Jesus, me chicoteia!

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A arma secreta (e ridícula) dos israelitas

(I Samuel 17:12-40)

Os israelitas estavam em seu acampamento, apavorados com a proposta de Golias. Entre eles estavam Eliabe, Abinadabe e Siméia, os três filhos mais velhos de Jessé. O caçula, Davi, ainda não tinha idade para ir à guerra, mas ia ao acampamento todos os dias para tocar sua harpa e fazer o papel de moço de recados entre o pai e os irmãos. Jogo rápido, porque ele tinha que voltar para tomar conta das ovelhas.
Durante quarenta dias Golias desafiou o exército israelita. Todas as manhãs ele vinha até a borda oposta do vale, cruzava os braços sobre o tórax enorme, e bradava seus insultos. Ao final, repetia a proposta: os israelitas deveriam escolher um homem para lutar contra ele, e neste combate estariam decididos a guerra e o destino de ambas as nações. Um dia, preocupado com essa situação, Jessé chamou Davi, entregou a ele dez quilos de trigo torrado, dez pães e dez queijos, e disse ao filho:
— Davi, estou preocupado com seus irmãos. Eliabe é grande e forte, tenho medo de que o escolham para ir lutar contra o tal gigante. Então eu quero que você vá até o Vale do Carvalho levando esse trigo e esses pães para seus irmãos, e esses queijos para o comandante do exército. Veja se Eliabe, Abinadabe e Siméia estão bem.
— Pode deixar, pai.
Na manhã seguinte, Davi deixou um empregado tomando conta das ovelhas e foi para o Vale. Chegou justamente na hora em que israelitas e filisteus estavam alinhados dos dois lados, trocando os insultos habituais:
— Sua mãe é tão feia que faz cebola chorar!
Lech zayen et ima shelcha, benzona!
— HEIN???
— “Vá foder tua mãe, filho-da-puta” em hebraico!
— FELADAPUTA!
— Apelou, perdeu! HAHAHAHAHA!
— Ah, é? Peraí…
Enquanto isso, Davi deixara os mantimentos com o oficial responsável pelas bagagens, correndo em seguida para a frente de batalha. Chegou bem a tempo de ver os filisteus dando passagem para seu grande herói, Golias. Bastou o gigante aparecer para todos os israelitas correrem para suas tendas. Cambada de bundas-moles, esses israelitas. Davi, um tanto envergonhado do comportamento de seus compatriotas, foi falar com os irmãos:
— Vocês estão bem?
— O que é que você acha, Davi? Todo dias somos humilhados por esse gigante de merda, e o jeito é…
Eliabe foi interrompido pelo trovejar da voz de Golias, que mais uma vez gritava seu desafio.
— Ué. É isso que ele quer? Alguém que vá lutar com ele?
— E VOCÊ ACHA POUCO? Viu o tamanho do cara???
— Ah, ele é grande. Mas não é dois.
— Sei não, sei não…
Sabendo que os irmãos mais velhos o desprezariam, Davi achou melhor conversar com os outros soldados que estavam por perto:
— Vocês tão sabendo de alguma recompensa? O que ganha quem matar esse filisteu pagão incircunciso filho de uma quenga velha?
— Calma, rapazinho, calma… Mas corre por aí que o rei dará ao homem que derrotar Golias uma gorda recompensa e a mão de sua filha. Ou seria só uma recompensa e a mão de sua filha gorda…? Hum. Alguma coisa assim. Além disso, isentará de impostos a família desse suposto homem valente.
— Interessante…
Porém Eliabe ouviu a conversa do irmão com o soldado, e ficou puto:
— Ô, moleque! Quem é que está tomando conta das suas ovelhas lá no deserto, hein? Seu convencido! Tá achando que é quem? Veio aqui só para ver a batalha, né? Moleque dos infernos!
— Coé, Eliabe, coé? Pega leve! Será que eu não posso nem fazer uma pergunta? Eu, hein…
Eliabe deu um muxoxo e foi cuidar de sua vida. Davi, por sua vez, saiu andando pelo acampamento, sondando aqui e ali para saber como seria recompensado o israelita que matasse Golias. De todo mundo ouviu a mesma resposta, com uma ou outra variação. De tanto ele perguntar, alguns soldados resolveram ir falar com Saul sobre o que acontecia:
— Majestade, parece que há um rapaz aí no acampamento interessado na recompensa prometida a quem matar o gigante.
— Ah, é? Que beleza, alguém mais maluco do que eu… Traga o tal rapaz aqui, quero falar com ele.
Os soldados saíram e voltaram trazendo Davi. Saul levou um susto:
— Mas você, Davi? O que está fazendo aqui?
— Seu Saul, eu acho uma vergonha o povo de Israel ter medo desse filisteu. Eu vou lutar com ele.
— Davi, Davi… Você não pode ir, meu filho.
— Ué, por que não?
— Porque você é só um adolescente, Davi. Olha aí, cheio de espinhas na cara. Aposto que vive se acabando na punheta, e que às vezes até apela pras pobres das ovelhas. Estou errado?
— …
— Pois é. E aquele cara? Aquele gigante, além do tamanho que tem, é soldado desde que tinha sua idade. Você não tem a mínima chance, percebe?
— Permita-me discordar, majestade. Como o senhor sabe, eu sou pastor de ovelhas. Quando vem um leão ou um urso e pega uma das ovelhas, eu vou atrás do bicho, ataco o danado e pego a ovelha de volta. Se o leão ou o urso me ataca, eu agarro ele assim, ó, pelo pescoço, e dou porrada até matar o desgraçado. Comigo é assim, sem dó.
— Hum. Sei. Mata urso, é?
— Mato.
— E leão, né?
— Também.
— E com as mãos nuas, claro.
— Justamente.
— E QUER QUE EU ACREDITE NESSA POTOCA SEM-VERGONHA, DAVI?
— Juro que é verdade! JURO! Deus me ajudou a matar leões e ursos, e também vai me ajudar a matar esse filisteu do pau pelancudo.
— Hum. Pois muito bem. Vá, e que Javé te ajude.
— SÉRIO?
— É, ué.
— VIVA! OBRIGADO, MAJESTADE!
— De nada, de nada. Mas você não vai assim, oras. Vou te dar minha armadura.
— Puxa, que honra…
Saul enfiou Davi dentro de sua armadura, e botou nele um capacete de bronze. Assim guarnecido, Davi pegou a espada de Saul e a colocou na bainha. Foi saindo para ir lutar contra Golias, mas mal conseguia andar enfiado naquela geringonça. Irritado, tirou a armadura e a devolveu ao rei, junto com o capacete e a espada:
— O senhor me desculpe, mas é que eu nunca usei essas coisas e nem consigo andar com isso. Se eu for lutar assim, o gigante me mata e come minha carne chupando de dentro da armadura, feito siri.
— Você é quem sabe, Davi. Tenho nada com isso.
— Obrigado. Agora, se o senhor me dá licença, tenho um gigante para matar.
Davi pegou seu cajado, sua funda (uma espécie de estilingue, só que sem a forquilha), escolheu cinco seixos redondos e lisos no leito do riacho e saiu para enfrentar Golias.

