Adultos sempre me irritaram. Me irritam hoje, me irritavam muito mais quando eu era criança, e infinitamente mais na pré-adolescência. Vinham sempre com os papos de como-você-cresceu, te-carreguei-no-colo, te-dei-banho, e eu pensava: “FODA-SE”. Queriam o quê? Que eu fosse anão e não crescesse nunca? Que eu tivesse tomado banho sozinho quando bebê? Que eu tivesse carregado eles no colo? A impressão que eu tinha era de que os adultos todos tinham esquecido de como era ser adolescente, pré-adolescente, criança. Devia ter um ponto na vida, eu pensava, em que caía um disjuntor dentro da cabeça e todas as memórias antes da vida adulta se apagavam. E aí eles ficavam chatos, conversavam coisas chatas entre eles, e coisas muito mais chatas comigo (quando conseguiam me ver, porque eu fazia questão de me esconder deles, os chaaaatos). Prometia a mim mesmo que quando eu crescesse isso não aconteceria. Que eu lembraria de como era ter 5, 8, 12, 16 anos, e falaria com as pessoas dessas idades sempre com isso em mente.

Hoje sou adulto — dizem. Trabalho, sou casado, pago contas, adotei bichos. Gosto de pensar que consegui cumprir minha promessa a mim mesmo. Quando falo com alguém mais jovem do que eu, tento me colocar no lugar da pessoa e não ser condescendente. Tento lembrar que talvez eu possa ensinar alguma coisa, mas que o mais provável é que eu aprenda.

Só que hoje, dia em que minha sobrinha Ana Júlia completa 12 anos, eu mal consigo conter o impulso do como-você-cresceu, te-carreguei-no-colo, te-acudi-quando-você-chorava-que-nem-uma-louca-no-berço-toda-ranhenta. É difícil porque eu lembro daquele bebê, daquela criança, e é difícil aceitar que a pessoa atual, com opiniões e gostos definidos, com um senso de humor lindo e um mau humor genético, com cabelo azul e personalidade de todas as cores, tenha um dia sido aquela criança. E aí dá um curt-circuito na cabeça. Peraí. Quem é você? Cadê o bebê que estava aqui?

Não é só isso: eu vejo minha sobrinha como um ponto numa linha do tempo que vem da minha avó, passa pela minha mãe e minha irmã, chega até ela. As mulheres que definiram quem eu sou, que moldaram minha personalidade, deixaram essa herança para Ana Júlia, que segue nessa função aí de melhorar o mundo.

E é tão lindo ver no que ela se tornou! Ana Júlia sempre foi generosa; dividia tudo com os outros. Hoje a generosidade se estende para questões mais complexas. Ela fica genuinamente indignada com o preconceito e com a injustiça. Não do jeito vazio e falso do militante, mas do jeito apaixonado e preciso que só a juventude tem quando encontra a generosidade.

Juju, eu não sei o que te dizer. Eu já tive 12 anos, mas nunca fui uma menina de 12 anos; isso faz toda a diferença. Eu também não sei o que é, numa fase da vida que já é difícil, ter a complicação extra de adaptar-se a outro idioma, outra sociedade, outra cultura, uma gente que não é a nossa. Deve ser muito difícil até conseguir expressar, falar sobre isso. Mas eu sei que você vai conseguir, já está conseguindo tirar de letra essa nova realidade. Porque assim como sua mãe, sua avó, sua bisavó, você é muito mais forte do que parece.

Nossa, como você cresceu!

Te carreguei no colo!

Não te dei banho porra nenhuma, porque eu sou preto mas não sou seu escravo.

Feliz aniversário, Juju. Te amo.

Hoje eu vi meu irmão fazer uma coisa impressionante.

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Tenho um vídeo do meu irmão, de 2001 ou 2002 (não garanto). Ele tinha então 21 ou 22 anos, uma cara redonda e uma barriga saliente. Nada que se compare à minha, mas saliente. No vídeo, ele bate na barriga e diz: “Essa é minha pança”. Aí ele faz uma pausa e completa: “Eu vou perdê-la”.

Pouco tempo depois ele começou a correr.

