Jesus, me chicoteia!

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A consagração dos sacerdotes

(Êxodo 29)
— Podemos continuar, Moisés?
— C-claro, J-Jajá…
— Jajá é o caralho, porra! Não abusa, que se não eu acabo com a tua raça. Humpf. Presta atenção aí que essa parte da consagração dos sacerdotes é importante. Olha o que cê vai fazer: Cê vai pegar um novilho e dois carneiros sem defeito, mais um monte de pães, bolos e broas, tudo sem fermento. Aí cê vai botar todos esses pães num cesto e levar até o Tabernáculo junto com o novilho e os carneiros. Cê tá prestando atenção, Moisés? Tá anotando?
— T-tô, po-porra!
— Vê lá, hein? Não vá me fazer merda na hora. Onde é que eu estava? Ah! Cê vai levar essa bagulhada toda pra porta do Tabernáculo. Aí você vai falar pra Arão e os filhos dele se aproximarem, e vai dar banho neles.
— Ah, Ja-Javé! N-não fo-fode!
— Achou engraçado me chamar de Jajá, né? Pois agora vai dar banho em marmanjo, quero nem saber. Depois que eles estiverem limpinhos, cê vai passar talquinho nas dobrinhas do Arão.
— PO-PORRA!
— Hehehe, essa parte aí é sacanagem. Cê vai vestir Arão e os filhos dele com as roupas que vocês vão fazer conforme os desenhos do Clodovil. E não vá se esquecer das cuecas, hein? Se eu vir um bago que seja dentro daquela porra daquele Tabernáculo, eu mato todo mundo, tá entendendo?
— Po-pode d-deixar, não v-vou e-esquecer as cu-cuecas.
— E faz muito bem. Bom. Todo mundo limpinho, de roupinha nova. Aí cê vai pegar azeite e derramar na cabeça do Arão.
— A-azeite? E de-depois? Vi-vinagre? S-sal? Mo-molho Rosé? Um li-limãozinho?
— Porra, Moisés, quantas vezes eu vou ter que te explicar que estou tentando criar uma religião aqui? Uma religião não se faz sem rituais! Precisa de coisas desse tipo aí, ou não vai pra frente. Esse azeite aí é uma demonstração de que o cara foi consagrado para o meu serviço, entendeu?
— N-não.
— Bah, foda-se. Cê vai fazer assim como eu tô mandando e pronto. Não tô bom hoje. Pois bem, onde eu estava? Ah, agora que vem a parte legal! Sabe o que teremos agora, Moisés?
— S-sei. SA-SANGUEEEEEEEEEEE!
— Isso aê! Muito bem, tá aprendendo. Cês vão trazer o novilho pra perto do Tabernáculo e Arão e os filhos dele colocarão as mãos sobre a cabeça do bicho. Aí cê vai degolar o novilho, molhar o dedo no sangue dele, passar o dedo nos quatro cantos do altar e derramar todo o resto do sangue na base do altar. Ai ai, esse papo tá me dando água na boca… Hmmmmm… Aí cê vai pegar toda a gordura que cobre as entranhas do novilho, mais a melhor parte do fígado e os dois rins, e queimar tudo isso sobre o altar, que eu também gosto de comer miúdos.
— Q-que n-nem os pa-padres?
— Não esses miúdos, Moisés. Porra, não me compromete! Tô falando dos miúdos dos animais, o fígado, os rins, essas coisas.
— Ah…
— Prestenção, Moisés, prestenção… Bom, feito isso cê vai queimar a carne, o couro e a merda do novilho fora do acampamento, que isso será o sacrifício pelo pecado de vocês. Depois disso, cê vai pegar um carneiro, os caras vão botar a mão na cabeça dele e cê vai degolar o bicho. Aí cê vai espargir o sangue do carneiro no altar e depois queimar o carneiro inteiro sobre ele. Gosto do cheirinho de carneiro assado, sabe? Então esse aí vai ser meu prato principal. Depois cê vai pegar o outro carneiro e fazer toda presepada de novo, mão na cabeça e degola. Com esse vai ser diferente, pra inventar outro ritual: Cê vai pegar o sangue do carneiro e manchar com ele a ponta da orelha direita de Arão e de seus filhos. E vai fazer a mesma coisa com o polegar direito e o dedão do pé direito de cada um deles: Manchar com sangue desse segundo carneiro. O resto do sangue, cê vai aspergir sobre o altar. Aí cê vai fazer uma mistureba do azeite da unção com o sangue do altar e borrifar essa meleca nojenta sobre Arão e seus filhos.
— P-pra que i-i-isso, Ja-Javé?
— Ai ai ai… Fora o negócio todo do ritual, que parece que cê não vai entender nunca mesmo, serve como diversão pra mim. Imagina só, eu já vou estar de bucho cheio, nada como dar umas risadas pra fazer a digestão.
— T-tá. E o q-que eu fa-faço c-com e-esse se-segundo ca-carneiro?
— Ah, é. Cê vai separar a gordura dele, o fígado, os rins e a coxa direita. Esse aí é o carneiro da consagração, olha que nome bonito. Aí cê vai tirar do cesto um pão, um bolo e uma broa, e entregar para Arão. O mesmo para os filhos dele. Aí eles vão ficar balançando os pães feito retardados, pra eu rir bastante, e depois você vai queimar tudo no altar. Aí cê vai pegar o peito do carneiro pra você.
— P-pra m-mim?
— É, porra. Cê achou que eu ia deixar você fazer tudo isso sem comer nada? Não sou tão ruim assim, pombas.O peito do carneiro é seu, o resto é para Arão e os filhos dele. Cê vai cozinhar esse carneiro e Arão e os filhos vão comer a carne, junto com os pães, na porta do Tabernáculo, que é pra todo esse povo bunda ver e ficar lambendo os beiços. E o que sobrar dessa comilança será queimado, porque é santo e coisa e tal.
— Q-que de-desperdício… B-bom, é s-só i-isso?
— Tá quase no fim, güentaí. Me empolguei com essa parte da comida aí. Todo dia eu vou querer um novilho, que cês vão oferecer como oferta pra eu perdoar os pecados de vocês. Isso por sete dias, que é pra purificar o altar. Feito isso, o altar será considerado santo, por eu já ter comido tanto nele. Depois disso, todo dia cês vão me oferecer dois cordeiros de um ano de idade, um de manhã e outro à tardinha. O da manhã será oferecido com farinha de trigo, azeite e vinho. O da tarde, com cereais. Vê lá, hein? Todo dia, que é pra eu não ficar puto e sair matando todo mundo.
— Cê p-precisa co-comer me-menos, Ja-Javé. Cê tá g-gordo p-pra ca-caralho…
— Bah, e daí? Morrer é que eu não vou, então quero mais é me esbaldar. Agora cê me dá licença que eu vou ali fazer um lanchinho, essa conversa toda sobre comida abriu meu apetite. Quando eu voltar, falaremos do altar do incenso.
— Po-porra, a-ainda t-tem m-mais???
— Relaxa, Moisés. Se sobrar alguma coisa do meu lanchinho, eu trago aqui pra você. Volto já.

