Jesus, me chicoteia!

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Jacó resolve voltar pra casa

Onde é que eu estava? Ah, lembrei. Então, como era de se esperar, o sucesso de Jacó começou a causar ciúmes nos filhos de Labão. Pra falar a verdade, o próprio Labão andava meio ressentido com ele. Tentou de tudo: quando viu que a maior parte do rebanho de Jacó era de animais malhados, determinou que o salário dele a partir de então seriam os animais salpicados. Adivinhem? As fêmeas começaram a parir só filhotes salpicados. Aí Labão mudou: agora Jacó ficaria com os listrados, e só os listrados. E claro que começaram a nascer só listrados no rebanho. E assim por diante: Labão toda hora mudava o salário de Jacó para prejudicá-lo, mas o cabra era sortudo que só a peste.
Jacó ainda tentou contornar a situação botando adesivos nas cabras e ovelhas: “A inveja é uma merda”, “Não me inveje porque não sou rico, apenas trabalho”, “Se sua estrela não brilha, não tente apagar a minha”, “A inveja é a arma dos incompetentes” e assim por diante. Não adiantou nada, então ele resolveu que já era hora de voltar pra casa do pai. Deus, sempre intrometido, veio falar com ele:
— Jacó! Volta para a casa do teu pai e eu estarei contigo!
— Ué, quem é você?
— Deus, porra. Iavé, Senhor dos Exércitos, essa parada toda. Não lembra de mim?
— Hum… Não.
— O deus de Abraão e de Isaque, Jacó!
— Sei, sei… Não me é estranho…
— De Betel, Jacó, prestenção!
— Ah! O cara da escada?
— Esse.
— Efeitozinho especial mais sem-vergonha aquele, hein?
— Não vem ao caso. Estou falando que é pra você voltar pra casa do teu pai!
— Tá, tá, isso eu já tinha decidido. Eu, hein…
— Ah, é? Hum… Então tá. Vai lá. Vou nessa.
— Falou, té mais. Vê se aparece mais.
Pois é, com ou sem ordem divina, Jacó já estava decidido a partir, e chamou Léia e Raquel para conversar.
— Meninas, estou vendo que o pai e os irmãos de vocês já não vão muito com a minha cara. Eu enriqueci, apesar de toda a sacanagem do pai de vocês, sem querer ofender.
— Tudo bem, Jacó — disse Raquel —, a família dele é bem filha-da-puta mesmo. Pra você ter uma idéia, aquela irmã dele aprontou umas que…
— Ôpa, ôpa, peraí! A irmã dele é minha mãe! Pega leve, Raquel. Bom, o caso é esse, Labão tentou me foder de todo jeito, mas eu me dei bem apesar disso. Agora tenho que agüentar esses porras me enchendo o saco. Então decidi ir embora, voltar pra casa do meu pai. O que vocês acham?
— Ah, Jacó! Nosso pai nos vendeu, como se fôssemos escravas. Estamos com você, vamos embora.
Então Jacó juntou a molecada, os empregados, os rebanhos e a tralha toda para iniciar viagem. Mas, ah, as mulheres… Aproveitando que Labão tinha saído para tosquiar as ovelhas, Raquel entrou na tenda dele e roubou os ídolos que encontrou por lá. Voltou toda esbaforida para junto de Jacó, que só esperava por ela para começar a viagem, sem que Labão soubesse de sua partida.
Quando Labão voltou e ficou sabendo que Jacó tinha ido embora sem dizer nada, ficou muito puto. E mais puto ainda ficou quando percebeu que seus ídolos haviam sumido. Rapidinho juntou um pessoal e no dia seguinte partiu no encalço do genro, alcançando-o na montanha de Gileade.
— Gilliard?
— Não começa…
Jacó havia acampado por lá e Labão armou suas tendas ali por perto também. Já acomodado, foi falar com Jacó.