Meu irmão (o da direita) em 2002

Meu irmão (o da direita) em 2002

Semana passada minha irmã contou que também começou a correr. Correu 4 quilômetros e quase morreu. Meu irmão disse que é assim mesmo. “A primeira vez que eu fui correr no Ibirapuera”, ele contou, “corri quinhentos metros e quase morri”.

Nesses anos todos nós acompanhamos a evolução dele. Ele correu a São Silvestre. Correu meias-maratonas. Correu maratonas inteiras. Em Roterdã (acho que foi Roterdã, não garanto), ele estava correndo uma maratona e viu de longe uma garotinha que saía de uma casa. Ele estava sozinho. Não sei em que posição ele estava, só que estava sozinho, nenhum corredor à vista. Fazia pouco tempo que nosso pai tinha morrido. Era assim que estávamos todos na época: sozinhos. Quando ele chegou perto, viu que a menina tinha bolachinhas na mão. Ela ofereceu as bolachinhas a ele, que começou a chorar. Somos desses.

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O que meu irmão fez hoje é impressionante justamente por ele parecer ser um homem comum. Ele trabalha, participa de reuniões, anda de metrô. É casado, quer ter filhos, acabou de comprar um apartamento. Gosta de Bisnaguinha com Nutella. Ele é como Clark Kent ou Peter Parker: só um cara qualquer. Né?

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Quando ele começou a correr, tinha 22 anos (não garanto). Agora ele tem 35 e já deve estar longe pra caralho.

Mentira.

Quando meu irmão decidiu começar a correr, ele foi ao Ibirapuera, correu quinhentos metros e quase morreu.

Hoje ele correu 21 quilômetros. Mas não foi só: antes disso, ele pedalou 90 quilômetros. E antes ainda ele nadou 2 quilômetros. E depois disso tudo ele veio conversar com a gente, como se tudo isso não fosse nada. Porque é isso que um super-herói faz quando está entre nós.

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Meu irmão hoje

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Hoje eu vi meu irmão fazer uma coisa impressionante: ele reuniu a família inteira em Miami, com o dólar a 4 reais.

— É um pássaro? É um avião?

Vai tomar no seu cu, que não tem pássaro que se sustente com uma cabeça daquele tamanho. É o Beto, meu irmão. Um super-herói.

 

IMG_5753Em agosto de 2009, pouco mais de um ano antes de morrer, meu pai voltou a Monte Santo. Monte Santo é aquela cidade no sertão da Bahia onde aconteceu a história do capoeirista. Não foi a primeira vez que Seu Lindauro voltou à terra natal. Só que dessa vez teve um detalhe: ele levou uma câmera, uma Canon Powershot A710 emprestada pela Ana Carlota. Acho que ele nunca tinha usado uma câmera antes.

Hoje abri esse álbum de fotos e fiquei olhando cada uma devagar. Meu pai viajou com a irmã, e tem fotos que foram tiradas por ela. Gosto de imaginar que ele fez todas as fotos em que não aparece. Não sei bem quem são essas pessoas. Meu pai explicou na época, não guardei nada. Muitas dessas fotos parecem clichês de filme nacional de seca. Não ligo. Em cada rosto desses aí, de gente bruta, vejo traços dos meus avós, do meu pai e dos meus tios, meus, dos meus irmãos, dos meus primos, dos meus sobrinhos. Fico pensando que estou vendo Monte Santo, que nunca conheci, pelos olhos do meu pai, saudosos de infância. E que a existência dele, que foi tão curta aqui na Terra, se projeta no presente e no futuro, sobre nós que ficamos aqui miudinhos de saudade.

Meu pai nunca deixou a barba crescer. Ele fazia a barba todo dia? Não sei. Um daqueles detalhes que a gente não nota. Pequeno demais, cotidiano demais.

Acho que ele fazia a barba todo dia. Devia ficar um dia sem fazer no final de semana. Sábado, provavelmente, já que domingo era dia de igreja: melhor terno, melhor sapato, cheiro de colônia pós-barba. No final do dia, a barba dele já estava áspera. “Pinicando”, eu dizia. Ele chegava do trabalho, eu ia abraçá-lo e sentia o cheiro bom dele e a barba pinicando.