As outras roupas dos sacerdotes

(Êxodo 28:31-43)
— Vamos lá, Momô. Olha que linda a sobrepeliz que vocês vão fazer, todinha tecida com lã azul. A abertura para a cabeça será reforçada com uma tira de malha para não rasgar, estilo gola canoa, sabe? Então. Aí aqui em volta de toooooooooooda a barra vai ter umas aplicações assim em forma de romã. Entre uma romã e outra, vão ficar sininhos de ouro.
— Si-sininhos? Po-porra, n-não é vi-viadagem de-demais n-não???
— Momô, o Jajá que quis assim! Fala pra ele, Jajá!
— É isso mesmo, Moisés. Sabe como é, preciso de privacidade. Vai que o Arão chega quando eu estiver, sei lá, vendo uns filminhos pornô? Não pode chegar de surpresa, tem que avisar antes, pra eu poder botar no Discovery Channel e fingir que estou admirando minha criação e essa bobageira toda. Então vai ter esses sininhos na roupa, assim eu saberei pelo barulho quando ele estiver chegando.
— Cê é ch-cheio de mu-mumunhas, Ja-Javé.
— Faço o que posso. Continua, Clô.
— Vamos lá. Vocês vão fazer uma placa beeeeeeeeeem fininha de ouro puro, com a frase “Reservado para Javé” gravada. Essa placa será amarrada na frente da mitra com um cordão de lã azul, como se fosse assim um diadema, sabe?
— P-pra que i-i-isso?
— Ai meu saco. Deixa que eu explico, Clô. Moisés, o Arão vai usar essa placa na testa para eu aceitar as ofertas que ele me trouxer.
— M-mas n-não ba-basta a-aceitar as o-o-ofertas e p-pronto?
— Hum. Tá bom, eu confesso: É que eu achei engraçado isso, o velho Arão com uma placa de ouro na testa, escrito “Reservado para Javé”. Aí quando ele entrar no Tabernáculo eu vou poder sacanear ele, “E aí, minha puta?”, essas coisas. Legal, né?
— Hu-humpf!
— Véio chato da porra… Fala aí com ele, Clô, que eu tô sem paciência com gente mal humorada.
— Sim senhor, Jajá. Bom, para o sacerdote vocês vão tecer uma túnica e uma mitra de linho fino e um cinto bordado, bem bonitinho, assim, ó. E essas aqui são as roupinhas para os filhos do Arão, chiquéeeeeeeeeerrimas. Olha essa túnica! E esse cinto! E essa tiara, não é TUDO?
— Ti-tiara? N-não fo-fode…
— Tiara sim, que Jajá mandou. Vão usar tiara. E vão ficar lindinhos. Depois de vestidos assim, você vai consagrar Arão e os meninos derramando azeite na cabeça deles e… Nossa, estava esquecendo um detalhe im-por-tan-tís-si-mo!!! As cuequinhas! Precisa fazer cuecas pra eles também, tudo samba-canção de linho. Se não é capaz do Jajá ficar puto.
— Fi-ficar pu-puto s-só p-porque o ca-cara t-tá sem cu-cueca???
— Ô, Moisés, cacete! Segue as instruções do Clodovil, é a melhor coisa que cê faz. É claro que eu vou ficar puto se nego entrar no Tabernáculo sem cueca, oras! Imagina o cara lá, de túnica, andando de um lado pro outro com o pinto balançando dentro da roupa? Eu mato o feladaputa! MATO!
— T-tá b-bom, po-porra.
— Humpf! É foda lidar com você, Moisés. Acho que vou te mandar lá pra Ubatuba e contratar o Clô pra ficar no seu lugar.
— Jajá, eu queria MUITO. Mas preciso voltar pra casa, se não o Jorge me mata! E você sabe como é, se ele me mata, o processo cármico fica interrompido, então eu vou ter que voltar mais vezes para cumprir esse ciclo que é a verdadeira engrenagem da vida cósmica, unindo todos os seres num só espírito que é o próprio Deus, não é mesmo?
— Não é porra nenhuma! Deus sou eu! Volta lá pra tua terra, fico com o Moisés mesmo. BAH!
— Eu, hein, Creuza! Quanto recalque! Pode deixar, vou embora MESMO. Tchau, monas!
— A-audácia da bi-bicha, hein, Ja-Javé.
— Não torra, Moisés.

