Jesus, me chicoteia!

Coisas escritas na categoria ‘Bíblia’

Absalão e Davi se reconciliam

(II Samuel 14:25-33)

Dois anos se passaram desde que Absalão voltara a Jerusalém, e durante todo esse tempo nem uma só vez ele se encontrou com Davi. Nesse período, a fama de Absalão espalhou-se por Israel principalmente por sua beleza: o príncipe era um galã hollywoodiano. Tinha cabelos de vocalista de banda de rock, os quais cortava uma vez por ano devido ao peso: a cabeleira ultrapassava os dois quilos. Os três filhos — dois meninos e uma menina chamada Tamar, em homenagem à irmã de Absalão — herdaram sua beleza.
Mas beleza não põe mesa, aquela coisa toda. Absalão queria mesmo era fazer as pazes com Davi. Bom, a intenção final não era bem essa, mas era necessário que ele voltasse a falar com o pai. Então mandou buscar Joabe para pedir que o general intercedesse junto ao rei. Joabe não veio. Mandou chamá-lo mais uma vez, e foi ignorado. Então chamou seus empregados:
— Já repararam na plantação de cevada de Joabe?
— Sim, claro. O campo dele fica logo ali.
— Então. Vão lá e toquem fogo na cevada dele. Não, não! Sem medo. Eu estou mandando. Ele vai vir reclamar é comigo, não com vocês.
Os empregados cumpriram a ordem. Não demorou muito para que Joabe aparecesse na casa de Absalão, botando fogo pela venta:
— MAS ABSALÃO, QUE PORRA FOI ESSA? POR QUE VOCÊ TOCOU FOGO NA MINHA PLANTAÇÃO?
— Opa, finalmente você apareceu!
— HEIN?
— Ué! Mandei te chamar duas vezes e você ignorou. Então resolvi mandar uma mensagem mais enfática.
— MAS QUEIMANDO MINHA PLANTAÇÃO?
— Bah, não vamos nos prender a detalhezinhos. Seguinte: eu quero que você vá falar com meu pai. Sei que ele sempre te dá atenção e coisa e tal. Pois diga a ele que eu mandei perguntar por que é que ele me fez voltar de Gesur, se não queria nem ver minha cara? Seria melhor não ter vindo. Pelo menos a família que eu tenho lá me trata bem. Então eu quero saber o que acontece, esclarecer logo esse negócio. Se o rei acha que eu sou culpado de alguma coisa, que mande me matar.
— Sei não, Absalão. Seu pai foi muito claro quando disse que não queria vê-lo. Se eu chegar com um recado assim, é capaz do homem ficar puto, aí cê sabe como é…
— Joabe, você quer ter mais prejuízo do que já teve com o incêndio? Não, né? Então é melhor levar o meu recado.
O general esbugalhou os olhos e ainda mexeu a boca, como se fosse soltar alguma imprecação. Mas acalmou-se, deu meia-volta e foi falar com o rei. No mesmo dia, Davi mandou chamar Absalão. O príncipe chegou ao palácio, deteve-se diante do trono e prostrou-se com o rosto no chão.
— Majestade…
— Que majestade o quê, Absalão! Vem cá, dá um abraço no seu velho.
Os dois se abraçaram, emocionados. Para Davi, era o fim de uma tensão desnecessária entre ele e o filho. Para Absalão, era só o começo do desenrolar de seus planos.

A volta de Absalão

(II Samuel 14:1-24)

Três anos depois do assassinato de Amnom, o rei Davi já tinha superado a morte de mais esse filho, e agora sofria de saudade de Absalão. O rei, orgulhoso, jamais admitiria isso. Mas não era preciso: Joabe, conhecendo Davi como ninguém mais, percebeu a que se devia a melancolia do rei, e pensou num plano meio maluco para reconciliá-lo com o filho sem que nenhum dos dois precisasse dar o braço a torcer. Para começar, procurou uma velha amiga em Tecoa, uma mulher muito sábia e dissimulada.
— Preciso da sua ajuda.
— Ah, Jô, você sempre precisa!
— Mas dessa vez o caso é muito sério, e exige disfarce.
— Xi…
— Nada de mais! Você só vai ter que se vestir de luto e ficar uns dias sem pentear os cabelos.
— Ué. Quem morreu?
— Seu filho.
— Você sabe muito bem que eu não tenho filho, Jô.
— Eu sei, eu sei. Essa é a história que você vai contar pro rei.
— Ah, sim. Daí o luto.
— Exato. O negócio tem que ser convincente. Você me ajuda?
— Como sempre.
— Obrigado. Agora vamos ensaiar seu texto, que é pra não sair nada errado.