(Eu confio em qualquer homem que tiver o cheiro que meu pai tinha quando chegava do trabalho. Nunca encontrei nenhum.)

Às vezes, quando a barba estava mais pinicante, ele corria atrás da gente pra passar a barba na nossa cara. Era divertido. Eu olhava e queria ter barba, queria ter o ritual de fazer a barba.

Eram esses os dois modos do rosto do meu pai: liso e pinicante.

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Na adolescência, perdi o costume de abraçar e beijar meu pai quando ele chegava do trabalho. Também perdi o costume de abraçar e beijar minha mãe quando eu chegava em casa. Sou bruto, demonstrações de afeto não são meu forte. Depois que minha irmã casou, ela nos abraçava e beijava quando vinha visitar. Meu irmão casou, mesma coisa.

Quando eu me casei, pude voltar a abraçar e beijar meus pais. Há quanto tempo não nos vemos, como vai, dê cá um abraço. Bobagem. Eu tinha dois anos de casado quando meu pai morreu. Nem deu pra aproveitar.

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Noite passada eu sonhei com meu pai. Estávamos frente a um palco, assistindo alguma coisa. Um show, um programa de TV, não sei. Ele estava bem jovem, a barba por fazer não tinha nenhum fio branco. Eu sabia que não era de verdade, meu pai está morto, mas mesmo assim conversava com ele. Era um avatar, um holograma, uma simulação; mas parecia real e isso me bastava.

— Pai — eu disse — existe vida após a morte?

E ele respondeu:

— Eu tenho certeza… que às vezes eu acho que sim, às vezes eu acho que não.

No sonho, não era só uma resposta sem sentido: era uma piada, e eu ria. Rindo, abracei meu pai.

Abracei meu pai e senti a barba dele no meu rosto. Áspera. Pinicando.

Comecei a chorar. Não o choro composto de um homem de minha idade. Não a lágrima descendo devagarinho, lagarta de vidro, a boca se torcendo pra baixo. Não: um “ãããããããããããã” prolongado, como choro de criança. Como o choro que chorei todos os dias (no banho, no carro indo pro trabalho) por muito tempo depois que ele morreu.

Chorei tão alto no sonho que acordei assustado e chorando — de verdade e de maneira aceitável. Peguei no sono chorando e pensando no meu pai, no abraço dele, na barba dele pinicando. Quando eu morrer vai ser igual quando eu casei? Vou poder abraçar e beijar meu pai de novo?

Eu tenho certeza que às vezes eu acho que sim, às vezes eu acho que não.

Na década de 60, meu pai ganhou esse relógio do patrão dele, o dono do Hotel Ca’d’Oro. Ele teve vários outros relógios depois desse, inclusive um que eu dei de presente, mas mantinha o primeiro relógio bem guardado dentro do bolso de um paletó que não saía do guarda-roupa. Meu pai me ofereceu esse relógio durante minha vida toda. Meu relógio quebrava, era roubado ou perdido, e lá vinha Seu Lindauro: “Por que você não usa aquele meu relógio?”. Eu sempre recusava, claro. Era um relógio “de velho”. Pra que usar relógio de tiozão se eu tinha um relógio digital que acendia luzinha, com doze musiquinhas de alarme, ou um Champion com sete pulseiras coloridas?

Eu fui ficando velho e meus relógios começaram a ficar cada vez mais parecidos com o velho Omega. Passei a gostar do relógio do meu pai, mas ainda não o queria, agora por outros motivos: ele podia ser roubado, eu podia perdê-lo, sei lá. Então ele foi ficando lá no bolso do paletó.

Nas semanas seguintes à morte do meu pai, eu ia fuçar nas coisas dele sempre que podia. Achava um bilhete, uma lista de compras, cartões que eu e meus irmãos fizemos para ele no Dia dos Pais. Um dia me lembrei do relógio, fui olhar no bolso do paletó e lá estava ele. Dei corda, funcionou. Fiquei tenso: deveria ficar com ele? E se meu irmão quisesse o relógio? Minha mãe me convenceu: era melhor manter o relógio como lembrança e arriscar perdê-lo do que esperar que o paletó fosse doado com relógio e tudo. Então fiquei com ele.