— Ô, Jacó, que porra é essa? Então você sai, leva minhas filhas como que seqüestradas, não deixa eu me despedir dos meus netos… Custava nada me avisar, a gente fazia uma festa de despedida, ia ser bem mais bonito! Mas tudo bem, queria ir embora, estava com saudade do seu pai, entendo isso. Mas uma coisa eu não entendi: Você é rico, por que roubou os meus deuses?
— Labão, saí escondido porque tinha medo que você não deixasse suas filhas virem comigo. Quanto aos seus deuses, pode revistar tudo aí: se achar com alguém qualquer coisa que lhe pertença, essa pessoa será executada.
Labão não se fez de rogado: revirou a tenda de Jacó, das duas servas, de Léia e de Raquel, sem encontrar nada.
— Ô, Chicoteia, cê tá falando bosta. Não foi a Raquel que roubou os ídolos? Como é que o cara não achou nada na tenda dela?
Calma, porra! O negócio é que Raquel era malandra e tinha escondido as estatuetas na sela do camelo e sentado em cima. Se doeu? Ora, vá perguntar pra ela! O quê? Se Labão não teve a idéia de procurar nos camelos também? Claro que teve! Mas quando foi revistar o camelo de Raquel, ela se saiu com essa:
— Pai, desculpa eu não me levantar pro senhor revistar o camelo, mas é que eu estou menstruada, sabe como é. Ainda não inventaram o modess e…
— Tá, Raquel, já entendi. Xapralá. Confio em você.
Besta, esse Labão. Mas o negócio é que ele não achou nada, deixando Jacó fulo da vida:
— Labão, que foi que eu te fiz para você me perseguir tanto? Pra que tanto ódio? Você saiu pelo meu acampamento apalpando aqui e ali, só faltou olhar dentro do cu dos camelos. Agora mostra aí o que você encontrou! Vai, mostra na minha frente e na frente do seu pessoal, pra gente julgar quem é que tá errado. Porra, trabalhei vinte anos para você. Nesse período, suas cabras e ovelhas nunca abortaram e eu nunca comi nenhum dos carneiros, nem mesmo no mau sentido. Se algum carneiro era despedaçado por animais selvagens, eu nem trazia pra você ver, pagava por ele. Você me fazia pagar cada animal furtado, fosse de dia ou de noite. Desse jeito eu não conseguia dormir, e passava os dias me fodendo debaixo de sol e as noites tomando no rabo por causa da geada. Vinte anos sem ganhar um tostão: catorze anos pelas tuas filhas e seis anos pelo rebanho, sendo que você mudava meu salário quando bem entendia. Porra, Labão, tá certo que você é meu tio, mas eu tenho que falar um negócio: Vai se foder!
Labão coçou a cabeça, pensou bem e viu que Jacó, claro, estava com a razão.
— É, Jacó, tá certo. Te sacaneei que só a porra. Vamos fazer um pacto de não-agressão, beleza?
— Hum… Beleza. Vamos erigir uma coluna de pedras aqui. A partir de hoje, nem você passa da coluna pra cá, nem eu passo da coluna pra lá. Assim a gente nem tem mais como brigar.
E assim fizeram. Pronta a coluna, Labão disse:
— Taí, Jacó. Se você fizer algum mal às minhas filhas, ou se arrumar outras mulheres, embora eu não esteja por perto, deus será testemunha. Assim também prometo não passar dessa coluna para lá, em nome do deus de Abraão e de Naor, meu pai.
— Ué, agora cê passou pro lado do deus da minha família?
— Claro, porra, meus deuses foram pro saco!
— Ah, é verdade. Então, tá certo. Também juro pelo deus de Abraão e de Isaque que não vou passar dessa coluna aí para o seu lado.
— Tá certo. Bom, tá tudo acertado, vamos comer alguma coisa.
— Ôpa!
Jacó mandou preparar a comida e todos comeram e beberam. Labão e o pessoal dele passaram a noite na montanha. Na manhã seguinte, Labão se levantou cedo, beijou as filhas e os netos e voltou para sua terra. E Jacó continuou sua viagem, já pensando em como seria o reencontro com Esaú. Mas isso, claro, fica para o próximo capítulo.