No dia seguinte, sentado em seu trono, Davi recebia os súditos que haviam solicitado audiência. Estava com um ar distante, mal olhava para os que vinham ter com ele. Pensava em Absalão, filho tão amalucado, e talvez por isso mesmo tão querido. Onde estaria? Enquanto pensava no filho, anunciaram o próximo requerente, e entrou uma mulher toda de preto, descabelada, parecendo muito triste. Percorreu o corredor de cabeça baixa, chegou tímida aos primeiros degraus do trono e lançou-se com o rosto no chão:
— Ajude-me, meu rei!
— Ué. A senhora é baiana?
— Baiana? Não, por quê?
— Me chamou de “meu rei”…
— Epa. Não é o senhor o rei de Israel.
— Ah, foi nesse sentido que você disse… Aí sim. Mas diga o que você quer.
— Eu sou viúva. Meu marido morreu.
— Puxa. Viúva, o marido morreu, quanta desgraça… DEIXE DE OBVIEDADES, VAMOS À QUESTÃO!
— Er… Então. Eu tinha dois filhos. Um dia os dois saíram para trabalhar no campo, se desentenderam, começaram a brigar. Acabou que um matou o outro.
— Vixe.
— Pois é. Pior foi depois: a parentada toda começou a me importunar para que eu entregasse meu filho.
— O assassino?
— O meu filho, majestade. E o que eu poderia fazer? Eles querem apedrejar o menino. Está certo, ele matou o próprio irmão. Mas e eu, como fico? Perco meus dois filhos? Se eles pegam meu menino, acabam-se minhas esperanças e o nome do meu marido se perde. O senhor compreende a situação?
— Claro, não sou burro nem nada. É uma merda de situação, hein?
— Pois é. O senhor me ajuda?
— Sim, sim. Pode voltar para sua casa, que eu tomarei as providências.
— Tomará, né? Sei… Mas se acontecer alguma coisa, eu e minha família levaremos a culpa. O senhor fica inocente na história.
— Está me acusando de omissão…?
— Longe de mim!
— Humpf. Bom, façamos assim, então: se alguém for lhe encher o saco, traga-o aqui. Eu resolvo, pode deixar.
— Resolve, né? O senhor bem que podia pedir a Deus que não permita que nada aconteça…
— Pedir a Deus? O que você quer dizer com isso? Que não é o bastante, é isso? Quer exigir mais do rei, é isso?
— Mas de forma alguma!
— Grunf. Olha, você fique feliz porque hoje eu estou muito bonzinho. Quer garantias, é isso? Pois eu lhe garanto, e juro por Javé, que nada vai acontecer a você ou ao seu filho. Não seria justo. Pode ficar tranqüila. Está bom agora?
— Mas é claro! O senhor só me permite dizer mais uma coisinha?
— Ai meu saco… Fala, vai.
— Por que o senhor fez algo tão errado com o povo de Deus?
— Hã?
— Dizendo o que me disse agora, o rei condenou a si mesmo.
— HEIN?
— Ué! Não foi exatamente isso que aconteceu em sua família, majestade? Um de seus filhos matou o outro, e agora vive desterrado. Quem está morto, está morto, é como a água derramada na terra, nem Deus trás de volta. Mas o rei pode trazer um exilado de volta a Israel.
— Peraí, isso está me cheirando a texto decorado.
— Hum? Como? N-nada disso! Eu só vim aqui porque o povo me ameaçou, já disse. Então eu pensei: “Vou lá falar com o rei, a palavra dele é confiável como a de um anjo de Deus”. E agora o senhor prometeu que nada vai acontecer ao meu filho. Então fico muito agradecida, viu? Agora tenho que voltar, estou com a pia atulhada de louça, um monte de roupa pra lavar, o quintal…
— Pára, pára! Cê tá me enrolando.
— …
— Eu vou te fazer uma pergunta agora, e você vai me responder com sinceridade.
— Pode perguntar, majestade.
— Foi Joabe que enfiou você nisto, não foi?
— Neste vestido?
— NA SITUAÇÃO! NÃO ME ENROLE!
— Ah, na situação… Puxa, o senhor é mesmo feito um anjo de Deus…
— Foi o Joabe ou não foi?
— Foi! Foi! Mas não leve a mal, majestade. Ele só fez isso pensando no senhor, querendo resolver essa situação.
— Hum. Tá bom. Volte para casa. Com o Joabe eu falo depois.
Assim que a mulher saiu — ressabiada por ter sido descoberta tão facilmente — Davi mandou chamar Joabe:
— Mas e então, Joabe? Que presepada foi essa que você me aprontou?
— Ah, majestade! Eu só queria ajudar. Estou com saudade de Absalão…
— Está, é? Hum. Pois bem, vou fazer o que você quer: pode trazê-lo de volta.
Joabe, ainda imbuído do espírito teatral, não resistiu e inclinou-se até o chão.
— Deus o abençoe, majestade! Agora eu sei que o senhor está mesmo satisfeito com meu trabalho. Puxa, chegar ao ponto de atender a um pedido deste seu criado! Sinceramente, eu não esperava!
— Tá, tá. Vai lá e não me torra.
Para Joabe tanto lhe fazia se Absalão ficava em Gesur, se voltava para Israel ou se ia para o inferno. Mas com essa manobra ele fizera o rei trazer o filho de volta sem admitir em momento algum que sentia sua falta. Joabe foi a Gesur muito feliz com o sucesso de sua empreitada. Quando voltou com Absalão, porém, foi surpreendido pela atitude inflexível do rei:
— Trouxe o moleque? Está feliz? Que bom, fico feliz também. Só não me traga aquele mequetrefe aqui. Não quero mais vê-lo.
— M-mas, majestade… O menino veio de Gesur até aqui todo feliz, antecipando o momento do reencontro. O que é que eu digo pra ele?
— E eu lá sei? Você que inventou esse negócio, agora se vira.
Entristecido, Joabe deu a notícia a Absalão. O príncipe, como era de seu feitio, não teve qualquer reação: apenas foi morar em sua própria casa, pretendendo só pisar novamente no palácio quando coroado rei. Davi, conhecendo bem o filho que tinha, talvez não devesse mostrar-se tão intolerante: Absalão não era de reagir de imediato, mas gostava de cozinhar sua vingança em fogo lento.

Amnon e Tamar

(II Samuel 13)