A arma secreta dos filisteus

(I Samuel 17:1-11)

Tanta coisa acontecendo em Israel e os filisteus quietinhos. Estranho, não? Pois é. E não durou muito: na época em que Davi estava trabalhando no palácio, os filisteus começaram a se movimentar e acamparam entre Socó e Azeca, no território de Judá, um lugar conhecido como Efes-Damin, Fronteira Sangrenta. Saul ficou sabendo, juntou seu agora bem treinado exército, e foi acampar no Vale de Elá.

— É lá?

Humpf. Elá, como vocês sabem, é carvalho em hebraico. Continuemos.
Então os filisteus ficaram no morro do lado de lá, os israelitas no morro do lado de cá, e passavam os dias trocando insultos:
— Ô, do pau cortado! Sua mãe é tão feia que a sombra dela fugiu!
— Tá falando o quê, macaco? Sua mãe é tão gorda que as pessoas fazem cooper em volta dela!
— Sua mãe é tão velha que esqueceu a bolsa na Arca de Noé!
— Sua mãe tem pêlo na teta!
— Sua mãe tem pêlo no útero!
— SUA MÃE PASSA ATUM NA BOCETA E DÁ PRO GATO LAMBER!
— FILHO DA PUTA!
— UHU! Apelou, perdeu!
— Merda…
E assim passavam-se os dias, com xingamentos de um lado e de outro e nenhuma ação. Até que um dia, no meio da guerra verbal, os israelitas viram alguém saindo do acampamento dos filisteus e vindo para a borda do morro.
— Ô, que palhaçada é essa? Tá montado na cacunda do seu pai? Hein! Fala! Responde! Resp… Epa.
O tal homem parecia mesmo estar encarapitado nos ombros de alguém. Claro, ninguém podia ser daquele tamanho. Mas acontece que Golias era: quase três metros de altura. Trazia na cabeça um capacete de bronze, e estava enfiado numa armadura, também de bronze, que pesava mais de 70 quilos. As pernas estavam protegidas por caneleiras e ele carregava nos ombros um dardo de bronze. Sua outra arma era uma lança, cuja haste parecia um eixo de tear, e da qual só a ponta pesava quase 10 quilos. A frente desse gigante encouraçado ia seu escudeiro, um homem de estatura normal, mas que parecia o Nelson Ned se comparado ao patrão. Postou-se bem de frente para onde estavam os israelitas, botou as mãos na cintura e começou a gritar com seu vozeirão:
— Ô, suas frangas do inferno! O que vocês estão fazendo aí? Querem briga, é? Pois venham! Eu sou filisteu, com muito orgulho. E vocês, são o quê? Escravos de Saul? Pffff… Olhem, vou propor uma brincadeira a vocês, uma aposta. Seguinte: escolham um de seus homens para lutar comigo. Qualquer um. Se ele me matar, nós seremos seus escravos. Caso contrário, vocês nos servirão. E aí, não dizem nada? Está lançado meu desafio, suas bichas! Mandem alguém. Mandem qualquer um.
Golias deu meia-volta e retornou calmamente à sua tenda. Do lado de cá, Saul e todo o exército israelita estavam apavorados. Recusar o desafio de Golias seria uma demonstração de pusilanimidade. Mas quem poderia ir lutar contra tamanho gigante? Lembremos que, fosse quem fosse, teria o destino de Israel em suas mãos. Quem teria coragem e força suficientes para enfrentar um guerreiro de três metros de altura? Quem? Quem?
Bah, vocês sabem quem. O suspense é só para não perder o costume.

Observação: Todas as variantes da Tradução João Ferreira de Almeida dizem que Golias tinha 6 côvados e meio de altura. Se considerarmos que o côvado tem 45 centímetros, chegamos a 2,92m. Há quem fale em côvado de 66 centímetros, o que nos daria um gigante de mais de 4 metros. No entanto, a Tradução na Linguagem de Hoje, da Sociedade Bíblica do Brasil, diz que o gigante filisteu tinha 2,10m, nada de descomunal. Não sei de onde os tradutores da SBB tiraram essa medida, mas arrisco dizer que foi mera preocupação com a verossimilhança. Uma grande bobagem: depois da travessia do Mar Vermelho, quem é que vai se preocupar com verossimilhança, meu Deus?

O que eu acho: Davi matou um cara de metro e oitenta de altura, nada de mais. Falou para seu filho, Salomão, que tinha matado um homem de mais de dois metros. Salomão, por sua vez, contou a Roboão que vovô matara um filisteu de 2,5 metros. Então alguém teve a idéia de escrever logo a história, antes que começassem a dizer que Golias usava o Mar Morto como ofurô.

Davi a serviço de Saul

(I Samuel 16:14-23)

Vimos no capítulo anterior que o Espírito de Deus apossou-se de Davi. Mas parece que Deus ainda não dominava direito esse negócio de onipresença na época, então seu Espírito teve que sair de Saul. Todos sabemos, porém, que a bondade e a justiça divinas são perfeitas. Tanto é que, tendo retirado seu Espírito de Saul, Javé imediatamente enviou um espírito mau para substituí-lo. O que isso significa? Que o rei, que já não regulava muito, endoidou de vez. Como temos visto até agora, ser dominado pelo Espírito de Deus também causava loucura. Mas há uma diferença: dominado pelo espírito mau, o cara só passa vergonha e não se diverte nenhum pouco. Saul, coitado, passou a ter crises cada vez mais freqüentes. Pela descrição feita na Bíblia (não neste capítulo, mas mais tarde), Saul apresentava todos os sintomas de um esquizofrênico paranóide. Se é que existe isso, esquizofrênico paranóide. Mas é bonito pra danar, vão dizer que não? Então. Foi nisso que Saul se tornou quando passou a ser atormentado pelo espírito mau: um esquizofrênico paranóide. Puxa, eu passaria o dia inteiro repetindo isso. Esquizofrênico paranóide. ESQUIZOFRÊNICO PARANÓIDE. ESQUIZOFRÊNICO PARANÓIDE.

Tá, parei. Vamos dizer que Saul sofria de Transtorno Bipolar de Humor, associado a Síndrome de Tourette e Síndrome da Mão Alheia. Um pouquinho de Transtorno Obsessivo-Compulsivo, talvez? É, vai bem. Só pra história ficar legal.