Dois anos depois da morte do meu pai, continuo usando o relógio dele. Não funciona direito: às vezes pára sozinho, não adianta dar corda. Depois de uns dias volta a funcionar. Preciso levá-lo ao relojoeiro, mas fico adiando. Gosto de imaginar que meu pai dá um jeito de vir à noite e fazer uma gambiarra no relógio. Nada definitivo, claro. Não era do feitio dele.

*   *   *

Domingo eu fui à casa da minha mãe. Estava na sala e vi um vulto passar lá fora. “Vixe, é meu pai vindo pro almoço”, pensei — de brincadeira, claro. Não acredito em espíritos.

Fui até a cozinha e o Rafael, meu sobrinho de dois anos de idade, me pegou pelo pulso, olhou o relógio e perguntou:

— É do vovô?

— É sim, Rafa. Mãe, como esse moleque sabe que o relógio era do pai?

— Você deve ter contado pra ele, Marco.

— É verdade.

Acho que minha mãe também ficou na dúvida, porque perguntou:

— De qual vovô, Rafael?

— O que tá lá fora.

Na segunda-feira, o relógio parou de funcionar de novo.

Meu sobrinho Rafael

 

Já explico o chuveiro

Assim que eu e Ana Carlota nos casamos, comprei um chuveiro invocadão — que não é esse aí da foto. Era muito bom, o chuveiro. Saímos do Arouche, viemos para o meio da colônia armênia, o chuveiro veio junto. Não agüentou nem dois anos: casa antiga, fiação antiga, um dia o chuveiro deu um pipoco e morreu. Comprei outro (que também não é o da foto) e fui instalar. Tudo certo até eu ter a infeliz idéia de mudar o lugar do suporte do chuveirinho. Furei a parede e, claro, acertei um cano. Foi um furdunço: gritei pra Ana vir me ajudar, ela ficou tampando o furo com o dedo enquanto eu pegava uma escada para fechar o registro. Fiquei puto (eu fico muito puto quando faço alguma cagada, o que significa que eu vivo puto), andando de um lado pro outro pela casa pensando numa solução. De repente, eureca!: peguei um parafuso mais ou menos da largura da broca que tinha furado o cano, enrolei o bicho em veda rosca e meti o parafuso no furo da parede. Abri o registro e só saiu um fiozinho d’água por baixo da cabeça do parafuso. Com essa gambiarra, conseguimos tomar banho por dois dias, até que o encanador veio e consertou a burrada. No dia seguinte, fui comprar outro chuveiro — que, claro, não é esse aí da foto.

— ENTÃO QUE PORRA É ESSE CHUVEIRO AÍ DA FOTO, DIABO?

Ora, o título do post é “O Rei da Gambiarra”. Vocês não acharam que eu ia mesmo me autointitular rei de qualquer coisa, né?

Enquanto eu transformava o parafuso num mini-craque de múmia, lembrei do meu pai. Ele sim era o rei da gambiarra. O chuveiro da foto está na casa da minha mãe. Eu mesmo o comprei no Mappin em 1994 ou 95; paguei 180 reais. Era o chuveiro mais metido a besta da época.

O chuveiro antigo já estava nas últimas. Era um daqueles Lorenzetti de metal, sabe? Então. O cano do chuveiro ficava cada dia mais torto, tínhamos medo de que um dia caísse na cabeça de alguém. Até que um belo dia (meu pai falava muito isso, “até que um belo dia”) Seu Lindauro fez um furo no teto, enfiou um gancho no furo, passou um arame pelo gancho e amarrou a outra ponta no chuveiro. Chuveiro reto, problema resolvido. Só não estava lá muito bonito, então eu comprei esse chuveiro novo e meu pai se encarregou da instalação.

Ah, meus amigos, que gênio era meu pai… Ele se fechou no banheiro com o chuveiro novo e sua infalível maletinha de ferramentas. Dali a pouco saiu para buscar alguma coisa e eu fui espiar para ver como andava a instalação. O chuveiro já estava na parede, só que meio bambo. Seu Lindauro voltou, se fechou de novo. Quando saiu, todo orgulhoso, o chuveiro estava instalado e bem preso, graças a duas tampinhas de Coca-Cola que ele usou como calço.

