Ei!
O blog tá azul e ninguém diz nada?
O blog tá azul e ninguém diz nada?
Saudações, meu povo. Vocês devem ter reparado que o Jesus chicoteador voltou ali pro topo da barra lateral. Aos poucos, as imagens que tinham sumido vão reaparecer, assim como os arquivos PDF da Bíblia Sacaneada. Tenham paciência, caralho.
UPDATE: Bíblia Sacaneada de volta, cambada.
Olá, meus queridos leitores.
[...]
O vento assovia. Uma porta bate. As teias de aranha balouçam. Grilos, cachorro latindo lá longe etc.
[...]
Bah.
Bom.
Estou pensando em voltar com o blog. É improvável que eu continue com a sátira da Bíblia. Mas às vezes eu sinto saudade de escrever mais do que os 140 caracteres que o Twitter me permite. Além do mais, o Twitter é uma zona. Se o blog é como a casa da gente, que todo mundo tem que respeitar se quiser falar alguma coisa, o Twitter é feito um cortiço: um monte de gente berrando coisas, brigando, lançando indiretas para não-se-sabe-quem, com a língua bifurcada gotejando rancor, todo mundo batendo o pau na mesa.
É uma merda.
Então é isso. Talvez eu volte a escrever aqui. Talvez não. Escrevo quando quiser, sobre o que quiser. E mantenham suas calças no lugar. Por aqui, o único pau na mesa é o meu.
Olá, meus queridos leitores.
[...]
Uma gralha grasna, ou sei lá que barulho fazem as gralhas. Uma coruja diz “Never more”. O corvo reclama que essa fala era dele. Várias aves começam a brigar no Twitter. Putaria do caralho.
[...]
Olá, meus caros leitores.
Eu já me queixei antes que meu trabalho estava ficando muito parecido com o blog. Agora ficou mais ainda: como alguns leitores mais espertinhos já descobriram, estou trabalhando como roteirista do CQC. Isso é muito bom, eu nunca imaginei chegar tão longe. Mas também significa que vou dar prioridade ao programa sempre que surgir uma idéia de piada boa. Se eu mantivesse o blog, ele ia ficar só com as piadas ruins. Não vou fazer isso com vocês.
Não, não é uma brincadeira. Todo mundo tem que saber a hora de parar, e essa hora já passou faz tempo para este blog. Agradeço a todos que leram minhas bobagens nesses mais de sete anos. O blog foi importantíssimo: graças a ele arrumei empregos, conheci amigos e encontrei minha menina. É hora de desligar os aparelhos. Hora de dizer tchau.
Ah, já ia me esquecendo: quem sentir falta pode me seguir no Twitter.
Ô, meu povo. Tem gente reclamando do abandono do blog. Bom, está abandonado mesmo. E vai continuar. Como eu disse, estou de emprego novo e profissão nova. Ainda estou me adaptando, trabalhando pra caralho e cagando de medo. A recomendação é a mesma de sempre: leiam os arquivos, ou vão ler outras coisas, que as coisas aqui no blog vão ficar paradas por um tempo.
Pô! Então o blog completa sete anos e ninguém lembra? Parabéns para mim, fariseus!
Estou vivo; não se matem. O negócio é que voltei ao trabalho semana passada, e a marida e eu estamos revendo Friends — ainda estamos na terceira temporada, então deve demorar um pouco.
Tenham paciência. Acho que vamos ter mudanças por aqui em breve. E textos novos também. Mas não agora.
Dizem por aí que o negócio agora é Web 2.0, social networking, participação, crowdsourcing e não sei mais o quê. Falam até em blogs, vejam vocês, que revolução. Pois bem: eu, que não perco uma modinha por nada, decidi singrar também os mares da Era da Participação. O diabo me convidou para participar de um treco novo, e eu botei pra testar ali do lado. Testem também e me ajudem a descobrir para que serve esse negócio.
Gente, que blog chato!
Segura, que eu vou abrir meu coração. Sentaí, espie.
COMPLICAÇÃO
Depois de três semanas no emprego novo, escrevi minhas primeiras matérias para a revista. Eu vinha escrevendo notas para as newsletters semanais e entrevistando gente para essas matérias. Eu não gosto muito dessa fase de apuração, então foi um alívio chegar à parte que me dava prazer de verdade. Apurar envolvia interação com pessoas, pesquisa, conciliação de agendas. Escrever era um ato solitário: era só deixar a inspiração fluir, derramar fios de ouro pela tela do computador e me recostar para receber os elogios com modéstia fingida.
