Jacó resolve voltar pra casa
Onde é que eu estava? Ah, lembrei. Então, como era de se esperar, o sucesso de Jacó começou a causar ciúmes nos filhos de Labão. Pra falar a verdade, o próprio Labão andava meio ressentido com ele. Tentou de tudo: quando viu que a maior parte do rebanho de Jacó era de animais malhados, determinou que o salário dele a partir de então seriam os animais salpicados. Adivinhem? As fêmeas começaram a parir só filhotes salpicados. Aí Labão mudou: agora Jacó ficaria com os listrados, e só os listrados. E claro que começaram a nascer só listrados no rebanho. E assim por diante: Labão toda hora mudava o salário de Jacó para prejudicá-lo, mas o cabra era sortudo que só a peste.
Jacó ainda tentou contornar a situação botando adesivos nas cabras e ovelhas: “A inveja é uma merda”, “Não me inveje porque não sou rico, apenas trabalho”, “Se sua estrela não brilha, não tente apagar a minha”, “A inveja é a arma dos incompetentes” e assim por diante. Não adiantou nada, então ele resolveu que já era hora de voltar pra casa do pai. Deus, sempre intrometido, veio falar com ele:
— Jacó! Volta para a casa do teu pai e eu estarei contigo!
— Ué, quem é você?
— Deus, porra. Iavé, Senhor dos Exércitos, essa parada toda. Não lembra de mim?
— Hum… Não.
— O deus de Abraão e de Isaque, Jacó!
— Sei, sei… Não me é estranho…
— De Betel, Jacó, prestenção!
— Ah! O cara da escada?
— Esse.
— Efeitozinho especial mais sem-vergonha aquele, hein?
— Não vem ao caso. Estou falando que é pra você voltar pra casa do teu pai!
— Tá, tá, isso eu já tinha decidido. Eu, hein…
— Ah, é? Hum… Então tá. Vai lá. Vou nessa.
— Falou, té mais. Vê se aparece mais.
Pois é, com ou sem ordem divina, Jacó já estava decidido a partir, e chamou Léia e Raquel para conversar.
— Meninas, estou vendo que o pai e os irmãos de vocês já não vão muito com a minha cara. Eu enriqueci, apesar de toda a sacanagem do pai de vocês, sem querer ofender.
— Tudo bem, Jacó — disse Raquel —, a família dele é bem filha-da-puta mesmo. Pra você ter uma idéia, aquela irmã dele aprontou umas que…
— Ôpa, ôpa, peraí! A irmã dele é minha mãe! Pega leve, Raquel. Bom, o caso é esse, Labão tentou me foder de todo jeito, mas eu me dei bem apesar disso. Agora tenho que agüentar esses porras me enchendo o saco. Então decidi ir embora, voltar pra casa do meu pai. O que vocês acham?
— Ah, Jacó! Nosso pai nos vendeu, como se fôssemos escravas. Estamos com você, vamos embora.
Então Jacó juntou a molecada, os empregados, os rebanhos e a tralha toda para iniciar viagem. Mas, ah, as mulheres… Aproveitando que Labão tinha saído para tosquiar as ovelhas, Raquel entrou na tenda dele e roubou os ídolos que encontrou por lá. Voltou toda esbaforida para junto de Jacó, que só esperava por ela para começar a viagem, sem que Labão soubesse de sua partida.
Quando Labão voltou e ficou sabendo que Jacó tinha ido embora sem dizer nada, ficou muito puto. E mais puto ainda ficou quando percebeu que seus ídolos haviam sumido. Rapidinho juntou um pessoal e no dia seguinte partiu no encalço do genro, alcançando-o na montanha de Gileade.
— Gilliard?
— Não começa…
Jacó havia acampado por lá e Labão armou suas tendas ali por perto também. Já acomodado, foi falar com Jacó.
— Ô, Jacó, que porra é essa? Então você sai, leva minhas filhas como que seqüestradas, não deixa eu me despedir dos meus netos… Custava nada me avisar, a gente fazia uma festa de despedida, ia ser bem mais bonito! Mas tudo bem, queria ir embora, estava com saudade do seu pai, entendo isso. Mas uma coisa eu não entendi: Você é rico, por que roubou os meus deuses?
— Labão, saí escondido porque tinha medo que você não deixasse suas filhas virem comigo. Quanto aos seus deuses, pode revistar tudo aí: se achar com alguém qualquer coisa que lhe pertença, essa pessoa será executada.
Labão não se fez de rogado: revirou a tenda de Jacó, das duas servas, de Léia e de Raquel, sem encontrar nada.
— Ô, Chicoteia, cê tá falando bosta. Não foi a Raquel que roubou os ídolos? Como é que o cara não achou nada na tenda dela?
Calma, porra! O negócio é que Raquel era malandra e tinha escondido as estatuetas na sela do camelo e sentado em cima. Se doeu? Ora, vá perguntar pra ela! O quê? Se Labão não teve a idéia de procurar nos camelos também? Claro que teve! Mas quando foi revistar o camelo de Raquel, ela se saiu com essa:
— Pai, desculpa eu não me levantar pro senhor revistar o camelo, mas é que eu estou menstruada, sabe como é. Ainda não inventaram o modess e…
— Tá, Raquel, já entendi. Xapralá. Confio em você.