O éfode e o peitoral

(Êxodo 28:6-30)
— E aí, Momô, vamos continuar?
— Mo-Momô é o ca-caralho, m-m-meu no-nome é M-Moisés, po-porra!
— Nooooooossa, que estressadinho! Momô, relaxa e presta atenção aqui. Vou te mostrar como é que vocês vão fazer o éfode.
— É f-foda?
— ÉFODE, Momô.
— Q-que po-porra é e-essa?
— O manto sacerdotal, tolinho.
— E p-por q-que vo-você n-não fa-fala m-manto sa-sacerdotal lo-logo?
— Porque éfode é mais bonito, Moisés. Éfode. Olha que palavra linda, explosiva, sibilante, proparoxítona, um primor!
— T-tá, ch-chega de vi-viadagem, to-toca o b-barco.
— Vamos lá. O éfode será feito de fios de lã azul, púrpura e vermelha, de linho fino e fios de ouro, e enfeitado com bordados beeeeeeem bonitos. Olha o desenho, que lindo. Olha aqui, nas duas pontas do manto vai ter essas alças assim, presas dos lados. E vai ter um cinto também, do mesmo material do éfode. Aí vem o toque mais bonito: Em duas pedras de ágata serão gravados os nomes dos doze filhos de Jacó, seis em cada uma. As pedras serão montadas em engastes de ouro e colocadas assim, ó, nas alças do éfode, representando as doze tribos de Israel.
— Pa-para q-que t-tanta f-frescura?
— Ah, Momô, o Jajá falou que vai ser assim para…
— Deixa que eu explico pra essa besta, Clô.
— C-Clô? HUMMMMMMMMMMMMMM!
— Se fecha, Moisés. Deixa eu explicar esse lance aí das pedras com as doze tribos. Isso aí o Arão vai usar nos ombros para eu sempre me lembrar do meu povo. É foda lembrar de cor, ainda mais com os nomes que Jacó deu aos filhos: Tem um tal de Zebulom, um Naftali, Dã, Issacar, porra, parece a prole da Baby Consuelo. Entendeu?
— E-entendi.
— Pode continuar, Clô.
— Obrigadinho, Jajá. Onde é que eu estava? Ah, do manto é só isso. Esses engastes de ouro serão presos com correntinhas de ouro, desse jeitinho assim. Viu tudinho, Momô? Então pega o desenho, guarda com cuidado. Agora, o peitoral. Ai, ai… O peitoral cês vão fazer com o mesmo material do éfode. Vai ser assim, ó, quadrado com um palmo de lado. E olha que lindo, vocês vão colocar quatro carreiras de pedras preciosas montadas em engastes de ouro no peitoral, três pedras em cada carreira: Um rubi, um topázio e uma granada, uma esmeralda, uma safira e um diamante, uma turquesa, uma ágata e uma ametista, um berilo, um ônix e um jaspe. Olha que lindo que vai ficar, tudo coloridinho e brilhante! Aí em cada pedra será escrito o nome de um dos filhos de Jacó.
— Po-porra, d-de no-novo?
— Não chia, Momô. Nem é você que vai fazer isso, nem tem capacidade. Humpf. Deixa eu continuar, porque o tempo não espera, e todo esse processo cármico que carregamos na nossa jornada por esse planeta maravilhoso para onde Deus nos enviou para cumprir cada um a sua missão de forma que…
— CH-CHEGA! E-essa vi-viadagem i-i-i-irrita!
— Ai, credo! Tá bom, tá bom… Continuando: O peitoral vai ser preso ao manto com correntinhas de ouro. Arão vai usar esse peitoral quando entrar no lugar Santo. Ah, e você vai botar o Urim e o Tumim no peitoral, bem em cima do coração do Arão.
— U-urina c-com o q-quê???
— Xacomigo, Clô. URIM E TUMIM, Moisés. Seguinte: Do jeito que vocês são chatos, vão querer me consultar direto. Já prevendo isso, bolei esse sistema, que na verdade é um jogo de dados simplificado: Duas pedrinhas, cada uma com um lado escuro e um lado claro. Sempre que Arão entrar no Tabernáculo para me consultar, vai fazer a pergunta e jogar as duas pedrinhas. Os dois lados escuros pra cima significam não, os dois lados claros significam sim. Se ficar um escuro e um claro, a pergunta fica sem resposta.
— Pe-peraí, n-não e-entendi. P-pra que e-esse ne-negócio d-de pe-pedrinhas? P-por que vo-você n-não r-responde di-direto?
— E vou perder meu tempo com os problemas de vocês, Moisés? Faça-me o favor! Tenho mais o que fazer. Vai por mim, é fácil enrolar esse povo. É só não chamar as pedrinhas de pedrinhas, porque aí vira esculhambação. O negócio já vai ser numa tenda, se o povo souber que Arão vem me consultar jogando pedrinhas, aí fode tudo: Vão botar placa na frente do Tabernáculo, “Pai Arão: búzios, tarô, amarração para o amor”. Não, não: Chamem as pedrinhas sempre de Urim e Tumim, pra dar um ar misterioso, sobrenatural, místico. É puro marketing, Moisés! Sem isso ninguém vai pra frente. Marketing, marketing!
— T-tá b-bom, t-tá b-bom… Co-continua a-aí o ne-negócio d-das ro-roupas, C-Clô.
— ME CHAMOU DE CLÔ!
— Ch-chamei na-nada!!!
— Chamou sim!
— A-ARGH!
— Ai, que bom que estamos nos entendendo, Momô. Já estamos no final, viu? Fica calminho…