A essa altura da história, Davi já era um respeitável senhor com vários filhos adultos. Um desses, dos quais ouviremos falar muito ainda, era Absalão, filho de Davi com Maacá, princesa de Gesur. Absalão tinha uma irmã linda chamada Tamar. Essa filha do rei era um pitéu, e logo caiu nas graças de Amnom. E daí? E daí que Amnom era filho de Davi com sua primeira esposa, Ainoã. O rapaz sofria de amor pela meia-irmã. Bom, amor coisa nenhuma: ele queria era comer logo a moça. Mas não via como; Tamar era virgem e não podia encontrar-se a sós com nenhum homem. Amnom se corroía por dentro. Andava cabisbaixo, olheiras fundas no rosto pálido, espinha encurvada. E foi nesse estado deplorável que seu primo Jonadabe o encontrou um dia.
— Amnom, que acontece com você, rapaz? Tá um caco! Isso lá é jeito de um príncipe se apresentar por aí? O que acontece? Diga aqui pro primão.
— Ah, Jonadabe, minha vida é uma merda… Estou apaixonado por Tamar.
— Sua irmã?
— Meia-irmã, porra. Ela é irmã de Absalão. E eu a quero mais que tudo na vida, mas não sei o que fazer.
— Ah, então tá explicado. Anda se acabando na punheta, aí fica esse farrapo.
— Pois é…
— Precisamos resolver isso, Amnom.
— Não me diga!
— Não seja cínico, estou aqui pra te ajudar. Hum. Olha, cê podia se fingir de doente.
— Como?
— É, cair de cama se fingindo de doente. Do jeito que você está acabado não vai ser difícil.
— Obrigado…
— Ué, mas é verdade! Nunca te vi assim, tá parecendo um fantasma! Mas então: finja-se de doente. Você é filho do rei, paparicado que só a porra, não é? Então! Quando seu pai vier ver como você está, diga a ele: “Pai, eu queria muito que Tamar, minha irmãzinha, viesse aqui cuidar de mim, preparar minha comida”. Ela é sua irmã, oras, seu pai não vai negar um pedido tão inocente.
— E aí…
— E aí, quando ela estiver preparando sua comida você deixa a comida de lado e come a cozinheira.
— A cozinheira? Mas a dona Dita é tão… AH! A cozinheira aí é a Tamar, né?
— Isso, meu asno!
— Mas que beleza de idéia, Jonadabe! Eu jamais pensaria em algo assim.
— Pior é que eu sei disso. E um mané feito você é herdeiro do trono.
— Sou burro mas nasci com sorte. Não tenho culpa.
— Bah.
Empolgado com o plano do primo, Amnom correu para botá-lo em prática. Foi para casa, deitou-se e ficou lá, gemendo baixinho vez em quando, tossindo, reclamando de dores vagas. Logo alguém foi dizer ao rei que seu filho estava doente, e Davi foi visitá-lo.
— Que acontece com você, filho?
— Não sei, pai… É uma… Cof! Cof! Uma dor que sobe assim, e faz assim, tipo desse jeito, sabe? E aí me vem um calafrio, uma tremedeira, um formigamento, um calor.
— Eita! Tudo isso junto?
— É, pai. Tô mal.
— Mas você tem que ficar bom logo, Amnom. Sempre foi um rapaz tão forte, que coisa.
— Eu sei, eu sei. Se ao menos tivesse alguém para cuidar de mim…
— Tá brincando, né? Você é príncipe de Israel, rapaz! Se precisar vem gente desde Dã até Berseba para cuidar de você.
— Ah, pai, mas é tudo assim, só porque eu sou príncipe. Queria ser cuidado por alguém que se importe mesmo comigo.
— Quer que eu chame sua mãe, é isso?
— Não, não precisa. Muita canseira pra mãe, tadinha. Hum. E Tamar?
— Não, até que ela tá bem. Ontem mesmo…
— TAMAR, pai! Minha irmã!
— Ah, Tamar! Eu tinha entendido que… Bom, você sabe. Malditos trocadilhos. Tudo bem, vou falar pra Tamar vir aqui cuidar de você.
— Obrigado, pai.
— O que eu não faço para agradar meus filhotes?
Enquanto Amnom comemorava secretamente o bom andamento do plano, Davi mandou buscar Tamar para cuidar dele. A moça chegou, cumprimentou o irmão acamado e foi preparar bolos e pães para ele. Quando levou a comida até a cama, porém, Amnom não quis comer. Não quis comer bolo, que fique claro: em relação à irmã a fome só aumentava. Ela protestou:
— Mas você precisa comer, Amnom. Está muito fraco.
— Eu sei, eu sei. Mas é que essa gente toda aqui, sei lá. Fico me sentindo constrangido. Você bem podia mandar todo mundo sair, né?
— Tá bom.
Inocente das intenções de Amnom, Tamar pediu a todos que saíssem da casa. Satisfeito, o príncipe pediu que ela lhe levasse a comida até a cama. Quando ela se aproximou, Amnom a agarrou dizendo:
— VEM NI MIM, PRECHECUDA!
Ela, assustada, tentava desvencilhar-se com argumentos:
— Que é isso, Amnom? Não faça isso, por favor!
— Ah, mas faço!
— É loucura, e não é bem visto aqui em Israel, você sabe!
— Sei de nada!
— Você ia ficar desmoralizado, e eu não ia poder aparecer diante dos outros, de vergonha.
— Mimimimimimimi!
— Fale com o rei, Amnom! Tenho certeza que ele me dará a você!
— Mané rei, mané rei! Eu quero é rosetar, minha filha!
Amnom era mais forte, e acabou dominando a irmã. Fez a festa, lambuzou-se. Depois de matar a vontade, porém, olhou para o lado, para aquela mulher miúda e chorosa, e pensou:
— Por que essa criatura não vira uma pizza?
Pegou nojo de Tamar e queria ver-se livre dela. E escolheu o modo mais delicado de fazê-la entender isso:
— Vambora, minha filha. Caminho da roça. Já me servi, agora tenho mais o que fazer.
— Queisso, Amnom? Fazer isso agora é um crime pior ainda.
— Blablablá, foda-se. Cadê meu empregado? Ô, coiso! Tira essa mulher da minha frente, que eu não agüento nem olhar na cara dessa mocréia. Bota ela pra fora e tranca a porta.
O empregado, mesmo sabendo que a moça em questão era filha do rei, obedeceu a ordem. Tamar se viu na rua de madrugada, com seu vestido longo de mangas compridas e muito enfeitado, vestimenta obrigatória para as princesas virgens. Mas ela havia sido deflorada, humilhada, e não se sentia bem com sua bela roupa. Então, em sinal de grande tristeza, jogou cinzas sobre a cabeça, rasgou o vestido e saiu gritando pelas ruas, feito louca, cobrindo o rosto com as mãos.
Absalão dormia em sua casa após uma noite de leve bebedeira. Ouvindo os berros que vinham da rua, pensou “Quem será a puta doida que está gritando a essa hora?”, e saiu para ver. Ficou besta ao ver sua irmã de roupas rasgadas e coberta de cinza, vagando por Jerusalém feito assombração.
— Tamar! Que aconteceu, Tamar?
— O… Amnom… Ele… Ele…
— O Amnom? Ele te fez mal? Foi isso, Tamar? Ele te fez mal?
— F-foi…
— Eu sabia! O jeito que ele olhava pra você, só podia mesmo dar nisso. Mas agora já foi, menina. Fique calma. Ele é seu meio-irmão, o caso também não é pra tanto. Deixa isso pra lá.
Tamar mal podia acreditar no que ouvia. Deixar para lá, simples assim? O irmão mais velho só podia estar doido. Não estava: Amnom tinha sangue de Davi correndo nas veias, e não deixaria isso quieto. Mas para que pressa? A princesa desonrada passou a morar, triste e sozinha, na casa do irmão. O rei soube logo do ocorrido, e ficou furioso. Absalão, no entanto, tratou de acalmá-lo. Não era para tanto, muita calma, muita calma…

