Bolha, bolha, olha a bo-lha!
Marco Aurélio Gois dos Santos | 04/04/2008 | 01:22 | 19 comentários
Dizem que escrever diálogos é um troço(ó) muito difícil. Eu acho fácil, mas isso não quer dizer nada: talvez meus diálogos sejam um troço(ô), e a arrogância me impeça de perceber isso. Talvez seja porque eu vá enfielirando as falas, enquanto a maioria das pessoas quebra a cabeça atrás de verbos dicendi originais a cada travessão. Os verbos dicendi, aliás, merecem um parêntese grandão.
(Aqui no Brasil, os jornalistas têm um problema sério com verbos dicendi. Leia uma notícia da gringolândia, qualquer notícia: eles usam o verbo “to say”, e só. Um ou outro arrisca um “declare”, mas é raro. Aqui no Brasil é o cão: o sujeito diz, depois fala, depois declara, aí explica, então comemora, espanta-se, lembra, destaca, provoca, às vezes chega mesmo a regozijar-se. “‘Foi um resultado inesquecível’, mija-se todo fulano”. E no final, é claro, ele encerra, finaliza ou conclui, mesmo que não tenha concluído nada. O jornalista não sabe como terminar a matéria, então passa a responsabilidade para o entrevistado. “‘Eu gosto de sopa’, conclui, sorrindo, sicrano”. Reparem.)
Mas eu ia dizendo: se escrever é difícil, narrar um diálogo parece impossível. As pessoas se enrolam para contar uma conversa, mesmo a mais besta. Eu soluciono fazendo vozes diferentes — geralmente, a voz cheia de confiança, wit, aplomb e outras veadagens é minha, a voz de retardado é do interlocutor. Mas o povo por aí se perde. Prestem atenção quando ouvirem alguém contando um diálogo que teve ou testemunhou. “Aí eu peguei e falei assim”, “aí ela pegou e falou assimmmm…”, “aí eu virei pra ela e falei assim”, “aí, sabe o que ela fez? Pegou e virou pra mim e falou assim”. Meu Deus, o que esse povo tanto pega? Parece que essas conversas têm todo um protocolo: só fala quem pegar um negócio qualquer, um bastão, sei lá. “Aí eu peguei e falei assim, ei, cala a boca, o bastão está comigo, é minha vez!”. E o que tanto elas se viram? Deve ser cansativo conversar assim, se virando e pegando coisas a toda hora. Como conseguem se concentrar no diálogo?
“Eu, hein…”, finaliza Marco Aurélio.
Opa! Vários leitores interessados no barbear clássico. Pois bem, achei esse produto à venda no Mercado Livre. O vendedor tem boa reputação, o produto é novo, feito na China (de quebra, descobri que meu Flying Eagle é de uma marca tradicional chinesa, e tem reputação de agressivo. Ou seja, não me cortei apenas por conta da falta de coordenação motora). Apesar de anunciado como Gillette, descobri que se trata de um aparelho da marca Weishi. Andei pesquisando, e parece ser um aparelho ideal para iniciantes: não muito agressivo e parecido com o clássico Gillette Super Speed. Já reservei o meu. Vão lá, e pesquisem outros modelos também.
Quem estiver a fim de vôos mais altos, pode procurar por “safety razor” no eBay (tem alguns Parker bem bonitos, além de algumas relíquias) e na Amazon (procure pelos Merkur — esse, esse, esse). Se escolher comprar na Amazon, aproveite para encomendar uma caixa de lâminas também, que é bem baratinha. Caso queira fazer a festa completa, aproveite para comprar sabão ou creme, pincel, caneca. Acreditem, vale a pena.
— A pata fica quieta quando bota ovo, enquanto a galinha faz um escândalo danado. Por isso o ovo de galinha é tão mais popular.
Esse conselho em forma de semifábula me foi dado por Jacques Meir, publicitário e velho colega de trabalho, com quem já briguei muito (já briguei muito com todo mundo que conheço). Com isso, ele quis dizer que eu deveria fazer mais alarde sobre o andamento dos meus projetos. Segui o conselho, e agora vivo cacarejando pela empresa.
Jacques sabe do que está falando. O sujeito entende de propaganda: tem sua agência, já deu aula na ESPM. Agora ele está de projeto novo: o site Propaganda Sustentável, que quer chamar o público para discutir os rumos da publicidade. Lá você pode comentar sobre campanhas abusivas, preconceituosas, mentirosas, ou elogiar os raros bons anúncios. Os textos de análise são do próprio Jacques, e neles você vai encontrar críticas, análises, desabafos, tudo sobre propaganda. Vale a pena a visita e a participação.
Há algo de errado com esta nossa época. Porque vejam, quando eu era moleque tudo quanto era produto anunciado na TV prometia nos tornar mais inteligentes, fortes e/ou sadios. E tome-lhe Biotônico Fontoura, Vitassay, levedo de cerveja, óleo de fígado de bacalhau, Fosfosol. Só que alguma coisa aconteceu no meio do caminho, e hoje em dia parece que todo produto que “faz bem” tem algo a ver com as funções intestinais. São iogurtes com microorganismos patenteados, fibras perfeitamente transparentes e solúveis em água, cereais matinais, pílulas. Olho à minha volta, e parece que todo mundo tem uma só preocupação: cagar.
E isso é o pior? Não, não é o pior. O pior é que o ato defecatório, tornado privado por anos de civilização, de repente virou assunto público. As pessoas falam do funcionamento de seus intestinos no elevador, comentam a cor, o formato e a consistência de suas fezes na hora do almoço, dão receitas de cagatórios no ônibus. É um inferno.
É um mundo de merda, e a merda é o grande assunto em pauta. Mas nós vamos nos entregar? Digo-lhes que não, queridos leitores! Depois de muito pensar nessa situação, levantei algumas respostas sob medida para pessoas inconvenientes que gostam de falar de bosta. Imprimam e guardem na carteira:
— Seu intestino funciona bem?
— Melhor do que minha vesícula, não tão bem quanto o meu baço.
ou
— Melhor do que o seu cérebro.
— Quantas vezes por dia você vai ao banheiro?
— Umas cinco ou seis.
— Nossa!
— É. Me masturbo muito.
— Meu intestino é um relógio!
— Deve ser foda de ver as horas.
— Olha como minha pele está melhor. Foi só começar a comer fibras e regular o intestino.
— Você passou merda na cara?
Enfim, há mil respostas possíveis para cortar o assunto logo de cara. Pensem em algumas e bpostem aí nos comentários.
Passei o dia todo com a impressão de ter esquecido alguma coisa. Pois o leitor Thiagones acaba de me lembrar: este blog completa seis anos hoje. Congratulem-me!
Não acredite em tudo que você lê na internet.
Quando viu os faróis que se aproximavam, sua vida inteira lhe passou pela mente em um instante, como um filme. E ainda sobrou tempo para uns extras. Cenas deletadas, erros de gravação, comentários, essas coisas.
“Que vida besta, meu Deus…”, ele pensou, enquanto o bendito caminhão punha fim a sua miséria.
Vou ali fazer uma polissonografia, com um monte de fios na cabeça, no peito, no rabo. Volto já.