Ficava cada vez mais difícil conviver com Saul. Suas oscilações brutais de humor, sua agressividade inesperada e sem motivo, suas manias de perseguição, tudo isso tornava em um inferno a vida dos que cercavam o rei. Cansados disso, os empregados do palácio se reuniram e foram falar com ele:
— Majestade?
— Sim! Digam, meus queridos!
— Er… Bom. Seguinte: parece que o senhor está sendo atormentado por um espírito mau.
— Sim, rapaz, também andei pensando nisso. Estava aqui tentando achar uma solução. Um despacho, talvez?
— Nós pensamos em algo mais suave, para começar…
— É mesmo? Algo mais suave, não é? E no que foi que os FILHOS DA PUTA pensaram, hein? Em trazer suas mães, aquelas ARROMBADAS, para me sossegarem um tantinho? Ou talvez os CORNOS dos seus pais para virem aqui como bobos da côrte? Ou então… Ou então… Hum. O que é que eu estava dizendo?
— Dizendo? Não, o senhor não estava dizendo nada, majestade.
— Hum. Estranho. O QUE VOCÊ TÁ ME OLHANDO, SEU CU-DE-BURRO?
— É que… É que…
— DESEMBUCHA, PUTO!
— É que o senhor está… Hum… Manipulando seu magnífico pênis real.
— Manip… Eita, não é que estou mesmo? Não sei qual é o problema com essa minha mão esquerda, parece que tem vida própria. Mas… Onde é que estávamos?
— Pois então, majestade: pensamos em procurar alguém que toque harpa, e trazer para o palácio. Assim, quando o espírito mau vier atormentá-lo, talvez o senhor se acalme com a música.
— Hum. Tá aí, gostei da idéia. Gostei mesmo. Ei, onde vocês vão???
— O senhor acenou com a cabeça, ordenando que saíssemos.
— Acenei com a cab… Ah, malditos tiques! Vão logo procurar o tal harpista. Tomara que funcione, minha vida está um inferno.
— É pra já, majestade. Aliás, eu conheço um homem chamado Jessé, lá de Belém.
— E ele toca harpa?
— Nah, aquele não toca nem campanhinha. Mas o filho dele, Davi, é um grande músico. Além disso, é um bom soldado, valente, fala muito bem, é bonito, miudinho mas definido, sabe?, ruivinho, uma graça…
— Ok. Contenha sua veadagem e traga aqui o tal Denis.
— Davi, majestade.
— Esse aí.
Mandaram chamar Davi em Belém. Jessé, todo alvoroçado com uma convocação do palácio apenas dias depois de ver seu filho tratado com a maior deferência pelo lendário Samuel, tratou de caprichar no presente para o rei: mandou que Davi levasse um jumento carregado de pão, um odre de vinho e um cabrito para Saul. Lá foi o garoto para Gibeá. Saul gostou dele logo de cara. Talvez não gostasse tanto se soubesse que estava diante de seu sucessor no trono, mas é claro que ele não tinha como saber isso. Então ele acolheu Davi, e mandou uma mensagem a Jessé pedindo que ele autorizasse o filho a ficar morando no palácio real. E é claro que Jessé concordou, na maior alegria.
A partir de então Davi ficou trabalhando no palácio. Oficialmente, foi contratado como escudeiro de Saul. Mas fazia seu verdadeiro trabalho quando o rei tinha alguma crise: pegava sua harpa e cantava belas canções, muitas delas de sua autoria. E era ele começar a cantar para Saul ir se acalmando, até voltar totalmente ao normal.
Tendo o poder de acalmar a loucura do rei, Davi começou a ficar popular no palácio. Mas ainda era pouco.

Saul é aclamado rei

(I Samuel 10:17-27)

Saul já estava ungido rei, e a decisão era irreversível. Para apresentá-lo ao povo, porém, foi armada uma cena patética: Samuel convocou todo o povo a Mispa para uma reunião religiosa. Quando estavam todos lá, fez seu anúncio:
— Israelitas! Eu tenho aqui uma mensagem de Javé para vocês. Diz ele: “Cambada de mequetrefes, eu tirei vocês do Egito, livrei vocês de todos os povos que os maltrataram, e como é que vocês me agradecem? Rejeitam minha autoridade pedindo um rei! Eu estou de saco cheio. Vocês venceram. Organizem-se aí, em tribos e em grupos de famílias. Vamos escolher o rei”.
O povo dividiu-se conforme as ordens divinas, enquanto Samuel pegava o Urim e o Tumim para o sorteio. Com o povo ordenado, ele jogou as pedrinhas e a tribo de Benjamim foi sorteada. Lançou-as de novo, e deu a família de Matri. A família adiantou-se, ansiosa. Não era para menos: dali sairia o primeiro monarca de Israel. Samuel jogou as pedrinhas, fez um certo suspense e enfim anunciou:
— O rei de Israel será… Saul, filho de Quis!
Aplausos. Vivas. Gritos. Assovios. Aplausos. Aplausos mais fracos. Silêncio.
— Eu disse SAUL, FILHO DE QUIS!
Um murmúrio na multidão. Constrangido diante do povo, Samuel foi para um canto falar com Deus:
— Javé, eu falei que isso não ia dar certo. Cadê o cara?
— Calma, Samuel. Ele está escondido no meio da bagagem.
— HÃ???
— Pode conferir.
— Mas que beleza…
Samuel voltou e pediu à família que vasculhasse sua bagagem. Foram até lá e voltaram com Saul. Alto como era, aparecia acima da multidão, que o olhava em silêncio. Samuel soltou um suspiro de alívio; estava completa sua missão:
— Estão vendo o homem que Javé escolheu? Não há outro como ele em Israel!
A declaração de Samuel não dizia grande coisa: tanto podia ser um elogio quanto uma crítica a Saul. Mas o povo, ansioso por seu rei, bradou “Viva o rei!” em uníssono. Samuel explicou aos israelitas os direitos e deveres do rei, depois escreveu-os num livro que foi colocado no Tabernáculo. E encerrou a cerimônia bem ao seu estilo:
— Acabou a palhaçada. Vão pra casa.
O povo foi saindo. Saul também foi para sua casa, em Gibeá, e com ele foram alguns homens, seus primeiros bajuladores. Outros, no entanto, murmuravam entre si:
— Mas que reizinho mais sem-vergonha, hein? Escondido no meio da bagagem!
Saul ouviu esses comentários, mas fingiu que não. Tinha um reino para ocupar a cabeça agora.