Só que quando comecei a escrever, percebi que tinha feito todas as perguntas erradas nas entrevistas, que tinha dedicado pouco tempo à apuração e que o texto ficaria capenga. Mas eu tinha um prazo a cumprir, então escrevi. Ao entregar as matérias, avisei logo ao chefe que não estavam lá essas coisas.
No dia seguinte, ele me chamou para conversar sobre os textos. De fato, ele disse, estavam ruins. Muito ruins. Iam sair assim mesmo, porque não dava mais tempo. Mas eu tinha produzido notas boas, era capaz de coisa muito melhor do que aquele negócio disforme.
O chefe é um cara bondoso, então depois me contou histórias de outros repórteres, passados e atuais, que entregaram coisa muito pior da primeira vez. Minha vaidade filtrou essa parte. Eu só conseguia pensar que estava no lugar errado, que nunca conseguiria o que aquela gente queria de mim. Eu queimava de vergonha, e queria sumir da sala, do prédio, da cidade, do mundo.
CRISE EVOLUÇÃO
1. Flashback
Tanto me chamaram de inteligente a vida toda, que eu acabei pensando que era algum tipo de gênio. Eu captava tudo de primeira, com a maior facilidade. Meu cérebro era uma esponja de absorver informação, um computador de processamento rápido, grande capacidade de armazenamento e conectado ao mundo. Não havia para mim pior ofensa do que “esforçado”. “Fulano é muito esforçado”, alguém dizia, e eu logo pensava que o cara era retardado.
Espie.
Eu tive uma bicicleta quando era criança. Tinha aquelas rodinhas atrás. Depois de um tempo, adquiri confiança para tirar as rodinhas, e me equilibrava bem em cima da danada. Então como é que até hoje, aos 33 anos de vida, eu não sei andar de bicicleta?
O negócio é que chegou a hora de aprender a fazer curvas, subir e descer ladeiras, essas coisas. Para isso, eu precisava sair do conforto do quintal dos fundos e ir pedalar na rua junto com as crianças normais. Mas isso implicaria em reconhecer para todo mundo que eu não sabia andar de bicicleta.
Anos depois, criei minha versão do motivo pelo qual não sei andar de bicicleta: um amigo gordo foi me visitar, sentou na bicicleta, ela quebrou. Justo na época em que eu estava começando a aprender de verdade. Meus pais não podiam comprar outra. Fim da história.
A verdade é que meu amigo nem era tão gordo assim, coitado. A verdade é que a bicicleta quebrou porque estava enferrujada, após mais de três anos de abandono.
A verdade é que eu não sei andar de bicicleta porque não suporto admitir minha ignorância.
E esse é só um de muitos casos. Espie.
Lembro um dia, eu estava na segunda série. Cheguei em casa desolado depois de passar o dia tentando entender a divisão entre números de mais de dois algarismos. Depois de dominar sem problemas soma, subtração e multiplicação, sentia-me estúpido perante a divisão. Em casa, comecei a fingir que resolvia as contas passadas pela professora, sem conseguir fazer nada. Meu pai perguntou se estava tudo bem e eu desatei no choro. Demorei para contar a ele qual era o problema. Quando contei, foi com vergonha. Ele me explicou, eu acabei aprendendo. Mas acho que até hoje ele não entendeu nada. E eu até hoje tenho medo de divisões.
Uma vez eu tive febre porque não conseguia fazer uma planilha fazer funcionar direito, e tinha gente esperando a planilha ficar pronta. Não era nada de trabalho. Na verdade, eu estava fazendo um favor para a pessoa. Fiquei com febre a noite inteira.
Eu desisti de duas faculdades e só tirei carteira de motorista aos 30 anos. Tinha uma historinha inventada para isso também. Mas adivinhem qual foi a razão principal?
2. Tentativa e erro
Muita coisa aconteceu no ano em que cheguei aos 30, aliás. Comecei a namorar minha menina, e ela me deu a coragem de que eu precisava para mudar. Aprendi a tratar bem minha família imitando a família dela. Aprendi a dirigir. Pedi demissão e fui ser jornalista.
Isso tudo foi há mais de três anos. Eu me sentia no topo do mundo. Já dirigia relativamente bem — sabia até fazer baliza. Colegas e leitores elogiavam meus textos. Até me casei, vejam vocês.
E então um negócio esquisito aconteceu. Comecei a me sentir dono da situação. O medo de mostrar minha ignorância voltou. Saí do emprego. Fui trabalhar em outro lugar, era muito ruim, saí também. Comecei na nova editora há um mês.