As roupas dos sacerdotes

Clodovil

(Êxodo 28:1-5)
— Pois muito bem, Moisés, negócio seguinte: Cê vai separar do povo o seu irmão Arão, e também os filhos dele, Nadabe, Abiú, Eleazar e Itamar, para que me sirvam como sacerdotes. Só que para isso eles vão precisar de roupas que dêem a eles dignidade e beleza. Então passamos agora ao curso de corte e costura.
— V-vai d-dar uma d-de e-estilista, Ja-Javé? E-essa eu q-quero v-ver…
— Tá me estranhando, Moisés? Eu sou um deus macho, porra! Cê acha que eu vou dar uma de costureiro a essa altura da minha vida?
— U-ué, mas cê fa-falou q-que…
— Eu falei que agora vamos passar para essa parte de confecção e tal. Mas não disse que eu ia te passar o desenho das roupas. Para isso eu contratei um cara que tava desempregado aí, precisando de uma força. O pobre coitado conseguiu ser demitido de todas as emissoras de TV, e você sabe como bicha velha tem tendências depressivas. Clodovil! Vem aqui pra eu te apresentar ao Moisés.
— Oi, Jajá. Ah, você que é o Moisés, né? Hum…
— J-J-J-JAJÁ??? HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!!!
Numfode, Moisés…
— Olha, Moisés, você não pode se mover pelo preconceito, porque somos todos iguais, não é mesmo? Hoje eu sou eu e você é você, amanhã pode ser que você seja eu e que eu seja você, porque é tudo um processo cármico que se desencadeia e que torna a todos irmãos, de modo que todos devem viver em harmonia, sob a proteção de um mesmo pai. Que vem a ser o Jajá.
— Tá, tá, vamos logo ao que interessa.
— Calma lá, bofe! Tá pensando o quê? Eu vim lá de Ubatuba até aqui só pra isso e não estou reclamando! O Jajá me convenceu a aceitar esse emprego. Eu não queria, mas sabe como é o Jajá, tem essa coisa toda dele de saber convencer as pessoas, falou que se eu não viesse ele ia matar todos os viados, aí já viu, né? HAHAHAHAHAHA. Mas vamos lá. Você vai chamar toooooooodas as costureiras do povo de Israel para confeccionarem essas roupas que eu vou desenhar agora. Peraí, deixa eu pegar minha prancheta. Hum-hum… Cadê meus pincéis? MEUS PINCÉIS! Ah, tão aqui. Ui. Cada pincelão, olha só!
— Va-vamos pa-parar de vi-viadagem.
— Noooooooossa, a mona tá nervosa! Olha aqui, presta atenção no desenho e não reclama. Vê só, a roupa vai ter esse peitoral assim… Aí tem o manto sacerdotal, beeem bonito e chamativo… Uma sobrepeliz chiquéeeeeerrima… Uma túnica toda bordada, desse jeito assiiiiiiiiiiim… Uma mitra bem estilosa… E o cinto vai ser assim, ó. Pronto. Tudo de bom, né? Pra essas roupas serão usados fios de lã azul, púrpura e vermelha, fios de ouro, linho fino, miçangas, paetês, lantejoulas, purpurina, plumas de pavão, de perdiz e avestruz.
— Hum… Clodovil?
— Sim, Jajá?
— Será que você não está exagerando não? Os caras vão ser meus sacerdotes, vão ter que impor respeito ao povo. Se as roupas deles forem feitas com essas coisas todas aí, vai virar palhaçada. Se eu quisesse que fosse assim, tinha chamado o Clóvis Bornay pra ser sumo-sacerdote.
— Ai, Jajá, mas não vai ser nada muito espalhafatoso! Só estava pensando numa alegoria de cabeça e um esplendor com plumas. Podíamos até dar nome pra essa obra de arte, Pavão Misterioso Multicor na Côrte de Assurbanípal, ou qualquer coisa assim…
— Porra, Clodovil, não sacaneia. Faz direito a bagaça aí.
— Tá bom, tá bom. Moisés, desconsidera o que eu falei das miçangas pra frente. Humpf.
— P-pô, que pe-pena… Ia s-ser le-legal v-ver o A-A-Arão de t-travesti…
— Ai, vocês não compreendem minha arte. Mas tudo bem, nessa vida a gente não é nada: A gente é TUDO, não é mesmo? HAHAHAHAHA. Amanhã eu volto para dar os detalhes do manto sacerdotal, se Jajá quiser. E ele HÁ de querer.
— Pu-puta q-que pa-pariu, e-essa vi-viadagem v-vai lo-longe…