A morte de Sansão

(Juízes 16:21-31)

Sansão acreditava mesmo que poderia vencer os filisteus mais uma vez. Mas não contava com um fator: Javé o havia abandonado. Ele já quebrara seu voto de nazireu uma vez, ao tocar o cadáver do leão, e tinha acabado de quebrá-lo de novo, tendo os cabelos cortados. Não foi ele quem cortou os cabelos, foi enganado e traído pela mulher que amava, mas desde quando Deus liga para essas coisas? Em Sua infinita vaidade, não admite ser contrariado de forma alguma, e reage da forma mais cruel. Então, na hora em que Sansão mais precisou, não teve Espírito de Deus para se apossar dele, e o pobre coitado foi capturado pelos filisteus. Eles furaram seus olhos, prenderam-no com correntes de bronze e o levaram para uma prisão em Gaza, onde trabalhava virando um moinho. Não, não se transformando num moinho, que ele era Sansão e não um dos Super Gêmeos. Bah, vocês entenderam: ele passava os dias andando em círculos, empurrando a pedra do moinho, cego, acorrentado e abandonado pelo mesmo Deus que pouco tempo antes cavara um poço para ele.
Para comemorarem a captura de seu maior inimigo, os filisteus organizaram uma festa, na qual ofereceriam um grande sacrifício a seu deus, Dagom. O templo estava cheio, os cinco governadores da Filistia estavam presentes, e havia no terraço cerca de três mil pessoas. Todos estavam felizes, e improvisavam sansões sobre a derrota de Canção, ou melhor, canções sobre a derrota de Sansão. No meio da celebração, alguém teve a idéia:
— Ei! Por que não trazem Sansão pra cá? A gente pode se divertir um pouco…
A proposta foi prontamente aceita, e Sansão foi trazido do cárcere. Foi espezinhado e humilhado no meio da multidão, e os filisteus soltavam hurros de júbilo. Ali estava o flagelo da Filistia, o israelita que matara tantos filisteus e causara grandes prejuízos a seu país, agora reduzido a um farrapo, fraco, de olhos vazados, sem reagir de forma alguma às provocações que lhe eram dirigidas.
Depois de muito se divertirem às custas de Sansão, os filisteus o colocaram entre as colunas principais do templo, de onde podia ser visto por todos os presentes. Só nesse momento Sansão pareceu ter tomado consciência do que acontecia. Aproximando-se do garoto que o guiava pela mão, pediu:
— Por favor, deixe que eu me encoste nas colunas do templo. Estou muito cansado.
O rapaz atendeu a seu pedido, e o orientou de tal forma que pudesse apoiar o corpo numa das colunas. Tendo chegado aonde queria, Sansão falou com Javé pela última vez:
— Deus, você me abandonou e isso não se faz. Nunca estive tão fodido em toda minha vida. Só que o ódio que eu sinto dos filisteus é hoje maior do que nunca. Então eu lhe peço que me dê forças pela última vez, para que eu me vingue dessa raça por ter furado meus olhos. — e então, apoiando a mão direita numa das colunas e a esquerda na outra, começou a empurrar e gritou: — EU MORRO, MAS LEVO ESSES FILHOS-DA-PUTA COMIGO!
Em seguida, empurrou com toda a força que tinha, e as colunas cederam. Sem sustentação, o Templo de Dagom ruiu. Os filisteus entraram em desespero, mas não tinham para onde correr. O pânico dominou a todos, a multidão tentou correr para a saída (acho não havia saídas de emergência no Templo de Dagom), e muitos morreram pisoteados no meio da correria. Ao final, foram todos soterrados pelos escombros do templo. Sansão matou mais gente do que nunca nesse dia, com o sacrifício da própria vida.
A família de Sansão foi até Gaza para pegar seu corpo, que foi sepultado em Zora, no túmulo de Manoá, seu pai. Sansão foi juiz em Israel por vinte anos.

Cena do Filme Samson and Delilah (1949), de Cecil B. DeMille,
com Hedy Lamarr e Victor Mature

O acordo com os gibeonitas

(Josué 9)