Resultado da última enquete

Porra, já ia esquecendo. Ei-lo:

O salário de Jacó

Jacó agora já parou com esse negócio de Florentina, Florentina, Florentina de Jesus… Peraí, que que eu tô falando? Ah, comecei a escrever escutando a música. De novo:
Jacó agora já parou com esse negócio de fazer filhos. Ao menos por enquanto. A preocupação dele: já trabalhara 14 anos para conquistar o direito de se casar com a mulher que amava. Agora era hora de sumir da casa do tio/sogro explorador, Labão.
— Lobão?
ESCUTA AQUI! De uma vez por todas: não é Lobão, nem Lambão, nem LaBamba. O nome do cara é Labão! Entendeu??? LABÃO!
Como eu ia dizendo, Jacó estava cansado do abuso, e foi falar com Labão:
— Tio, vim aqui pra me despedir. Vou voltar pra minha terra. Não fique bravo, deixe-me ir, você sabe o quanto trabalhei para você.
— Mas Jacó! Que que é isso, rapaz? Pelamordedeus, se você gosta mesmo do seu velho tio, fica aqui comigo. Você é um filho para mim! Além do mais, depois que você começou a trabalhar aqui, meus rebanhos têm se multiplicado muito, a ponto de alguns mais maldosos chegarem a insinuar que você anda cobrindo minhas cabras e ovelhas…
— COMO É QUE É???
— Hum… Bem.. Cê sabe… Tantos filhos, quatro mulheres… O povo fala, entende? Mas esquece isso, é tudo maledicência dessa gente invejosa. O que eu quero mesmo é te pedir para ficar aqui comigo.
— Tio, o pouco que você tinha agora é muito, tudo pelo meu trabalho. Estou trabalhando há catorze anos para você, tendo em troca apenas a mão de suas duas filhas, sendo que uma eu nem queria. Já não sou mais moleque, tenho onze filhos (e uma filha!) para sustentar, preciso receber alguma coisa pelo meu trabalho.
— Ah, mas isso é fácil de resolver! Olha, eu tenho uma sobrinha que…
— Não, tio, porra! Se liga! Não quero mais mulher pra me aporrinhar o juízo, já me bastam Raquel e Léia, que herdaram o seu sangue ruim.
— Tá bom, tá bom… Fala aí quanto você quer ganhar.
— Quero dinheiro não.
— Não quer dinheiro?
— Não.
— Tô entendendo mais porra nenhuma.
— Te conheço, tio. Se eu te pedir pagamento em dinheiro eu sei que você vai dar um jeito de me roubar.
— E vice-versa…
— Pois é, e vice-versa. Então, como somos dois ladrões, vamos fazer de um jeito que um não possa roubar o outro: Vou passar pelo seu rebanho separando todas os animais que sejam salpicados, manchados, malhados, xadrezes…
— Peraí, nunca vi cabra xadrez.
— Só para o caso. Como eu dizia, vou separar essas ovelhas e cabras do seu rebanho, e esse será o meu salário, bem como todos os animais que nascerem salpicados, manchados…
— … malhados, xadrezes, estampados, listrados, com bolinhas, já entendi.
— Isso aí. Então não tem como eu te roubar: se você olhar para o meu rebanho e vir qualquer bicho branco, pode me prender por roubo.
— E vice-versa ao contrário.
— Isso aí.
— Aceito sua proposta, me parece muito boa. Você é um cara inteligente, Jacó. Você vai longe!
Mas Labão, como já estamos cansados de saber, era um grande filho-da-puta: Naquele mesmo dia resolveu antecipar parte da herança dos filhos. De que forma? Entregou a eles os animais de seu rebanho que tinham as características especificadas por Jacó para seu pagamento. Grande jogada: deixando para os cuidados de Jacó apenas animais brancos ele reduzia em muito as expectativas do sobrinho/genro, uma vez que um bode branco cruzado com uma cabra branca tinha pequenas possibilidades de gerar uma cria manchada, ou salpicada, ou etc. etc. etc.
Feita a malandragem, para se garantir, mudou suas tendas para um lugar que ficava a três dias de caminhada de onde Jacó ficaria cuidando do rebanho do tio.
No dia seguinte Jacó acordou animado e foi logo para o rebanho para começar a selecionar seus animais. Imaginem a cara do coitado quando viu aquele rebanho todo branquinho… Ficou com raiva, claro, mas também era malandro e sabia reconhecer um golpe de mestre.
— Bom, dei uma de otário, beleza. Agora é correr atrás.
Utilizando-se de seus vastos conhecimentos de engenharia genética, inventou um jeito de forçar os animais a parirem filhotes crioulinhos. Agora, imaginem quão toscos eram os conhecimentos de engenharia genética naqueles tempos… Pois é. Havia uma crença segundo a qual colocar à vista dos animais que estivessem cruzando um objeto de determinada cor podia fazer com que os filhotes nascessem daquela cor. Até hoje fala-se disso às vezes, aí pelo interior e tal. Então: Jacó pegou umas varas e começou a descascar tiras delas, de forma que ficavam listradas. Botou essas varas nos bebedouros do rebanho, que era onde os animais iam beber (obviamente) e comer (no segundo sentido). Assim, os animais cruzavam olhando para as varas listradas e as fêmeas pariam filhotes listrados, malhados, aquela coisa toda.
Depois de um tempo, quando o rebanho já contava com um bom número de crioulinhos, ele fazia suas cabras e ovelhas ficarem na frente dos animais brancos que estivessem cruzando, causando assim o nascimento de mais animais para si.
E Jacó não se contentava apenas com isso: milênios antes de Darwin, ele já sabia que casais fortes gerariam filhotes fortes e casais fracos gerariam filhotes fracos. Então quando via animais fracos cruzando, não colocava as varas listradas em sua frente, nem os fazia olhar para seu rebanho. Assim os animais fortes eram de Jacó e os fracos eram de Labão.
Com tanta esperteza, além de dar um chapéu no tio, Jacó enriqueceu muito, teve grandes rebanhos, servos, servas, camelos e jumentos. E ainda tinha a herança de Isaque para receber, não vamos nos esquecer disso.
O enriquecimento de Jacó, como era de se esperar, causou ciúmes a Labão e seus filhos. Mas falaremos disso outro dia.