O altar para os sacrifícios, o pátio do Tabernáculo, o azeite para o candelabro

(Êxodo 27)
— Pô, Moisés, agora ficou fácil. Eu ia levar um tempão pra ficar aqui falando como eu quero o altar para os sacrifícios de dois e vinte por dois e vinte, oco, com uma grelha de bronze, argolas e cabos para o transporte. Agora é só passar aí pro seu aparelhinho e pronto! Que maravilha, a tecnologia!
— É ve-verdade. Ô, bo-bonito e-esse a-altar.
— E mais bonito ainda vai ficar quando estiver coberto de sangue! SANGUE! SAAAAAAAAAAANGUEEEEEEEEEEEEE! SAAAAAAAAAAAAAAAAAAANNNNNN…
— Ca-calma, Ja-Javé…
— Aham… Hum. É isso. Ah, fora esse desenho do altar aí, vou querer também vasilhas para recolher a gordura e as cinzas, pás, bacias, garfos, braseiros, tudo de bronze. Beleza?
— T-tá a-anotado. E de-depois?
— Ah, depois tem o pátio. O Tabernáculo será montado sempre que vocês assentarem acampamento, e em volta dele vocês colocarão cortinas e postes, formando um pátio de 44 por 22 metros. Assim eu fico mais sossegado dentro da minha tenda, sem nego toda hora entrando pra encher o saco. O altar dos sacrifícios será colocado no pátio, em frente à porta do Tabernáculo. Hum, acho que é só. Te falei do azeite?
— Q-que a-azeite?
— Tô vendo que não falei. Fala praquele povinho bunda que é pra eles trazerem o melhor azeite para acender o candelabro todas as tardes. Arão e os filhos dele colocarão o candelabro dentro do Tabernáculo, do lado de fora da cortina que separa o lugar Santo do lugar Santíssimo. O azeite vai ficar queimando ali, perfumando o ambiente até a manhã, que é pra eu relaxar.
— T-tá bom. M-mas po-por que A-A-Arão e m-meus so-sobrinhos?
— Ah, não te falei? Arão vai ser o sumo-sacerdote e os filhos dele serão sacerdotes também. Essa religião que eu tô inventando vai ser organizada, tá pensando o quê? Oras bolas. E por falar nos sacerdotes, agora vamos passar à parte de corte e costura…
— Ah, Ja-Javé, n-não sa-sacaneia.
— Calaboca, Moisés.