Esse banheiro da casa da minha mãe deve ser o cômodo que mais viu as gambiarras do velho. Antigamente, o piso do banheiro era de granito branco e tinha uma rachadura que ia da porta até quase a parede oposta. O tempo passou, a fenda foi aumentando, minha mãe perdeu a paciência: “Lindauro, a gente precisa arrumar esse piso”. Agora vejam: na cabeça da minha mãe, “arrumar esse piso” era quebrar tudo, ver se tinha alguma infiltração, refazer o encanamento se necessário, instalar piso novo. Na cabeça do meu pai, era muito mais simples. Ele se fechou no banheiro (com a malinha, claro) e saiu lá de dentro radiante. Tinha preenchido a fenda no chão com Durepóxi. Ficou feio pra danar aquela tira cinzenta no meio do piso branco. Antes que minha mãe reclamasse, meu pai já foi avisando que ainda não estava pronto. Saiu, voltou, se fechou de novo. O que ele fez? Pois é: pintou o durepóxi de branco. Gênio.

Hoje eu ando pela casa da minha mãe e em todo canto vejo as gambiarras do velho: são varais com trinta remendos, móveis consertados com arame (ele adorava arame, sempre começava a solução de um problema com a frase “Se colocar um aramezinho aí…”), fios passando por ganchos no teto (outro preferido da casa). Domingo passado minha mãe me mostrou a porta de um dos armários da cozinha. A fórmica estava descolando, ela comentou com meu pai que precisavam consertar aquilo. Ela saiu pra fazer qualquer coisa e quando voltou viu o armário “consertado”: Seu Lindauro meteu dois pregos na fórmica e se deu por satisfeito. Deve ter sido uma das últimas gambiarras dele.

Dia desses o telefone deixou de funcionar. Tentei de tudo e nada, o telefone mudo. Fui lá fora e vi meu irmão podando a primavera que ameaçava invadir a rua. Numa facãozada mais afoita, cortou o fio do telefone — um fio que passa pelo meio das plantas, entra por baixo de uma telha solta e sai na tomada do telefone da sala; gambiarra de autoria minha e de meu pai. Eu subi no murinho, fiquei lá me equilibrando e remendando o fio. Naquela hora percebi, como poucas vezes percebi antes, o quanto eu e meu irmão somos parecidos com nosso pai: desastrados, gambiarreiros.

Gosto de pensar que um dia, quando todos nós já tivermo morrido, alguém vá morar na casa que era do meu pai. Acho que esse morador futuro vai encontrar algumas soluções improvisadas dele. O cara vai ver aquilo e pensar, “Pô, mas que serviço porco”, sem saber que a gambiarra era parte da sabedoria de Seu Lindauro. Meu pai sabia que tudo era provisório e que qualquer coisa definitiva era ilusão. Sendo assim, por que gastar tempo e dinheiro com soluções definitivas? Além do mais, que chato seria se meu pai resolvesse tudo do jeito certinho: hoje eu talvez não tivesse nada para me lembrar dele. Cada pedaço de arame naquela casa é uma história dele.

Ah, e muitos anos depois da história do piso meus pais finalmente conseguiram reformar o banheiro. Colocaram piso novo, encanamento novo, louças, box, vitrô. O chuveiro mudou de parede. Meu pai instalou. As tampinhas de Coca-Cola estão lá até hoje, sustentando o bicho.

Mortes na família: ZERO.

 

Como vocês sabem, perdi muita gente ano passado. Perdi meu pai, minha sogra, meu tio. Não, eu não sou tão distraído assim. Não saio perdendo gente no ônibus. Eles morreram mesmo.

Dias depois da morte da minha sogra, eu estava na produtora do CQC escrevendo piada. Mesma coisa quando meu pai morreu. Meu tio morreu numa segunda-feira; eu passei o dia pensando em piadas e saí da produtora direto para o velório. É minha profissão, vou fazer o quê?