Como era de se esperar, a notícia da destruição de Ai espalhou mais ainda o terror por toda a Canaã. Conhecedores da fama sanguinária de Josué, os reis dos heteus, dos amorreus, dos cananeus, dos jebuseus, dos perizeus, dos heveus e outros eus fizeram uma aliança para guerrearem juntos contra Israel. Havia, no entanto, uma cidade chamada Gibeão, na terra dos heveus, cujos líderes decidiram adotar uma estratégia diferente. Afinal, lutar contra os israelitas não parecia uma idéia muito boa. A tomada de Ai tinha sido uma luta normal, com uma derrota na primeira batalha e uma boa estratégia na segunda, que foi vitoriosa. Mas o que dizer sobre Jericó? Como explicar aquele cerco que mais parecia um desfile de carnaval, e a queda das muralhas quando o povo gritou? Não, não: melhor dar outro jeito de livrar a pele. E foi o que eles fizeram, como veremos.
Os israelitas estavam acampados em Gilgal, ainda comemorando conquista de Ai. Celebravam, davam gritos de guerra, exibiam uns aos outros o que haviam saqueado da cidade. Porém a festa foi interrompida pela chegada de uma caravana de homens maltrapilhos, trazendo jumentos cansados carregados de sacos velhos e odres de vinho remendados. O povo se reuniu em volta do recém-chegados, olhando-os com curiosidade e uma ponta de desdém.
— Opa. E aí? Desculpe a gente chegar assim sem mais nem menos. Viemos de um país distante, e ouvimos falar da grande força e poderio de seu povo. Sendo assim, resolvemos vir aqui apresentar nossos cumprimentos e fazer com vocês um acordo de paz e colaboração.
Os homens de Israel ouviram aquilo meio desconfiados, e Josué questionou os viajantes:
— Hum, sei… E como a gente vai saber que essa ladainha toda é verdade, hein, ô feinho? E se na verdade vocês forem um desses caras que moram por aqui? A gente não tá aqui pra fazer acordo com os povos daqui não. Nosso negócio é matar todo mundo, destruir as cidades e saquear tudo. E quem garante que vocês não são uns cananeus metidos a espertinhos?
Falava grosso esse Josué, não? Quando Javé não estava por perto, é claro. Mas o porta-voz dos viajantes respondeu:
— De jeito nenhum, que é isso??? Somos de longe, já disse. E estamos dispostos até a trabalhar pra vocês, veja só. Façam acordo com a gente, vai ser bom pros dois lados…
— Hum… E quem são vocês exatamente? De onde vêem?
— Já disse, já disse: somos de um país muito longe daqui, vocês não conhecem. Viemos até aqui porque ouvimos falar do deus de vocês, das coisas espantosas que ele fez no Egito. Impressionante aquilo, uau! E também chegaram a nossos ouvidos a história das batalhas que vocês travaram contra os reis Seom e Ogue. Então nossos líderes nos mandaram pra cá, a fim de propor a vocês um acordo de paz, e até mesmo oferecer nossos serviços para o que vocês quiserem. Acreditem, somos de muito longe mesmo. Olha esse pão seco e bolorento aqui, quando saímos de casa estava quentinho. Nossos odres, nossas roupas e sandálias, era tudo novo, e agora vejam só o estado.
— É, cês tão numa pindaíba danada mesmo…
— Tô te falando… Mas tudo bem, valeu a viagem só para conhecermos este povo tão pujante. Agora só nos falta conhecer seu grande líder Josué.
— Er… Sou eu mesmo.
— O senhor é Josué??? Mas que honra! QUE HONRA! Senhor Josué, devo dizer que sua fama de general e grande líder alcançou os cantos mais distantes da Terra.
— Ah, que é isso…
— É verdade! Lá no nosso país quando as crianças vão brincar de guerra sai até briga pra saber quem vai ser o Josué. O senhor é um herói!
— Bondade sua…
— Bondade nada! No caminho pra cá ficamos sabendo da tomada de Jericó. O que foi aquilo???
— Ah, mas não fui eu não. Coisas do Javé…
— De quem?
— Javé, o nosso deus.
— Ah, sim. E a conquista de Ai, então? Que estratégia!
— É, ali eu mandei bem mesmo. Modéstia à parte.
— Pois então! Como é que a gente podia ignorar um mito desse porte? Não senhor! Fizemos questão de vir até aqui para fazermos um acordo de paz com o senhor e todo seu povo.
— Ah, é. O acordo. Oras, que diabo! Então façamos o tal acordo. Toca aqui, rapaz!
— Assim é que se fala, seu Josué! Então estamos seguros?
— Têm a minha palavra. E mais: juro por Javé.
Que beleza, não? Josué caiu direitinho na bajulação dos caras e firmou um acordo de paz com eles. Inocente, esse Josué. Três dias depois, os israelitas chegaram à região em que habitavam os gibeonitas (a capital, Gibeão, e as cidades de Cefira, Beerote e Quiriate-Jearim). É claro que Josué ficou emputecido quando descobriu que os viajantes maltrapilhos com os quais havia feito o tal acordo eram na verdade habitantes de Canaã, e portanto futuros alvos dos ataques de Israel.
— SEUS PUTOS! VOCÊS NÃO FALARAM QUE VINHAM DE MUITO LONGE???
— Ué, três dias de viagem! O senhor acha pouco???
— Puta que pariu… Agora o povo tá reclamando comigo e com os outros líderes, dizendo que somos molengas e burros por termos feito um acordo com vocês. Que que eu faço?
— Vê lá, hein, Josué! Lembre-se que você jurou pelo seu deus…
— Eu sei, eu sei! Mas que CAGADA! INFERNO! Olha, eu jurei por Javé então vou ter que manter meu juramento. Mas vocês vão me pagar por essa malandragem.
— …?
— Todos vocês gibeonitas vão ser nossos escravos. Carregadores de água, rachadores de lenha, essas coisas.
— Pô, Josué… Será que não dava pra gente…
— E SAIAM DA MINHA FRENTE ANTES QUE EU RESOLVA QUEBRAR O JURAMENTO!
Os gibeonitas acharam prudente não discutirem com Josué, mesmo porque para quem ia sumir do mapa qualquer acordo era lucro. Assim, em troca da própria vida, os gibeonitas passaram a ser escravos em Israel. Triste fim para um povo tão cheio de mumunhas. Fim muito mais triste, no entanto, tiveram os outros povos que ficaram no caminho de Josué…

A destruição de Ai

(Josué 8)

Eu não entendo essa gente que diz que é difícil agradar a Deus. Consideremos o caso de Acã, por exemplo, que vimos no capítulo anterior. Só foi preciso que o povo levasse Acã para fora do acampamento e o apedrejasse, queimasse sua família e seus animais juntamente com suas posses e depois soterrasse tudo sob um montão de pedras e pronto: Javé estava feliz de novo. Isso é que é um Deus bom e cheio de misericórdia, eu não me canso de dizer…
Já de coração leve, Javé desceu do céu assoviando para falar com Josué:
— E aí, meu chapa? Pronto pra juntar uma galera da pesada e sair detonando e aprontando todas pelas ruas de Ai?
— Er… Hein?
— Bah, tá vendo? A gente é duro e todo mundo acha ruim, a gente é bonachão e informal feito uma chamada de filme da Sessão da Tarde e ninguém entende. É uma merda. Negócio seguinte: cês vão invadir Ai, e dessa vez vão ganhar a batalha. E com um detalhezinho que você vai gostar: ao contrário do que aconteceu em Jericó, dessa vez vocês vão poder ficar com o espólio da cidade.
— Hum.
— Ué, não ficou feliz???
— Porra, Javé. Agora cê resolve liberar o espólio? Tivesse feito o mesmo em Jericó, oras! Não teríamos passado aquele vexame em Ai e nem precisaríamos executar Acã e sua família.
— Bah, você é muito sensível a essas coisas… Deixa isso pra lá, ok. Vamos botar uma PEDRA sobre esse assunto… PESCOU? PESCOU? PEDRA!
— …
— Humpf. Olha, estão aqui os planos para a conquista de Ai.
— Ok.
Conquista, claro está, era eufemismo. Termos mais exatos seriam massacre, genocídio, limpeza étnica: as instruções incluiam, como da outra vez, a exigência de que toda a população fosse exterminada.
Na madrugada seguinte, os guardas de Ai foram surpreendidos pela presença de um acampamento israelita ao norte do portão principal da cidade. O rei ficou indignado ao saber da notícia:
— Mas como é que pode! Nós já não demos uma surra nesses calhordas? Como é que eles ousam vir aqui de novo, ainda mais com um exército tão pequeno? São suicidas ou o quê?
— E tem outra coisa! O líder deles, o tal de Josué, está no comando naquele acampamento.
— O quê??? Os caras mandam um destacamentozinho sem-vergonha desse, e ainda liderado pelo maior general que eles têm? São burros mesmo. Vamos lá, vamos botar esses imbecis para correr.
Então o rei saiu da cidade com todos os seus soldados. Conforme avançavam na direção do acampamento israelita, iam cantando o mundialmente famoso hino de Ai:

AI!
AI AI AI!
AI AI AI AI AI AI AI!
EM CIMA, EMBAIXO, PUXA E VAI!

