Jesus, me chicoteia!

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A vinha de Nabote

(I Reis 21)

Ocupar o lugar de honra num banquete é uma deferência de grande significado. Você tem a atenção de todos, tem a melhor comida, o melhor vinho, e é servido antes de todos. Nisso pensava Nabote, bom israelita, agricultor e comerciante. Era fácil entender o papel de quem ocupa o assento principal numa grande festa. Mas o que dizer do conviva principal de um jejum? Era o primeiro a não ser servido? Recebia as melhores porções de uma comida inexistente. Sim, porque Nabote era agora o centro das atenções de uma grande quantidade de pessoas, todas elas reunidas para o jejum convocado pelo rei Acabe. Todas elas estavam desconfortáveis com esse bizarro jejum público, mas nenhuma delas tanto quanto Nabote. Quanto mais ele pensava, mais acreditava que o convite tinha algo a ver com sua recusa em fechar um negócio com o rei.
Estava certo em sua suposição. Como vimos no final do capítulo anterior, o rei andava cada vez mais birrento, e qualquer contrariedade seria capaz de levá-lo a fazer alguma bobagem. Acontece que Nabote possuía uma plantação de uvas que ficava ao lado de um palácio que o rei possuía em Jezreel. Sem ter mais o que fazer o dia todo — decisões importantes eram tomadas por Jezabel, fosse como fosse — Acabe achou por bem propor um negócio ao proprietário da vinha.
— Essa plantação é sua, rapaz?
— Sim senhor.
— Fica pertinho do palácio, não?
— Pois fica.
— Vamos fazer um negócio?
— Vamo não.
— Mas você nem ouviu ainda!
— Mas essa vinha foi herança de meu pai, e não quero me desfazer dela.
— Rapaz, isso aqui ia ficar lindo como horta real, já imaginou? Imagina!
— Tô imaginando.
— E aí, vamos fazer negócio?
— Vamo não.
— Puta que pariu! Eu te dou um vinha melhor que essa!
— Melhor que essa, é?
— É!
— Quero não.
— Eu te pago em dinheiro! Pago o dobro do que ela vale!
— Carece não!
— Te pago o triplo!
— Precisa não.
— PAGO QUATRO VEZES O QUE ESSA BOSTA VALE, TE DOU OUTRA VINHA DUAS VEZES MELHOR E TE DEIXO COMER MINHA MULHER!
— Dona Jezabel, é?
— Ela!
— Quero não!
— HMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMF.
Sufocando sua raiva e frustração, o rei saiu dali batendo os pés, entrou no palácio e se deitou em sua cama de cara para a parede e com o dedo enfiado na boca. Aos que lhe vinham perguntar o que tinha ou oferecer comida, apenas respondia com um “Uh-hum!” — ou qualquer coisa assim, era difícil entender o que ele dizia com o dedão na boca.
A reação do rei, muito madura e centrada, não tardou a virar o comentário do dia no palácio. Temendo que a novidade chegasse às ruas de Jezreel, Jezabel foi ter com seu esposo.
— Acabe, que bosta é essa?
— Uh-hum!
— UH-HUM O DIABO! DEIXA DE VEADAGEM E ME FALA O QUE ACONTECEU.
Obediente como sempre, mas um pouco relutante, o rei narrou à mulher os acontecimentos daquela manhã.
— Que vergonha, tamanho homem! Você é rei desta merda ou não é? Humpf. Levanta daí, levanta! Vai comer alguma coisa.
— Mas… E a plantação, meu bem?
— Deixa isso comigo! Amanhã mesmo a vinha de Nabote será sua.

Enquanto Acabe comia seus sucrilhos, Jezabel preparava seu plano. Escreveu algumas cartas em nome do rei, seladas com seu sinete, e as enviou para as autoridades de Jezreel. As cartas davam instruções para um grande jejum coletivo na cidade, que deveria ter Nabote no lugar de honra. E ali estava Nabote, sentado em sua cadeira cada vez mais desconfortável, sentindo sobre si o peso dos olhos de seus conterrâneos, que nada entendiam. Ficaram assim por longos minutos, até que o homem sentado logo à frente de Nabote resolveu puxar assunto:
— Você é Nabote, não é?
— Sou sim — respondeu ele, sabendo que seu interlocutor era um sujeito de má fama na cidade, bandido e mau caráter.
— Ah, eu te conheço!
— Eu também! — disse o que estava ao lado do homem, outro elemento suspeito. — Não é você o grande ateu de Jezreel?
— Ateu? Eu? Hã?
— Isso, ele mesmo! Vive dizendo que esse negócio de Javé não está com nada, que ninguém nunca viu Javé, que é tudo uma jogada política para acabar com as outras culturas da região e tal.
— COMO?
— Não se faça de besta! Eu mesmo ouvi você falando essas coisas no bar ontem à noite. Dizia também que Acabe é um bebê chorão, e que Israel merecia um rei macho de verdade.
— HEIN?
— Disse que quem manda no negócio todo é Jezabel, e que o rei vive debaixo da saia dela.
— Mas isso é um absurdo! Vocês não acreditam nesses dois, não é verdade? Ora, vocês conhecem a fama desses sujeitos, e conhecem a minha. O que acham?
Era tarde demais para Nabote, porém. Enfurecido pelo rumor levantado pelas duas testemunhas — segundo a lei mosaica, quantidade suficiente para se condenar alguém —, o povo levou o pobre coitado para fora dos muros da cidade, e ali o matou a pedradas.
No palácio, Acabe recebeu a notícia da boca de sua esposa, que o convenceu a ir imediatamente tomar posse da plantação. O rei se levantou e foi caminhando até a vinha. Quando se aproximava, notou de longe um homem que vestia roupas esfarrapadas, e lançava em sua direção um olhar que parecia hostil. Chegando mais perto, não teve mais dúvidas de quem se tratava.
— Então você já me achou, meu inimigo?
— Não foi difícil — respondeu Elias —. Primeiro, porque sei que você vem passar o verão aqui em Jezreel. Depois, porque a notícia de tudo o que você tem feito de mau e criminoso deixa Javé cada dia mais irritado.
— Mas o que foi que eu fiz?
— Não se faça de idiota! Mandar matar ou deixar de impedir uma morte é o mesmo que assassinato, você sabe muito bem disso. Tenho um recado de Javé para você, rei Acabe.
— Lá vem…
— Ele diz que varrerá da terra todos os homens de sua família, de modo que não deixe descendentes. O mesmo que ele fez às famílias dos reis Jeroboão e Baasa, fará à sua. O cadáver de Jezabel, a prostituta que você chama de esposa, será devorado pelos cães junto ao muro da cidade. Todos os parentes dela que morrerem na cidade terão o mesmo fim, e os que morrerem no campo serão devorados pelos abutres.
Ao ouvir a maldição proferida por Elias, o rei tremeu de medo. Tentando reconciliar-se com Deus, rasgou suas roupas em sinal de arrependimento, vestindo um camisolão de pano de saco. Ficou sem comer durante dias, dormindo no chão duro e exibindo um semblante abatido. Ao ver a reação de Acabe, Javé resolveu rever suas ameaças:
— Elias, diga a ele que lhe dou uma segunda chance. Já que ele se mostra tão arrependido, não vou mandar toda essa desgraça para a vida dele.
— O senhor é muito misericordioso, Javé. Estou surpreso.
— Em vez disso, a desgraça toda recairá sobre o filho dele.
— Que não teve nada a ver com a história?
— Isso.
— Retiro o que eu disse.
— Deixa eu me divertir um pouco, porra!