Essa situação toda me fez lembrar de um livro de contos edificantes que eu lia e relia na casa de uma vizinha, a Maria José. Maria José é quase da família, eu entrava na casa dela sem bater palma (poucas casas da rua tinham campainha) e ia direto pra estante. Ela vivia se assustando comigo: entrava na sala e tava lá aquele moleque deitado no tapete da sala com a cara enfiada num livro. Pois bem: um desses contos edificantes contava a história de um palhaço que fazia muito sucesso, toda noite lotava o circo. Um dia a família dele se envolveu num acidente, a mulher e a filha morreram. Na mesma noite ele estava com a cara pintada no picadeiro, e todos concordaram que tinha sido seu melhor desempenho em anos.

Não é que eu concorde com aquele clichê besta, “o palhaço é a figura mais triste do circo”. Duvido que ele seja mais triste que a mulher barbada, por exemplo. O que eu acho é que quem vive de fazer graça o faz muito melhor quando está triste. Pelo menos eu sou assim.

E por que eu estou contando esse leriado todo pra vocês? Porque o pessoal da produtora do Selton Mello me mandou um e-mail perguntando se eu podia divulgar aqui no blog o novo filme dele, “O Palhaço”. Como eu não sei fazer essas coisas sem ter um contexto, fiz esse nariz de cera enorme aí em cima.

Não estou ganhando nada pela divulgação (não que vocês tenham alguma coisa a ver com isso). Achei legal terem lembrado do JMC para isso. Os tempos de glória deste blog, se um dia existiram, já foram para o caralho. Além disso, gosto do Selton Mello. É um bom ator e parece ser uma boa pessoa. Além de divulgar o filme em blogs decadentes, o Selton Mello também fez uma página do filme no Facebook. É ele mesmo quem atualiza. Diz a moça da produtora: “Nesse filme ele coloca em questão a crise existencial que todo mundo passa durante uma etapa da vida e relata isso de uma forma bem leve, doce, quase poética”. O que isso quer dizer? Não faço idéia. O filme, escrito, dirigido e estrelado pelo Seltinho (não perguntem), estréia dia 28 de outubro. Acho que vou assistir. Não só porque gosto do Selton Mello, mas porque gosto de ver o que os cineastas brasileiros andam fazendo com o dinheiro dos meus impostos.

Ai, gente, com eu sou revoltz.

 

 

“Deus proverá” era a frase do meu pai. A frase é de Abraão, na verdade. Quando Javé pediu a ele que sacrificasse Isaque, seu único filho, Abraão nem piscou: acordou Isaque, disse que ia oferecer um sacrifício e os dois saíram de casa. No meio do caminho, meio desconfiado, Isaque perguntou onde estava o bicho que iam sacrificar. “Yahweh-yireh” foi a resposta de Abraão — Deus proverá. Yahweh-yireh é um dos nomes do Deus de Israel. Era esse o Deus do meu pai — não importava o quão difícil fosse a situação, não importava o beco sem saída em que a gente se metesse: o Deus dele sempre ia dar um jeito. E ele nem precisou ameaçar sacrificar um de nós.

Quando precisava correr, meu pai corria com a mão sobre o peito, para impedir que os documentos e o pente pulassem do bolso da camisa. É uma imagem recorrente nas minhas memórias mais antigas: meu pai correndo de mão no peito.

“O que que a gente faz agora, pai?”, eu perguntei quando minha avó materna morreu. “Eu não sei”, foi a resposta dele. Foi a primeira, talvez a única vez em que eu vi meu pai tão triste a ponto de não ter uma palavra de conforto para nós. Foi das poucas vezes em que o vi chorar, também.

Meu pai nunca teve um time. O engraçado é que ele gostava muito de futebol. Quando foi para a Congregação Cristã do Brasil, ele parou de ver televisão. Mas sempre que tinha um jogo passando ele parava um pouco na sala, comentava um lance qualquer, saía. Aos poucos essas paradas pra ver jogo foram aumentando: ele se sentava no braço do sofá para ver uma cobrança de falta, depois começou a ver replays, um tempo aqui, outro ali. Dizia que era ponta direita — “dos bons!” — do time da fazenda onde cresceu lá na Bahia. Eu acredito: depois da história do capoeirista, eu nunca mais ousei duvidar de nada que ele me dissesse.

Eu sempre tive insônia. Ficava na sala de madrugada vendo qualquer bosta na televisão. Lá pelas tantas, ouvia os passos do meu pai vindo do quarto. Ele entrava na sala de braços cruzados, meio encolhido de frio. “Dormir, Marco. Olha a hora.” “Já vou, pai.” Ele voltava para o quarto, eu ouvia os passos dele se afastando.

