Jesus, me chicoteia!

Coisas escritas na categoria ‘Críticas’

Direitos iguais

Nessa conversa toda sobre arrogância (que descambou para uma discussão sobre espiritismo; deus-me-livre de falar mal do espiritismo), lembrei de um sujeito que trabalhava comigo. Bom, não exatamente: eu trabalhava numa empresa grande, o tal sujeito era da subsidiária carioca. Assim que nos conhecemos (juro, logo depois de apresentados) ele olhou para minha barriga e disse:
— Precisa se cuidar, hein, bicho? Jogar um futebolzinho, pedalar. Não pode ficar gordão assim na sua idade, rapá! Olha o coração, olha o coração!
Eu pensei em várias respostas, mas me contentei em mandá-lo tomar no cu mesmo. O que mais me espantou, porém, foi a falta de reação das outras pessoas presentes. Ninguém se mostrou minimamente constrangido diante daquela clara invasão.
Depois dessa, passei a considerar a possibilidade de começar a agir assim, partindo do princípio da igualdade de direitos. Da próxima vez em que ouvir alguém falando uma bobagem, ou que ler algo horrendamente escrito num blog (ou nos comentários deste blog, algo muito comum), ou qualquer coisa assim, terei o direito de comentar:
— Precisa se cuidar, hein? Ler um livro que não seja espírita, assistir a uns filmes, sei lá. Não pode ser burro assim não, mano! (sou paulista) Olha o cérebro, olha o cérebro!

Apologia da arrogância

Me pergunto qual a patologia de uma pessoa que acusa outra de ser arrogante. Nunca acusei ninguém disso, nem mentalmente; de burro, sim, de idiota, de vulgar, de fresco, de cretino; mas nunca de arrogante, porque a arrogância é uma vaidade alheia que nos desagrada, uma vaidade que parece prestes a humilhar a nossa. Ninguém humilha a minha vaidade.
(Alexandre Soares Silva)

Arrogância
? substantivo feminino
1 ato ou efeito de arrogar(-se), de atribuir a si direito, poder ou privilégio
2 Derivação: por extensão de sentido.
qualidade ou caráter de quem, por suposta superioridade moral, social, intelectual ou de comportamento, assume atitude prepotente ou de desprezo com relação aos outros; orgulho ostensivo, altivez
3 Derivação: por extensão de sentido.
atitude desrespeitosa e ofensiva em atos ou palavras; insolência, atrevimento, ousadia
(Houaiss)

Descobri hoje na faculdade que algumas das pessoas mais agradáveis da sala me acharam arrogante nos primeiros dias. Senti-me ofendido. Por que cargas d’água deixaram de achar?
É engraçado. Nego tem um bíceps do tamanho da minha cabeça, anda por aí de regata e ninguém diz nada (ah não ser as moças, que suspiram por ele, ou os invejosos, que cochicham sobre o tamanho do pau do rapaz). Uma portadora de belos peitos faz questão de exibir as tetas em profundos decotes, e está tudo muito bem (muito, muito bem). Agora, tente citar Dostoiévski. Tente desprezar o que é reles e chão (como livros espíritas, de auto-ajuda e Dan Brown). “Arrogante!”, berram as hordas horrorizadas, já de tocha na mão. Ah, vão à merda!

Há uma comunidade no Orkut chamada Eu sou arrogante. Em sua descrição, uma frase de Schopenhauer:

Quem fez da modéstia uma virtude esperava que todos passassem a falar de si próprios como se fossem idiotas.

O brasileiro valoriza muito a modéstia. O brasileiro é idiota. Coincidência? É foda não ser idiota neste país.

No último post, algumas pessoas (inclusive meu querido Giggio, sempre me criticando e discordando de tudo que eu digo, o safado) vieram defender a diversidade e coisa e tal. Bem intencionados, não querem que eu seja arrogante (provavelmente para não reencarnar como ácaro). Então me vem um tal LP e sapeca:

Leiam Vonnegut, esqueçam Kardec, e ler Paulo Coelho é ser analfabeto. Semi-analfabeto, pelo menos.

Santo e arrogante LP. Obrigado, LP. Leiam Refluxo Gástrico, o blog do LP.