Dois anos depois, Absalão foi coordenar a tosquia de suas ovelhas em Baal-Hazor. A tosquia era um trabalho para dias, então Absalão resolveu fazer uma festa para passar o tempo de forma mais agradável. Para isso, foi falar com o rei:
— Pai, vou para Baal-Hazor amanhã, para a tosquia das ovelhas, e vou dar uma festa lá. Queria que o senhor e todo o povo aqui do palácio fossem também.
— Ah, filho, melhor não. Daríamos muito trabalho a você, é muita gente.
— Hum. Lá isso é… Mas, pô, deixa pelo menos o Amnom ir.
— Amnom? Por que ele?
— Ué. Ué. Pô. Sabe como é, pai. O Amnom tem a minha idade e tal. A gente se dá bem.
— Vocês nem se falam!
— Mais um motivo! Para que essa briga besta? Quero fazer as pazes com meu irmão.
— Hum. Sei.
— Pô. Deixa ele ir, pai.
— Tá, vai. Vou falar com ele. Mas se ele não quiser ir, não posso fazer nada.
— Claro, claro.
Quando soube do convite, Amnom aceitou-o de pronto. Não tinha razões para desconfiar de nada: durante dois anos havia se encontrado inúmeras vezes com Absalão, e ele tivera várias oportunidades para vingar a honra da irmã. Não fizera nada, decerto a raiva passara. Então Amnom chamou todos os outros filhos do rei, e foram para Baal-Hazor. Absalão recebeu a todos com sincera alegria, e pediu licença para ir trocar umas palavrinhas com seus empregados. A autoconfiança de Amnom iria por água abaixo se pudesse ouvir as tais palavrinhas:
— Seguinte, macacada. Fiquem de olho em Amnom. Quando ele estiver bem encachaçado, acabem com a raça dele. Não, não, sem veadagem. É pra matar mesmo. Ele é filho do rei? Pois eu também sou, e a responsabilidade é minha. Não sejam uns bundões, façam o que eu mandei.
A festa começou, Amnom encheu a lata e os empregados do irmão trataram de cumprir a ordem. Vendo o que acontecera, os outros filhos do rei interpretaram errado: achando que Absalão pretendia tornar-se sucessor de Davi eliminando a concorrência, montaram em suas mulas e fugiram. Antes que eles chegassem a Jerusalém, no entanto, chegou a notícia. E chegou deturpada: disseram a Davi que Absalão havia assassinado todos os seus filhos.
Imaginem o desespero do rei. Imaginaram? Imaginaram nada! Davi rasgou as roupas, se jogou no chão, todo mundo no palácio fez o mesmo. Uma cena lamentável. Mas logo chegou Jonadabe, o esperto, para dar a notícia correta:
— Tio, não mataram seus filhos não.
— Como não? Acabaram de me dizer que Absalão matou os irmãos!
— Matou nada!
— Tem certeza, Jonadabe?
— Pois eu não estava lá? Claro que tenho certeza.
— Ah, que beleza! Que beleza! Ouviram? Meus filhos estão vivos! Eu sabia que Absalão não seria capaz de uma crueldade assim, meu filhinho querido.
— Er… Tio?
— Que foi, Jonadabe?
— Não é bem assim.
— Como não é bem assim? Meus filhos não estão vivos?
— Estão…
— Então?
— … Menos um.
— HEIN?
— Pois é. Lembra daquela história de Tamar, do que Amnom fez com ela? Pois é…
— Então Absalão matou Amnom? É isso?
— É.
Enquanto eles falavam, uma das sentinelas veio dizer que os príncipes haviam chegado. Traziam a confirmação da notícia dada por Jonadabe: Amnom estava morto. Os filhos do rei vinham tensos, com medo, de repente todos começaram a chorar. Choravam a morte de Amnom, claro, mas também de alívio por terem escapado das mãos de Absalão. Davi não sabia dessa parte, porém, e começou a chorar também pela morte do filho, no que foi acompanhado pelos funcionários do palácio. Por muito tempo ainda Davi lamentaria a morte de Amnom.
Enquanto tudo isso acontecia, Absalão saiu de Baal-Hazor direto para Gesur, onde se abrigou no palácio do rei Talmai, que vinha a ser seu avô materno.

A morte do filho de Davi e Bate-Seba

(II Samuel 12:16-31)

No último capítulo, vimos que Javé, em sua infinita misericórdia e absoluta justiça, determinara que o filho de Davi pagaria pelo crime de seu pai. Não demorou a agir; assim que o profeta saiu do palácio, chegou ao rei a notícia: a criança estava gravemente enferma. Mas Davi, já estamos cansados de saber, não era muito de abaixar a cabeça para as ordens de cima: era orgulhoso, atrevido, e não aceitaria quietamente esse castigo estúpido. Então afrontou a Javé, pedindo pela vida do filho, e ficou em jejum. Isolou-se em seus aposentos e passou a noite toda deitado no chão. Os empregados do palácio queriam fazê-lo levantar-se e comer alguma coisa, mas ele estava firme em seu intento. A atitude era provocativa: Javé já determinara que a criança morreria, e Davi ousava discutir, demonstrando a todos que se martirizava para salvar a vida do filho condenado. Assim passou uma semana, deitado no chão duro e sem comer absolutamente nada.
Ao fim de uma semana, o menino morreu e os funcionários do palácio ficaram sem saber o que fazer:
— Se o rei nem nos respondia quando a criança estava doente, como vai ser agora que ela morreu? Ele é capaz de fazer alguma besteira.
Um empurrava para o outro a responsabilidade de dar ao rei a notícia. Não foi preciso: ouvindo os cochichos ao seu redor e vendo as expressões de pesar em todos os rostos, Davi deduziu o óbvio. Olhando vagamente em volta, perguntou:
— A criança morreu?
Com a confirmação de suas suspeitas, o rei surpreendeu a todos: levantou-se, tomou um banho, penteou os cabelos e trocou de roupa. Em seguida foi até a tenda onde estava a Arca Sagrada para prestar um culto a Javé. De volta ao palácio, pediu que lhe servissem comida. Os empregados ficaram sem entender nada:
— Majestade… Enquanto o menino estava vivo o senhor passava o dia chorando e não comia nada. Foi ele morrer, e o senhor está aí, disposto. Que foi isso?
— Ué. É isso mesmo. Enquanto ele estava vivo, eu jejuei e chorei, pensando que talvez Deus pudesse ter pena de mim e salvar a vida do menino. Mas agora que ele está morto, de que adianta chorar? Eu não posso fazê-lo viver de novo. Um dia eu irei para onde ele está, mas ele nunca vai voltar para mim. Entenderam?
Os empregados compreendaram muito bem. Isso explicava, aliás, a ida ao Tabernáculo: Davi o fizera mais para reconhecer a vitória de um adversário do que para adorar a um deus.