A guerra contra a Síria

(I Reis 20)

Sentado na principal sala de reuniões de seu palácio, Ben-Hadade, rei da Síria, mal conseguia disfarçar o tédio e a impaciência. Para um homem de ação como ele, só havia algo pior do que reuniões: reuniões com consultores. Ao seu redor na mesa, empertigados e com expressões de profundo saber e autoridade, eles se revezavam na apresentação. Começavam dizendo o nome, mas se não o fizessem daria no mesmo: eram todos iguais. O primeiro começara falando da empresa:
— Nós, da Siriana…
— Siriana?
— Sim, majestade.
— Com George Clooney e tal?
— Er… Não exatamente, majestade. Siriana é o nome de nossa companhia.
— Nome idiota.
— Senhor, com todo o devido respeito, levamos meses para chegar a esse nome. A definição envolveu pesquisas de mercado, análises de tendências, estudos de branding…
— Foda-se. Deu tudo num nome idiota de filme esquerdinha. O que é que vocês da Siririca…
— Siriana, senhor.
— Tanto faz. O que vocês têm a me dizer?
— Bem, majestade. Temos uma metodologia que foi desenvolvida por nossos sócios-fundadores e tem sido utilizada com sucesso há seis anos em diversos projetos. A metodologia é dividida em três pilares: pessoas, processos e tecnologia. Dentro desse pilar de pessoas, podemos destacar que a guerra contra Israel foi…
O rei já não prestava atenção. Fazia já três meses que aqueles almofadinhas percorriam a Síria coletando informações, discutindo entre si, realizando longas conferências e workshops. O Projeto Samaria, que era como eles chamavam o servicinho porco que desenvolviam, fora previsto para um mês, no máximo. Malditos consultores. E maldito Acabe, que o forçara a chegar a tal ponto.
Acabe… O rei de Israel era o mais bunda mole dos reis, disso ninguém duvidava. Mandado pela mulher e assombrado por um profeta casca-dura que desaparecera há muito tempo no deserto, Acabe era motivo de chacota em toda a região. Seu país era, portanto, alvo fácil. Isso, pelo menos, era o que pensavam Ben-Hadade e outros trinta e dois reis que haviam decidido apoiá-lo na campanha contra Israel um ano antes. Haviam subido às montanhas próximas a Samaria com seus cavalos e carros, cercando a cidade.
— … como resultado do que chamamos de gap analysis.
— Guépi o quê?
Gap analysis, majestade. Levantamos toda a situação atual com entrevistas e questionários entregues aos tomadores de decisão, e definimos, conversando com o senhor e seus assessores, qual seria a situação ideal. A partir disso, e sempre aplicando um conjunto de best practices, traçamos o caminho entre o que temos agora e o maior nível de maturidade possível, que é o nível 5. O relatório que apresentaremos hoje mostra os passos para atingir a zona de conforto de cada um dos níveis de maturidade, até o platô de sucesso do patamar mais alto. Em cada nível passaremos por um ciclo de conscientização, negação, frustração, aceitação…
Aceitação, pois sim! Era inaceitável a derrota para Acabe. Ben-Hadade ainda guardava os bilhetes trocados entre eles. Começara como uma espécie de trote; nem ele nem seus companheiros acreditavam muito que aquilo daria em guerra de verdade.

Acabe,

Sem delongas: toda prata e ouro que você tiver por aí, suas mulheres e seus filhos. Tudo meu.

B-H

A resposta de Acabe era patética, mas com um toque de malandragem:

Meu patrão Ben-Hadade,

O senhor tem razão. Eu e tudo o que tenho somos seus. Abraço!

A.

Era muita petulância do rei israelita. Como resposta, Ben-Hadade enviara uma mensagem que não deixava dúvidas sobre suas intenções, que já não eram mais apenas de aplicar um trote:

Acabe,

Não se faça de idiota. Eu requisitei todo o ouro e prata de seu palácio, além de suas mulheres e filhos. Mas você prefere dar uma de espertinho, não é? Pois que seja. Amanhã mesmo mandarei alguns empregados de confiança até aí. Eles vão examinar o seu palácio e as casas dos seus assessores, e vão pegar tudo aquilo que acharem que tem valor. O que você acha, hein?

B-H

Acabe ia ver o que era bom pra tosse…
— … WC?
— PwC? Mas vocês não eram de uma tal Siriema?
— Siriana, majestade. Eu perguntava onde fica o WC.
— Ah. Saindo daqui no corredor à direita, até o final, sobe as escadas à sua esquerda, passa pela porta do harém, vira na segunda à esquerda, desce uma escadinha de três degraus e por lá você se informa.
— …
— Você acha MESMO que eu conheço todo o palácio? Vocês andaram vasculhando tudo por aí, deviam saber mais do que eu.
— Er… Ok, majestade, com licença.
A saída do consultor deu ao rei sossego para remoer o ódio por Acabe e seu país. A resposta do rei de Israel à segunda mensagem demorara bem mais do que anterior. Ben-Hadade não tinha como saber, mas seu bilhete causara celeuma em Israel. Choramingoso como sempre, Acabe queixava-se pelos corredores do palácio. Que não era justo, que o rei sírio queria arruiná-lo e a seu reino, que era um absurdo, que onde já se viu. Quando conseguiram, a muito custo, interromper a cantilena do rei, seus assessores aconselharam: não entregasse nada, e Ben-Hadade que se fodesse. Acabe concordou, eufórico, mas na hora de escrever a resposta resolveu suavizar um pouco os termos:

Meu patrão Ben-Hadade,

Concordo com tudo o que o senhor disse na primeira mensagem. Tudo, tudo, tudo. Sinto dizer, porém, que não posso concordar com a última. É uma pena. Gostaria muito de poder ajudá-lo, mas não posso. Para qualquer outra coisa, sou sempre seu criado.

A.

Foi com a mão trêmula de raiva que Ben-Hadade escreveu o bilhete seguinte:

Porco israelita,

Que os deuses me capem matem se eu não invadir Samaria com um exército tão grande que, se cada soldado levar consigo um punhado de terra, a cidade sumirá do mapa.

B-H

A resposta de Acabe a essa ameaça fora, Ben-Hadade era forçado a admitir, de surpreendente coragem e presença de espírito:

Pão sírio,

O homem que diz “sou”, não é. O verdadeiro soldado conta vantagem depois da batalha, não antes. Em outras palavras, vem ni mim.

A.

Ben-Hadade recebera essa resposta de inesperada altivez enquanto bebia com os outros 32 reis em suas barracas perto de Samaria. Após ler o bilhete e passá-lo aos outros, o rei deu a ordem: era hora de atacar Israel. Enquanto isso, porém, Acabe recebia conselhos de um profeta. Os profetas de Javé haviam começado um movimento discreto de reorganização e, após uma ação aqui e ali, já eram até aceitos no palácio real — desde que Jezabel não estivesse por perto, é claro. Mesmo assim, evitavam as mensagens cifradas e as admoestações espirituais, apostando nos conselhos práticos para ganharem a confiança do rei. Esse profeta não era exceção: o recado que trazia diretamente de Javé para Acabe não tinha nenhum tipo de pirotecnia celeste, mas conselhos pertinentes quanto ao comando, divisão e organização do exército israelita. Enquanto Ben-Hadade e seus aliados ainda organizavam, preguiçosamente e cheios de si, a tomada de Samaria, o exército de sete mil israelitas subia a montanha para atacá-los. Quando deram por si, era tarde demais: os israelitas haviam causado baixas expressivas no exército sírio, botando o resto do contingente para correr. Comandados por Acabe, transfigurado em general eficiente e bravo, os soldados de Israel afugentaram seus inimigos, inclusive o orgulhoso Ben-Hadade, que fugira a todo galope.

— … É muito simples, como o senhor pode ver.
— Simples? SIMPLES? AQUELES FELASDAPUTA DO PAU CORTADO ME HUMILHARAM! VOCÊS VÃO ME DIZER AGORA QUE SABEM MAIS DO QUE EU, CORNOS?
— Majestade… O senhor contratou nossos serviços, só queremos apresentar nosso relatório e ir embora. Ainda temos que passar por um cliente no Egito hoje, e voltar para o escritório para preencher nossos relatórios mensais de horas.
— Cara… Deve ser muito chato trabalhar nessa Sirigüela.
— Siriana, majestade. Bem, como eu dizia é muito simples. Toda a ação se baseia em três pilares:

  1. Sobrenatural O deus dos israelitas é claramente uma divindade das montanhas; por isso o exército sírio foi derrotado por eles naquela ocasião um ano atrás. Os deuses sírios, por sua vez, são naturais da planície. Portanto, se a batalha for em lugar plano, a Síria será invencícel
  2. Profissional Os 32 reis que ajudaram na campanha anterior podiam ser bem intencionados, mas não eram profissionais da guerra. A substituição deles por capitães, homens de pensamento estratégico e espírito belicoso, trará ao exército sírio grande diferencial competitivo, além de força no processo de tomada de decisões
  3. Estratégico O contingente empregado na batalha mal sucedida era suficiente para vencê-la, assim como as armas e equipamentos utilizados. O problema aí, frisamos, não era de pessoas nem de tecnologia mas sim de processos. Com os processos bem definidos pelos capitães convocados, os soldados sírios chegarão ao nível de maturidade desejado no projeto.

— O mesmo exército lutando num lugar plano comandado por capitães. É isso?
— Em resumo sim, majestade. O relatório detalhado deve estar em sua mesa até amanhã. Poderemos discutir também a implementação de uma ferramenta de Business Intelligence, que agregue valor a seu negócio com métricas, alavancando o potencial de…
— VÃO ALAVANCAR AS PUTAS QUE OS PARIRAM! FORA DAQUI! NÃO ACREDITO QUE PAGUEI ESSA FORTUNA POR UM SERVIÇO BOSTA DESSES!
Os consultores partiram assustados e desolados. Sozinho na sala de reuniões, o rei acalmou-se, pensou, e acabou considerando as ponderações apresentadas. Até que fazia sentido. Fazia? Não fazia? Saberia.