O C-c-ca-candelabro

— E a-aí, le-leitores d-do J-Jesus, m-m-mmmmmmmmmm…
— Moisés, que porra cê tá fazendo aqui?
— O-oi, A-A-Arão. D-dei u-um je-jeito de e-escapulir l-lá d-de ci-cima. J-Javé t-tá do-doido.
— Que ele é doido a gente já sabia. O que ele fez agora?
— E-ele t-tá pe-pensando q-que o-ouro d-dá em a-árvore, t-tudo q-que e-ele pe-pede t-tem q-que s-s-ser de o-ouro.
— Bom, mesmo que ouro desse em árvore: No meio do deserto, a gente tava fodido do mesmo jeito. Mas pra que ele tanto quer ouro?
— Ah, e-ele q-quer q-que a g-gente co-construa um lu-lugar de a-a-adoração pra e-ele. E c-com tu-tudo de o-ouro: u-uma a-arca, a ta-tampa da a-arca, u-uma mesa, co-copos, ja-jarras, co-colheres, o ca-caralho a q-quatro. O-olha a-aqui mi-minhas a-anotações, v-vê q-que a-absurdo.
— Tô vendo, Moisés, tô vendo. O cara endoidou mesmo.
— P-pois é. E o-olha o t-tal do ca-candelabro. I-isso aí f-foi a go-gota d’d'd’água, n-nem fo-fodendo que v-vai d-dar p-pra fa-fazer um ne-negócio a-assim, ch-cheio d-d-de…
Moisés!
— Fo-fodeu…
O curso ainda não acabou, Moisés, que porra cê tá fazendo aí em baixo? Pode subir, seu velho sem-vergonha, ainda temos muito o que conversar.
— M-mas Ja-Javé…
Calaboca e sobe logo, porra!
— A-Arão, v-vou t-ter que su-subir. Fi-fica aí c-com as a-anotações, a ge-gente t-tem que d-dar um je-jeito. T-tô i-indo ne-nessa.
— Falô, Moisés, boa sorte. Muito bem, olá, leitores do Jesus, me chicoteia!. Eu sou Arão, irmão e assessor de imprensa do Moisés, que vocês conhecem muito bem. Se Javé tivesse todos os parafusos devidamente apertados em sua divina cachola, eu é que estaria lá falando com ele, não meu irmão gago e meio burro. Mas fazer o quê, o mundo é assim. Quero dizer que é um prazer e um privilégio dirigir-me a vocês sem o intermédio do autor, aquele agnóstico ateísta acéfalo. Quero aproveitar, então, essa oportunidade para contar-lhes minha vida, já que a Bíblia dá tantos pormenores a respeito da biografia de Moisés e quase nada fala a meu respeito. Pois bem, nasci no Egito em… Peraí, peraí. Só agora reparei nas anotações do meu irmão. Cáspita, esse candelabro é absurdo! O cara quer que a gente faça um candelabro de ouro puro. Todo ele: O pedestal, a haste, os cálices. E os cálices vão ter forma de amêndoas, com botões e flores, tudo feito de ouro. Serão seis hastes com três cálices cada, mais o pedestal do candelabro, com quatro cálices. Porra, que complicação! E essa putaria toda de botões, flores, cálices, hastes, tem que ser tudo uma peça só de ouro batido. Fora isso, sete lamparinas para botar no candelabro, com todos os acessórios também feitos de ouro. Porra, quanto ouro será que a gente vai precisar pra fazer um troço desses? Peraí, tá anotado aqui no verso… Ah, um talento só. Um talento dá… TRINTA E QUATRO QUILOS DE OURO! Puta que pariu. Javé tá maluco. Nem a pau que vamos fazer isso aí. Precisamos dar um jeito de contornar essa situação, assim não pode, assim não dá.