Davi perdeu essa batalha com Javé, mas em Amom tudo corria bem: Joabe continuava cercando a capital, Rabá. Quando estava para invadir a cidade, mandou uma mensagem a Davi:

Majestade,

Rabá está cercada, e eu tenho o controle dos reservatórios de água. Agora o senhor pode vir para cá com seus soldados para tomar a cidade. Eu não quero a fama por essa conquista.

J.

Joabe podia ser um brutamontes, mas também sabia ser político. Cedendo a glória da tomada de Rabá a Davi, crescia aos olhos do rei e tirava o cadáver de Urias do meio do caminho entre eles. O rei, tendo compreendido a mensagem, juntou seus soldados e partiu para Amom, atacando e conquistando Rabá. Feito isso, condenou seus habitantes a uma vida de trabalhos forçados, e tomou como lembrança a coroa do rei de Amom, que era de ouro e pedras preciosas e pesava 34 quilos (a coroa, não o rei. Seria ridículo). Missão cumprida, voltaram todos a Jerusalém.

Na capital, Davi ainda tinha um problema: Bate-Seba, sua favorita, ainda sofria pela morte do filho. Davi consolou-a do único jeito que sabia, e ela engravidou novamente. Nove meses depois nasceu o menino Salomão. Javé, sabendo que Davi ainda guardava rancor por causa do filho morto, resolveu ser diplomático e mandou Natã dizer ao rei que tinha gostado muito do novo garoto. Como prova disso, ordenou ao profeta que desse ao menino o nome de Jedidias, amado por Deus em hebraico.
Davi ignorou a mudança de nome.

Davi leva uma bronca

(II Samuel 12:1-15)

Ao enviar Urias para a morte e assim desposar a viúva, Davi excedera qualquer limite. Javé não gostou nada daquilo, e ordenou que o profeta Natã fosse dar uma bronca no rei. “Dar uma bronca no rei!”, preocupava-se Natã, “Falar é fácil. Por que não vai lá ele mesmo? Como é que eu vou dar essa bronca sem deixar o homem puto?”. Foi pensando nisso por todo o caminho, e ao chegar ao palácio havia decidido abordar o assunto de forma suave, contando uma parábola. Então, quando o rei enfim o recebeu, começou a contar sua história:
— Dois homens moravam na mesma cidade…
— Qual cidade?
— Hein?
— Você disse que dois homens moravam na mesma cidade. Qual?
— Oras, não vem ao caso! Sei lá! Belém, vá.
— Belém? Olha, então eu devo conhecer os dois. Como se chamavam?
— É só uma história, majestade!
— Ah! Não é de verdade, então?
— Não!
— Bom, bom. Continue, adoro histórias.
— Então. Um dos homens era muito pobre, o outro era milionário. O rico tinha muitos bois, jumentos, ovelhas, camelos. O pobre, coitadinho, tinha só uma ovelha. Era apegado ao bichinho: a ovelha comia de sua comida, bebia em seu copo, dormia em seu colo.
— Ih. Esse cara aí com a tal ovelha, sei não…
— Pô, majestade, não fode. A ovelha era como uma filha para ele.
— Filha? Sei.
— NÃO IMPORTA! O negócio é que o milionário lá recebeu a visita de um amigo tão rico e importante quanto ele. E sabe o que ele fez?
— O quê? O quê?
— Com tantos animais à disposição em sua propriedade, resolveu, por puro capricho, matar a ovelha do vizinho pobre para servir ao visitante.
— COMO É QUE É??? O cara tinha gado à vontade, mas preferiu matar o bichinho de estimação do outro, que não tinha mais nada na vida?
— Isso mesmo.
— ESSE SUJEITO É UM FILHO-DA-PUTA! Deve dar quatro ovelhas para o vizinho e depois ser executado. Não consigo imaginar outro castigo para ato tão cruel.
— Pois esse sujeito é o senhor, majestade.
— COMO??? Não sei do que você está falando.
— Não sabe? Urias? Bate-Seba?
— Er… Quem?
— JAVÉ SABE TUDO, DAVI! Ele mandou dizer que o fez rei de todo o Israel, que o salvou de Saul e entregou o reino em suas mãos. Tudo isso ele lhe deu, e daria tudo duplicado. Então por que é que você foi cometer um crime tão vil?
— C-Crime…?
— VOCÊ ORDENOU A MORTE DE URIAS, PARA PODER FICAR COM A MULHER DELE!
— Eeeeeeeeeeeeeeeeu?
— JAVÉ SABE TUDO! Como punição por seus atos, ele diz que sua descendência terá uma história violenta. Além disso, uma pessoa de sua própria família causará sua desgraça. Suas esposas vão se entregar a outro homem, e ele vai traçar todas no meio da rua, à luz do dia, para que todo o Israel saiba que o rei é um chifrudo.
— Tá certo, tá certo… Eu errei.
A confissão do rei fora mais fácil do que Natã esperava. O profeta não resistiu à tentação de dar uma boa notícia:
— Ah, não fica assim! Javé perdoou seu pecado, não vai matá-lo nem nada assim.
— Que bom.
— É, é. Muito bom. Só tem uma coisinha…
— O quê?
— Sabe o menino, filho de Bate-Seba?
— Claro! Aquele menino é a alegria da minha vida!
— Er… Então. O menino… — bem devagar, Natã ia andando de costas na direção da porta enquanto falava — O menino vai pagar por essa.
— Como?
— Deus vai matar o seu filho, Davi.
O rei ficou sem acreditar por um instante: primeiro Javé o repreendia por matar um homem inocente, e agora punia por isso alguém mais inocente ainda, um bebê? Não podia ser verdade. Quis confirmar com Natã, mas o profeta já dera no pé.

Saul começa a infernizar a vida de Davi

(I Samuel 18:5-30)

Tudo parecia muito bem: Davi era um herói nacional, Saul firmava sua autoridade com a maior de todas as vitórias contra os filisteus, Jônatas tinha um bom amigo. Só que algo aparentemente inocente veio perturbar a paz no palácio: uma música nova que começou a se espalhar por Israel quando o exército voltou da batalha. As mulheres cantavam e dançavam na rua enquanto Saul desfilava em carro aberto, e ao prestar atenção na letra o rei ficou muito contrariado. Que música era essa? Bom, as mulheres se dividiam em dois grupos. Um cantava:

Lá no campo de batalha
Lutando em nome de Deus
Escorraçamos a gentalha:
Saul matou mil filisteus.

E o outro grupo respondia:

Isso é muito notável
Nosso rei é mui viril
Sua coragem é inabalável
Mas Davi matou dez mil.