O nascimento de Ismael (ou: Vai Agar no mato!)

Voltemos à bíblia, seus hereges.
Abrão e Sarai já estavam fazendo hora extra na terra (ele com oitenta e seis, ela com setenta e seis) e não tinham filhos, pois ela era estéril. Um dia, sentada em sua cadeira de balanço fazendo crochê, Sarai olhou com atenção para Agar, sua serva egípcia. Reparou que Agar ainda dava um caldo, e que talvez fosse um divertimento bom pro véio. Resolveu então que já era hora de compensar aquele chifre que tinha botado no marido havia tantos anos (que chifre? A história do faraó, lembra? Não??? Ó, cazzo mio. Relembre! Lembrou? Então eu continuo). Chamou Abrão num canto, fez a proposta, e como velho safado que fica de olho na empregada não é coisa recente, ele prontamente aceitou. Foi lá e pegou Agar daquele jeito meio desajeitado (e deus só fazendo crescer a audiência das Pegadinhas de Jeová com essa cena patética, um ancião fazendo sexo).
Bom, esse negócio de mulher querer causar inveja nas outras também não é coisa recente: uma vez grávida do patrão, Agar começou a perder o respeito com Sarai, já de olho na pensão gorda que ia receber, sem falar na herança do filho. E, claro, Sarai foi fazer aquela choradeira na orelha do velho Abrão, que já não tinha mais saco pra essas coisas. Mas homem sempre dá um jeito de tirar o corpo fora, e isso não é de agora: “Mulher, tenho nada com isso não, tô cheio de serviço e ainda tenho que escrever uma carta pro Lot hoje. Resolve aí o que cê vai fazer com sua empregada”. Os olhos de Sarai brilharam, e ela comeu quente sua vingança. Como não ia pegar bem expulsar o filho do marido de casa (da tenda, na verdade), começou a humilhar tanto a pobre da Agar que ela enfiou o rabo entre as pernas e fugiu para o deserto.
Mas eis que um anjo passeava por ali e encontrou Agar junto a uma fonte d’água. Devia ser um anjo patrulheiro, porque foi logo perguntando: “Quem é você? De onde vem? Para onde vai?”. Agar contou a história toda (puxando a sardinha para seu lado, lógico), e o anjo mandou que ela voltasse para a tenda de Sarai e fizesse as pazes com ela. Disse ainda que os descendentes de Agar seriam inumeráveis, e que ela deveria botar no filho que ia nascer o nome de Ismael, que significa “Deus está ouvindo”. E ainda falou que Ismael seria como um jumento bravo, e seria contra todos e todos contra ele.
Levando-se em conta que Ismael é o patriarca dos povos árabes, parecia até que o anjo estava prevendo coisas como a Guerra do Golfo e o Onze de Setembro.

Curiosidade
Aliás, dois nomes muito comuns nos países árabes são Ibrahim e Ismail, que nada mais são do que Abraão e Ismael. Quando da ocupação Árabe da Península Ibérica, esses nomes se propagaram pela região. Com as mudanças que sempre acontecem nesses casos, acabaram dando origem aos nomes Joaquim e Manuel, tão comuns em Portugal.