Besta, esse Labão. Mas o negócio é que ele não achou nada, deixando Jacó fulo da vida:
— Labão, que foi que eu te fiz para você me perseguir tanto? Pra que tanto ódio? Você saiu pelo meu acampamento apalpando aqui e ali, só faltou olhar dentro do cu dos camelos. Agora mostra aí o que você encontrou! Vai, mostra na minha frente e na frente do seu pessoal, pra gente julgar quem é que tá errado. Porra, trabalhei vinte anos para você. Nesse período, suas cabras e ovelhas nunca abortaram e eu nunca comi nenhum dos carneiros, nem mesmo no mau sentido. Se algum carneiro era despedaçado por animais selvagens, eu nem trazia pra você ver, pagava por ele. Você me fazia pagar cada animal furtado, fosse de dia ou de noite. Desse jeito eu não conseguia dormir, e passava os dias me fodendo debaixo de sol e as noites tomando no rabo por causa da geada. Vinte anos sem ganhar um tostão: catorze anos pelas tuas filhas e seis anos pelo rebanho, sendo que você mudava meu salário quando bem entendia. Porra, Labão, tá certo que você é meu tio, mas eu tenho que falar um negócio: Vai se foder!
Labão coçou a cabeça, pensou bem e viu que Jacó, claro, estava com a razão.
— É, Jacó, tá certo. Te sacaneei que só a porra. Vamos fazer um pacto de não-agressão, beleza?
— Hum… Beleza. Vamos erigir uma coluna de pedras aqui. A partir de hoje, nem você passa da coluna pra cá, nem eu passo da coluna pra lá. Assim a gente nem tem mais como brigar.
E assim fizeram. Pronta a coluna, Labão disse:
— Taí, Jacó. Se você fizer algum mal às minhas filhas, ou se arrumar outras mulheres, embora eu não esteja por perto, deus será testemunha. Assim também prometo não passar dessa coluna para lá, em nome do deus de Abraão e de Naor, meu pai.
— Ué, agora cê passou pro lado do deus da minha família?
— Claro, porra, meus deuses foram pro saco!
— Ah, é verdade. Então, tá certo. Também juro pelo deus de Abraão e de Isaque que não vou passar dessa coluna aí para o seu lado.
— Tá certo. Bom, tá tudo acertado, vamos comer alguma coisa.
— Ôpa!
Jacó mandou preparar a comida e todos comeram e beberam. Labão e o pessoal dele passaram a noite na montanha. Na manhã seguinte, Labão se levantou cedo, beijou as filhas e os netos e voltou para sua terra. E Jacó continuou sua viagem, já pensando em como seria o reencontro com Esaú. Mas isso, claro, fica para o próximo capítulo.

Voltemos à bíblia, seus hereges.
Chegando a Canaã, disse deus a Abrão que aquela era a terra que seria dada a seus descendentes. Ele ficou meio desconfiado, não ia viver o suficiente pra ver se era verdade ou não. Por via das dúvidas, ergueu um altar, não custava nada e o livrava da ira do hômi. Mas parece que dessa vez não adiantou, porque uma grande fome abateu-se sobre a região e Abrão resolveu ir para o Egito. Reparem bem: Nem começamos a história do cara e ele já foi de Ur pra Haram, de Haram pra Canaã, e agora de Canaã pro Egito. Se Sarai não fosse tão submissa, tinha mandado logo um “Sossega esse rabo, homem! Logo quando a gente já tava se acostumando com a vizinhança!”.
Nem vem com chiadeira, é Abrão mesmo. Abraão ele passou a ser depois, e conto outro dia, porque a história desse cabra é tão grande que vou ter que dividir em vários posts. Pra começar, Abrão era de uma terra chamada Ur dos Caldeus, que mais tarde, se não me engano, veio a fazer parte do grande império babilônico. Os caldeus eram famosos por seus conhecimentos dos astros e dos fenômenos naturais, e eram consultados por soberanos de todo canto sobre o futuro, sobre as colheitas, sobre sonhos. Resumindo, eram os discípulos de Omar Cardoso da época.
Na-na-ni-na-não. Não vou falar de novela outra vez. Essa Torre de Babel é outra história da bíblia. Gerações depois do Dilúvio, um grande grupo juntou-se nas planícies do Oriente. E disse deus: “Eis que os homens juntaram-se nas planícies do Oriente”. E toda a humanidade falava a mesma língua. E disse deus: “Eis que todos falam a mesma língua”. E disseram uns aos outros: “Eia, edifiquemos uma torre cujo topo chegue até o céu e habitemos nela, para que não sejamos espalhados pela Terra”. E disse deus: “Epa…”. Ora, a ordem de deus era justamente essa, que crescessem e multiplicassem e enchessem a Terra. Enfurecido, deus resolveu acabar com tudo. Mas eis que o serviço de Relações Públicas o fez ver que seus atos impensados em momentos de cólera faziam seus índices de popularidade afundarem cada vez mais. Então, sendo sutil pela primeira vez na História, deus confundiu as línguas dos homens que, sem se entenderem mais, desistiram da construção da torre e espalharam-se pela Terra, que era o que o hômi queria desde o começo.
Se logo na sua segunda geração a humanidade já promovia tamanha zona, imaginem a esculhambação depois de dez gerações. E olhe que neguinho vivia muito naquela época. Adão, o primeiro homem, viveu 930 anos! Enoque, que deve estar lá pela sétima geração, viveu 365 anos e foi levado pro céu sem morrer, e seu filho, Matusalém, viveu 969 anos. E pensar que hoje em dia chamamos qualquer um que chegue aos oitenta de Matusalém, pobres velhinhos…