Dias depois, o exército sírio estava acampado em Afeque, cidade que ficava numa planície próxima a Israel. Era um exército mais lustroso e disciplinado, graças ao trabalho exemplar dos capitães indicados pela Siriana Consultoria. “Outsourcing é o futuro!”, pensava o empolgado Ben-Hadade. Sabendo do cerco, Acabe organizara seus exércitos também. Na verdade, já vinha se preparando para nova investida síria havia um ano, seguindo o conselho do profeta prático. Os israelitas acamparam em dois grupos de frente para os sírios e, comparados a estes, pareciam dois rebanhozinhos de cabras. Vendo o tamanho do exército inimigo, Acabe só tinha um pensamento — “fodeu” — mas adquiriu novo ânimo ao ser abordado por outro profeta da nova geração.
— Os sírios dizem que Israel venceu da outra vez porque Javé é um deus das montanhas. Javé manda dizer que isso é uma calúnia da porra, e que vai mostrar pra esses comedores de esfiha quem é que manda nessa merda toda.
Durante sete dias os dois exércitos permaneceram acampados de frente um para o outro, em silêncio e tensão crescentes. Ao sétimo dia alguém deve ter pigarreado e a batalha começou. Os israelitas mataram cem mil sírios só nesse dia. O resto do exército da Síria fugiu para Afeque, onde lhes aguardava uma piada daquelas típicas de Javé: as muralhas da cidade caíram, matando vinte e sete mil soldados. Ben-Hadade teve mais sorte: estava longe das muralhas na hora do desastre, e se escondeu nos fundos de uma casa. Dois dos oficiais contratados foram ter com o rei, oferecendo-lhe sua vasta expertise em negociações:
— Majestade, nós vamos até Acabe para implorar humildemente por sua vida. Ouvimos dizer que os reis de Israel são muito bondosos.
— E eu lá tenho escolha? Vão, vão.
Quando ouviu dos dois oficiais que Ben-Hadade ainda estava vivo, Acabe mostrou-se aliviado. Não era homem de guerra, só queria sossego na vida. Fora forçado pelas circunstâncias e ajudado por um deus furioso, mas em qualquer outro caso preferiria abrir mão de tudo a entrar em guerra.
— Meu irmão Ben-Hadade, vivo? Que maravilha! O que vocês estão esperando? Podem trazê-lo para cá.
Os oficiais voltaram à cidade com o recado. Ben-Hadade veio, desconfiado a princípio, mas relaxou quando viu que Acabe tinha mesmo boas intenções. Depois de um pouquinho de papo furado, partiram para as negociações de paz. Os termos, estranhamente, foram propostos pelo rei sírio, parte derrotada:
— Seguinte, Acabe. Eu vou devolver a você todas as cidades que meu pai tomou do seu. Além disso, sabe aquele shopping em Samaria? Pois bem: hoje mesmo vou dar ordem para desapropriarem um terreno em Damasco para que você construa um desses por lá. Assim todo mundo ganha, hein? Que me diz?
— Excelente, ótimo! Mas conversamos depois. Vá para casa, descanse. Esses últimos dias não foram fáceis.

A postura cordial e de boa índole de Acabe, quase brasileira, não agradou a Javé. Emputecido, deu instruções a um profeta que tinha em alta consideração. Depois de receber o recado, o profeta chamou um de seus companheiros de grupo e fez um pedido estranho:
— Me dá um soco.
— Mané soco.
— Anda, diabo. Me dá um soco. Aqui, ó?
— Vixe, endoidou… Rapaz, bate logo a cara na parede e não me enche o saco.
— INFELIZ! VOCÊ DESOBEDECEU A UMA ORDEM DE JAVÉ, E POR ISSO SERÁ MORTO POR UM LEÃO!
— Uuuuh, uuuuh, que meeeeda! Acorda, rapaz. Esse tempo já passou. O negócio agora é profecia de resultados, manja? Foi-se o tempo da profecia moleque, de pé descalço. O lance é pragmatismo teológico, manja? Ah, vá-te à merda!
Assistindo à cena, os outros profetas reunidos na casa riam de se dobrar. O que se recusara a agredir o colega fez uma saudação irônica e saiu da casa. Os risos, que já esmoreciam, viraram silêncio total depois que os profetas ouviram um rugido, seguido de um grito, seguido de um “humpf”. Quando saíram, viram seu debochado colega estendido no chão, ensangüentado. O leão olhou para eles, fez “humpf” novamente e se retirou. Aparentemente, desprezava as novas tendências da profecia.
Voltaram todos para dentro de casa. O profeta escolheu outro colega.
— Ei! Você aí! Me dá um s… FILHODAPUTA. Hm. Caralho, doeu. Bom. Obrigado. Deus o abençoe. Porra.
O profeta enrolou um pano no rosto para não ser reconhecido e foi para a beira da estrada esperar o rei passar. Quando Acabe ia passando, o homem começou a gritar:
— Me entregaram um prisioneiro no meio da batalha! “Toma conta dele, rapaz”. Toma conta… Tanta coisa pra fazer e eu vou tomar conta de vagabundo? Fui cuidar da minha vida e, quando vi, o safado tinha fugido. Agora dizem que eu vou ter que pagar 35 quilos de prata de multa, senão me matam. Pode um negócio desses, majestade?
— Se pode? Claro que pode! Te deram ordem para vigiar o prisioneiro e você deixou o cara escapar? Você merece morrer mesmo.
— Arrá! — o profeta deu um pulo e arrancou o pano do rosto — O senhor também, rei Acabe, deixou escapar o homem que Javé ordenou que o senhor matasse. Agora, diz Javé, o senhor vai pagar com a vida, e seu povo será destruído.
— Mas… Mas ele nem me falou nada de matar o rei!
— Ih, sei de nada. Só entrego o recado.
O profeta voltou para a casa dos profetas, feliz pela missão cumprida. O rei, por sua vez, voltou para Samaria chateado, com raiva e resmungando. Se mais alguma coisa o aborrecesse, era capaz de cometer uma loucura.

A perseguição a Elias e a chamada de Eliseu

(I Reis 19)

No último capítulo, deixamos Elias em Jezreel, após ter vencido e matado os profetas de Baal. O rei Acabe, impressionado com o duelo entre as duas religiões, voltava para o palácio disposto a abolir o culto pagão de Israel e voltar à velha religião de Javé. Precisou mudar de idéia, porém. Ao contar a sua esposa Jezabel o que acontecera, a mulher quase lhe comeu o fígado. Bem, Acabe mandava em Israel, mas quem mandava em Acabe era Jezabel, que enviou a Elias o seguinte recado:

Que meus deuses me matem se em vinte e quatro horas eu não fizer a você o mesmo que você fez aos profetas de Baal, maldito!

J.

Horas depois, recebeu a resposta do profeta:

Vai acabar com meus argumentos utilizando a mais fina ironia?

E.