Quando ouviram o hino e viram o exército imenso que se aproximavam, Josué e seus comandados levantaram acampamento e saíram correndo como da primeira vez. Os soldados de Ai riam e zombavam da covardia dos israelitas:
— Volta aqui, circuncidado, que eu vou acabar de cortar seu pau!
— Não foge não, ô do gorrinho!
— Você aí de trancinha, me espera!
— ESPERAÍ, FILHO DA PUTA, QUE EU VOU FAZER VOCÊ COMER MANÁ PELO… Er…
Majestade?
— VOLTA AQUI, QUE EU VOU FAZER COM A TUA BUNDA O QUE MOISÉS FEZ COM O MAR VERM… Que foi?
— Olha ali atrás…
O rei olhou e não acreditou no que via. Notando o olhar embasbacado de seu líder, os soldados foram parando para olhar para trás. E lá da cidade que eles haviam deixado fazia pouco tempo viam subir a fumaça. Ai estava sendo destruída. Enquanto todos ainda estavam congelados pela incompreensão do que acontecia, Josué ordenou a seus homens que dessem meia volta e começassem o ataque.
Mas como foi que isso aconteceu?, alguém pode perguntar. Oras, é simples: a estratégia que Javé passara a Josué era manjada porém eficiente. Sabem aquele golpe do Didi, de ficar balançando o pezinho para distrair o oponente, e então dar-lhe uma traulitada na cachola? Pois foi mais ou menos isso que Josué fez: acampou com um exército pequeno bem à vista dos guardas de Ai, mas antes havia enviado mais de trinta mil homens para se esconderem a oeste da cidade. Quando o rei saiu com seus homens para atacarem o pé do Didi Mocó que era o destacamento-isca de Josué, os outros aproveitaram para darem um catiripapo na caçoleta de Ai, entrando na cidade para matar todos os seus habitantes, saquear o que houvesse de bom e incendiar o resto.
O rei percebeu o quanto fôra imprudente ao sair da sua cidade com todo seu exército. Ainda pensou em voltar mas era tarde: Josué e seus soldados já caíam sobre eles, e os outros israelitas, tendo concluído boa parte da destruição da cidade, vieram dar apoio. O exército de Ai foi totalmente cercado e todos foram mortos, com exceção do rei, que foi tomado como prisioneiro. Tendo terminado de matar os soldados, os israelitas voltaram para a cidade e concluíram o massacre. Saldo: doze mil civis mortos. A cidade foi saqueada e reduzida a ruínas. Por fim, Josué enforcou o rei de Ai numa árvore e ali o deixou até o pôr-do-sol, quando ordenou que o cadáver fosse jogado na frente do portão principal da cidade e sepultado sob um monte de pedras.

Depois de duas conquistas importantes como foram as de Jericó e Ai, era hora de Israel cumprir as instruções Moisés deixara para quando o povo atravesasse o Jordão. Josué, então, construiu no alto do monte Ebal um altar de pedras brutas e sobre ele o povo ofereceu sacrifícios. Depois disso, metade do povo se posicionou em frente ao monte Ebal, enquanto outra metade ficava em frente ao monte Gerizim, para ouvirem a leitura da Lei feita por Josué. Pronto, o povo de Israel estava oficialmente em Canaã. Agora era só conquistar o resto do território.

O pecado de Acã

(Josué 7)

Quando viram a baba que foi destruir Jericó, os israelitas se encheram de segurança para novas empreitadas. Por isso, quando Josué enviou espiões à cidade de Ai…
AI???
Não torra. Eu ia dizendo: quando Josué enviou espiões a Ai, eles voltaram com prognósticos otimistas:
— Aê, seu Josué, Ai vai ser moleza. Precisa movimentar o povo todo não: manda pra lá só uns dois ou três mil homens, porque há pouca gente lá, e todo mundo se cagando de medo da gente.
Investido de coragem e motivado a não mais poder, Josué convocou então cerca de três mil soldados e os enviou à cidade. Aconteceu, porém, que os homens de Ai fizeram os israelitas recuarem, matando logo de cara 36 soldados. Depois botaram os hebreus para correr, e os perseguiram desde o portão da cidade até uma pedreira que havia por lá, matando israelita à vontade na descida. Quando o batalhão desfalcado voltou ao acampamento não marchando, mas correndo em desordem, com a notícia do que acontecera, o povo perdeu toda a empáfia recém-adquirida.
Josué, desnorteado pela derrota quando esperava uma vitória sem percalços, rasgou suas roupas — a bicha — e se atirou de rosto no chão na frente da Arca. Os líderes do povo, no exercício da antiquíssima e lucrativa atividade chamada puxa-saquismo, fizeram o mesmo. Ali ficaram Josué e os líderes, todos de cara no chão como sinal de tristeza. Então Josué começou sua arenga:
— Ô, Javé! Por que foi que você fez este povo atravessar o Jordão? Para nos entregar de bandeja nas mãos dos amorreus? Pô, sacanagem braba isso aí! Na boa, com todo respeito, isso não se faz! Grande papelão fizeram os soldados israelitas correndo dos habitantes de Ai feito umas frangas tresloucadas. E agora? Agora os cananeus e o resto dessa raça toda aí vão ficar sabendo do acontecido, e aí a fama que conquistamos ao atravessarmos o Jordão e destruirmos Jericó vai pras cucuias. Percebe? Percebe? OS CARAS VÃO CERCAR A GENTE E VARRER ISRAEL DO MAPA! É isso que você quer? E sua reputação, como fica? Hein? Hein? Responde, porra! Resp…
— Tá, tá, Josué! Já escutei, agora chega. Pra começar que porra cê tá fazendo aí de cueca com a cara no chão? Por favor, que cena mais ridícula! Oras, Israel passou esse vexame aí porque o povo me desobedeceu.
— Desobedeceu? Quando???
— Já te digo: eu não falei pra vocês destruírem Jericó totalmente, matando todos os seus habitantes e todos os animais e queimando a cidade? A única coisa que eu permiti foi que trouxessem os objetos de ouro, prata, bronze e ferro para o Tabernáculo, que de bobo eu não tenho nada. Enfim, minha ordem foi clara. E sabe o que aconteceu? Teve nego aí que resolveu trazer uns souvenirs de Jericó para o acampamento, pensando que eu sou idiota.
— Tá falando sério, Javé?
— Não, é pegadinha! Olha ali a câmera escondida! É CLARO QUE EU TÔ FALANDO SÉRIO, CARALHO! E digo mais: enquanto vocês não descobrirem quem foi que teve o topete de desafiar minha autoridade, o povo de Israel continuará sendo motivo de chacota aqui na região. Vai pegar mal pra mim e pra vocês também.
— Mas como é que a gente vai descobrir?
— Usando o Urim e o Tumim, oras.
— Usando QUEM???
— Puta merda, Josué… Cê até que se sai bem militarmente, mas não se preocupou nenhum pouco em aprender os aspectos religiosos e essa coisa toda, né? O Urim e o Tumim, aquelas pedrinhas que o Sumo Sacerdote usa para fazer sorteios.
— Porra, virou bingo isso aqui?
— MANÉ BINGO! O resultado do Urim e do Tumim na verdade é uma manifestação da minha vontade. Então o sorteio será feito até vocês descobrirem quem é o cara. Aí você vai passar uma descompostura nele e queimar tudo o que ele trouxe de Jericó.
— Só isso?
— Só. Ah, mas com um detalhe: na mesma fogueira em que você queimar as tais lembrancinhas, aproveita pra queimar o cara, a família dele, suas posses e sua tenda.
— PORRA, JAVÉ! Precisa tanto???
— Ai meu saco, a mesma discussão de sempre… Sei lá se precisa ou não, o que importa é que eu QUERO e assim será feito. Entendeu, songomongo?
— Entendi…
— Então vai lá.
De acordo com a ordem de Javé, Josué acordou na madrugada seguinte e convocou todo o povo (aliás, já repararam que muita coisa no livro de Josué acontece de madrugada? O filho-da-puta do milico tinha esse costume de toque de alvorada, e pelo jeito impôs esse comportamento ao povo. Sacanagem). O primeiro sorteio foi feito, indicando que o responsável pela vergonha de Israel vinha da tribo de Judá. Outro sorteio foi feito, e a sorte recaiu sobre o grupo familiar de Zera. Com outro sorteio, determinou-se que o procurado era da família de um tal Zabdi. Nenhum pio se ouvia no acampamento quando o último sorteio foi feito e Acã foi acusado do crime de desobediência. Josué, não muito crédulo nesse negócio de pedrinhas da sorte, quis confirmar com ele:
— Acã, meu filho. Conta aqui pro Josué, conta: o que foi que você fez? Não esconda nada, pode ficar tranqüilo.
— Posso, é? Então tá. Seguinte, seu Josué: a gente tava lá em Jericó matando adoidado, tocando fogo em tudo, aquela beleza. Aí vi no meio dos escombros uma capa linda, coisa fina, made in Babilônia. Pensei: “Oras, é só uma capa, não faz diferença nenhuma”, e peguei a danada.
— Sei, sei… E foi só isso?
— Hum… Teve um pouquinho mais. Quase nada: uns dois quilos de prata e uma barra de ouro que deve pesar por volta de meio quilo.
— Você pegou OURO e PRATA pra você, Acã???
— Er… Peguei, né? Tá tudo enterrado na minha barraca.
— Putz, aí fodeu. Fosse só a capa eu tentava dar um jeito, mas pegando ouro e prata você roubou o Javé, cara. Ele foi bem claro com isso: os metais preciosos deveriam ser levados para o Tabernáculo. Olha, eu não quero ser agourento não, mas acho que de hoje você não passa…
— PELAMORDEDEUS, SEU JOSUÉ!
— Bah, posso fazer nada. Mas antes vamos confirmar essa história direitinho. Ô! Vocês aí! Vão até a tenda do Acã e vejam se as coisas estão mesmo enterradas lá.
Os homens designados por Josué correram para a tenda do réu, e de fato encontraram a capa, o ouro e a prata enterrados lá. Então Josué e todo o povo de Israel — sempre doido por um linchamento — levaram Acã, sua família, seus animais e tudo o que ele possuía para um vale. Lá o povo apedrejou Acã e queimou sua família e seus bens, inclusive os objetos que ele pegara em Jericó. Feita a desgraceira, empilharam um monte de pedras sobre a família carbonizada. Uma maravilha, coisa linda de se ver! O lugar passou a se chamar Vale de Acor, que significa desgraça.
Olha, não sei quanto a vocês, mas eu se fosse israelita naquela época, com essa lei do cão imposta por Javé, trataria logo de pedir asilo político no primeiro país pelo qual passasse. De besta eu só tenho a cara.