A nova editora é totalmente diferente de qualquer lugar por onde passei antes. O chefe acredita que devemos contar histórias (ou estórias), e nos enche de livros e teorias sobre o ofício de escrever. Eu anoto as lições em papeizinhos que grudo na parede.
Não conte, mostre.
Escada da abstração.
Complicação-crise-resolução.
Sempre pergunte o nome do cachorro.
Ação não é igual a movimento.
Espie.
Eu achava que vinha me saindo bem. A cada semana o chefe editava menos os meus textos, e eu via que estava evoluindo. Aí escrevi aqueles dois textos para a revista, os dois ficaram ruins, o chefe detestou e eu entrei em parafuso.
Mas resolvi que ia me dedicar ao máximo para escrever o próximo texto. Imprimi minhas entrevistas e fiz anotações nas margens. Liguei para os entrevistados mais uma, duas, cinco vezes. Espalhei as folhas das entrevistas pelo chão da redação, e ficava andando por cima delas, lendo, tomando notas e tentando extrair um eixo lógico daquele emaranhado de informações. Os colegas começaram a dizer que eu era o cara do filme Uma Mente Brilhante. Achavam que logo eu ia começar a escrever nas janelas e acusá-los de ligações com a KGB.
Nem liguei. Defini meu tema, Fiz meu esboço, liguei uma última vez para dois entrevistados e comecei a escrever. Pelo final, para assim saber para onde o texto se dirigia. Li, reli, cortei, inseri detalhes, melhorei as cenas, procurei no dicionário as palavras mais adequadas. Às oito da noite, disse ao chefe que estava pronto e fui pegar um café. Sentia-me realizado. Tomei o café, voltei para minha mesa e resolvi dar uma última lida no texto.
Estava uma bosta.
3. Eureka
Peguei o ônibus na intenção de ir para a faculdade; desci antes e peguei outro ônibus de volta para casa. Ir à faculdade para quê? No trabalho é como se eu começasse a fazer as primeiras escalas, solfejar feito um demente, arriscar um “Cai, cai, balão”. Na faculdade, os professores dizem: “O piano é de madeira. Toquem!”. Aí sai aquele monte de BOINK-SHINK-PFUÓIN e eles reclamam: “Que desastre é esse? Eu não disse que o piano é de madeira? Por que vocês não tocam?”. Na faculdade, destaca-se o cara que sabe fazer um acorde, que conhece as teclas, que decorou uma musiquinha e improvisa sobre esse mesmo tema o tempo todo. O cara que não é um ignorante total em termos de piano, mas que também nunca será um pianista.
Por muito tempo eu me conformei com o papel do pianista charlatão. Não mais. Se escrever é minha paixão e também paga minhas contas, eu tenho a dupla obrigação de dominar o ofício. No entanto, depois de um mês de aprendizado, lá estava eu sentado no último banco do ônibus na direção do centro da cidade, cabeça baixa, sem ânimo para ler, só pensando no fracasso de dois textos e na mediocridade de um terceiro. Talvez esse negócio de escrever não fosse para mim.
Mas cheguei em casa, jantei com minha menina, vimos um filme, rimos como sempre. E, assim como na eureka original de Arquimedes, a revelação me veio durante o banho — à uma da manhã.
Não havia nada de errado com o texto, com as frases, com a escolha de palavras. O problema todo era a estrutura. Os dois primeiros parágrafos eram uma enrolação sem-vergonha, uma falta de respeito com o leitor. Se eu movesse o terceiro parágrafo para o começo, já apresentaria logo de cara meus personagens e a situação em que se meteram, e os dois parágrafos vilões passariam a ter a virtude do pano-de-fundo e do flashback. Com a nova estrutura, eu teria como colocar informações dos outros personagens sem forçar sua entrada na história.
Arrá!
Saí correndo do banho e mandei um e-mail para o chefe. “Já leu a matéria? NÃO LEIA!”.
RESOLUÇÃO
Parece que esse negócio de inspiração existe mesmo, mas está longe de cair do céu. Só depois de muito estudar, de muito ler, de muito espremer o cérebro é que ela surge. E surge mais bela e completa ainda, porque é fruto do esforço consciente, e não de processo misterioso, além do meu conhecimento. Esse texto de que falei não vai ter nada de mais. Apenas um texto tecnicamente correto, ou quase. Quem ler, talvez não o classifique como “inspirado”. “Esforçado”, no máximo.
É isso que eu sou agora: um sujeito esforçado.