Jezabel ainda mandou outro bilhete, com a indefectível frase “Você está falando sério?”, mas era tarde: sabendo exatamente o que a rainha pretendia lhe fazer, Elias fugiu com seu ajudante para Berseba, em Judá. Deixou o ajudante na cidade e se enfiou no deserto. Depois de um dia inteiro andando, encontrou uma árvore e sentou-se à sua sombra. Era o último profeta de uma religião que um dia fora a única de um país que também não estava dividido. A seca, a disputa com os profetas de Baal, a volta da chuva, nada adiantara: continuava sendo um pária, um homem malquisto em sua própria terra. Era demais para ele.
— Chega desta merda, Javé! Acaba logo com a minha vida! Eu sou o último fracasso de uma linhagem de derrotados.
Exausto, o profeta caiu no sono. Logo alguém o cutucava impacientemente. Elias abriu os olhos e viu diante de si um sujeito alto, todo vestido de branco.
— Morri?
— Morreu uma pemba. Levanta daí e come.
Elias ia explicar que estava no meio do deserto, e não lhe apetecia comer areia, mas foi calado pela visão de um pão assado nas pedras e um jarro d’água. Ele comeu, bebeu e pegou no sono novamente. Bem, tentou pegar no sono, porque o anjo continuava a cutucá-lo.
— Cara chato…
— Come mais, rapaz, senão você não agüenta a viagem.
Acostumado a ser mandado por Deus para cá e para lá, Elias nem formulou a pergunta “que viagem?”, que ocorreria a qualquer um de nós. Em vez disso, levantou-se, comeu mais pão e bebeu mais água. Pense numa refeição balanceada e cheia de vitaminas: o alimento deu ao profeta forças para andar quarenta dias e quarenta noites até o monte Sinai, lugar dos mais sagrados para Israel. Assim que chegou, entrou numa caverna para passar a noite. Quando começava a ferrar no sono, ouviu uma voz conhecida:
— O que você está fazendo aqui, Elias?
— PORRA, JAVÉ! ME DEIXA DORMIR!
— Não quer comer uma coisinha antes?
— NÃO! ESSA SUA COMIDA TEM ANABOLIZANTE!
— É sério, Elias. O que você está fazendo aqui neste buraco? Você é um vencedor, Elias! Um profeta poderoso! Você pode, você consegue! Força, rapaz!
— Que é isso, Javé? Virou o Bernardinho?
— Bah. Ok, ok, esse lance de auto-ajuda não funciona com você. Muito bem, mas que porra você está fazendo aqui?
— ESTOU ME ESCONDENDO, CARALHO! A minha vida inteira eu fui um servo fiel, sempre fiquei do seu lado. E o que eu ganhei? Um diabo dum povo ingrato, que caga para a velha religião, que derrubou seus altares e matou todos os seus profetas. Bom, quase todos. Sobrei eu. EU! SÓ EU! UM ÚNICO PROFETA CONTRA UM PAÍS INTEIRO! O QUE VOCÊ QUER QUE EU FAÇA?
— Eu quero que você saia daqui e fique diante de mim no alto do monte.
— Estou com sono…
— VOCÊ ESTÁ PENSANDO QUE EU SOU SUAS NEGAS, FELADAPUTA? EU SOU É DEUS, TÁ ME OUVINDO? DEUS! SAI DESTA PORRA DE CAVERNA AGORA E CORRE PRO ALTO DA MONTANHA, ANTES QUE EU TE FULMINE, PORRA!
— Ah, já que você pediu jeitinho…
O sarcasmo foi um pouco demais, e a resposta de Javé veio na forma de um vendaval que arrancou as moitas que se prendiam às rochas do monte, assustou as cabras e levantou as vestes do profeta. Quando o vento parou, Elias estava sentado no chão, trêmulo.
— Javé? É você?
Em vez de resposta, veio um terremoto que abriu fendas na face da montanha, fez rolar grandes rochas, que quase fecharam a entrada da caverna, e assustou mais ainda o profeta.
— Peraí, Javé. Vamos conversar…
Depois do terremoto, veio um fogo que queimou as plantas que restavam, chamuscou as pedras e os cabelos de Elias.
— J-Javé?
— Ah, um gaguinho falando docemente comigo no Sinai. Assim que eu gosto! Tudo bem com você, meu querido Elias?
Ao ouvir a voz, Elias saiu da caverna, tomando antes a precaução de cobrir o rosto com a capa. Sabia que olhar para a face de Javé, ainda mais num momento de ira como aquele, não era boa idéia.
— O que você está fazendo aqui, Elias?
— Er… Eu não agüento mais, Javé. Sou o último de seus profetas. De nada adiantou minha lealdade. Fui derrotado. Como eu disse antes e tal…
— Derrotado? DERROTADO? Eu sou é Deus, porra! DEUS! Quantas vezes vou precisar falar isso?
— Mas o que é que eu posso fazer agora, Javé?
— Volte para o deserto, ande até Damasco e unja Hazael como rei da Síria.
— Como é?
— Vai por mim, é um plano que eu tô bolando aqui. Depois de besuntar o cara, unja Jeú, filho de Ninsi, como rei de Israel. Então procure em Abel-Meloá um tal Eliseu, filho de Safate.
— E esse vai ser rei de onde?
— De lugar nenhum. Eliseu vai ser seu sucessor.
— E aí você vai me matar, certo?
— Cala a boca, Elias. Você não reclamou que era o único profeta? Pois bem, agora vai ter outro, Eliseu.
— E os outros, Hazael e Jeú?
— Esses caras vão curar Israel da doença trazida por Acabe e Jezabel. Quem escapar de Hazael vai ser morto por Jeú, e quem der a sorte de escapar dele perecerá sob Eliseu. Pelas minhas contas, só sete mil pessoas no país inteiro não adotaram a religião de Baal. Só essas serão poupadas.
— Mas, Javé, vai ser uma carnificina!
— Vai, né? Como nos velhos tempos. Rapaz, estou até me sentindo mais jovem!

Hazael e Jeú podiam esperar: Elias queria conhecer logo seu sucessor, então foi a Abel-Meloá. Lá encontrou um rapaz que arava a terra com o último par de bois de um total de doze. Elias passou perto do rapaz e jogou a capa sobre sua cabeça. Eliseu já devia ter sido avisado do que estava para acontecer, porque nem perguntou que porra era aquela. Em vez disso, pediu a Elias que lhe desse licença para voltar a casa e se despedir de seus pais.
— Eu tô te segurando?
— Hã?
— Vai, diabo! Olha o sucessor que Javé me arruma…
Logo em seguida, porém, Eliseu fez algo que impressionou Elias: foi até o lugar onde estavam os dois bois com os quais estivera arando a terra e matou os animais. Pegou a madeira da canga para fazer uma fogueira, e nela preparou a carne. Depois de distribuir a carne entre o povo que estava ali perto, foi se despedir dos pais e voltou para onde Elias estava.
— Pronto. Podemos ir.
— …
— Que foi?
— Nada não.
Esse estranho Eliseu, de gestos inesperados e teatrais, seria um dos maiores, se não o maior profeta da história de Israel. Por enquanto, porém, seria apenas o ajudante de Elias, substituindo aquele que o profeta deixara em Judá, e que deve estar até hoje esperando a volta do patrão. Imaginem o tamanho do processo na justiça do trabalho…

Maná

Leitores velhos vão se lembrar de Javé fumando maconha durante o Êxodo. O baseado divino, aliás, foi o grande guia do povo de Israel pelo deserto. Pois muito bem: um dia, vendo que o povo passava fome no meio do nada, Javé resolveu acender um para pensar melhor. Deu uma tragada funda, outra, mais outra. Os anjos que assistiam à cena viram que os olhos vermelhos do Senhor faiscaram repentinamente.
— Já sei, ó. Vou mandar pão pra eles.
— Pão?
— É, pô. Pão. Mas não qualquer pão. Maná.
— O quê?
— Maná, Maná!
E os anjos cantaram:
— Tchutchu-tchururu.

Post de piada interna especialmente dedicado à Alessandra, que se comove com essas coisas. Feliz aniversário, dona.

Elias e os profetas de Baal

(I Reis 18)

Durante os três anos em que a seca perdurou, Elias permaneceu escondido. Enquanto isso, a situação em Israel não podia ser pior. Tomada de fúria diante da desfaçatez de Elias, a rainha Jezabel mandara executar todos os profetas de Javé. Sem saber de nada disso, o profeta sentiu até um certo alívio quando recebeu de Deus a ordem de ir apresentar-se a Acabe anunciando a volta das chuvas.
Em Samaria, a carestia era imensa. Numa tentativa de salvar ao menos alguma coisa, o rei Acabe chamou seu mordomo, Obadias, para sair por todo o reino procurando capim para conservar vivos os cavalos e as mulas. Abrindo um mapa de Israel, o rei demarcou a região que seria inspecionada por cada um deles, e saíram um em cada direção.
Apesar de gozar de plena confiança do rei, Obadias não simpatizava com os novos rumos do reino. Permanecia fiel à velha religião, resistindo à presença cada vez mais forte dos deuses estrangeiros. Mesmo assim, porém, ficou com medo ao reconhecer uma silhueta que vinha em sua direção.
— Elias? É o senhor, Elias?
Quando o profeta se aproximou, Obadias reclinou-se até o chão em demonstração de respeito.
— Sim, Obadias, sou eu mesmo. Agora deixe de veadagem e vá dizer ao seu patrão que eu estou aqui.
— Como? O senhor está falando sério?
— Ai meu saco…
— Mas que diabo eu fiz para o senhor querer me castigar desse jeito? O rei me mata, porra, me mata!
— Mata nada! Por que ele ia te matar, doido?
— Pois o senhor não sabe? O rei me mandou procurá-lo em todos os reinos vizinhos. Sempre que um rei dizia que nunca o tinha visto mais gordo, Acabe o fazia jurar por deus, fosse o deus que fosse. E agora o senhor quer que eu vá até o rei, na maior cara-de-pau, e diga, “Olha, esqueci de olhar embaixo das pedras, Elias está logo ali dobrando a esquina”?
— Hum… É, é mais ou menos isso que eu quero.
— MAS SERÁ QUE VOCÊ NÃO ENTENDE? Imagine que eu saia daqui, vá até o rei e dê o recado. Enquanto isso, o Espirito de Deus baixa sobre o senhor e vupt!, o senhor some sabe-se lá pra onde. Sabe como é esse tal Espírito de Deus, obriga nego a fazer muita loucura. Pois então, o senhor some no mundo, o rei vem até aqui, não o encontra, e aí?
— E aí?
— E AÍ QUE EU ME FODO! O REI ME MATA, TÔ DIZENDO!
— Mata nada, rapaz, mata nada! Acabe se enfiou nesse negócio de idolatria, mas não é doido de encostar a mão num homem de Deus!
— Xi…
— Xi o quê?
— Então o senhor não está sabendo?
— Sabendo de quê?
— Xiiiii…
— DESEMBUCHA, PESTE!
— Sabe a rainha Jezabel? Pois então. A mulher endoidou com esse negócio de seca e, como o senhor não aparecia, mandou matar todos os profetas de Javé.
— COMO É QUE É?
— Pois é. Quando eu soube disso, tratei de esconder cem profetas em duas cavernas, e arrumei água e comida para eles.
— Ah, muito bem, Obadias. Então nem tudo está perdido. Pelo menos temos uns cem profetas à disposição.
— Er…
— Que foi?
— Não adiantou muita coisa, sabe? Depois de um tempo os cem foram encontrados e mortos.
— O QUÊ??? E quantos sobraram?
— Bom. Contando todos?
— Claro!
— Todinhos, todinhos?
— FALA!
— Hmmmmmmmmm… Só o senhor, mesmo.
— COMO É?
— Pois é.
— PUTA QUE PARIU! E AGORA?
— Sei não.
— Vaca desgraçada, essa Jezabel. Agora mesmo é que eu quero falar com o corno do marido dela. Pode dizer a ele, Obadias.
— Mas…
— Obadias, eu juro por Israel, por esta luz que me ilumina, pelas tuas bolas, por Javé, pelo diabo, que não vou sumir.
— Tá falando sério?
— CORRE LOGO, FELADAPUTA, E DÁ O RECADO!