A conquista de Jericó

(Josué 6)

Na chón!

Na chón!

Com os depauperados israelitas já recuperados da circuncisão, Javé não via motivos para adiar mais a invasão de Jericó. Deu instruções detalhadas a Josué, e foi assim que na manhã seguinte os homens que estavam de guarda nas muralhas da imponente cidade presenciaram uma cena insólita: soldados israelitas marchando seguidos por sete homens com roupas engraçadas — sacerdotes, pela solenidade que exibiam — tocando cornetas de chifre de carneiro. Atrás desses sacerdotes vinham outros carregando um baú sobre os ombros — que os guardas não tinham como saber que era a Arca da Aliança — e atrás destes mais soldados. De longe, do acampamento, o povo de Israel assistia à cena. O que mais impressionava era o silêncio: nem os soldados que marchavam, nem os sacerdotes que carregavam a arca, nem o povo no acampamento emitiam som algum. Os homens nas guaritas, estupefatos e sem saber direito o que estava acontecendo, guardavam silêncio sem se dar conta disso, só murmurando de quando em vez: “Que porra é essa?”. Apenas as cornetas soavam enquanto os sacerdotes e soldados rodeavam as muralhas. Depois de completarem seu percurso, todos voltaram para o acampamento.
A história se espalhou pela cidade, cujos habitantes já viviam em estado de sítio antes mesmo de qualquer ameaça israelita: desde o dia em que o povo atravessara o Jordão os portões da cidade viviam muito bem trancados, e ninguém tinha autorização para entrar ou sair. Naquela manhã, quando os guardas viram os soldados se aproximarem, pensaram tratar-se enfim da invasão. Depois que eles apenas rodearam as muralhas e voltaram para o acampamento, porém, um certo alívio foi sentido: talvez os israelitas tivessem desistido da invasão ao verem o tamanho da cidade e a espessura de seus muros.
No entanto, a tensão voltou a reinar no dia seguinte, quando os mesmos soldados e sacerdotes voltaram carregando o baú e tocando cornetas enquanto davam mais uma volta ao redor da muralha. A notícia se espalhara, e dessa vez vários habitantes de Jericó assistiam à cena de cima do muro. Houve vaias, gritos de guerra, ovos e tomates atirados, faixas de “Galvão, filma eu!”. Os israelitas, impassíveis, apenas completaram sua volta e retornaram ao acampamento.
A mesma cena se repetiu por mais quatro dias. A tensão então era insuportável, com aqueles malucos vindo todo dia à mesma hora para tocarem cornetas e circundarem a cidade. Seis dias consecutivos da mesma palhaçada; e o povo de Jericó com os nervos estraçalhados.
No sétimo dia foi a mesma coisa: vieram os soldados, atrás deles os corneteiros e a Arca, e depois mais soldados. Só que não voltaram para o acampamento quando terminaram de dar a volta na cidade. Em vez disso, deram outra volta.
E outra.
E mais outra.
Sete voltas no total. Depois disso, os sacerdotes tocaram as cornetas produzindo um som prolongado, e os israelitas vieram correndo do acampamento, enquanto gritavam em uníssono:

VAMO INVADI!
VAMO INVADI!
VAMO INVADI!

Imediatamente as muralhas da cidade caíram.