É o fim

Eu escrevi chinguei. Assim, com ch.
Adeus.

Pretensioso que sou, assino embaixo

FOLHA – Houve um retrocesso no humor brasileiro com relação aos anos da ditadura?
JAGUAR -
Sim. Essa coisa de não poder chamar crioulo de crioulo, por exemplo. Fui casado dez anos com uma crioula. Não é pejorativo. Não vou começar a dizer que casei com uma afro-descendente. É uma hipocrisia.
Mas a maioria dos humoristas hoje é muito certinha. Criou-se um limite e, se a gente passa um pouco, leva pito. Eu não levo mais porque sou velho e sou o Jaguar. Aí as pessoas dizem: “Ah, é o Jaguar, deixa ele”.

Daqui.

Parceria inovadora

O Google e o iG anunciaram hoje uma parceria de colaboração tecnológica. Levando-se em conta isso e isso, só posso chegar a uma conclusão: acabou a era da internet. Chegamos finalmente ao ápice da história da humanidade, a era do fax.

Cara. Eu odeio fax.

Maldito fax!

Vocês sabem do meu ódio por essa ferramenta obsoleta chamada fax. É um equipamento típico de empresas de outrora, d’antanho, do tempo do onça. Pois imaginem minha surpresa ao receber um e-mail do Google dizendo que vai haver uma mudança na forma de pagamento de seu programa de anúncios, e que eu deveria enviar informações bancárias por fax.

FAX!

O GOOGLE!

Então pensem comigo: se a empresa que quer dominar o mundo, que tem como um de seus vice-presidentes o tiozinho surdo conhecido como pai da Internet, prefere que seus parceiros enviem informações por FAX, eu começo a repensar seriamente meus conceitos. Se o Google não confia na Internet, por que eu vou confiar?
Seguinte: este blog está morto. A partir de hoje, datilografo meus posts e mando pra vocês. Por fax, claro.

Ganhei!

Lembram-se do furdunço com o iG e o Santander? Aquele negócio de mandar fax e ser mal atendido? Então: resolvido. A reclamação que eu registrei contra o Santander no site do Banco Central deu resultado. Esta semana o banco depositou o dinheiro na minha conta, um valor muito maior do que eu esperava.
Minha irmã trabalha no iG, meu irmão trabalha no Santander, e eu sou editor de um site chamado Consumidor Moderno (em breve com nova cara). Pois não fui aporrinhar meus irmãos nem dei carteirada de jornalista em ninguém. Resolvi tudo pelos meios convencionais.
Imaginem se, por exemplo, eu tivesse pedido uma forcinha pro meu irmão. Todo correntista do banco que eu conheço ia querer encher o saco do moleque. Ou que eu publicasse uma reclamação no site ou na revista Consumidor Moderno? Todo mundo ia querer que EU resolvesse suas pendengas por aí.
Então, o que aprendemos hoje, crianças? Aprendemos que problemas podem ser resolvidos sem precisar de jeitinho nem forcinha. É assim que se constrói um país sério.
Por hoje é só. Até a próxima lição.

Desenterrando os caloteiros

Todos os dias surge na lista de de espera por aprovação algum comentário feito num post antigo. Até aí, nada demais: nego chega aqui pelo Google, cai de pára-quedas numa página arquivada qualquer, aproveita e sapeca lá seu comentário. No caso em questão, no entanto, me chamaram a atenção dois detalhes. O primeiro é que se tratava do post Caloteiros do quê?, publicado em maio de 2002, em que eu protestava contra uma matéria da revista Época. O comentário atrasado, provável fruto de uma reportagem da Veja desta semana em que são desfiadas todas as pilantragens do pio casal:

muito racional tudo o que você disse, querido. é bom ver que, mesmo você não conhecendo a bispa e o apóstolo pessoalmente, você se esforçou em os não julgar. é difícil mesmo achar alguém que pense dessa maneira. Claro que o meu amor pela vida deles dois é muitíssimo grande e eu tenho aqui a minha opinião sobre eles, mas isso não quer dizer que eu ache que você tenha que achar o mesmo. E mesmo você não achando o mesmo que eu, você não se deixou levar por isso e foi coerente, pesou as coisas. Muito legal. Valeu pela racionalidade nesse momento. Quisera todos fossem assim, pelo menos em situações comoventes como essa. Fica com Deus, querido.