Assustado com a cólera profética, Obadias correu para anunciar a notícia ao rei Acabe. O rei não perdeu um só segundo: saiu logo ao encontro do profeta.
— Ah, Elias! Chegou a causa da desgraça do país!
— Desgraça do país são você e seu finado pai, Acabe, que trocaram Javé por Baal e outros deuses.
— Continua insolente, não? Diga logo o que você quer.
— Quero que você ordene a todo o povo de Israel que vá encontrar-se comigo no monte Carmelo. Também quero ver por lá os quatrocentos e cinqüenta profetas de Baal e os quatrocentos profetas do deus particular de Jezabel.
— O povo todo, todinho?
— Sim.
— E todos os profetas?
— Sim!
— Tá de sacanagem, né?
— Pague para ver, Acabe. Nos encontramos lá.

Atiçado pela curiosidade, o rei mandou mensagens a todo o reino, convocando os israelitas a comparecerem ao monte Carmelo. Fez o mesmo com os profetas de Baal. No dia marcado, é claro que nem todo o povo de Israel compareceu, mas havia ao pé do monte uma multidão considerável. Ao ver o povo de um lado e os profetas de Baal de outro, Elias pigarreou e disse em voz alta:
— E aí, cambada? Vão decidir o que fazer ou não? Quem é o verdadeiro deus, Javé ou Baal?
O povo, que não era besta nem nada, ficou quietinho. Proclamar simpatia à religião tradicional poderia custar a vida. Por outro lado, abandonar Javé era sempre garantia de ira divina.
— Ah, mas são uns frouxos mesmo! Havia mais profetas em Israel do que motoboys em São Paulo. Agora olhem para mim: sou o único sobrevivente. Enquanto isso, Baal tem quatrocentos e cinqüenta negos a seu serviço. É direito isso?
Silêncio.
— Ah, bundões! Tragam-me dois touros!
— Hein?
— Touro, aquele bichão que tem chifres, faz “mu” e não é teu pai. Vai, anda, dois touros.
— Tá falando sério? Pra que cê quer dois touros?
— Claro que estou falando sério, diabo! Vamos fazer dois sacrifícios aqui hoje. Os profetas de Baal matarão um dos touros e o colocarão em cima de uma pilha de lenha, mas sem tocar fogo no bicho. Eu farei o mesmo com o meu.
— E daí?
— Ô, saco… É uma aposta, vocês não estão vendo? O deus que mandar fogo para queimar o sacrifício será o verdadeiro Deus, o outro será apenas imaginação dos ignorantes.
— Ah, uma aposta, legal! E se nenhum dos dois mandar fogo nenhum?
— Aí nós vamos buscar o fogo no rabo da tua mãe. OS TOUROS, PORRA!

Os dois touros foram trazidos. Elias olhou os bichos, pareceu aprovar sua condição geral, e dirigiu-se aos profetas de Baal:
— Já que os senhores são tantos, podem fazer o sacrifício primeiro. Com tanta gente falando, o deus de vocês vai responder rapidinho.
Os profetas avançaram contra o touro, que nem teve tempo de reagir: em cinco minutos estava morto, fatiado e empilhado sobre o monte de lenha. Feito o trabalho, os profetas de Baal ficaram um minuto em silêncio, e depois começaram o clamor por seu deus:

BAAL! BAAL!
Só você é deus,
E é bom a dar com o pau,
Baal é nosso amigo,
Um deus que é muito legal,
O tempo de Javé já era,
Já foi tarde, se deu mal.
Vamos cantar bem alto,
Ouve nossa voz, Baal
Manda fogo aí do céu
Pra queimar este animal.

Isso foi pela manhã. Depois de horas cantando, porém, a carne continuava intacta. Ao meio-dia, os profetas já cantavam com voz rouca, os olhos vidrados, dançando como dervixes ao redor do altar improvisado. Enquanto isso, Elias os incentivava:
— Isso, cantem mais alto!
BAAL! BAAL!
— Mais alto!
Só você é deus, e é bom a dar com o pau…
— Mais alto, cacete! Esse Baal é deus ou não é?
O tempo de Javé já era, já foi tarde, se deu mal…
— Talvez ele esteja meditando, por isso não ouve.
Vamos cantar bem alto…
— Ou talvez esteja no banheiro, sabem como é.
Ouve nossa voz, Baal…
— Deus ou não, ele há de precisar se aliviar de vez em quando…
Manda fogo aí do céu…
— Ou ele pode ter viajado, pode estar dormindo, ou…
PRA QUEIMAR ESSE ANIMAL!
— Epa, não apontem pra mim!
Os profetas continuavam sua dança ao redor da carne do touro. Depois do meio-dia, eles já se cortavam com facas e espumavam pelo canto da boca. Às três da tarde, pararam, exauridos.
— Desistem?
— …
— Povo de Israel! Cheguem todos mais perto!
O povo se aproximou, ressabiado, e Elias começou a construir seu próprio altar. Apanhou doze pedras, cada uma representando uma tribo de Israel, e as empilhou. Depois, cavou em volta uma vala com capacidade para uns doze litros de água, colocou lenha sobre o altar, despedaçou o touro e botou a carne sobre a madeira. Então voltou a dirigir-se ao povo:
— Tragam quatro jarras cheias de água, e derramem sobre a carne e a lenha.
— …
— Sim, porra, eu estou falando sério!
Depois que as quatro jarras d’água foram derramadas sobre o altar, Elias ordenou que a operação fosse repetida mais duas vezes. A água encharcou completamente a carne, a lenha, e encheu toda a valeta em volta do altar. Satisfeito com o resultado, Elias olhou para o céu e disse:
— Javé…
Foi o que bastou: VUUUUUUUUUUUUUSH!, uma labareda desceu do céu. Queimou a carne, a madeira, chamuscou as pedras e a terra, e ainda evaporou parte da água da valeta. Nem mesmo Elias esperava por uma resposta tão rápida; que dizer, então, do povo. Ao verem touro e lenha reduzidos a cinzas, os israelitas se curvaram até o chão, encostando o rosto na terra e exclamando:
— Puta que pariu!
E num segundo momento:
— Javé é deus! Só Javé é deus!
Elias estava triunfante:
— Ah, agora vocês decidiram, né? Pois então peguem esses putos dos profetas de Baal, não deixem escapar nenhum!
O povo, que não queria confusão com Javé depois de tamanha exibição, tratou logo de obedecer a Elias. Todos os profetas de Baal foram presos, e Elias os matou à beira do riacho de Quisom.
Um a zero pra Javé.