Abrão e Lot se separam (ou: O corno e o viado se estranham)

Voltando à Bíblia, depois de toda essa empolgação besta com a Casa dos Artistas (que foi uma marmelada da porra, mas legal mesmo assim): O faraó do Egito, pra compensar a plantação de chifres que tinha botado na cabeça de Abrão, deu muitos presentes a ele e a Lot. Pois bem, os dois tinham muitos animais e servos e o diabo a quatro, e os pastores de um e de outro começaram a brigar entre si. Então Abrão foi bater um papo com o sobrinho: Que que era aquilo, não precisava essa confusão toda, que ele escolhesse onde queria ficar, se fosse para o leste Abrão iria para o oeste e vice-versa. Pois bem, Lot já andava cansado dessa vida de cigano e achou muito boa a proposta do tio. Olhou para o leste, para as verdejantes campinas do Rio Jordão, e resolveu que ia ficar por ali, próximo às cidades de Sodoma e Gomorra. Vejam só se não era suspeito esse Lot: Gomorra… Sodoma… Campinas…
Pois bem, Abrão achou tudo muito bom, abraçou o sobrinho (mas meio de longe, nada de intimidades) e foi para o outro lado. Os dois voltaram a se encontrar mais tarde, quando houve uma guerra na região e Lot foi levado cativo com propósitos inomináveis, forçando Abrão a largar a vida besta, juntar 318 jagunços e ir resgatar o sobrinho esquisitão. E houve outros encontros, mas ficam para depois.

Essa é a mistura de Abrão com o Egito, tem que ter charme pra dançar bonito

Chegando a Canaã, disse deus a Abrão que aquela era a terra que seria dada a seus descendentes. Ele ficou meio desconfiado, não ia viver o suficiente pra ver se era verdade ou não. Por via das dúvidas, ergueu um altar, não custava nada e o livrava da ira do hômi. Mas parece que dessa vez não adiantou, porque uma grande fome abateu-se sobre a região e Abrão resolveu ir para o Egito. Reparem bem: Nem começamos a história do cara e ele já foi de Ur pra Haram, de Haram pra Canaã, e agora de Canaã pro Egito. Se Sarai não fosse tão submissa, tinha mandado logo um “Sossega esse rabo, homem! Logo quando a gente já tava se acostumando com a vizinhança!”.
Pois foram para o Egito Abrão, Sarai, Ló e toda a curriola que vocês já conhecem. Por lá Abrão teve uma idéia de jerico (jerico, não Jericó, que é outra história, com paciência chegamos lá). Ah, a idéia: já que Sarai era muito bonita, ele ficou com medo de os egípcios o matarem para ficarem com a mulher, então combinou com ela que diriam que eram irmãos. Achou a idéia estúpida? Pois achou certo: oficiais do faraó notaram a beleza de Sarai e foram fazer a cabeça do soberano. O faraó não pensou duas vezes: mandou trazer Sarai para incorporá-la ao seu harém. Por causa dela Abrão passou a ser bem tratado, recebendo de presentes mais animais e servos do que já possuía. É isso mesmo: ele continuou dizendo que era irmão de Sarai e passou à História como o primeiro corno manso, mas disso ninguém lembra.
No entanto, a audiência das Pegadinhas de Jeová começou a oscilar, o público achando que aí já era humilhação demais, que uma coisa dessas não se fazia e coisa e tal. Então deus resolveu acabar com a festa e castigou o faraó e toda a sua família. Perguntando aqui e ali, o faraó acabou por descobrir a verdade e convocou Abrão: “Porra, Abrão, que que é isso? Então ela é sua mulher e você vem com papo de irmã? Faça-me o favor, que ideiazinha de jumento! Pega sua mulher, some daqui, não quero mais papo”. E Abrão meteu o rabo entre as pernas, abaixou os chifres, e pegou o caminho da roça, ou melhor, de Canaã — Lá vai esse homem viajar de novo.
E eis que a audiência das Pegadinhas de Jeová estabilizou-se novamente, atraindo novos anunciantes. E viu deus que tudo era bom.