Meus irmãos nunca tiveram insônia. Dormiam no carro vindo da casa da minha avó, dormiam no sofá. Meu pai carregava eles pra cama. Lembro dele carregando minha irmã no colo quando ela tinha uns 12, 13 anos de idade, e quase o tamanho dele. Eu sentia um pouco de inveja: queria ter sono pro meu pai me carregar até a cama. Nunca tive.

Por volta dos 60 anos de idade, meu pai começou a usar óculos para leitura. Botava aqueles oclinhos pra ler a Bíblia. Quando estou na casa da minha mãe, entro no quarto dela e espero encontrá-lo sentado na cama de Bíblia no colo, encostado em um travesseiro apoiado na cabeceira, olhando pra mim por cima dos oclinhos.

Quando a gente era pequeno, meus pais compraram cobertores novos para mim e minha irmã (meu irmão nem era nascido, eu acho). Compraram e disseram que só iam dar os cobertores quando a gente se comportasse direitinho. Um dia eu combinei com a minha irmã de pedir a bênção aos dois antes de dormir. “Bença, mãe. Bença, pai.” Os dois se olharam, sorriram e nos entregaram os cobertores. Foi uma alegria imensa; alegria besta de criança. Fiquei com meu cobertor a vida inteira, trouxe ele comigo quando casei. Dia desses um cara tocou campainha aqui. Estava dormindo na rua com a esposa e um filhinho, queria saber se eu não tinha um cobertor. Dei meu cobertor a ele. É o que meu pai faria. Mas foi triste.

Meu pai caiu em muitos golpes, foi muito explorado por acreditar nas pessoas. E continuou acreditando. Inabalável.

Quando ia orar em voz alta na igreja, meu pai sempre começava a oração com “Santo Deus, Eterno Pai Celestial”. Depois de muitos anos, mudou para “Santo Deus, Eterno Pai Celeste”. Eu sempre quis perguntar o porquê da mudança; nunca perguntei. Achava mais bonita a métrica da primeira abertura.

Depois que meu pai saiu da igreja Batista, eu continuei. O pastor que me batizou, Obede, me contou uma história tempos depois. Havia um grupo formado por pessoas mais velhas da igreja que estavam descontentes com o pastor. Esse grupo andava se reunindo ora na casa de um, ora na casa de outro. Um dia foram se reunir na casa de um de meus tios e chamaram meu pai pra participar. Ele chegou, viu aquele pessoal lá, perguntou de que se tratava. “É sobre a igreja.” “E cadê o pastor?” “O pastor é parte do assunto.” “Então esperem aí que eu vou buscá-lo” (meu pai falava assim mesmo, “buscá-lo”). Ele foi até a casa do pastor, disse que havia uma reunião acontecendo e o levou até lá. Meu pai não suportava trairagem. Detalhe: de todos, ele devia ser o que mais discordava do pastor. Mas preferia falar isso na cara dele.

Ele sabia que não tinha nenhum controle sobre a própria vida. Quando alguém o convidava para qualquer coisa, por mais banal que fosse, a resposta do meu pai era sempre a mesma: “Se Deus preparar, estarei lá”. Quando fazia planos, terminava as frases com “mas Deus é quem sabe de todas as coisas”.

*   *   *

Desde que meu pai morreu, meu maior medo é esquecer de como ele era. Coisas assim me ajudam a lembrar.

Hoje é Páscoa, dia muito adequado para ressuscitar o JMC. Ando deprimido e Ana Cartola diz que eu preciso encontrar algo que goste de fazer. O problema é que ultimamente eu não gosto de fazer nada. Então pensei: o que é que me dava prazer antes quando eu estava triste?, e lembrei aqui do véio JMC. Resolvi voltar, então.