farizeu naoo!! haha juzinha

O segundo detalhe é que esse post, jogado no limbo há tantos anos, tem recebido comentários esporádicos, provavelmente de gente que procura os tais servos de Deu$ no outro Deus. É engraçado notar a polarização do troço: ou são os seguidores do apóstata apóstolo e da besta bispa, babando-se de amor zeloso por seus líderes, feito ovelhas hidrófobas, ou são anti-evangélicos raivosos, com os olhos injetados de sangue e a boca pingando veneno.
Nenhum dos lados domina o idioma pátrio, é claro.

Enfiem o diploma no cu

Jornalista é uma raça do inferno. Nos bastidores, muitos coleguinhas queridos torcem o nariz diante do fato de eu ser editor de dois sites (em breve reformulados) sem ter diploma de jornalismo nem de qualquer outra coisa. Tempos atrás, um sujeito até comentou no Pérolas que eu ficava “pagando de jornalista gatinho” nas coletivas de imprensa. Confesso que cheguei a me incomodar com isso, tanto que até me esforcei ao máximo para passar no processo seletivo da Uninove (com o Bernardinho fungando no meu cangote).
E eis que hoje, por acaso, descubro que Ricardo Feltrin, editor-chefe da Folha Online, não é formado em jornalismo nem em nada. Assim como eu, começou várias faculdades e não concluiu nenhuma.
Então eu digo: se ele pode, eu posso. Foda-se o corporativismo besta dos jornalistas que se acham sacerdotes. Vou lá fazer a tal faculdade só porque eu sei que os idiotas sempre vencem, e que mais cedo ou mais tarde algum deles vai pular na minha frente exigindo o documento. Que será apresentado depois que eu limpar a bunda com ele (o diploma, não o idiota).

Offshoring pra boi dormir

“Estamos no mesmo fuso horário que os americanos”. Esse, vejam que coisa triste, é o principal argumento dos executivos brasileiros para a crença na transformação do país num grande centro global de offshore, especialmente para desenvolvimento de software. Explico: empresas de países desenvolvidos perceberam que o processo de criação de programas de computador poderia ser desmembrado, e a parte mais chata do trabalho feita por profissionais cuja hora de trabalho custa muito menos do que na sede dessas empresas. Índia e China despontaram como potências do offshoring. Como esses dois países ficam do outro lado do mundo, os brasileiros se saíram com essa: estamos aqui do lado, mesmo fuso, é só ligar e nós atendemos. Pergunte a um desses executivos por que, então, o país não abocanha sua fatia desse mercado. Xi, é uma choradeira danada: é o governo que não apóia, é a carga tributária, são os encargos trabalhistas, são os gringos que não confiam na gente, é Deus que se esqueceu de suas origens e virou americano.
Nunca entendi esse negócio do fuso horário. Porque, vejam, o processo de desenvolvimento de software envolve várias etapas. Na parte de desenvolvimento propriamente dito, podemos citar programação, testes e homologação. Ora, suponha que um certo módulo de um novo software requeira 8 horas de programação, 4 de testes e 4 de homologação. Terceirizando a programação para a Índia ou China, o serviço será feito enquanto é dia por lá, enquanto os americanos dormem. Quando eles acordam e vão trabalhar, já têm código pronto esperando por eles e pelos testes e homologação. O fuso horário oposto é, portanto, uma vantagem: terceirizando esse serviço para o Brasil, por exemplo, testes e homologação seriam feitos em dias alternados, já que seria necessário esperar o trabalho dos brasileiros.
É tão óbvio que desconfio da sinceridade de quem cita o fuso horário como grande vantagem competitiva. Será que esses caras estão querendo é corte de impostos e informalização das relações de trabalho? Se for isso, estou com eles. Desconfio, porém, que há mais que isso. Acho que nego está querendo é um dinheirim do governo. Os cineastas podem, por que não os empresários de TI, não é mesmo?

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