Não era à toa a contrariedade de Saul. “Dez mil para ele, e só mil para mim? Que merda é essa? Agora só lhe falta o trono!”, pensava o rei, enciumado.
No dia seguinte ao desfile triunfal, o tal espírito maligno apossou-se de Saul de novo, e dessa vez com força total. Tomado pela paranóia, tinha certeza de que Davi pretendia usurpar-lhe o trono. Davi, sem saber do que ia na mente doentia do rei, correu para seus aposentos para tocar harpa e acalmar-lhe a fúria. Vendo ali a origem de sua perturbação, Saul não pensou duas vezes: pegou sua lança e arremessou-a contra o rapaz. Davi, porém, tinha reflexos rápidos, e conseguiu desviar-se da lança. Tomado pelo ódio (e pela loucura), Saul tentou mais uma vez, e outra vez Davi desviou-se. E, como não era besta nem nada, saiu correndo. Se Saul queria música para acalmar-se, que comprasse uma jukebox. Ele é que não ia arriscar-se a ser espetado na parede feito uma mariposa de coleção.
Davi não voltaria mesmo a tocar sua música no palácio, mas por iniciativa do rei: não suportando ver a cara daquele moço ruivo, Saul nomeou-o comandante de mil homens. Colocando-o numa posição intermediária — não tão alta a ponto de ficar longe da batalha nem tão baixa a ponto de ser apenas mais um entre tantos — Saul esperava que os filisteus logo o livrassem daquela pedra no sapato. Mas Davi tinha uma sorte danada. Tudo o que ele fazia dava certo, os israelitas o adoravam, e isso deixava o rei mais irritado ainda.
Saul passava as noites sem dormir, pensando em que posição de risco poderia botar Davi para que os filisteus o quisessem matar, uma vez que ele ter matado seu grande campeão a pedradas não parecia o suficiente. Torturava-se procurando uma resposta, até que um dia ela caiu-lhe na cabeça. Era tão óbvia que dava raiva: entre duas nações em guerra, as famílias dos respectivos reis eram alvos preferenciais para abalar o moral do inimigo. Davi não era de sua família, mas poderia ser. Com esse intuito em mente, no mesmo dia chamou o rapaz à sua presença.
— Davi, você pensa em se casar?
— Claro, majestade, claro. Mas acho que ainda sou muito novo para isso.
— Bobagem! O que você acha de Merabe?
— Quem?
— Minha filha mais velha, Davi.
— Ah, essa… Ué. Sei lá. Ela é legal.
— Eu quero que você se case com ela.
— C-como é?
— Não gagueje, oras! Veja que honra, você será genro do rei. Em troca, eu só lhe peço que continue sendo meu soldado fiel.
— Fico muito honrado, senhor, não me entenda mal. Mas quem sou eu, que origens tenho para ousar sequer pensar em ser genro do rei?
— Bah, modéstia besta. Você se casa com ela, estou mandando!
Sabendo que não valia a pena discutir, Davi agradeceu e foi cuidar de sua vida. Porém, como já estamos cansados de saber, o rei estava doido, e acabou dando sua filha em casamento a outro homem, um tal Adriel, morador da cidade de Meolá.
— Belo casamento, Saul. Está feliz?
— Claro, Abner, claro! É um bom rapaz, esse Adriel. E veja como minha filha está feliz.
— É verdade. Só Davi que não vai gostar disso.
— Davi? Ué, por que aquele puto não vai gostar?
— Ué. Você disse a ele que lhe daria Merabe em casamento.
— PUTA QUE PARIU, É MESMO! Ah, mas que cabeça, a minha! E agora, Abner?
— Hum… Ouvi dizer que sua outra filha tem interesse em Davi.
— Mical?
— Ela mesma. Quando ele passa ela fica olhando… Dizem que escreve poemas, acrônimos com o nome dele.
— Acrônimos, é? Que mau gosto… Bom, mas se ela gosta dele, o que estamos esperando? Tratemos logo de casar esses dois, antes que eu me esqueça e a ofereça a outro.
Saul comunicou a Davi o mal-entendido, e ofereceu-lhe a compensação:
— Você pode se casar com Mical, e ainda será meu genro.
— Hum. Mas eu mal conheço sua filha!
— Bobagem, bobagem! Terá tempo para conhecê-la depois que se casarem. Vamos logo cuidar disso.
Por Saul estava tudo acertado, mas Davi ainda relutava. Tornar-se genro do rei parecia-lhe um passo largo demais. Já esperando isso, Saul chamou seus empregados e ordenou-lhes que dissessem a Davi que o rei o apreciava muito e que seria uma boa idéia casar-se com a filha dele.
— Mas falem como se estivessem fazendo mexericos, não vão deixar escapar que eu mandei dizer.
Então nas semanas seguintes, sempre que conversava com algum empregado do palácio, Davi ouvia a mesma conversa:
— Puxa, seu Davi. O rei gosta muito do senhor, viu? Vive falando do senhor. “O Davi? Aquilo é um herói! Era de um genro assim que eu precisava!”.
— Que coisa… Para quem tentou me matar há tão pouco tempo, até que o rei está bonzinho.
— É a doença dele. O espírito ruim. O senhor sabe.
— Sim, eu sei, eu sei. Mas eu sou pobre, não valho nada. Ser genro do rei é uma honra grande demais para mim.
Todos os dias Saul pedia aos empregados notícias sobre a decisão de Davi, e a resposta era sempre a mesma: o rapaz continuava considerando-se indigno da filha do rei. “Hum. Então vou ter que fazê-lo acreditar que fez por merecer”, ele pensou, e logo mandou um recado a Davi:
— O rei não quer nenhum dote pela sua filha. A única coisa que pede é que você traga a ele cem prepúcios de filisteus.
Com isso, mais uma vez, Saul esperava que os filisteus acabassem com a raça de Davi. Os filisteus pareciam meio frouxos ultimamente, mas o rei duvidava que fossem ficar quietos se um maluco chegasse querendo cortar-lhes a pele do pau. Sabia o quanto Davi era orgulhoso, e usava esse orgulho como arma. Era orgulhoso, de fato: ao ouvir o recado, seus olhos brilharam. Um pouco de ação não lhe faria mal, cortar uns pintos filisteus seria divertido, e ainda seria genro do rei. Mical até que era jeitosinha, valia a pena.
O noivado foi anunciado por todo o Israel. Antes do dia marcado para o casamento, Davi reuniu seus homens e marchou em direção à Filistia. Mataram duzentos filisteus. Passaram a noite cortando os paus dos defuntos, e no dia seguinte Davi levou a Saul o dote pela sua filha: duzentos prepúcios, o dobro do que havia sido pedido. Saul ainda tentou mostrar-se desconfiado:
— Como é que eu vou saber que não são prepúcios israelitas mesmo?
— E desde quando israelita tem prepúcio, majestade?
— Er… Bem pensado. Mas quantos são? Eu pedi cem, lembra?
— Lembro sim. E trouxe duzentos.
— DUZENTOS??? Não acredito. Você poderia contá-los?
— Mas majestade…
— Ué, eu preciso saber.
Cheio de nojo, davi começou a contar os prepúcios.
— Um, dois, três, quatro… Olha, este é roxo! Dezenove, vinte, vinte e um… Que grandão, deve ser de algum parente do finado Golias! Cinqüenta e sete, cinqüenta e oito, cinqüenta e nove… Olha só este, que enrugadinho. Parece uma uva-passa. Cento e doze, cento e treze… Este aqui estica, olha só! Cento e sessenta e três, cento e sessenta e quatro, cento e sessenta e cinco, cento e sess… Não, isto aqui é uma uva-passa mesmo, como é que veio parar aqui? Cento e sessenta e seis, cento e sessenta e sete… Vixe, dá pra fazer um anel com este aqui… Cento e noventa e oito, cento e noventa e nove, duzentos. Pronto.
— Humpf. Bah. Tá bom, vai. Você agora é meu genro. Muito bem, seja bem-vindo à família.
Davi e Mical casaram-se. O povo amava Davi, aparentemente Deus amava Davi, e agora até sua filha amava Davi. O ciúme corroía a alma de Saul. Ele odiava aquele moço cada dia mais, e maldizia o dia em que o contratara. Alheio a isso, Davi continuava suas campanhas vitoriosas contra os filisteus, e via sua popularidade aumentar a cada dia.