Pensei muito antes disso. Um pensamento só, na verdade: será que meu pai se ofenderia se lesse este blog? Acho que não: eu e ele temos isso em comum, essa intimidade com os personagens da Bíblia. Meu pai, eu já contei aqui, comia pão com peixe e dizia: “Isso me lembra de quando Cristo multiplicou os pães e os peixes. Dois peixinhos, cinco pãezinhos: cinco mil pessoas comeram e ainda sobrou pão e peixe pra elas levarem pra casa”. Era como se ele tivesse estado lá. E assim ele era com Moisés, Davi, Paulo, João Batista, Daniel: contava histórias deles do mesmo jeito que contava histórias da infância em Monte Santo.

Mas mais do que isso, meu pai acreditava que todas as coisas eram segundo a vontade de Deus. Já recebi muitos e-mails e comentários de leitores cristãos dizendo que a minha versão da Bíblia os fez entender alguns trechos mais obscuros. Esses leitores dizem que Deus me usa para clarificar a mensagem dele. Eu às vezes gosto de fingir que acredito nisso: que existe um Deus, e que ele quer que eu tire sarro da Bíblia. Que meu pai está lá com esse Deus agora, e com os amigos que ele nunca conheceu aqui na Terra: Moisés, Davi, Paulo…

*   *   *

Para reabrir os trabalhos, um negócio que eu escrevi sobre ressurreição uma vez:

E há também a ressureição, é claro. Porque, vejam, hoje em dia você dizer que Jesus ressuscitou ou não dá no mesmo, ao menos em lugares razoavelmente civilizados. Porém, quando o cristianismo começou, professar essa certeza significava ser crucificado, ou comido pelos leões, ou exilado numa ilha remota até ficar maluco ou, na melhor das hipóteses, condenado a uma prisão domiciliar perpétua, que foi o que aconteceu a São Paulo. E, apesar disso, dezenas e dezenas de homens e mulheres continuaram afirmando que o tal judeu que morrera poucos anos antes era filho do único Deus existente, e que ressuscitara ao terceiro dia. Ei, há algo de errado aí. Pensem em Pedro, por exemplo. Pedro andou com Jesus o tempo todo. Devia ser seu discípulo mais chegado, se repararmos no quanto Jesus tirava sarro do coitado. Então: quando chegou a hora do vamos ver, Pedro não titubeou em fazer todas essas afirmações perigosas. Ora, se a ressureição fora um embuste, que razão o pescador teria para manter essa posição? Será que ele estava doidinho para morrer crucificado de cabeça para baixo?

E Tiago, então? Tiago era irmão de Jesus. E quem tem irmãos sabe bem que eles não vão dar muita trela para o que você fizer. Não sei se Einstein tinha irmãos, mas vamos supor que tivesse: aposto que o irmão de Einstein achou todo aquele negócio de Relatividade, revolução da ciência, nova visão do universo e o escambau apenas “outra bobagem dessas do Albert”. Tiago era irmão de Jesus, portanto devia ser o último a se deixar convencer pela religião fundada pelo primogênito da família. E no entanto, sabem como ele saúda os cristãos em sua epístola universal? “Tiago, servo de Deus e do Senhor Jesus Cristo, às doze tribos da Dispersão, saudações”. Opa, aí está uma coisa que eu queria ver só uma vez: meu irmão se referindo a mim como “senhor”. Mas sabem quando isso vai acontecer? Nunca! Mesmo que um dia eu ganhe o Nobel de Literatura, ou descubra a cura definitiva para as frieiras, ou invente o moto-contínuo, meu irmão só vai olhar e dizer, “Ih, lá vem o Marco com as coisas dele”. Porque irmãos são assim, ora. Então por que Tiago não só se referia a seu finado irmão com o respeito devido a um deus, como ainda afirmou sua ressurreição, sendo levado à morte pela espada por isso? Não é normal, não é normal.

A fé que eu sustentei pela maior parte da minha vida era herdada de meus pais. Esse tipo de crença não se sustenta, e estou feliz por tê-la abandonado. Agora, porém, reconheço a possibilidade de voltar à fé por um caminho mais difícil e totalmente inesperado. E talvez não, talvez seja só minha cabeça me pregando peças. Eu sei lá. Nada no universo me leva a crer nem por um instante que exista algum tipo de deus, mas essa questão toda de Jesus Cristo me apoquenta diariamente.

Leiam o post todo, se puderem. Não é particularmente bem escrito, mas é muito atual para mim.