Diante de tudo o que acontecera, só o rei Acabe permanecia mudo, como que paralisado pela reviravolta na história. Foi Elias quem o tirou de seu torpor:
— Agora corre, Acabe, que já estou ouvindo o barulho da chuva.
A menção à chuva fez o rei despertar. Olhou para o céu, não viu nuvem alguma, fez um muxoxo e foi almoçar. Enquanto o rei comia, Elias subiu ao alto do Carmelo. Eram tempos difíceis, uma seca desgraçada. Quando chegou ao cume, o profeta estava quase morto de cansaço. Sentindo-se enjoado, sentou-se e colocou a cabeça entre os joelhos. Então disse ao rapaz que o ajudava:
— Olhe lá para o lado do mar.
— Estou olhando.
— O que você vê?
— Areia, pedras, o mar bem lá longe…
— No céu, idiota.
— Ah, no céu… Nada.
— Nada?
— Nada.
— Olhe de novo.
— Olhei.
— E…?
— Nada.
— Merda. Olhe outra vez.
Resumindo: seis vezes Elias ordenou que seu ajudante olhasse para o horizonte, e seis vezes a resposta foi a mesma. Na sétima, porém, as coisas mudaram:
— Estou vendo uma nuvenzinha ridícula subindo do mar. É menor do que uma mão?
— Um mamão?
— Uma mão.
— Bom, já é alguma coisa. Vá dizer ao rei que apronte seu carro e volte para casa, caso contrário a chuva vai apanhá-lo no meio do caminho, impedindo o filho da puta de seguir viagem.
— Mas é só uma nuvenzinha, do tamanho de um melão… um mamão… Digo, uma mão.
— Eu sei. Dê logo o recado ao rei.
— Seu Elias, isso é um trote?
— Trote é o esporte praticado por sua mãe no haras. VAI LOGO!
Ainda em dúvida, o moleque começou a descer a encosta do monte para entregar a mensagem ao rei. Ainda no meio do caminho, porém, percebeu que seu patrão estava certo: o tempo começava a virar, com nuvens escuras e pesadas cobrindo o céu. Quando o rei viu as nuvens e sentiu o vento forte que vinha do mar, nem esperou o garoto terminar de dar o recado: preparou seu carro e partiu célere na direção de Jezreel.

Lá de cima, vendo a exaustão de Elias, Javé resolveu divertir-se com ele: enviou seu Espírito ao profeta que, enlouquecido, apertou o cinto e saiu correndo. Quando Acabe chegou a Jezreel, Elias já estava lá havia horas.

A aposta entre Elias e os profetas de Baal fez com que o monte Carmelo ganhasse grande importância como símbolo da fé judaica e, mais tarde, da fé cristã. No final do século XII, São Bertoldo, que viera da Calábria para a Palestina como cruzado (ou peregrino, não se sabe bem), escolheu o monte como sede de sua comunidade, inspirado justamente pela história que vocês acabam de ler. A comunidade fundada por ele viria a ser a Ordem dos Carmelitas.
(Fonte: Wikipedia)

Elias, a seca e a viúva

(I Reis 17)

No último capítulo (lá se vão três meses), vimos que a situação no Reino do Norte ia de mal a pior. Enquanto Judá vivia tempos de calmaria, com o piedoso Asa no trono, em Israel cada rei coroado era pior que seu antecessor. Essa série culminou com Acabe que, não contente em permitir que o povo adorasse outros deuses, empenhou-se ele mesmo em irritar a Javé. Para começar, casou-se com Jezabel, e passou a adorar o deus Baal. Não só isso: o rei mandou erguer um templo em Samaria em honra a Baal, para concorrer com o templo de Jerusalém, dedicado a Javé.
Lá de cima, Javé assistia a tudo isso e tentava manter-se calmo. Sentia um tremor no canto do olho direito e no lábio superior, e procurava conter-se. Sabia que, se deixasse sua ira manifestar-se de forma plena, destuiria não só Israel, mas, no mínimo, metade do Sistema Solar. Então respirava fundo, contava até 10 trilhões, e tentava escolher um profeta que pudesse enfrentar a audácia de Acabe. Pensou, pensou, e acabou escolhendo Elias.
Elias era um profeta da pequena cidade de Tisbé, em Gileade. Era um bom rapaz, trabalhador, disciplinado. Pouco conhecido fora de sua cidade, surpreenderia a todos quando começasse a falar em nome de Javé. Perfeito. Feita a escolha, Javé foi ter com o profeta.
— ELIAS!
— Quê?
— MANÉ “QUÊ”! SABE QUEM ESTÁ FALANDO?
— Assim, pela voz, não. Se você aparecesse ia facilitar um bocado.
— EU SOU O QUE SOU!
— Eu também, ué. Aquela pedra ali também. Que coisa… Olha, eu tenho mais o que fazer e…
— CALABOCA! EU SOU É DEUS, TÁ ME OUVINDO? DEUS!
— Deus, é? Qual deles? Tem um monte por aí, sabe como é.
— SOU O ÚNICO DEUS, PORRA! JAVÉ!
— Ah, esse. O que manda, Javé?
— Você não vai ficar nem um pouco impressionado, caralho?
— Deveria?
— …
— …
— Cê tá falando sério?
— Ah, puta que pariu, até o Senhor? Por que é que todo mundo me pergunta isso?
— É essa sua postura, Elias.
— Que que tem minha postura?
— Esse seu jeitão aí, sei lá. Meio… cínico.
— Você acha?
— Cê tá falando sério?
— ARGH!
— Bom, vamos parar de papo furado. Você sabe que Acabe está fazendo de tudo para me irritar. Casou-se com aquela vadia, construiu um templo para Baal, vive naquelas surubas sagradas e não sei que mais. Eu quero que você vá lá e acabe com isso.
— Ah, é só isso? Que bobagem!
— …
— Ok, ok. Continue.
— Quero que você vá ao palácio e dê um recado a ele. O resto a gente vê depois.

Foi assim que, no dia seguinte, Elias foi ao palácio falar com o rei.
— Acabe! Trago um recado de Javé para você!
— Peraí, peraí, peraí… Quem você pensa que é para vir aqui falar comigo nesse tom?
— Sou Elias, e trago a seguinte mensagem: não vai cair chuva, nem mesmo sereno, até que eu ordene que a chuva volte.
— Hein?
— É isso. Vem uma grande seca por aí. Só vai voltar a chover quando eu mandar.
— Porra, tu é manda-chuva, é?
— …
— Rapaz, cê tá falando sério?
— TÔ, PORRA!
— COMO É QUE É? GUARDAS! Capem esse feladaputa!
Elias ia perguntar se o rei estava falando sério, mas achou melhor sair correndo. Correu até encontrar um lugar para se esconder, e estava encolhido, recuperando o fôlego, quando ouviu a voz de Javé:
— ELIAS!
— PORRA! Quer me matar de susto?
— Epa, foi mal. E aí, como foi lá com o Acabe.
— Falei o que você me mandou falar.
— O lance da seca? Eita! E ele?
— Adorou, disse que é mesmo um cara muito mau, e que merecia isso.
— Sério?
— CLARO QUE NÃO! O FELADAPUTA MANDOU ME CAPAR!
— Ah… Calma, Elias. Faz o seguinte: conhece o riacho de Querite, pra lá do Jordão?
— Conheço.
— Então. Vá praqueles lados, e se esconda por lá. Mesmo com a seca, você vai ter o que comer e o que beber, não se preocupe.
Elias ficou em seu esconderijo até anoitecer, e então partiu para a região do riacho de Querite. Javé não mentira ao dizer que ele teria o que beber e o que comer, mas também não dera a informação completa. Para beber, o profeta só tinha mesmo a água do rio. Até aí, nada mau. O pior era a comida: todas as tardes um bando de corvos vinha trazar pão e carne para ele. Desesperado, o profeta se perguntava:
— Quando é que eu vou voltar a ter uma vida normal?
E os corvos respondiam:
— Never more!