Jonathan David

I know you like her
Well I like her too
I know she likes you
It’s not as if I’m being sent off to War
There are worse things in this world

There’s still room on my wooden horse for two
I was Jonathan to your David
You’re still King

Well, I’d thought about her
I dreamed she’d come, I’d make my escape
I thought she liked me but somehow I was wrong
I know you don’t want it this way
But it’s O.K.

It’s not like we’ll be parted
It’s not like we never know love

And she’ll smile for you
She’ll hold your hand
You’ll be in love there’s no other way
And I will make it some day

I know you like her
Well I like her too
I know she likes you
It’s not as if I’m being sent off to War
There are worse things in this world

There’s still room on my wooden horse for two
I was Jonathan to your David
You’re still King

Visions of love recollected
Have we ever been true?
I know that I have, it’s time for you to go
It’s all in the stones that you throw
I want you to know

It’s not like we’ll be parted
It’s not like we never know love

And she’ll smile for you
She’ll hold your hand
You’ll be in love there’s no other way

People say that
“We’ll never change”
“We’ll never change”
But I have

You and her in the local newspaper
You will be Married and you’ll be gone

Married and you’ll be gone

(Belle & Sebastian)

Jônatas e Davi

(I Samuel 18:1-4)

Capítulo dedicado a dois amigos: Paulo Polzonoff Jr., por ter se tornado meu amigo de infância assim que nos conhecemos, e Dean Moriarty, por me ensinar que fugir de piadas óbvias pode ser um bom negócio

Finda a batalha, Saul mandou chamar Davi ao palácio:
— Rapaz, não sei como prestar a você homenagem à altura do que você fez.
— Precisa não, seu Saul…
— Mas precisa sim, precisa sim! Vou pensar em alguma coisa, pode deixar. Enquanto isso, não gostaria de trabalhar aqui comigo?
— Er…
— Que foi, que foi? NÃO QUER TRABALHAR AQUI?
— Não é isso, senhor. É que… Bom, eu já trabalho aqui.
— COMO ASSIM???
— É. Eu toco harpa.
— Mas que bagunça é isto aqui! Ninguém me informa nada! É por isso que Israel não vai pra frente! E você toca harpa na banda do palácio, certo?
— Hum… Mais ou menos isso.
— Pois a partir de hoje você será meu músico particular. Que tal, hein?
— Puxa… Sinto-me honrado, majestade.
— Claro que se sente, claro! E começa hoje mesmo, viu? Pode trazer seus panos de bunda, que agora você mora aqui no palácio.
— Morar aqui? Mas eu tenho família em Belém, majestade.
— Sua família pode vir visitá-lo quando quiser.
— Hum. E meus amigos.
— Também, oras. E aqui você ainda poderá fazer novos amigos, rapaz. Meu filho, por exemplo. JÔNATAS!
— Oi, pai!
— Vem cá! Quero te apresentar o rapaz novo!
Jônatas já conhecia Davi, claro. Mas conhecia mais ainda o pai que tinha, então fingiu que o via pela primeira vez. A verdade é que os dois haviam se tornado grandes amigos assim que se conheceram. Eram confidentes, tinham um senso de humor parecido. Eram ambos malucos, como pudemos constatar em dois episódios: quando Jônatas entrou no acampamento filisteu acompanhado apenas de um empregrado, e quando Davi matou um gigante a pedradas.
Jônatas ficou muito feliz ao saber que seu grande amigo agora viria morar no palácio. Os dois teriam mais oportunidades para suas longas conversas, para as bebedeiras e para a caça às mulheres. Como demonstração de sua alegria, deu de presente algumas de suas coisas: uma capa, uma espada, um arco, um cinto e até sua armadura.
— Pô, Jônatas. Você não sabe que eu não sei usar armadura?
— Sei, por isso mesmo te dei essa de presente. Foi muito engraçado ver você usando a armadura antes de ir lá matar o Golias. Parecia uma pata choca.
— Pata choca é tua mãe.
— Apelou, perdeu!
— Vai tomar no cu.
— No seu, que é mais azul.
— Babaca.
— Sou, mas você me ama.
— Você é meu melhor amigo, caralho.
— Sim, sim. E serei para sempre.
— Mesmo?
— Mesmo.
— Veadagem da porra.
— Hehehehe.
Um belo exemplo de amizade masculina, não é mesmo? A lealdade entre os dois era coisa linda de se ver. Logo veremos o quanto a amizade de Jônatas foi preciosa para Davi.

Sempre que se fala da amizade entre Jônatas e Davi alguém levanta a hipótese do relacionamento homossexual entre os dois. Seria fácil eu me render, e passar alguns bons capítulos fazendo piadinhas com isso. Mas prefiro acreditar que sou influenciado pelo Monty Python, não pelo Casseta & Planeta.