Diná é deflorada: A vingança dos filhos de Jacó

— Na edição de ontem do Mesopotâmia Urgente, falamos do homem que está enriquecendo no Egito graças às cheias do Nilo. Hoje veremos como muitas outras pessoas aproveitaram a idéia e… Esperem, acaba de chegar uma notícia às minhas mãos. Parece que houve uma chacina em Canaã. Aconteceu na cidade de Siquém, onde está nosso correspondente para trazer maiores detalhes.
— Não foi bem uma chacina, seria melhor qualificar o que aconteceu como genocídio. A cidade está destruída e deserta. Apenas um homem foi encontrado no meio dos escombros. Estava bêbado e falando coisas incoerentes. Depois de tomar uma ducha fria e um café forte, acabou confessando à polícia que participou do saque da cidade, ajudando os filhos de seu patrão, um nômade rico chamado Jacó, que morava aqui já havia alguns anos, em um terreno cedido pelo apresentador e empresário Senor Abravanel. Estamos com ele aqui. Para resguardá-lo, sua identidade será mantida em segredo. Você pode nos contar o que aconteceu?
— Peraí, esse negócio de identidade em segredo. Vocês não vão colocar aqueles quadradinhos na minha cara e me deixar com voz de pato?
— Sinto muito, estamos ao vivo e não dá pra fazer isso. Mas posso te garantir que essa máscara de Tiazinha e o prendedor de roupa no nariz são suficientes. Por favor, conte sua história.
— Então, rapaz… Meu patrão, Seu Jacó, tem uma filha muito bonita, chamada Diná. Os irmãos dela são muito ciumentos, não deixavam a menina sair de jeito nenhum. Mas você sabe como são as moças nessa idade, aquele fogo na periquita, então um dia, deve fazer uma semana, ela saiu escondida pra ir conhecer a cidade.
— A família do seu patrão não morava na cidade?
— Não, a gente morava em tendas. Mania da família do Seu Jacó, acho que eles gostam de acampar, sei lá. Pois então, a menina foi conhecer a cidade e o príncipe de lá, Siquém, acho que ficou apaixonado pela menina e levou ela pra casa.
— Siquém? O cara tem o mesmo nome da cidade?
— É, não sei se o pai dele botou esse nome na cidade por causa do filho ou se foi o contrário.
— O pai dele era o manda-chuva por aqui, então.
— Isso mesmo. Hamor era o nome dele. Um senhor muito distinto. E Siquém também era um rapaz muito decente. Mas você não conheceu a Diná, a menina era linda demais. Todo mundo tinha vontade, mas Siquém foi e fez. A menina chegou virgem à cidade, e duas horas depois já não era mais. A história se espalhou, Seu Jacó acabou sabendo e contou pros filhos o que tinha acontecido. Ah, os meninos ficaram muito putos com a história toda e a gente logo percebeu que isso não ia acabar bem. E não adiantou nada Hamor ir falar com o patrão.
— Ah, então ele chegou a ir falar com a família da moça?
— Ôpa, foi sim. Ele e o filho. Foram lá para pedir a menina em casamento. Muito honrado da parte deles, eu achei. Hamor falou pro meu patrão que Siquém estava apaixonado pela filha dele, que não falava noutra coisa e queria casar com ela. Propôs que passassem a conviver, e ele daria a mão das filhas aos filhos do patrão, e nós poderíamos viver na terra deles. Mas o mais bonito foi o menino falando, o Siquém. Tava quase chorando. Disse que Diná era a razão da vida dele e que eles podiam pedir o que quisessem e ele daria, pedindo em troca apenas que deixassem ele ser feliz com a menina. Foi bonito, muito bonito mesmo.
— Mas então, por que tudo não se resolveu?
— Ah, você não conhece os meninos… Inventaram que não podiam deixar a irmã se casar com um homem incircunciso, que seria uma vergonha e coisa e tal. Disseram que só aceitariam a proposta deles se eles e todos os homens da cidade fossem circincidados.
— Circuncidados? Que é isso?
— Ah, um costume da família desde os tempos do velho Abraão, avô do chefe. Eles cortam a pele do… Do… Como é que eu vou dizer?
— Do pinto?!?
— É, isso aí. Todo menino que nasce eles cortam a pele do pinto, e todo empregado que vem trabalhar aqui com eles tem que fazer a mesma coisa.
— Negócio esquisito…
— Também acho, mas eles dizem que foi ordem de um deus aí deles. Eu acho é que esse deus falou o negócio só de sacanagem e o velho acatou. O que importa é que o costume pegou, e os meninos se saíram com essa para cima dos caras de Siquém. Hamor e o filho acharam que não tinha nada demais, foram até a porta da cidade deles e chamaram todos os homens para comunicar a circuncisão geral. Não sei se eles gostaram muito da idéia, eu não gostaria, mas cê sabe como é, ordens do rei, que é que cê vai fazer? Além do mais, fiquei sabendo que Hamor explicou tudo direitinho para eles, que se cortassem a pele do pinto o príncipe da cidade ia se casar com a filha do ricaço, e todo mundo saía ganhando. Bom, só sei que todo mundo foi circuncidado naquele dia.
— Peraí, conseguiram passar a navalha no pinto de todos os homens da cidade num só dia?
— Ah, a cidade era pequena… Para você ter uma idéia, nosso acampamento tinha bem mais habitantes que a cidade, contando os servos todos. A única diferença é que eles viviam num lugar fixo, em casas de pedra, e a gente nessas merdas de tendas cheias de goteira, tendo que cagar no mato, sem água encanada, sem luz elétrica.
— Certo. Mas ainda não entendi: Como é que cortar o pinto levou a tamanha tragédia? Infecção hopistalar?
— Não, você ainda não entendeu o que os filhos do patrão estavam planejando. Tudo isso aconteceu há três dias. Na noite de ontem, aproveitando que todos os homens da cidade estavam meio prejudicados por causa da operação, Simeão e Levi, os mais velhos, convocaram a gente pra invadir a cidade. Chegamos à noite e entramos sem problemas. A ordem era para matar todos os homens, e a gente não era doido de desobedecer. Dava dó de ver aqueles marmanjos tentando correr. Acabou que matamos todos eles.
— Hamor e Siquém também?
— Também, coitados. Esses os meninos fizeram questão de matar pessoalmente, e pelo menos sou feliz por não ter presenciado a cena.
— E por que você ficou por aqui?
— Então… Depois que todos já tinham morrido, os outros irmãos vieram para saquear a cidade. Levaram as mulheres e crianças para o acampamento, roubaram os animais e tudo o que havia nas casas. Terminado todo o serviço, eu e mais uns três colegas encontramos vários odres de vinho numa casa e começamos a beber. Não me lembro de mais nada. Hoje de manhã os colegas tinham sumido e tinha polícia pra todo lado. Foi isso.
— Você sabia que Jacó e seus filhos assassinos fugiram durante a madrugada?
— Não tava sabendo não. É assim a vida, a gente trabalha tantos anos pro cara e quando precisa…
— É, rapaz, infelizmente você se deu mal. Obrigado pela entrevista. Guardas, podem levar. Pois é, meus amigos. Uma tragédia nunca vista aconteceu por aqui e os culpados estão desaparecidos. Vamos esperar que ao menos dessa vez a justiça seja feita. E que alguém explique direito esse negócio de cortar o pinto, que eu nunca vi coisa tão estapafúrdia na minha vida.

Que porra foi essa?

