreiras!”, pensei eu, antes de perceber que eram apenas duas calouras da São Judas. Faziam parte de um grupo grande de calouros, que estavam ali tentando arrecadar uns trocados para os veteranos. Uma delas se debruçou na minha janela, expondo uma boa fatia dos peitos. Eu, mais que depressa, olhei para o outro lado.

Tá, talvez não tãaaaaaao depressa.

Ok, ok! Sequei os peitos da garota, tá bom? É um impulso mais forte do que eu, não consigo evitar. Enfim, a filhadaputa mostrou as muxibinhas e abriu a matraca:
— Tio, ajuda a gente, compra um pacote de balas. Só dois reais, tio!
O tal “pacote” era um saquinho com duas ou três balas dentro. Fiz que não com a cabeça. A outra, que trazia nas mãos um chumaço de cabelos, não perdeu a oportunidade:
— Então compra cabelo, tio. Cê tá precisando!
Vacas. Putas. Ornitorrincas adolescentes com suas vozes esganiçadas. Eu queria descer do carro e espancar as duas. Mas me controlei e disse:
— Vocês estão fazendo o quê?
— É trote, tio! Os veteranos obrigaram a gente a…
— EU SEI que é trote. Estou perguntando que porra de CURSO vocês estão fazendo na faculdade.
— Ah… Rádio e TV, tio!
— Pois então, Rádio e TV. Vocês vão passar o resto da vida na merda, sem dinheiro nem pra comer. É melhor irem se acostumando a ficar sem dinheiro, né?
— …
— Olha lá, o farol abriu. Com licença.
Parti satisfeito, mas não plenamente. Minha vontade mesmo era dizer: “Tio? Não sabia que meu irmão andava comendo tua mãe”. Merda de civilidade.

Por falar no meu irmão, não é que o moleque me ensinou algo muito importante e valioso dia desses? Pois foi! Ele me ensinou que não se deve exibir comportamento socialmente inaceitável, fiando-se no manto ilusório de anonimato oferecido pela multidão. Conto.
Semana passada. Estava caminhando pelo centro da cidade, comportando-me alegremente da forma mais inaceitável possível. Ninguém me conhecia, que se fodessem todos. Entrando na Praça Ramos de Azevedo, porém, levei um susto quando um sujeito de terno gritou:
— ÊÊÊ, DEDÃO NO NARIZ!
Era meu irmão, que estava voltando do almoço. Imaginem a minha cara.

1 Eu sou paulistano e falo “farol” mesmo. Não me interessa que nome o aparato tenha aí no seu exótico rincão.

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