Davi mata Golias

(I Samuel 17:41-58)

Com todo esse negócio de guerra, ameaças e desafios, a loucura de Saul amainara um pouco. Eram tantas as preocupações ocupando a mente do rei que o espírito mau não achava uma brecha para entrar. Mas foi só Davi virar as costas para ele voltar ao abilolamento de sempre. Chamou Abner, seu primo e comandante do exército, e perguntou:
— Abner, quem é aquele rapaz indo ali?
— Qual rapaz?
— Aquele ruivinho ali, de cajado na mão.
Abner era um bajulador dos mais desavergonhados, então achou melhor não contrariar o rei:
— Meu senhor, juro pela SUA alma que não sei!
Espertinho o danado, né? Até faz juramentos, mas pela alma alheia. Muito safo, muito safo. Saul não percebeu que o juramento botava em risco apenas sua própria vida, e ordenou:
— Pois procure saber.
— Pois não, majestade, é para já.
Abner fingiu que foi averiguar quem era o tal rapaz, mas é claro que não foi. Aproveitou para tirar uma soneca em sua tenda.
Enquanto isso, a notícia de que finalmente os israelitas haviam escolhido o homem para lutar contra Golias já chegara ao acampamento filisteu. Disseram a Golias que seu oponente o esperava lá embaixo, na margem do Rio. Feliz da vida com a perspectiva de um pouco de ação depois de quarenta dias de bravatas, Golias vestiu sua armadura, chamou seu escudeiro e desceu. Lá no alto, filisteus e israelitas apinhavam-se para assistir à luta, um grupo de cada lado do vale. Do acampamento filisteu vinham gritos de “GOLIAS! GOLIAS! GOLIAS!”. Do israelita, nem um pio.
Quando Golias chegou perto e viu aquele rapazote ruivo diante dele, sem nenhum tipo de armadura e de cajado na mão, teve uma crise de riso:
— Que que é isso? QUE QUE É ISSO? HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA. É algum tipo de piada israelita? DAGOM DO CÉU! HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA! Ai, ai. MEU ESTÔMAGO DÓI! Então é esse o golpe, querem me matar de rir? É BOA, MUITO BOA!
— Grunf.
— Tá resmungando o quê, moleque? Ou será que você é uma menina? É uma menina, é? Por acaso eu sou algum cachorro para você vir me enfrentar com uma vara, ô coisinha? Puta que pariu… Eu rogo a praga dos meus deuses contra você: QUE VOCÊ SE FODA E QUE O MEU PAU CRESÇA! HAHAHAHAHAHAHA! Vem pra cima com seu cajado, vem. Vou dar sua carne para os bichos do deserto comerem!
Você vem contra mim… AHAM! Você vem contra mim com sua espada , sua lança, seu escudo, e esse equipamento todo aí que eu não sei o nome. Mas eu vou contra você com o apoio de JAVÉ!
— De quem?
— Er… Javé.
— Conheço não.
— É o nosso Deus. O Senhor dos Exércitos. O Todo Poderoso. O Criador do Céu e da Terra. O…
— Peraí. Esse é o Dagom.
— Mané Dagom!
— Escuta, viemos aqui para lutar ou para discutir teologia, ó caralho?
— Tá irritada, santa?
— Mas olha que moleque ousado… Espera aí que eu já acabo com a tua raça!
— Você? EU acabo com a TUA raça. Com a ajuda de Javé, hoje eu corto sua cabeça. E os bichos do deserto terão um jantar muito mais farto do que a minha carne: a carne de todo o exército filisteu.
— Ah, é? Depois de me matar a pauladas, vai sair matando todo mundo lá em cima? Como, mordendo os caras até a morte? Olha, chega de tanto lero-lero, já estou cansado de gastar saliva com israelita.
Dizendo isso, Golias começou a avançar na direção de Davi. O rapaz não se intimidou com o gigante, e saiu correndo contra ele. Enquanto corria, enfiou a mão no alforje e pegou uma das pedras. Quando já estava suficientemente perto de Golias, enfiou a pedra na funda e começou a girá-la sobre a cabeça. Depois de muito girar, soltou uma das pontas da funda e a física se encarregou do resto: a pedra saiu pela tangente e voou, indo cravar-se bem no meio da testa do filisteu, única parte desprotegida de seu corpo. O gigante vacilou um pouco, olhando fixamente para Davi sem entender o que acabara de acontecer. Depois de um tempo assim parado, dobrou os joelhos e caiu de cara no chão. Davi correu, tirou a espada de Golias da bainha e com ela cortou-lhe a cabeça.

(Davi e Golias – Caravaggio (1606) – Kunsthistorisches Museum, Viena)

A situação inverteu-se: o acampamento israelita prorrompeu em brados de vitória, e o filisteu ficou em silêncio por um minuto, enquanto os soldados digeriam o acontecimento inacreditável. Quando finalmente se deram conta de que era verdade mesmo que seu maior campeão acabara de morrer nas mãos de um pastorzinho adolescente, ficaram apavorados e bateram em retirada. Os israelitas atravessaram o vale e perseguiram-nos até as cidades de Gate e Ecrom, na Filistia. Depois de matarem muitos inimigos e acuarem outros tantos em suas cidades, os israelitas voltaram e despojaram o acampamento filisteu.
Quanto a Davi, pegou a cabeça de Golias e a levou para Jerusalém, cidade que começava a tornar-se importante. Depois voltou para casa, levando as armas do gigante como souvenir.
Para quem até pouco tempo atrás era apenas um pastor de ovelhas, Davi podia dar-se por satisfeito: além de trabalhar no palácio e ter a confiança do rei (embora Saul já não se lembrasse), começava agora sua carreira militar, e da forma mais impressionante. Ele, porém, lembrava-se muito bem da estranha visita de Samuel à sua cidade, e sabia que sua história estava apenas no começo.

Post randômico

  • Pegue o livro mais próximo de você.
  • Abra o livro na página 23.
  • Ache a quinta frase.
  • Poste o texto em seu blog junto com estas instruções.
Mas os pastores de Gerar contenderam com os pastores de Isaque, dizendo: Esta água é nossa
(Gênesis 26:20a, na Bíblia de Referência Thompson, Edição Contemporânea da tradução João Ferreira de Almeida, história contada por mim aqui)

Coisas de Paula Manzo.

Página 4 de 11« Primeira...23456...10...Última »