Cazzo, entraram no meu blog pra narrar luta. Tá, é verdade que Jacó lutou com deus, mas não lembro desse leriado todo não… Jacó ficou sozinho lá perto do rio. Aí veio um homem e lutou com ele quase até o nascer do sol. Quando viu que Jacó estava levando a melhor, tocou na juntura da coxa dele, deslocando o nervo, e disse:
— Porra, me deixa ir embora que já está amanhecendo.
— Deixo nada, rapaz! Só se você me abençoar. Tô numa situação desgraçada, tô apelando até pra benzedura.
— Qual é o seu nome?
— Jacó.
— Ah! É que tá escuro, acho que vim brigar com o cara errado… Bom, a partir de hoje seu nome será Israel.
— E eu te autorizei a mudar meu nome, cabra safado?
— Eu faço o que quero.
— Ôpa, conheço essa voz. Qual o seu nome?
— Não interessa. Quer que eu te abençoe? Tá bom, sê bento. Pronto, tchau.
O homem foi embora. Jacó percebeu que estivera lutando com deus e chamou aquele lugar de Peniel. Bom, el, como vocês já devem ter percebido, é deus em hebraico. Então isso quer dizer que Peniel significa pênis de deus??? Não, seus hereges! Significa rosto de deus, porque Jacó esteve cara-a-cara com o hômi.
Ah, e Israel significa aquele que luta com deus.

Jacó se isola

Post curtinho.
Naquela mesma noite, Jacó se levantou, acordou as duas mulheres com suas servas e os onze filhos.
— Aê, macacada, é hora. Levanta todo mundo, que vocês vão viajar. Eu fico por aqui.
Depois que todos acordaram, Jacó os levou até o rio Jaboque e os fez atravessar o rio. Feito isso, voltou para onde estava dizendo que precisava treinar.
Treinar? Ué treinar pra quê? Vocês logo saberão…

Jacó envia mensageiros a Esaú

Jacó, como vocês já devem ter percebido, não era besta: Não ia aparecer na frente de Esaú na maior cara-de-pau. Então resolveu enviar mesangeiros ao irmão mais velho, para que dissessem o seguinte:
— Esaú! Que beleza de homem que você está, que olhos, que cabelos, que tórax, que bíceps! Olha, Esaú, temos uma mensagem do teu servo, Jacó. Ele diz que morou com Labão, tio de vocês, esse tempo todo, e trabalhando para ele, enriqueceu. Então ele envia esta mensagem ao senhor, que ele considera como patrão dele, que é para o senhor ficar contente. Ele diz também que vem ao seu encontro, com toda a humildade.
Pois bem, os mensageiros foram dar esse recado a Esaú e voltaram com a resposta:
— Jacó, falamos com Esaú e ele diz que também está vindo te encontrar.
— Ora, mas que beleza!
— É, e com ele estão vindo quatrocentos homens, tudo com sangue nos zóio.
— Epa…
Se Jacó ficou com medo? Se borrou todo! Imaginem, se ele já temia o irmão, que era bem maior que ele, imagine então o medo que sentiu ao saber que Esaú vinha com quatrocentos homens! Certo de que Esaú e seu bando vinham para acabar com tudo, repartiu o povo que andava com ele, assim como os rebanhos, em dois bandos.
— Bom, que Esaú vem pra botar pra foder, disso não tenho dúvida. Mas ele vai destruir um bando e o outro se salva, e espero que seja o meu.
Em momentos assim, a gente sempre busca ajuda onde pode, e por isso Jacó resolveu lembrar-se de deus:
— Ô, deus! Lembra de mim, né? Então. O senhor me prometeu um monte de coisa, que ia me acompanhar pelo meu caminho, que eu seria pai de uma grande nação e tal e coisa. Mas tá vendo agora? Esaú vem aí, e tá com uma raiva danada. Ô, deus, vê aí se me protege, porque tá foda o negócio. Não deixa Esaú me matar não, nem as minhas mulheres ou os meus filhos.
Esse negócio de pedir proteção a deus foi só por garantia. Jacó era um cara prático e sabia que tinha que fazer alguma coisa, e não ficar fiando-se na ajdua divina. Por isso, para amolecer o coração do irmão, reservou para ele um presentinho: duzentas cabras e vinte bodes, duzentas ovelhas e vinte carneiros, trinta camelas de leite com suas crias, quarenta vacas e dez touros, vinte jumentas e dez jumentinhos, trinta Audis e duas Mercedes. Entregou cada manada a um servo e deu ordem a eles que fossem na frente, deixando espaço entre as manadas. Assim, o primeiro que encontrasse Esaú diria:
— Esaú, este é um presente do seu servo Jacó, que vem vindo aí atrás.
Certamente Esaú pensaria “O desgraçado pensa que pode me comprar com duzentas cabras e vinte bodes?”. Aí o segundo servo apareceria com a outra manada e contaria a mesma história, que já aplacaria um pouco a ira de Esaú: “Hum… Duzentas ovelhas, vinte carneiros. Já dá um bom rebanho. Talvez eu mate só o Jacó e deixe a família dele em paz”. Ao receber o terceiro presente, Esaú já estaria se contentando em não matar Jacó, só cortar-lhe as pernas e os braços e furar-lhe os olhos. “Isso porque eu sou seu irmão e não te quero mal, hein?”. Resumindo, o plano de Jacó era esse: água mole em pedra dura etcetera etcetera. Quando Esaú visse os Audis e as Mercedes pensaria “Porra, o moleque virou o Silvio Santos! Ah, aquilo tudo foi bobagem de criança, vou deixar pra lá”. Era isso, pelo menos, que Jacó esperava.
Se foi isso que aconteceu? Ah, esperem pelos próximos capítulos!

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