Ah, não fode!
Porra, o que cês querem que eu faça??? É assim que tá lá na Bíblia, então tenho que contar assim: com o grito do povo, as muralhas de Jericó — tão espessas que havia pessoas morando nelas, lembrem-se — ruíram. Os israelitas então invadiram a cidade, tratando de cumprir com alegria as instruções de Javé: matar todos os habitantes, inclusive velhos e crianças, e todos os animais.
Peraí — há de perguntar algum leitor mais atento — e a Raabe?
Sim, sim, é verdade. Raabe, se vocês não se lembram (é CLARO que não se lembram…) era aquela puta que morava na muralha da cidade, e que protegeu os espiões israelitas. Antes de partirem, eles garantiram que ela e sua família seriam poupados no dia da destruição de Jericó. Pois vejam só: toda a muralha caiu, com exceção do pedaço em que Raabe morava. Os dois espiões — que já a conheciam muito bem — foram encarregados de irem até lá e resgatarem a puta, os filhos da puta, os pais da puta, enfim, a putaiada toda. Ela foi incorporada ao povo e tratada como israelita desde então. Se bem que era MULHER e PROSTITUTA. Numa sociedade machista e moralista como aquela, seria mais negócio ser cachorro.
Resgatada Raabe com sua família, os soldados israelitas puderam concluir seu trabalho: atearam fogo à cidade, salvando apenas os objetos de ouro, prata, bronze e ferro, que foram levados para o tesouro do Tabernáculo. Depois de concluída a destruição, Josué amaldiçoou a cidade e qualquer um que tentasse reconstruí-la. Sei não, mas acho que a maldição não foi levada muito a sério. Podem procurar num mapa de Israel: ali do lado do Jordão está a moderna cidade de Jericó. O que importa para nós agora, porém, é que com a destruição de Jericó, Josué finalmente começou a ser respeitado e temido. Os israelitas celebravam o sucesso de sua empreitada sob o comando do novo líder, enquanto os cananeus tremiam apavorados ao ouvirem a história do general que, juntamente com seu povo, derrubara as muralhas de uma cidade na base do grito.

A circuncisão em Gilgal

(Josué 5)

Quando o povo de Israel terminou de assentar acampamento em Gilgal, deus foi mais uma vez falar com Josué:
— Ô, seu bunda mole!
— Porra, Javé, pega leve.
— Pega leve o caralho, que eu sou é deus. Seguinte, tem uma parada aí pra gente fazer. A gente porra nenhuma, pra VOCÊ fazer, que eu não vou sujar minhas mãos. Pra começar, cê vai fazer umas facas de pedra.
— Facas de pedra? Pô, não fode! O neolítico ficou pra trás faz tempo, eu posso muito bem fazer facas de metal.
— Eu sei que você pode, Josué. Mas acontece que EU não quero. Facas de pedra dão mais trabalho e eu me divirto vendo vocês se lascando. Sem trocadilho.
— HUMPF. E pra que as tais facas?
— Então. Aquela geração que saiu do Egito há quarenta anos morreu no deserto; só você e o Calebe foram poupados por mim. Aliás, é bom que você nunca se esqueça disso…
— …
— O negócio é que morreram todos, e os que nasceram no deserto não foram circuncidados. Aí…
— Ah, não!
— Ah, sim! Você vai botar todo mundo em fila e circuncidar um por um.
— COMO É QUE É???
— Não grita comigo, puto.
— Er… Como é que é? Cê quer que eu corte a pele do pau de mais de 600 mil homens???
— Ah, cê pode escolher uns ajudantes.
— O problema não é esse, porra! E eu lá vou ficar pegando em rôla, Javé???
— Vai sim, oras. E sabe por quê? PORQUE EU TÔ MANDANDO, CARALHO!
Diante da força retórica de tal argumento, Josué não teve escolha: arrumou uns negos para ajudá-lo e começou esse servicinho do caralho — literalmente —, assim como Abraão havia feito quando da instituição da circuncisão. O povo ficou acampado até que todos os homens sarassem. Imaginem só: alguns amigos meus operaram fimose já na adolescência ou na vida adulta — não vou citar nomes, portanto o Tonon e o Loxinha podem ficar tranqüilos — e passaram alguns dias em casa de molho, com o júnior cheio de pontos. Não gosto nem de pensar como deve ter sido lá em Gilgal, sem anestesia antes nem sutura depois. Credo.
Bom, depois da Operação Corta-Pica, Javé voltou a falar com Josué:
— Muito bem, muito bem! Que maravilha ver esse monte de marmanjo falando fino e gemendo de dor. Parabéns, Josué. Belo trabalho. Hoje finalmente a vergonha de ter sido escravizado no Egito foi tirada de Israel.
E foi por causa dessa frase que aquele lugar passou a se chamar Gilgal, que em hebraico significa “tirar”. E ali na planície de Gilgal, pertinho de Jericó, os israelitas comemoraram a Páscoa na noite do dia catorze. No dia seguinte começaram a comer o que aquela terra produzia. Finalmente, depois de quarenta anos comendo maná, o povo voltou a comer coisas normais e saudáveis; e o maná parou de cair do céu.

Por aqueles dias, Josué estava caminhando pelas cercanias de Jericó. Olhava para as muralhas espessas, os guardas em suas guaritas, as seteiras, e pensava: “Puta que pariu, vai dar um trabalho do cão entrar aí”. Distraído com seus pensamentos, esbarrou num transeunte.
— Opa. Desculpa aí, meu camaradinha, estava pensando na morte da bezerra e… — Josué interrompeu-se ao notar que o homem, muito alto e forte, estava todo paramentado para a guerra, de armadura, capacete, escudo e espada na mão — Ei, peraí. Você é do nosso exército ou é de Jericó?
— Nenhum dos dois, songomongo: sou o comandante do exército de Javé.
— O comandante? Quer dizer que você é o…
— Eu mesmo.
Josué então, como bom puxa-saco, ajoelhou-se e encostou o rosto no chão em louvor ao homem. Este, nada impressionado com a bajulação do líder israelita, ordenou:
— Pára de viadagem. E vê se pelo menos tira as sandálias, porque o solo em que você pisa é santo.
— Ok, claro, sim, pois não, é pra já.
— VAI LOGO, PORRA!
— Opa, pronto, aí, já foi, descalço, olha só.
— Humpf.
Com esse muxoxo, o homem se retirou. E se vocês fossem mais espertinhos, já teriam sacado que se tratava do arcanjo Miguel. É possível que estivesse voltando da disputa com o diabo pelo corpo de Moisés, vejam só. É como se fosse um DVD: a cena do encontro de Josué com Miguel parece descontextualizada. Só que assistindo aos extras a gente vê em uma das cenas cortadas Miguel e o Canho disputando Moisés numa partida de truco, e tudo passa a fazer sentido.

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