O chamado de Abrão

Nem vem com chiadeira, é Abrão mesmo. Abraão ele passou a ser depois, e conto outro dia, porque a história desse cabra é tão grande que vou ter que dividir em vários posts. Pra começar, Abrão era de uma terra chamada Ur dos Caldeus, que mais tarde, se não me engano, veio a fazer parte do grande império babilônico. Os caldeus eram famosos por seus conhecimentos dos astros e dos fenômenos naturais, e eram consultados por soberanos de todo canto sobre o futuro, sobre as colheitas, sobre sonhos. Resumindo, eram os discípulos de Omar Cardoso da época.
Pois bem, um dia deu uma coceira em Abrão e ele resolveu sair de Ur. Pegou sua mulher Sarai (mais tarde o nome dela muda também, güenta aí) e seu sobrinho Ló (não sei se ele era padeiro pra fazer pão-de-ló, mas mais tarde foi dar com os costados em Sodoma, onde se queimava rosca adoidado, o que é muito suspeito) e foram todos para Harã.
Foi nesse tempo que deus, entediado como sempre, resolveu inventar a pegadinha. Não, seus podres, não é a pegadinha que vocês estão pensando, essa aí praticava-se muito em Sodoma e Gomorra. Estou falando daquela de câmera escondida e coisa e tal. Pois bem: deus fez um sorteio e Abrão foi o sorteado para ser a primeira vítima de pegadinha da história da Humanidade. As outras somos todos nós.
Mas então deus foi ter com Abrão e o convidou para ir ao boteco. Mas Abrão, que era varão reto (nada disso que vocês estão pensando, seus gomorritas!) disse que não bebia. “Caralho de asa…”, pensou o Senhor dos Exércitos. E convidou Abrão para um chá com bolinhos. No meio do chá, sapecou sua ordem: Abrão deveria sair de sua terra, onde estava muito bem, para vagar pelo mundo em busca da terra que deus mostraria. Abrão coçou a cabeça, certificou-se de que deus não estava brincando e disse “Tá bom”. Tinha Abrão 75 anos quando pegou Sarai, Ló, todos os servos e animais (o cara era rico, tão pensando o quê?) e partiu em direção a Canaã.
E eis que a audiência do programa “As Pegadinha de Jeová” (valeu a dica, ) começou a aumentar.
No próximo capítulo, Abrão no Egito.

Outro parêntese: (

Pra começo de conversa, essa piadinha infame com os parênteses nem é minha, é do Ricardo Cerdeira, também conhecido como Fleury. Reclamem com ele.
Como vocês podem constatar pela Torre de Babel aí embaixo, minha inspiração que já era parca passou a ser nenhuma. Por favor, perdoem-me, eu não sei o que faço.

A Torre de Babel

Na-na-ni-na-não. Não vou falar de novela outra vez. Essa Torre de Babel é outra história da bíblia. Gerações depois do Dilúvio, um grande grupo juntou-se nas planícies do Oriente. E disse deus: “Eis que os homens juntaram-se nas planícies do Oriente”. E toda a humanidade falava a mesma língua. E disse deus: “Eis que todos falam a mesma língua”. E disseram uns aos outros: “Eia, edifiquemos uma torre cujo topo chegue até o céu e habitemos nela, para que não sejamos espalhados pela Terra”. E disse deus: “Epa…”. Ora, a ordem de deus era justamente essa, que crescessem e multiplicassem e enchessem a Terra. Enfurecido, deus resolveu acabar com tudo. Mas eis que o serviço de Relações Públicas o fez ver que seus atos impensados em momentos de cólera faziam seus índices de popularidade afundarem cada vez mais. Então, sendo sutil pela primeira vez na História, deus confundiu as línguas dos homens que, sem se entenderem mais, desistiram da construção da torre e espalharam-se pela Terra, que era o que o hômi queria desde o começo.
Os lugares bíblicos têm nomes com significado, como Betel, que significa “luz” e Brasília, que significa “Quem tem padrinho não morre pagão”. Esse lugar onde seria erguida a torre passou a chamar-se Babel, que significa “que puta zona virou isso aqui”.