Água do rio e comida trazida pelos corvos. O que parecia ser o pior possível piorou ainda mais quando, devido à seca, o riacho secou. Elias foi queixar-se com Deus, que não se deu por achado: disse que tudo estava sob controle, e que ele fosse à cidade de Sarepta, perto de Sidom, que uma viúva lhe daria de comer. Elias foi, e já às portas da cidade encontrou a viúva catando lenha.
— Com licença, senhora. Poderia me dar um pouco d’água para beber? Estou morrendo de sede.
— Pois não, meu filho. Vou ali buscar a água.
— Ah, muito obrigado. Um pãozinho ia bem também.
— Meu filho, eu não tenho mais pão. Tenho um punhadinho de farinha de trigo e um quase nada de azeite. Vim aqui pegar uns pedaços de pau para fazer fogo para cozinhar qualquer coisa para mim e para o meu filho. Depois disso, vamos morrer de fome.
— O que é isso, minha senhora? Seja mais positiva! Pode ir preparar sua comida. Mas antes pegue a farinha e o azeite que ainda lhe sobram e faça um pãozinho para mim.
— Meu filho, não me leve a mal, mas… CÊ TÁ DE SACANAGEM, NÉ?
— Ai, meu saco… Dona, faça o que eu disse. Sou um profeta, e Javé manda dizer que não acabará a farinha da sua tigela nem o azeite do seu jarro até que volte a chover.
— Hum. Sei não…
— Pode acreditar, minha senhora. Pelamordedeus, tô seco de fome e sede!
— Tá bom, vai.
A viúva fez o que Elias tinha dito e, milagrosamente, a farinha e o azeite multiplicaram-se. Por muitos dias, os três tiveram o que comer. Infelizmente, uma dieta de farinha e azeite não é a mais indicada para uma criança, e o filho da viúva morreu. “Efeito colateral”, disse Javé. “Efeito colateral meu ovo, que agora essa velha me mata”, disse Elias. Confabularam por um tempo, e lá foi ele falar com a viúva.
— Me dá aqui esse defuntinho.
— HEIN?
— Me dá o moleque, rápido!
— Você está falando sério?
— PUTA QUE PARIU, E EU IA BRINCAR COM UM NEGÓCIO DESSES?
Sem esperar resposta, o profeta pegou o pequeno cadáver, levou-o para o andar de cima e o deitou na sua cama. Feito isso, clamou aos céus:
— JAVÉ, CARALHO, POR QUE ME FODESTE DESSA FORMA? AGORA A DESGRAÇADA DA VELHA VAI ACABAR COM A MINHA RAÇA! ELA ME HOSPEDOU, ME DEU COMIDA, E TU MATASTE O MOLEQUE DELA. NÃO FODE, JAVÉ!
Enquanto orava, Elias debruçou-se três vezes sobre o menino. Na terceira vez, o menino voltou a respirar e abriu os olhos. Ao ver o profeta sobre ele, gritou:
— PEDÓFILO!
— Pedófilo é uma porra, seu moleque dos infernos. Volta correndo lá pra baixo, e calado, senão eu te mato de novo.

Ao ver o filho vivo novamente, a viúva finalmente reconheceu que Elias era um enviado de Javé. Queria sair pela vizinhança contando o ocorrido, mas o profeta lhe proibiu. Ainda era um fugitivo, afinal, e Javé não dera ordens para os próximos passos. Elias precisaria ser paciente: a seca ainda duraria três anos.

Olá, meus caros

Desculpem o sumiço, meu povo. Estou sob uma pressão desgraçada. Neste exato momento há três empresas brigando pelo meu passe. O bicho tá pegando, e não sei como diabos tomar uma decisão. O próximo personagem da história da Bíblia é o Elias, que não pode ser feito de qualquer jeito. O cara é pau-a-pau com Moisés, imaginem. Portanto, para não fazer um negócio meia-boca com um personagem tão legal, estou segurando as pontas enquanto não dou um rumo à minha vida.
Eu volto. Não sei quando.

Os soldados famosos de Davi

(II Samuel 23)

Numa praça de Jerusalém, perto do palácio real, dois repentistas cantam para a crescente roda de curiosos. Um deles, Zé de Gade, é um varapau desdentado e de olhar esperto. Patativa de Zebulom, seu companheiro, é atarracado, não tem pescoço nem dentes, e sorri o tempo todo. Ambos são feios como a necessidade. E cantam:

Eu vou lhes contar a história
Mais bonita que já vi
Dos soldados mais famosos
Os valentes de Davi

O Josebe-Bassebete
Cabra de muitos talentos
Sem nenhum constrangimento
Andou pintando muito o sete
A história não se repete
Se não me falha a lembrança
Armado com sua lança
E de olhos muito atentos
Matou mais de oitocentos
E foi aquela lambança.

Eleazar, filho de Dodo
Sujeito de cara amarrada
Gostava de dar porrada
E não era nada bobo
Numa ocasião foi fogo:
Foi lutar com os filisteus
E de raiva dos ateus
A mão se pegou na espada
Só largou na hora dada
Da vitória dos hebreus.

Vou falar também de Sama
De família hararita
Que em Israel habita
E ainda tem muita fama
Eu já lhes conto toda a trama
Do feito que muito brilha:
Numa plantação de ervilha
Mandou os filisteus pra chama
Do inferno que os inflama
Ô, Javé, que maravilha!

Esses três cabras valentes
Estavam em Adulão
Onde Davi estava então
Junto com os seus agentes
E com a voz mais pungente
Expressou sua vontade
Que inspirou caridade
A toda aquela gente
Um pedido diferente
Não atender era maldade:

“Cercaram minha cidade
Minha querida Belém
Não foram homens de bem
Mas os filisteus na maldade
Meu Deus, que barbaridade
E eu aqui passando sede
Queria estar na minha rede
Com toda tranqüilidade
Tomando água do balde
Do poço perto da parede”.

Josebe e Eleazar
E o hararita Sama
Percebendo logo o drama
Do rei naquele lugar
Resolveram ir buscar
A água do poço de Belém
Para mostrarem que além
De serem homens de lutar
De matar, e trucidar,
Eram sujeitos de bem.

Ao receber um tal presente
Muito se emocionou o rei
“Meu Javé, agora eu sei
que querem me ver contente
Pois me viram tão carente
E quiseram me ajudar
Não sou digno de tomar
Essa água da nascente
Que me trouxeram os valentes
Melhor mesmo é derramar”.

Muitos além desses três
Se destacaram em Israel
Foram todos para o céu
Isso eu digo pra vocês
Agora mesmo é a vez
De falar de Abisai
Que nunca soltou um ai
E muita coisa boa fez
Matou trezentos e seis
Eu juro por Nosso Pai.

E o filho de Jeoiada
O famoso Benaías
Também teve os seus dias
Era um cabra da pesada
Armado com sua espada
Matou dois grandes guerreiros
Mais um leão carniceiro
E com uma vara afiada
Matou de uma estocada
Um egípcio lanceiro.

A lista desses soldados
É enorme como o quê
Se eu começo a dizer
Vou ficar até cansado
Os feitos realizados
Nos tempos de antigamente
Por todos esses valentes
Ficaram mesmo no passado
Hoje só se vê veado
Andando na nossa frente.

Eu já lhes contei a história
Mais bonita que já vi
Dos soldados mais famosos:
Os valentes de Davi

53 dias sem capítulo novo. Isso mesmo, desde o dia 6 de março.
Que beleza.

Opa

Hoje tem capítulo bíblico novo. Se não tiver, é por safadeza minha mesmo. Seja como for, fiquem ligados.

A revolta de Absalão

(II Samuel 15)

Depois de fazer as pazes com Davi, Absalão se sentiu à vontade para botar seus planos em prática. Para começar, mandou preparar para si um carro com cavalos de raça, e chamou cinqüenta homens para correrem adiante dele. Todo dia de manhã ele acordava e ia assim escoltado para o portão da Jerusalém, onde a estrada terminava. Ali passava o dia inteiro interpelando os israelitas que levavam questões e processos ao rei. A cada um que chegava, Absalão perguntava de onde vinha. Em seguida, jogava sua conversa:
— Veio de longe, hein? Pois é, rapaz… E pior é que você está certo aí nessa questão, certíssimo!, só que não tem ninguém para ouvir seu caso. Nenhum representante, conselheiro, nada. Mas paciência, né? Assim são as coisas. Puxa… Ah, se eu fosse juiz por aqui! Quem tivesse questões assim poderia me procurar, eu tentaria resolver da melhor forma possível. Enfim, deixa pra lá. Não sou juiz, paciência. Entra lá, talvez te ofereçam um cafezinho, pelo menos.
Não contente em plantar tais idéias nos ouvidos do povo, o príncipe adotava também uma postura demagoga: sempre que alguém chegava perto para curvar-se diante dele em sinal de respeito, ele abraçava e beijava a pessoa:
— Que é isso, meu irmão? Somos iguais, pra que é que você vai vir se inclinar na minha frente? Deixa isso lá pro rei, eu sou do povo, sou igual a você.
Agindo assim, Absalão ia conquistando a simpatia dos israelitas. Aos poucos, sem pressa, como era de seu feitio: apenas quatro anos depois de começar essa atividade diária ele começou a segunda parte de seu plano. Foi falar com o rei:
— Pai, vou a Hebrom oferecer sacrifícios a Javé.
— Ué. Virou religioso, Absalão?
— Não é isso. É que quando eu estava em Gesur, fiz uma promessa: se Deus permitisse que eu voltasse a Jerusalém, eu ofereceria sacrifícios a ele em Hebrom.
— Que bonito… Mas tá atrasado, hein? Você voltou faz o quê? Seis anos?
— Pois é, pois é… Tanta coisa para fazer, a gente vai adiando. Agora estou mais sossegado, então queria ir lá cumprir meu voto.
— Então vá em paz, meu filho.
Absalão agradeceu e saiu. Olhando o filho se afastar, tão belo e forte, Davi sentia o orgulho lhe estufar o peito. Não ficaria tão tomado pela corujice, porém, se soubesse o que o rapaz andava tramando. Pois Absalão, assim que chegou a Hebrom, mandou mensageiros a todas as tribos de Israel. A mensagem era simples: instruía o povo a proclamar que Absalão havia se tornado rei em Hebrom assim que ouvisse um determinado toque de trombeta. Era arriscado tentar usurpar o trono dessa maneira, mas Absalão contava com a simpatia que granjeara durante os quatro anos em que ficara bajulando os israelitas às portas de Jerusalém. Mas saíra da cidade acompanhado de duzentos homens. Estes, embora não soubessem nada de seus planos e o acompanhassem de boa-fé, poderiam vir a ser de grande serventia. Além do mais, para ter maior garantia, o filho de Davi achou que seria bom ter um reforço de peso. Mandou então chamar Aitofel, originário da cidade de Gilo e conselheiro de Davi. Absalão explicou a ele seus planos de se tornar rei, pintou um futuro pujante para Israel, prometeu grandes recompensas a quem ficasse a seu lado. Aitofel não precisou de muito mais que isso para bandear-se para o lado dos conspiradores, e assim fortaleceu a revolta contra o rei.

Davi ainda pensava com orgulho no filho que saíra para Hebrom quando um mensageiro veio lhe trazer a bomba:
— Majestade, trago-lhe uma bomba.
— Uma bomba?
— É. Olha que beleza.
— Hum. Pra que serve?
— O senhor bota seu pênis real dentro disso aqui e vai apertando a borrachinha. A propaganda diz que pode aumentar em até sete centímetros.
— SETE?! Mas que beleza de produto!

Er… Com licença?
— Claro, narrador, sinta-se à vontade.
Obrigado. Então. Quando eu disse “bomba”, era na verdade uma metáfora para “notícia ruim”.
— Ah! Bem que eu estranhei. Bom, vou sair e entrar de novo, tudo bem?
Manda bala.
— Vou precisar de uma arma, então.
NÃO! ARGH! Olha, apenas entre e dê sua notícia, ok? Vai lá.

Aham… Majestade! Absalão proclamou-se rei!
— Rei? Rei de onde?
— Oras, de onde! De Israel!
— Absalão? Rei de Israel? Bah, deve estar bêbado.
— É mais sério que isso, majestade, lhe garanto. O povo está do lado dele.
— O povo? O povo de Israel? Mas como o povo está do lado dele? Eu sou rei há tantos anos, nunca deixei faltar nada à nação, e é assim que me pagam?
— O senhor não se lembra de Absalão na porta da cidade, conversando com todo mundo que vinha aqui?
— Sim, mas o que que tem?
— Pois é. Foi bajulando, bajulando, convencendo as pessoas que ele seria um rei melhor que o senhor, e aí está.
— Mas que grande filho-da-puta me saiu esse moleque!
— É. E aí? Que fazemos?
— Damos no pé, isso é o que fazemos.
— Eita! E abandonar Jerusalém assim, sem resistência.
— Prestenção: pra começar, você é só um mensageiro. Eu poderia muito bem matá-lo só por ter trazido notícia ruim, quanto mais por ficar me questionando. Além disso, conheço o filho que tenho. Ele é pior do que eu quando tinha aquela idade. Ele não vai descansar enquanto não se sentar neste trono. Não, não: se quisermos escapar, temos que fugir, e agora mesmo. Se Absalão nos pega aqui, mata todo mundo.
O rei não perdeu tempo: mandou chamar todos os funcionários e a soldadesca e picou a mula, deixando no palácio dez de suas concubinas como guardas. Bom, esse papo de guardar o palácio era balela: era mais um presentinho para quem viesse.
Saiu o rei, com todos os seus funcionários em volta dele, e com sua guarda pessoal e os seiscentos homens que o seguiam desde o tempo em que era ele próprio um revoltoso, e pararam todos já perto da muralha. Ali Davi se deu conta da presença de Itai, um giteu comandante de seu exército. Exasperou-se:
— Por que você me acompanha, Itai? É estrangeiro refugiado, mora em Israel há pouco tempo, não tem nada com esse furdunço todo. Volte com seus amigos para Jerusalém, juntem-se ao rei Absalão. Eu saí de lá fugido, não sei para onde vou. Por que faria você ir comigo? Volte para a cidade com a minha bênção.
— O senhor me desculpe, majestade, mas não concordo com isso. Israel é o meu lar. Irei com o senhor aonde for, mesmo que morra por isso.
— Hum. Então tá. Bora.
Era uma cena triste de se ver: enquanto o cortejo passava por Jerusalém, as pessoas choravam nas portas de suas casas, despedindo-se do rei. Agora que já estavam fora da cidade, restava apenas escolher um rumo a seguir. Tanto fazia, estavam fugindo. Só não podiam ir para os lados de Hebrom, ou corriam o risco de encontrar Absalão e seus homens. Então atravessaram o Vale do Cedrom na direção do deserto. No meio do cortejo ia o sacerdote Zadoque e todos os levitas carregando a Arca do Acordo. Ainda no vale, puseram a Arca no chão, e Abiatar ofereceu sacrifícios pedindo a Javé que os protegesse naquela jornada para sabe-se lá onde. Vendo os sacerdotes e levitas, Davi teve uma súbita inspiração que o animou um pouco. E foi com o brilho dos velhos tempos nos olhos que foi falar com o sacerdote:
— Zadoque, você vai voltar para Jerusalém.
— Mas de maneira nenhuma! Vou com o senhor aonde for.
— Deixa de ser puxa-saco e me escuta, homem! Seguinte: você vai pagar a Arca e voltar para a cidade. Se Javé for mesmo com a minha cara, ele fará com que um dia eu volte a Jerusalém e reveja a Arca. Caso contrário, paciência.
— Mas, majestade…
— Não terminei ainda, cáspita! Você vai voltar para lá juntamente com seu filho Aimaás e Jônatas, filho do Abiatar. Eu vou ficar aí pelo deserto até receber alguma notícia de vocês.
— Ah! O senhor quer que nós sejamos agentes secretos!
— Isso, espertão! Olha, bem que me disseram que você era vidente! Biduzão! Humpf…
Zadoque chamou Abiatar e voltaram com seus filhos para Jerusalém, carregando a Arca nos ombros. Ao ver sumir longe o símbolo maior da religião e da nação de que fazia parte, Davi desanimou novamente. Rasgou suas roupas em desespero e subiu o Monte das Oliveiras chorando de dor. Os que o acompanhavam fizeram o mesmo. No meio do caminho, o rei foi informado da traição de Aitofel, o que só contribuiu para deprimi-lo mais ainda. Apelou:
— Oh, Deus! Faz com que os conselhos de Aitofel confundam a cabeça de Absalão!
Mas não precisou da ajuda divina: quando chegou ao alto do monte, num lugar onde se costumava oferecer sacrifícios, seu fiel amigo Husai, o arquita, foi encontrar-se com ele. Trazia, como todos os outros, as roupas esfarrapadas e a cara inchada de tanto chorar.
— Ô, meu velho.
— Vou com você, Davi.
— Hum… Sabe que você me deu uma idéia? Ir comigo não vai adiantar muito. Preciso de você é em Jerusalém, infernizando a vida de Aitofel.
— Estou ouvindo.
— Vá até o palácio e apresente-se a Absalão dizendo que quer juntar-se a seu grupo. Ele o conhece, sabe que você sempre esteve a meu lado, vai pensar que você pode ser útil a ele. Mas você será útil a mim: sempre que Aitofel der um conselho ao rei, dê um jeito de contrariá-lo. Quero que aquele canalha passe muita vergonha. Além disso, mantenha os ouvidos bem abertos. Os sacerdotes Zadoque e Abiatar estão em Jerusalém, também como agentes meus. Conte a eles tudo que você ouvir no palácio e considerar importante; eles darão um jeito de transmitir a mim.
— Opa, beleza. Pode deixar comigo, Davi.
— Obrigado, amigo.
— Oras, estou aqui pra isso.
Husai despediu-se do rei e dirigiu-se à cidade. Por coincidência, chegou a Jerusalém no mesmo instante em que Absalão chegava.

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