Noé

Se logo na sua segunda geração a humanidade já promovia tamanha zona, imaginem a esculhambação depois de dez gerações. E olhe que neguinho vivia muito naquela época. Adão, o primeiro homem, viveu 930 anos! Enoque, que deve estar lá pela sétima geração, viveu 365 anos e foi levado pro céu sem morrer, e seu filho, Matusalém, viveu 969 anos. E pensar que hoje em dia chamamos qualquer um que chegue aos oitenta de Matusalém, pobres velhinhos…
Mas é de Noé que quero falar. Noé é o décimo dos patriarcas, como podemos ver naquelas intermináveis genealogias bíblicas que parecem o Para Todos do Chico Buarque, com Noé cantando: O meu pai era Lameque/Meu avô, Matusalém/ O meu bisavô, Enoque/ Meu tataravô, Jarede, bom vocês já sabem onde isso vai parar, dez caras que viveram pra cacete em ordem cronológica inversa até Adão.
Quando Noé estava com 500 anos (recém saído da adolescência, portanto), deus o chamou para tomar umas e conversar. Perguntou da patroa, das crianças, Noé disse que Sem, Cam e Jafet eram os filhos que ele tinha pedido a deus, aliás queria muito aproveitar a ocasião para agradecer, e sua família, seu deus, como é que vai? E deus disse que não tinha família, aliás, tinha um filho, mas era uma carta que ele queria jogar só em último caso, o que levava ao assunto que o trouxera até ali: Estava arrependido de ter criado o mundo e a humanidade, os homens portavam-se de forma escandalosa, matavam-se uns aos outros, enganavam-se, traíam-se, blasfemavam contra deus, e aposto cem ovelhas com você como botaram água nesse ketchup. Resumindo, deus resolvera destruir tudo com uma grande inundação, matar todo mundo afogado. Mas Noé era um cara legal, boa praça, e deus determinara que ele seria o pai da nova humanidade. Pegou um guardanapo e começou a desenhar: “Tá aqui, ó. Você vai construir essa caixa grande, botar uma porta, uma janelinha, uma rampa e encher a caixa com um casal de cada espécie de todos os animais”. Noé olhou o desenho, olhou pra deus pra ver se ele não estava brincando, olhou pro desenho de novo, coçou a barba e disse “Tudo bem”. Deus ficou muito feliz, pediu outra rodada e deu um prazo de cem anos para que Noé concluísse a empreitada.
No dia seguinte, com mil britadeiras dentro da cabeça e uma sede que dava vontade de beber todo o dilúvio, Noé se deu conta da sinuca de bico em que havia se enfiado. Era tarde demais para lamentar, no entanto, então chamou os filhos e perguntou o que eles achavam de um cruzeiro marítimo só de casais. Os três, claro, acharam supimpa. “Então peguem as ferramentas, que vamos construir o raio do barco”.
E passaram-se cem anos. Na hora de botar os animais dentro da arca, Noé percebeu que ali é que começava o trabalho de verdade. Tomou um porre homérico, embora Homero nem sonhasse em nascer naquele tempo, e foi pegando uns bichos a esmo. Pegou uns cachorros, umas cabras, umas vacas, galinhas, enfim, esses bichos de criação. Deus olhou lá de cima, viu que era trabalho demais pro cara e resolveu dar uma força. Sabia que seria impossível, por mais que quisesse, enfiar tudo quanto era animal na tal arca de Noé. Então fez uma seleção dos bichos que mais gostava, botou todo mundo em fila e foram entrando na arca. Bom, é claro que na arca já viviam os animais de sempre, cupins, formigas, traças, lesmas, baratas de todos os tipos, ratos. E os animais carregavam suas pulgas, carrapatos, vermes. Com essa nem deus contava.
Mas o negócio é que começou a chover, inundou tudo e Noé, sua esposa, seus filhos e suas noras passaram 40 dias navegando sem rumo. Depois desse tempo, as águas começaram a baixar e a arca encalhou no monte Ararat, na Armênia. A família ainda levou um tempo para sair, pois tinham uma partida de pôquer para terminar (“Ninguém sai! Ninguém Sai!”). Mas acabaram por sair, pois precisavam repovoar a terra. Além do mais, o cheiro da bicharada tornava-se insuportável. Saíram e deram de cara com o arco-íris no céu. Deus explicou a Noé que aquele arco representava o pacto que ele fazia com a humanidade a partir de então, de nunca mais destruir a terra pelas águas (inventando aí, de quebra, o contrato com letras miudinhas: “O que não me impede de, quando me der na telha, destruí-la pelo fogo, pelos terremotos, pela fome, pela peste ou outro meio que me aprouver”).
Todos viveriam felizes, se Noé meses depois não plantasse uma vinha, enchesse a cara mais do que nunca e amaldiçoasse um de seus filhos. Viu deus que tudo recomeçava, fez “tsk, tsk, tsk” e começou a se arrepender de novo.
Ah, e Noé viveu até os 950 anos.

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